quinta-feira, 4 de junho de 2015

Quarteirão 2, Fogo 17, Pouso Alto




Contando a  história de traz para frente, ou vice versa

E quando as minhas esperanças de reconstruir a vida de nossos antepassados já iam longe, encontro novamente ele, Joao José de Lima e Silva (1798-1877) em... Pouso Alto. E mais! Dona Virgolina Balbina de Lima, (1833-?) que foi madrinha de batismo de Sabina Maria da Conceição (1865-?) e de Josino (1883-?), irmão de Gervásia Maria da Conceição (1881-1971), que já suspeitava de seu parentesco com a Família Ayres, se confirmou.  Encontrei toda a família no Censu da População  da cidade de Pouso Alto, de 1839, desvendando de vez o quebra cabeças: Virgolina Balbina de Lima era filha de João José de Lima e Silva. E mais, todas as pessoas da tabela (vide abaixo) coincidem com os personagens, digo, parentes aqui biografados: João José de Lima Silva, Joana Teresa, que tinha o sobrenome de Ribeiro de Lima (1807-1860), Virgolina, que no quadro aparece com 6 anos de idade, cuja data de nascimento confere com a sua certidão  de casamento, datado de 1849; fazendo as contas do Censo, ela tinha 6 anos de idade, assim sendo ela se casou com 16 anos, então ela nasceu ,em 1833, pois o senso é de 1839; José que tinha o sobrenome de Ignacio de Lima e Silva, Tereza de sobrenome Ribeiro de Lima, casada com José Florencio Bernardes. E... Benedito, escravo, que tinha o sobrenome de Manoel de Lima, em cuja certidão consta que ele faleceu na Santa Casa de Baependi em consequência de úlcera cancerosa  de... Pouso Alto.




Quarteirão 2, Fogo 17, Pouso Alto

Este seria o endereço de João José de Lima e Silva se fossemos lhe mandar uma correspondência pelos correios nos tempos coloniais. O Brasil estava dividido em 20 Províncias e estas subdivididas em Municípios. Os Municípios eram divididos em Freguesias, que por sua vez eram divididas em Quarteirões. O Quarteirão constituía-se a menor unidade administrativa, sendo formado por um número mínimo de 25 casas ou "Fogos", de fogão à lenha, sendo que cada conjunto de três Quarteirões formavam um distrito.

Brancos e Livres

Então não restou dúvidas, a família foi encontrada nos seus primórdios em Pouso Alto. Dona Joana Teresa tinha já 3 crianças e eles possuíam 5 escravos adultos: 3 homens, uma mulher e um menino. E além de "branco e livre" nas anotações do Censo o senhor João José de Lima e Silva era "agricultor" e... "le e escreve", como na maioria dos fazendeiros homens listados. Mulheres que sabiam ler e escrever era raridade para a época.

*2
17
1
41
branco
Casado
livre



2
Joana Teresa
32
branco
Casado
livre



3
6
branco
Solteiro
livre



4
José
4
branco
Solteiro
livre



5
Teresa
2
branco
Solteiro
livre



6
Adão
31
crioulo
Solteiro
escravo



7
Vicente
28
crioulo
Solteiro
escravo



8
Benedito
26
crioulo
Solteiro
escravo



9
Celestina
38
africano/preto
Viúvo
escravo



10
José
10
crioulo
Solteiro
escravo


Senta que lá vem mais história!

E aqui vamos contar um pouco a história do município de Pouso Alto, onde a Família dos Lima e Silva que ainda não era os "Ayres", primeiramente se estabeleceram, antes de se mudarem para o Chapeo, próximo à Baependi

Como o nome diz Pouso Alto esta situado no alto de uma colina, onde em 1692 o sertanista Antonio Delgado da Veiga paulista de Taubaté pernoitou, proveniente do Vale do Paraíba. Muitos desses,  aventureiros demandavam os sertões  de Minas em busca de riquezas, ouro e pedras preciosas. E como quase todos os municípios mineiros, também Pouso Alto se formou em torno de um cruzeiro que eles lá deixaram, símbolo  da fé cristã.

Caminhos do sertão

Tomo emprestado o texto de Luiz Alexandre Guimarães Vilella, Pouso Alto-Relicário da História das Minas, que muito bem descreve o povoado:

"Pouso Alto tornou-se marco glorioso epopéia sertanista. Nas idas e vindas pelos vales do Rio Verde, os bandeirantes fizeram pousadas nestes sítios. No rancho, à beira dos córregos ou nos cimos dos morros os homens descansavam para recomeçar, ao romper da madrugada seguinte, a longa e penosa jornada. Era a primeira escala nos campos sul mineiros, a marcha rumo ao Sabarabuçu. Taubaté , Pindamonhagaba, Guaratinguetá, Guaipacaré e as roças de Bento Gonçalves iam ficando para trás. Vencida a Mantiqueira, por cinco serras altas, começavam os bandeirantes a cortar o ribeirão Passa Vinte (porque vinte vezes por ele se passava), iniciando nova ascensão de serras agras onde era preciso descarregar as cavalduras, devido os riscos de despenhadeiros. E chegaram a Pouso Alto. Ali fixaram seus "ranchos de tropas". Prepararam as roças de abóbora, milho e feijão, lavouras feitas para garantir a alimentação, no regresso ou, dos que viriam depois, em outras expedições. Abriram-se , assim, as primeiras picadas para o sul de Minas e os bandeirantes se irradiaram pelas serranias próximas: Boa Vista, Caxambu, Baependi, terras de Juruoca até as nascentes do Rio Grande, na Bocaína do Miratão; marcharam em outras direções para os campos do Carmo de Pouso Alto, Maria da Fé e Campina do Rio Verde rumo as minas de Sabará." 

As expedições pelos sertões brasileiros ficaram conhecidas como Bandeiras e seus empreendedores como Bandeirantes. Algumas dessas Bandeiras, percorriam trilhas ja conhecidas pelos indígenas, como a Trilha dos Guaianases, a partir do Vale do Rio Paraíba do Sul, através da passagem da Garganta do Embaú, na Serra da Mantiqueira, em direção às Minas Gerais denominado Caminho dos Paulistas ou Caminho Geral do Sertão, ligando a Capitania de São  Paulo às Minas. A descoberta de ouro intensificou o transito de pessoas, animais e gêneros alimentícios entre o litoral e o interior. A notícia de descoberta de ouro se espalhava rapidamente, e assim houve a grande corrida para o interior de Minas Gerais iniciando assim o "Ciclo do Ouro", povoando as vilas ao longo dos caminhos. E desta forma  das 36 mais antigas cidades fundadas pelos paulistas, estão Pouso Alto, juntamente com Baependi, Aiuruoca e Campanha.

Esses sertanistas e bandeirantes, por outros chamados "desbravadores" eram descendentes de primeira e segunda geração de portugueses, mas também castelhanos, genoveses, bascos, napolitanos, sarracenos, enfim uma mistura geral de gente que gostava de aventuras; e com toda a certeza os Lima e Silva descenderam deles. Nota-se no gráfico a família era composta de "brancos" e "livres"...


Nossas Senhoras!

A pequena Pouso Alto crescia e não era mais tão pequena. No alto da colina a capela construída sob a invocação de Nossa Senhora da Conceição chamava os fieis através das badaladas dos sinos, dando ritmo à vida no sertão. No ano 1748  o Capitão Estácio da Silva encomenda, de Portugal, uma imagem de Nossa Senhora dos Remédios para Caxambu, e na mesma época o povo de Pouso Alto encomenda também uma imagem, mas de Nossa Senhora da Conceição. Chegadas no Brasil a confusão: A Nossa Senhora dos Remédios foi parar em Pouso Alto e a imagem de Nossa Senhora da Conceição foi para Caxambu e... Até hoje não foram trocadas.

Enquanto isso no Chapeo...

Virgolina Balbina parece que foi a primeira a se mudar de Pouso Alto para a região próxima à Baependi, recapitulando, casando-se ainda muito jovem, aos 16 anos, em 13 de setembro de 1849, na Capela de Santo Antonio do Piracicaba. Seu pai não estava presente no casamento. Morava ele ainda em Pouso Alto? 
No ano de 1853 foi realizado o batismo do primeiro filho de Virgolina, Bernardino Lopes de Faria (1823-?), que posteriormente se casaria com Elvira Maria do Nascimento, filha de João Ferreira Simões (1835-1919). O padrinho e pai João José de Lima e Silva também não compareceu pessoalmente a este evento, mas apresentou uma procuração pela sua irmã, dona Tereza Ribeiro de Lima casada com José Florencio Bernardes, moradores do Chapeo.

Pois então a família permaneceu,em Pouso Alto, até por volta do ano 1853, ou quem sabe antes já teriam feito a jornada para o interior. A data do  primeiro registro de que a família já morava no Chapeo foi o batismo do filho caçula de João José de Lima e Silva, o Rufino, em agosto de 1853, (abaixo), portanto parece que na data eles ja teriam se mudado de Pouso Alto para o Chapeo, ou melhor Lagoinha do Chapeo.

Certidão de batismo de Rufino, primeiro registro da Família  Lima e Silva na Capela do Santo Antonio do Piracicaba, no ano de 1853 em Baependi.
E tudo virou cinzas...

Infelizmente, em 5 de abril de 1855, um incêndio destruiu a Igreja Matriz de Pouso Alto e junto com ela sua história desde 1752. Os registros civis só vieram ser feitos em cartórios após a instalação da República ou seja, em 1889. Até então os registros eram feitos e guardados nas Igrejas. A Igreja Matriz  de Pouso Alto poderia ser considerada a "Capital das Terras Altas da Mantiqueira" pela sua importância histórica. Documentos eclesiais contendo valiosas informações sobre a origem de nossos antepassados se perderam para sempre. E eu, alegre por ter descoberto o lugar de procedência de meu trisavô na velha Pouso Alto e triste, por não poder mais consultar os documentos que viraram cinzas.

*Censu de Pouso Alto, 1838
 Cedeplar, UFMG

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