sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

José Ayres, o eletricista

Assim era conhecido meu pai, seu Zé Ayres, profissão eletricista. Contava ele que um dia, aos 21 anos, saiu de Caxambu em direção à cidade de Aiuruoca a procura de trabalho. Ao que seu pai,  soube, foi buscá-lo de volta. Ele respondeu ao pai que precisava trabalhar ter uma profissão e seguir a vida. Seu pai calou-se, com lágrimas nos olhos o abraçou e o deixou ir.

José Ayres nasceu em 26 de dezembro de 1906, filho mais velho de Gervásia Maria Ayres e José Ayres de Lima, conhecido como José Trançador, batizado em 7 de Janeiro de 1907 por Nicolau Tabolar e Paulina Tabolar Brochado na igreja Nossa Senhora dos Remédios, em Caxambu. 

Sua infância foi vivida num quintal, onde é hoje a rua Policarpio Viotti, em Caxambu, cercado por um imenso bambuzal, pés de jabuticabas, laranjeiras, pés de uvas, um pequeno paraíso naquela época, "fora do centro" da cidade, onde quando criança  chegou a caçar um... urubu e o colocou para cozinhar. Disse que o pobre bicho era de uma carne duríssima. Não sei se ele chegou a... a...provar a tal carne, ah, isso eu não sei. 

Pés descalços

A família ia aos domingos à missa e como ele tinha somente um par de  sapatos, que eram calçados somente à porta da igreja, aconteceu de ele levar um tropeção e ferir o dedão do pé e foi comentado entre os irmãos: "Já pensou se tivesse calçado, teria estragado o sapato..."


Calçando os sapatos na porta da Igreja Matriz  em Caxambu, ano de 1907
No início dos anos de 1900 a cidade já era conhecida mundialmente pelas suas fontes de água mineral e ele era um de seus degustadores:  Não faltava água mineral na mesa do almoço. A que mais apreciava era procedente da fonte Viotti, mas também as águas magnesianas, bem como a fonte Venâncio eram degustadas com prazer entre um frango a molho pardo, o seu prato preferido. Dizia ele que eram as águas mais famosas do mundo, e por nada trocaria um copo de nossa água  por cerveja ou coca-cola, esta última que classificava, não sem razão, como "água suja", para a decepção de nós crianças, que gostávamos de beber do líquido preto, vendido nos caminhões que passavam de quando em quando, popularizando-a. Ele resistiu à moda e continuava fiel às "águas milagrosas".

Primeira família

José Ayres casou-se pela primeira vez com Alzira de Carvalho em 25 de outubro de 1928, na Basíca  da cidade de Aparecida no estado de São Paulo. Da união nasceram as filhas: Jane dos Santos Ayres, Eny dos Santos Ayres,  Vany Dos Santos Ayres, Geralda dos Santos Ayres e Lindenberg dos Santos Ayres
Outros 2 filhos falecidos quando crianças, Luiza Maryland dos Santos Ayres, nascida em 9 de setembro de 1931, nos registros, a sexta filha do casal e Steinberg dos Santos Ayres, nascido em 5 de julho de 1940 falecido de sarampo, que cheguei a conhecer o menino em foto dentro de um caixão... Naqueles tempos era comum fotografar seus entes queridos dentro dos caixões. A tal foto era vista de vez enquando, quando abríamos os envelopes "secretos" no armário de minha mãe.

O eletricista Zé Ayres

 Na década  de 20,  ele chegou a ser funcionário da prefeitura de Caxambu como gerente da Subestação de Soledade  do qual foi suspenso por 8 dias no dia 9 de outubro de 1929 "por fazer ligação de luz clandestina para sua casa". Ao escrever o texto achei diversas correspondências que me permitiram escrever esta pequena biografia. Na verdade a história foi contada por ele de outra maneira. Por uma desavença com o senhor "Picolé", um outro trabalhador da prefeitura, que fez a tal "denúncia vazia" e nunca se confirmou e de fato, achei outro documento de 15 de agosto de 1928 que comprova a sua inocência. Na verdade José Ayres não residia na casa citada e sim morava num comodo pertencente a José Ambrósio de Lima, que escreveu uma carta atestando que na verdade a residência referida pelo denunciante não era de propriedade de José Ayres.

Em 11 de julho 1935 assinou contrato com a Companhia de Forca e Luz de Aiuruoca para  a construção  da linha de transmissão e rede de distribuição para a sede do distrito de Carvalhos, com prazo de entrega de 4 meses após o inicio das obras.

José Ayres, 5° da direita para a esquerda.
Turma do curso técnico em geladeira
 Frigideire na General Motors em São Caetano
do Sul, São Paulo no ano de 1955.
Em 1936 realizou trabalhos de instalação elétrica no anexo do Edifício Palace e em 17 de janeiro de 1940 ele volta à prefeitura de Caxambu contratado pelo prefeito como " Operário do Serviço Municipal de Eletricidade ". Em 24 de julho de 1941, recebeu a incumbência do engenheiro Asdrubal Teixeira de Souza para  fazer  consertos na turbina da Usina de Congonhal, no município de Baependi.
Em 20 de marco de 1943 é concedida licença sem vencimentos para "tratar de assuntos de interesse particular".

Não tenho registros de quando ele se desligou da prefeitura e passou a ser trabalhador autônomo, mas o certo é que no ano de 1955 participou de um curso de refrigeração em São Caetano do Sul, São Paulo, na General Motors, fabricante da geladeira marca "Frigideire", que tínhamos como relíquia na copa da casa e da qual me separei somente no final de 2006, por  não ter mais condições de ser consertada. Mas ele nunca gostou de consertar nem geladeiras, nem ferros elétricos. De vez enquando eu o ajudava na confecção de resistências para ferros elétricos... Ele gostava mesmo era de trabalhar em grandes projetos.

Por sua forma correta e honesta e sua competência, era requisitado para obras grandes como o serviço de eletricidade do primeiro edifício da cidade, o edifício Anice, o edifício Halley em 1962/63, Condomínio do Edifício Palace em 1972, assim como o edifício Aparecida 1972, e a grande reforma elétrica do engarrafamento de água do Parque das Águas, em 1977/78, na época coordenado pelo senhor Edmundo Dantas, um velho amigo, sendo este seu  último grande trabalho executado antes de se aposentar aos 65 anos. 

Tomate na ponta da vara

Me lembro quando a Cemig, Centrais Elétricas de Minas Gerais, instalou seus primeiros postes de luz e a rua foi iluminada, e batizada com o nome do candidato a deputado Federal pela Arena em 1966, Magalhães Pinto que apoiou a instalação do Ato Institucional n° 5, que restringiu as liberdades democráticas, dentre elas caçar mandados de parlamentares e proibir manifestações de políticas.  Nas noites que se seguiram a inauguração,  milhares de besouros de todas as cores e tamanhos perdiam suas vidas voando em torno as lâmpadas.

Por ter pouca capacidade de iluminação, meu pai considerava o antigo sistema de postes e lampadas como... "tomates em ponta de vara".  E lembrava: "O Kennedy, (presidente dos Eua) estudou sob a luz de um poste de luz e chegou onde chegou." Verdade ou não, para ele a eletricidade era a revolução.

Na sua profissão de eletricista, construiu muitas "mini-usinas" pelo interior das Minas Gerais, Liberdade, Carvalhos, Seritinga, Serranos, Aiuruoca, principalmente para fazendeiros, que com suas pequenas quedas d`agua movimentavam, moinhos e iluminavam suas casas. Aiuruoca particularmente fez parte de sua juventude e onde pela primeira vez teve uma... namorada.
Fiel permaneceu ele ao seu alfaiate o "Nego", que fazia suas calças de zuarte verde-claro. Uma vez acompanhei meu pai numa viagem à Aiuruoca, quando ele foi lá tirar as medidas para confecção das ditas, e que quando ficaram prontas foram enviadas via "ônibus" para Caxambu. Assim era. 

Depois veio o "progresso" e com as grandes companhias elétricas, as pequenas usinas movidas à água perderam o seu sentido. A eletrificação tornou-se projeto de grande escala estadual e o governo reservou para si o direito de produzir energia elétrica  e proibindo  a geração de energia para consumo privado. Assim as viagens pelo interior de Minas foram se tornaram escassas e ele se ocupou mais com obras na cidade.

Embora fosse profissional autônomo, era um seguidor de uma rotina disciplinar: Acordava entre 7 e 7:30 da manhã, tomava seu café com leite e pão com manteiga e ia para o trabalho, voltando às 12 horas, quando soava o apito do parque. Depois do almoço, fazia a "siesta" até no máximo 13:30 e depois saia para trabalhar, voltando às 18 horas para comer um prato de sopa de macarrão com carne, que ficava cozinhando desde as 16 horas da tarde. Às 19 já estava na cama.

Segunda família

José Ayres e Arminda Maria Ayres
em sua casa em Caxambu, 1961.
Na década de 50 ele enviuvou-se e voltou a se casar com Arminda Maria da Conceição, de Baependi, que conheceu ao instalar uma lampada na casa do patrão dela, em Caxambu, e com idade já avançada para a época, com 46 anos foi pai de Elizabeth Ayres e aos 54 anos, de Solange Ayres, que aqui vos falo.

Admiração pelo Sputnik , mas sem telefone

Ele era admirador das novas tecnologias. Minha primeira calculadora recebi de suas mãos, daquelas que faziam contas de mais e menos e raiz quadrada. Uma revolução! Com ele também cheguei a ver o satélite Sputnik que voava sob nossas cabeças piscando num céu escuro, na pracinha em frente onde era a venda do senhor Caetano e da Casa Armênia. Em uma noite escura de maio saí com ele para ver o trabalho das máquinas que abriam a estrada em direção à Baependi e ele me ensinou a memorizar os nomes inscritos nas cavadeiras: "marechal", "coronel", "major". Tempos da ditadura...
Mesmo com toda a admiração pela técnica, nunca tivemos telefone em casa, pois "não queria ser perturbado nos fins de semana". A demanda de serviços elétricos na cidade era grande e ele não teria mesmo sossego.

Meu pai era um crítico severo da igreja e sua pompa. Dizia que o Papa deveria vender suas ricas vestes de ouro e entregar o dinheiro aos pobres.
Além do que, descobriu ele (por parte da empregada que trabalhava na casa paroquial) , na quaresma, tempo de jejuar, o padre tinha em sua mesa um grande bife. Para ele um acinte. Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço, repetia.
Assim foi desacreditando da igreja e seus dógmas. Em nome de Deus, dizia ele, eram feitas guerras. Mesmo assim, acompanhávamos as procissões de semana Santa e ele se emocionava na Sexta Feira Santa quando o coral entoava os seus canticos... 

José Ayres, Arminda Maria Ayres, Elizabeth Ayres
e Solange Ayres, fotografados por Menininho
 em 1965.


José Ayres, teve um excelente aprendiz, seu neto Luiz Henrique dos Santos Ayres, hoje funcionário da Cemig, em Três Corações filho de Lindenberg dos Santos Ayres, já falecido. Somente ele pode contar como foi trabalhar com o seu avô.

José Ayres faleceu no hospital Cônego de Monte Raso, em Baependi,  em 1 outubro de 1988, aos 81 anos de falência múltipla dos órgaos.

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