sábado, 21 de outubro de 2017

O Pelourinho de Baependi / Um dia celebrado



Depois de muitas leituras e pesquisas, associando uma coisa à outra, juntamos aqui os fatos e a foto e...

"Em 23 de outubro de 1814, deo-se o levantamento do primeiro pelourinho em Baependy. São decorridos, depois desse facto, oitenta e cinco anos; n`aquelle dia a praça da matriz da villa regurgitava de povo. As três classes alli se achavam representadas. A cavalaria meliciana da villa e seu termo, junta por então posse n`naquele largo garbosamente afim de dar maior brilho à legal ceremonia, como por esse tempo era uso dizer-se. Alçado o ignominioso poste, as tropas saudavam-n`o com ruidosas descargas, enquanto o povo, tomado de imenso enthusiasmo aclamava áquela obra, aos gritos frenéticos de ‘Viva o Principe Regente e Nosso Senhor!’ Foi esse, para Baependy, um dia celebrado." (1)

E quem diria que a nossa vizinha Baependi, à qual Caxambu estaria intimamente ligada, tinha um Pelourinho? O historiador João Alberto Pelucio relata com detalhes como foi sua instalação e seu..."uso".

"Ele consistia em um poste de madeira, de altura mediana, erguido na praça publica (muitos pelourinhos, como o que existia em Ouro Preto, eram de pedra); n`nele atava o infeliz, condenado a açoutes, e, em presença ordinariamente do juiz, curiosos e executavam friamente o castigo, empregando-se para aquele fim, e à sombra das leis, o que vulgarmente se chama de bacalháo. como então houvesse certa rivalidade entre Baependy e Campanha, de quem a primeira constituía-se parte integrante, no cimo do pelourinho erecto na villa recém criada, fizeram collocar, símbolo da justiça um grande facção, cuja ponta tomava a direção de Campanha - a villa rival."

O Pelourinho foi erguido no mesmo dia do auto da instalação da vila denominada Santa Maria de Baependy, num domingo, em 1814. Assim acontecia quando uma povoação era elevada à categoria de Vila. Acreditamos que os que cometiam delitos em sua jurisdição e redondezas, no caso de Caxambu, que ainda não era Caxambu, eram punidos em Baependi.

Todavia, Pelourinho não significou sempre Pelourinho e nem sempre teve a função de lugar de castigo para aqueles que eram condenados por alguma pena. Considerado nos dias atuais como um poste da infâmia (e é), na sua origem era um símbolo designador da existência do poder municipal representado pelo senado e pela câmara, uma tradição de raízes mais antigas na Península Ibérica. Eles eram os marcos das vilas. Sua presença significava status de emancipação política e administrativa. Sempre erguidos em praças, constituíam-se uma espécie de "Fórum Público", onde as ordens e medidas administrativas eram apregoadas e/ou nele afixadas. Suas raízes podem ser mais antigas, no Império Romano, assinalando o centro, o umbigo das cidades. Eles eram confeccionados por artesãos em diversas variações, e muitos eram verdadeiras obras de arte. Mas, com o passar o tempo, o braço da Justiça estendeu-se até as praças e assim as execuções das penas eram feitas em público, particularmente de negros escravos.

Como marco doloroso e simbólico para a história do Brasil, poucos exemplares sobreviveram quando a escravidão foi abolida, em 1888, e assim concluímos que o de Baependi também desapareceu nessa época. Como minha tia Célia Ayres de Lima/Araujo citou, "tinham que apagar aquele capítulo da história do Brasil". Sim... apagar...

Rua Direita sem número
Os desgraçados castigos necessários

Enquanto isso, em 1828, na cidade de Ouro Preto, lia-se a correspondência publicada no jornal local O Astro.
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Para o branco a prisão, para o negro a chibata

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Pela Constituição Imperial de 1824, a tortura era considerada crime. Mas quem ia considerar as punições dos negros escravos nos Pelourinhos como tortura? Nas fazendas havia os "troncos", que tinham a mesma função – punir os escravos – que, nas vilas, os Pelourinhos. No edital acima, publicado na Lei Mineira de 1845, transformava-se a multa por delitos em prisão ou chibatadas (foto). Para o branco, prisão; para o negro, se não tivesse dinheiro para pagar, e cujo senhor, responsável pelo escravo, também não pudesse pagar, a multa era convertida em chibatadas, que não poderiam ultrapassar 50 por dia. Oh, benevolência! Inteligente sistema, pois colocando o escravo na prisão, ele não poderia trabalhar. Assim a lei resolveu de modo que o cumprimento da pena fosse o mais rápido possível, para que o escravo voltasse ao trabalho. Somente em 1886 é que foi aprovada a lei abolindo o açoitamento como punição legal.

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E, num ensolarado dia, passeiam as damas na cidade de Baependi. O registro data do início do século XX, e nela não se vê mais o monumento de madeira, mas temos certeza de que dois de nossos ancestrais passaram perto deste ignominioso poste no centro de Baependi: as escravas Justinianna Maria da Conceição (1849-?), minha tataravó, e Sabina Maria da Conceição (1860-1913), minha bisavó. De quem e de quantos foram açoitados no Pelourinho de Baependi, não se tem notícia nem estatística. Como a imprensa chegou mais tarde à cidade, não há reportagens desta época sobre o tema. Talvez estejam em alguma a lista de punidos nos arquivos da cidade de Baependi ou Campanha. Sua existência física é comprovada na foto histórica ao alto do livro Caxambu, de Henrique Monat, no capítulo "Baependi", de 1894.

As pedras das quais ninguém quer mais se lembrar

Em 1867 a cidade de São João d`El Rey vem esclarecer à Corte que as pedras empregadas na construção do Monumento à Memória dos Inconfidentes não foram as mesmas empregadas na ereção do Pelourinho da cidade. A cidade, na verdade, queria dissociar o poste de pedra, servido para castigar os escravos, da Memória dos Inconfidentes. O exemplo foi o Pelourinho da cidade de Natal, no Rio Grande do Norte, removido durante os primeiros anos do Brasil República, e tirado dos olhos de quem visitava a cidade. No final da década de 1940 foi restaurado e novamente instalado na praça. Porém na década de 1950, foi destruído nas reformas. Outros tantos exemplos seguem pelo país afora. Os Pelourinhos de madeira ainda eram mais difíceis de conservar, e as poucas pedras que sobreviveram estão ocupando hoje outros espaços urbanos.

Baependi, cidade em que "o tabaco fez-lhe a reputação de município opulento e, na história do império, dos grandes princípios democráticos ali encontraram defensores heróicos. Foi o berço de homens ilustres nas ciência e na política", escreveu Monat, e  talvez por isso a cidade pudesse incluir no seu roteiro de "memórias" a citação ao local onde ficava situado o Pelourinho da cidade. Só para lembrar.
Foto:
In Caxambu de Henrique Monat,1894.
Octavio Mendes de Oliveira Castro (1874-1935), Museu Imperial - Petrópolis, RJ
Fonte:
(1) Revista do Arquivo Mineiro in Esboços Chorographicos - Baependi (1692-1822)
Autor: PELUCIO, J.A, 1899
Diário de Minas, 1867
Astro de Minas, 1828
Leis Mineiras, 1845
MONAT, Henrique -Caxambu, 1894.
ÁVILA de, Cristiani Bartz, RIBEIRO, Maria de Fátima Bento - CIDADE: ESPACO, DOCUMENTO E MONUMENTO.
Revisão:
Paulo Barcala

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Vereadores em Caxambu exercem seus mandatos de graça! Os contra-cheques dos prefeitos, vereadores e professores de lá e de cá.


E aqui uma sensacional notícia! Se não fosse uma notícia publicada  no 30 de abril de  1949, no jornal O Patriota, de Baependi, e não no dia 1°, dia da mentira,  e o fato ter se dado na administração do prefeito de Caxambu doutor Lysandro Carneiro Guimarães (1947-1951). Mas era verdade. Os vereadores, em número de 9 exerceram os seus mandados, gratuitamente, sem pesar no orçamento da prefeitura, nem no bolso dos contribuintes.

Enquanto isso na vizinha Baependi

Mas havia discrepâncias na região. O prefeito da vizinha Baependi recebia somente 2.600 cruzeiros, um pouco mais da metade do seu colega de Caxambu. A despesa com ajuda de custo anual com os 11 vereadores era de 33.000, cruzeiros, isto é, 3.000,00 cruzeiros por ano, ou 250,00 por mês, por vereador. Segundo o jornal, o melhor salário pago era para o Chefe do Serviço da Secretaria, de 1.900,00 cruzeiros e o pior... adivinhem? O de professora: 220,00 cruzeiros por mês, só perdendo para o "auxiliar de datilografia", que hoje ninguém mais sabe que profissão é essa, com vencimentos anuais de 1.600,00 cruzeiros, anuais, dito, isto é, menos que 140,00 cruzeiros por mês. Pelas contas em Baependi um vereador ganhava 30 cruzeiros a mais que uma professora. Não era o máximo? Ou o mínimo? Façam vocês mesmos os julgamentos.

Fonte:
Jornal O Patriota, 1949
Revista do Serviço Público, Rio de Janeiro

sábado, 14 de outubro de 2017

O galã Anselmo Duarte comemora seu aniversário em Caxambu




Ah, mas vocês não são desta época, mas muitos conheceram o galã de cinema Anselmo Duarte (1920-2009). E mais ainda, ele comemorou o seu aniversário em Caxambu, mais exatamente na piscina do Parque das Águas, palco para a festa regada a coca-cola e salsicha com queijo e azeitona no palito (foto). Vê-se ao fundo a silhueta do Trampolim, que foi desaparecendo ao longo das décadas (foto). Anselmo foi um dos maiores galãs do cinema brasileiro, e também escritor e diretor de cinema, chegou a ganhar a Palma de Ouro no Festival de Cannes, em 1962, na França, com o filme O Pagador de Promessas. Ele veio à Caxambu para o 5° Festival de Cinema que aconteceu, no Cinema de Caxambu, no ano de 1956.

E nada mais nada menos estavam lá as moçoilas da cidade para cantarem o parabéns pra você, e... tietar. Como se vê, a bela morena Genoveva de Melo, à esquerda, entre deslumbramento e timidez frente ao bonitão, que infelizmente já era comprometido, casadésimo com Ilka Soares, que não compareceu ao evento por estar grávida.  No centro estava outra atriz famosa, Marlene atacando os quitutes servidos pela atleta Mariazinha Magalhães, minha professora de educação física, nos anos 70, no ginásio Polivalente, e ao fundo, só sorrisos,  Cidinha Paganelli.

Genoveva era atleta gostava de jogar volley. Participei de muitas partidas com ela, na quadra do Parque das Águas. Era uma excelente jogadora! A Mariazinha era uma das moças  mais "avançadas" da cidade, daquelas independentes, dona do seu nariz, como dizíamos, citada por Janice Drumond, a nossa vizinha de frente em suas memórias. Já Aparecida Paganelli, conhecida como Cidinha Paganelli, foi ativa na política, chegando a ser secretaria de Turismo de Caxambu, nos anos 60. Não me esqueci do episódio contado por meu pai, José Ayres, presente num dos comícios, ali na Rua da Palha, indo em direção ao cemitério, onde montaram um palanque. No exato momento em que Cidinha discursava:  "- Queremos água, água para Caxambu!".  Então céus ouviram seu apelo e São Pedro mandou ver, digo, chover. Desabou um temporal, dispersando o povo, que saiu em desabalada correria em todas as direções, pondo fim ao comício político. A água que ela queria dizer era água encanada para a cidade.
Ah, tudo só porque queríamos anunciar o niver de Anselmo que completava, na época, suas 36 primaveras em 21 de abril.
(clique aqui e leiam a história completa do Cinema de Caxambu)
Fonte:
Revista, Vida Doméstica
Revisao :
Paulo Barcala

Aqui pelos lados de onde eu moro /Alemanha


Quero aquí publicar o porque este país, Alemanha faz a diferença. O Burgo Au tem sua história. Ele fica situado em Niederau, na periferia da cidade de Düren, e pertenceu no ano de 1234 ao Cavaleiro Amilius von Auwe/ de Owe, daí o nome "Au", ou Burgau. O romântico burgo de água como é chamado, por ser cercado de um fosso com água, para impedir invasões nos tempos medievais, foi quase todo destruído na Segunda Guerra mundial, em 1944.

Bem, custou, mas em 1975, por iniciativa dos cidadãos, que fizeram festa, rifa, juntaram e tiraram dinheiro do bolso e conseguiram reconstruir este belo burgo. Mas vocês pensam que eles mandaram fazer? Que nada! Quem tinha alguma habilidade de pedreiro, rebocador de parede ou pintura se inscreveu para ajudar, e nas horas vagas reconstruíram esta belezura. Os aposentados, voluntários, homens e mulheres, gente de toda classe, rico e pobre pegaram na pá, enxada, colocaram pedra sobre pedra, rebocaram e pintaram.

Esta aí o patrimônio reconstruído e hoje é um lugar requisitadíssimo para realização de festas, casamentos e outros eventos. Ele é cercado por um belo parque e dá gosto de fazer nossas caminhadas lá. O mais importante desta história é que os próprios cidadãos tiveram a iniciativa e colocarar literalmente a mão na massa. Não esperaram por ninguém. Um exemplo a ser seguido por todos em todos os lugares do planeta.
Fotos:
Solange Ayres


quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Uma viagem rumo à Aparecida




Não sabemos, na família, quando começaram as peregrinações à cidade de Aparecida, mas os registros fotográficos dos lambe-lambe da cidade nos dão uma pequena pista (fotos acima). É certo que, por volta de 1920, vó Mariquinha, a Maria Ayres de Lima/ Rodrigues Freitas e o vô Ramiro Rodrigues Freitas reuniam a família e iam de trem até Aparecida, juntamente com os parentes, vizinhos, amigos de cá e de lá da cidade, crianças de colo, novos e velhos (foto). E era o acontecimento do ano. A família embarcava na estação de trem, em Caxambu, nas caravanas organizadas pela Igreja. Eram dois dias em que os peregrinos ficavam hospedados na cidade e iam assistir à missa perante a Santa que foi pescada nas águas do rio Paraíba, em 1717. Desde então a povoação receberia peregrinos vindos de toda parte. Caxambu tinha tradição em participar dos eventos.

Tradição na família

O clima já era criado no trem, quando as mais velhas pegavam no terço e iam rezando. Umas iam em silêncio, outras em jejum, já fazendo valer suas promessas até a chegada na cidade, conta Graça Pereira Silveira, a filha de Geralda Pereira e neta de Mariquinha. Para as crianças, era divertimento. A viagem demorava quase o dia inteiro, e os romeiros hospedavam-se nas inúmeras pensões localizadas no centro da cidade. E, como era um evento que acontecia somente uma vez por ano, os parentes colocavam as melhores roupas, de linho, passadinhas, e calçavam os sapatos, talvez o único par, que muitas vezes eram usados somente em ocasiões especiais, porque, no mais, o povo ia descalço mesmo, só calçando os sapatos em frente à igreja, antes de entrar. A peregrinação ainda se dava na Basílica Velha, onde as crianças entravam assustadas com a quantidade de velas acesas na sala dos milagres.

E o trem apitava que estava de partida. Ele era composto daqueles vagões de madeira que iam chacoalhando, produzindo um som de trac-tratac, trac-tratac monótono. Os bancos desconfortáveis maltratavam o traseiro, mas a novidade era tanta que ninguém se importava, até porque a família nunca tirava férias, nem viajava grandes distâncias. Uma vez por ano chacoalhar os ossos naquelas caixas de madeira da Rede Ferroviária não era tão mau assim.

Falecida vó Mariquinha, Maria Ayres de Lima/Rodrigues Freitas, suas filhas levaram à frente a tradição e continuaram as peregrinações, agora na excursão organizada pelo Padre Castilho. Mas, numa dessas viagens, a coisa se complicou. O senhor Purguinha, conhecido sanfoneiro e morador do bairro Trançador, foi ao banheiro descarregar suas "necessidades", no vaso do trem, ou melhor, fora dele. O banheiro não tinha aqueles reservatórios e as "necessidades" caiam diretamente na... linha. Como? Caiam sim, diretamente na linha do trem. Iam adubar os trilhos. 

As lembranças que cheiram

O Ramiro de Freitas, conhecido como Ramirinho, que usava na ocasião o seu melhor e talvez único terno branco, daqueles engomados e passados com esmero, foi atingido, borrifado, melhor dizendo, com o... proveniente do tal toalete, na traseira do outro vagão, ao apreciar a paisagem. Primeiro foi o constrangimento de ver o seu terno branquinho agora pontilhado de marrom. Nem vamos falar do cheiro que exalava a coisa toda... O perfume cashmere bouquet de Geralda, distribuído em pequenos chumaços de algodão, embebidos e distribuídos aos peregrinos no vagão para colocar nos narizes, não foram suficientes para neutralizar o cheiro do outro "perfume" desagradável. A viagem ficou assim marcada para sempre na lembrança de todos. Não adiantava rezar. O cheiro era mais forte. A expressão "a rodela do Quincas", isto é, a chave do quarto do hotel em Aparecida que ele perdeu, que estava num chaveiro com uma rodela, virou piada nos dois sentidos.

Essas histórias a gente lembra só para esclarecer aos de hoje que a vida não era tão fácil assim e que as coisas, em curtíssimo espaço de tempo, mudaram radicalmente, por exemplo, comida na estrada, ou melhor, nos trilhos. Claro, farofa! Quem pensou em outra coisa errou. O que não se podia fazer era abrir a janela ao comer. A vizinha viu toda a sua farinha voar pela janela; só ficaram os torresminhos. 

Quem é quem/ As famílias
Foto 1: Maria Ayres/Freitas/ Mariquinha e Ramiro Rodrigues Freitas e família
Foto 2: Anna Ayres de Lima/ Lica e José Eugenio de Souza e família
Foto 3: Família Rodrigues Pereira/netos e bisnetos de Mariquinha
Foto 4: Anninha Ayres de Lima e Ricardo Francisco de Souza com netos e bisnetos de Anna Ayres de Lima/Lica
Fotos: 
Família Rodrigues de Freitas em 1924
Família Rodrigues de Freitas na década de 1980
Arquivos privados da Família Ayres/Rodrigues/Freitas.

terça-feira, 10 de outubro de 2017

A observadora de pássaros / Meu canto, meu lado, meu ninho e muito amor


Hoje o blog da Família Ayres/Rodrigues/Silveira/ Pereira e cia reporta sobre uma família, não uma família comum, mas de pássaros: o lar doce lar das pombas Juritis. Dos ovos a eclosão, aos filhotes, a alegria de observar pássaros. A natureza sempre nos surpreende pela sua simplicidade. A vida se renova. Aqui um casal de pombas achou o seu lar ideal: o quintal da Graça, em São José dos CamposSão Paulo.

O seu nome científico é Leptotila vereauxi conhecida como Juriti, nome comum dado a diversas espécies de aves da família das pombas e rolas, e mede da cabeça até a cauda, 29 cm. Como vemos na foto, o seu peito é claro e possui alguns reflexos metálicos no pescoço e dorso. Alimenta-se de sementes, frutas e vegetais, mas não recusa uma apetitosa minhoca dando de bobeira no jardim. Seu principal predador na natureza são as cobras, mas claro que aqui a família não corre perigo, pois esta morando no quintal da Graça, que não perde de vista os empenados, ou quase empenados. O casal de Juritis ja tinha ocupado o andar superior na mangueira, mas este ano eles resolveram se mudar. Ela e o marido Vander revezam na vigilância para que nada aconteça, mesmo os inquilinos não estarem pagando aluguel do vaso de flores, pendurado na borda do telhado, um super apartamento de cobertura, com vista para o jardim cheio de plantas e flores.

Eu como também sou amante de pássaros e outros bichos não pude resistir em publicar no nosso blog o trabalho documentado, afinal a natureza precisa de nossa ajuda. Muitos dessas belezuras estão a ponto de serem extintas, e somente com a ajuda nossa podem voltar a povoar as nossas matas.  Aqui na Alemanha é absolutamente chic ter visitantes como estes e quase todo quintal oferece  a possibilidade dos pássaros fazerem ninhos perto das casas. Talvez com exemplos como estes, poderemos  expandir a cultura de oferecer um lar para os pássaros e te-los perto de nós, sem coloca-los em gaiolas. 

""No meu canto meu lado" tem um de tudo... manga, maracujá, pitanga, manacá de cheiro, pé de chuchu, pé de limão-cravo, Dama da noite, minhoca, lagarta, borboleta, beija-flores, formiga, passarinhos, banco, Vander e eu, filhos e netos, amigos... e muito amor!"

Fotos:
Graça Pereira Silveira
Vigilancia diurna e noturna: Vander Silveira

terça-feira, 3 de outubro de 2017

As crianças crescem/ o matriarcado



Hoje, inspirada nas fotos das meninas, filhas de Edson Aires Rodrigues e Edilma Nilda Cunha, apresentamos na foto 1 a matriarca Gervásia Ayres de Lima , a vó Gervásia com Gervásia Willianson no colo, na casa da Rua Quintino Bocaíuva, 113, Caxambu;  foto 2, as três irmãs: Gervásia, Andrea e Valéria; foto 3: Edilma Nilda Cunha, Gervasia Willianson, e filha, Andrea Rodrigues e Beatriz Rodrigues, e Valeria Brooks; foto 4: Gervásia e Andrea.
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domingo, 1 de outubro de 2017

Quarenta e sete anos de pura emoção! Maria das Graças Pereira e Vander Silveira


"Quarenta e sete anos juntos e muito bem vividos. Muita luta e muitas emoções!" Vai aí a coleção de fotos, o álbum  do casório da Maria das Graças Pereira com Vander Silveira, com direito a bolo, champanhe e beijo na boca. Parabéns ao casal!


300 anos de história/ A devoção à Nossa Senhora de Aparecida / A tradição na família de Romeu Rodrigues Freitas


Desde 1717, portanto ha 300 anos, peregrinos fazem o caminho, a pé, trem, bicicleta, carro,  caminhão até Aparecida do Norte. A tradição esta na família e o primeiro registro oficial data do ano de 1924, quando a matriarca Maria Ayres de Lima/Freitas, a vó Mariquinha e o vô  Ramiro Rodrigues de Freitas (foto, abaixo à direita) deixaram-se fotografar com a prole, genro, nora e vizinhos na cidade. Romeu Rodrigues de Freitas, o pequeno abaixo à esquerda na foto, deu continuidade à tradição. Seguiram outras tantas visitas, agora como caminhoneiro. Quando Romeu completou suas bodas de prata, a família foi comemorar em... Aparecida do Norte
Fotos:
Na foto ao alto: Maria de Lourdes Rodrigues Freitas, Belu, Ieda Rodrigues Freitas, Romeu Rodrigues Freitas e Fatima Rodrigues Freitas.
Arquivo privado da família Rodrigues Freitas digitalizadas pela firma Documenta.

domingo, 24 de setembro de 2017

O Bordel de Caxambu e seu prefeito / Um caso de amor




Não, não. O caso não tem nada a ver com o prefeito da cidade de Caxambu envolvido em escândalo. Aqui contamos outra história. Célia Ayres de Lima/Araújo , quando saia às ruas, ficava intrigada e se perguntava por que os amigos do irmão Sílvio o tratavam de "prefeito". "- Ô, Prefeito!” Que prefeito era esse? Ficou sabendo mais tarde que era o prefeito do estabelecimento, pois ele não saia de lá. E precisaram se passar quase 60 anos para eu saber que o meu tio era o... o rei do bordel da cidade...

Sílvio Ayres de Lima era o galã da​ Caxambu dos anos de 1930, ninguém podia negar. Jovem, sempre comportado e discreto, aliás, discretíssimo, nunca tinha "dado na vista". Mas ele tinha um lado que ninguém conhecia: gostava das "mulheres da vida". Quase ninguém na família sabia, até que... até que a nossa enciclopédia a familiar, Célia Ayres de Lima /Araújo, me contou toda a história. 

Ah, mas essa não é uma história qualquer, é uma história de amor, sim, sim! E se histórias de amor entre prostitutas e seus clientes são contadas com todo o glamour de Hollywood, com atores bonitos e indicados para o Oscar (e ganharam!), por que não uma história de vida real a gente aqui na Família Ayres não iria contar?

Os nossos protagonistas não eram tão glamourosos quanto a prostituta Julia Roberts e o homem de negócios Richard Gere, do filme Oh, Pretty Woman, e sim Sílvio Ayres, o barbeiro da cidade de Caxambu, e Pinduca, a prostituta. Infelizmente não conhecemos o seu verdadeiro nome, então escrevemos que ela foi a pessoa pela qual meu tio se apaixonou. Assim como atores num filme de vida em preto e branco, nos anos de 1930, eles foram protagonistas de cenas de sexo e amor na vida real, amor que se tornou devoção para toda a vida.

Aquele lado era animado 

E onde era mesmo a... a... Zona de Caxambu? Pois existiu e ficava ali na rua Costa Guedes (ai, ai, a memória do velho Guedes), no terreno onde era a casa de Sílvia Figueiredo, vizinha da casa do Dr. Paiva. A localização do prostíbulo era incomum, pois ficava quase no centro da cidade. Uma das pouquíssimas testemunhas da época, hoje do alto dos seus 97 anos, discretíssima no uso de suas palavras, lembra que... "aquele lado era animado". Então era lá mesmo a... Zona, tia Célia não se enganou.

Maria Boiadeira

Temos mais testemunhas. Outras pessoas mais jovens confirmaram a existência de outro bordel em diferente lugar da cidade, como um que ficava atrás da chácara Rosalã, num bambuzal, mas isso já era nos anos 80. Mas, novamente aqui, como o Blog é interativo, um leitor que... esteve no local, vem "atualizar" nossas informações e dizer que o do bambuzal já funcionava antes do ano de 1972.  Em Baependi as luzes vermelhas eram acesas pra cima da Igreja Nhá Chica. Ah, todo lugar tem o seu. E as mais divertidas lembranças vieram quando conversei com Ruth Villara Viotti. Ela não se recordava do nome da cafetina-mor da cidade. Vocês me perguntariam: por que a Ruth foi parar no texto? Claro, quem mais dessa época é vivo para nos contar as histórias dos anos 30/40 senão a tia Célia Ayres e a Ruth Villara? Foram minutos de conversa e ah!, “Maria Boiadeira!”, gritou a Ruth do outro lado da linha, e caímos na gargalhada. Ela conheceu Maria já grisalha, e conta que era uma dama distintíssima, fina. Quando passava pelas ruas era cumprimentada com respeito. Outros tempos...

Voltemos a Pinduca. Ela trabalhava no local com a colega, a Maria Boiadeira, quando o "estabelecimento" mudou-se para o bairro Caixa D`Agua, du as ruas paralelas, acima da Igreja Matriz, para quem ia morro acima, e então resolveram exercer a profissão em São Lourenço. Na oportunidade, Sílvio fez a proposta para Pinduca deixar a profissão, "oficializar" a relação e irem morar juntos, juntar os panos, como se dizia. Ele ainda morava com a mãe, e uma conversa com Vó Gervásia sobre o assunto seria impossível. Não seria moral ter uma ex-prostituta como enteada. A casa viria abaixo. Dividido, Sílvio acabou comprando uma pequena casa e foram morar juntos. Casar? Oh! Na casa materna nenhuma palavra sobre Pinduca. Passados os anos, Vó Gervásia veio a falecer. Sílvio fez então uma consulta às irmãs mais próximas, Mercedes Soler e Célia, e elas consentiram com a mudança. Finalmente Pinduca pôde se mudar para a Rua Quintino Bocaiúva, 113.

Pinduca sempre se lembrava de Célia e a presenteava com doces de laranja e cidra. Num gesto de solidariedade e reconhecimento pelo verdadeiro afeto que ela tinha pelo seu irmão, Célia a convidou um dia para dar um passeio de carro pela cidade. Na ocasião, Pinduca não se achou digna de entrar no carro, mas foi convencida pelas sábias palavras de Célia: "Para Jesus todos somos iguais. O pecado e a santidade não estão na roupa, estão no pensamento". Ela, que nunca mais saiu de casa, quase não reconheceu a cidade e, passando em frente aos prédios, relembrou seus tempos de mocidade. Em idade avançada, foi acometida pelo Mal de Alzheimer e cuidada por Sílvio até o dia de sua morte. Se isso não foi amor, então o que foi?
Foto:
Arquivo privado de Celia Ayres de Lima/Araujo
Agradecimentos:
A família  sente honrada em poder contar com as memórias de Celia Ayres de Lima/Araujo e Ruth Villara Viotti. Nossas conversas telefônicas Brasil/Alemanha, em 19/22 de agosto de 2017.
Edição e revisão:
Paulo Barcala

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Os primeiros caxambuenses / Estácio da Silva e o nascimento da maior estância hidromineral do planeta


Estácio da Silva. Este sim exigiu muita pesquisa nos registros históricos, mas conseguimos, afinal, recuperar sua trajetória pessoal. Ele é conhecido na história de Caxambu, pois foi quem solicitou, "por provisão", a construção de uma capela em sua propriedade, no ano de 1743, que seria a futura Igreja Matriz Nossa Senhora dos Remédios, marco do que mais tarde se tornaria a maior estância hidromineral do Planeta: Caxambu.

Mas, antes, temos que contar histórias. É. Vocês, leitores, que gostariam de conhecer os antigos caxambuenses, tenham paciência, pois a história é longa e cheia de reveses. Na verdade, os primeiros caxambuenses eram... baependianos, pois a paróquia estava sob a jurisdição de Baependi. Não esqueçamos que os escravos e seus descendentes também foram os primeiros caxambuenses mas, diferente dos brancos, não tinham seus sobrenomes anotados nos registros. Muitos, ao serem batizados, adotavam os sobrenomes dos seus proprietários. Quem sabe, na lista a seguir, descobrem um sobrenome seu em algum parente do passado? Com absoluta certeza! Os LemesPereirasPradosPinheirosMeirellesVillelasNogueirasCobras...

Senta que lá vem história!
Um rosário de datas e gentes

Todos os registros nos dão a pista de que Estácio de Silva era imigrante português, um lisboeta, e que se instalou na paragem do Caxambu por volta do ano de 1728. Naquela época, conseguiam terras na colônia Brasil somente os procedentes de famílias nobres, os que tinham alguma patente militar, como era o caso dele, e quem possuía cabedal, isto é, dinheiro para cultivá-las. O certo é que Estácio da Silva tinha um plantel razoável de escravos, e eles não eram baratos no mercado. O testamento deixado por sua viúva nos revela o quão rico ele era:

"... tem também o valor de 60.000 réis metade do valor de um negro, que lhe foi dado na meação de seu defunto primeiro marido". Se um negro escravo era avaliado em 120.000 réis, concluímos que Estácio foi um homem rico, pois, se contamos bem, possuía ao menos 18 escravos, se não mais.

Não temos estatísticas exatas, apenas os registros de apadrinhamento de seus escravos, arquivados na paroquia de Baependi. Ele fazia o mesmo que todos na região: cultivava a terra. Ali cresciam arroz, milho, tabaco, feijão, centeio, cana e café. Os fazendeiros também criavam animais, como porcos e bois. O excedente era comercializado no Rio de Janeiro, mas também abastecia o mercado interno das Minas Gerais.

Bem, então chegaram as notícias das descobertas de ouro e diamantes, por volta do ano de 1700. A boataria se espalhou como fogo e Minas recebeu uma avalanche de gente de toda estirpe, vinda de todos os lugares do país e de Portugal, em grande número. O sangue dos descendentes daquela gente hoje corre nas veias dos habitantes de Baependi e Caxambu.

No Caxambu

Estácio da Silva tem sua primeira aparição nos registros baependianos em 25 de maio de 1728, como procurador do Capitão Antônio de Freitas, juntamente com Catarina Leme, como padrinho de Antônia, filha do Sargento Mor Manoel Nunes de Gouveia e de Maria do Prado.

Outros registros se seguiram, confirmando a presença de Estácio da Silva "no Caxambu":

- Em 23 de novembro de 1730 foi padrinho de Valério, filho de Francisco Xavier Machado e de Paula Moreira.

- Em setembro de 1733 foi batizado Bento, filho de Sebastião Fernandes e de Guiomar Pires. Foram padrinhos Miguel Roiz da Costa (S. João del Rey) e Luzia Pinheira, solteira (Caxambu).

- Em 7 de outubro de 1737 foi batizada Quitéria, filha de Sebastião e Maria, escravos de Luiz... de Oliveira. Foram padrinhos: José Gomes (?) solteiro e Tomásia de Morais, filha de Domingos de Gois Machado Ângela Pais Floriana, escravos de Estácio da Silva.

- Em 25 de marco de 1737, aparece Estácio da Silva como proprietário de Maria, filha de Isabel de Morais, "preta de Estácio da Silva";

- Em 28 de agosto de 1738, ainda solteiro, conta dos registros como padrinho de Januário, filho de Luiz Pereira e D. Maria Leme, e anotado "filho da cidade de Lisboa". Um lisboeta ele era, no documento abaixo.

- Em 28 de setembro de 1738, Estácio da Silva batizou Januário, filho de Luiz Pereira Dias e Maria Leme.

- Em fevereiro de 1740 foi batizada Estácia, filha de... solt, escrava de Pedro... Foram padrinhos: Bento, escravo de João Gomes da Costa, e Isabel, escrava de Estácio da Silva.

- Em ?6 de novembro de 1740, nasceu uma criança, filha natural de Maria, batizada pelos escravos de Estácio, Manoel e Isabel;

- Em 20 de novembro de 1740, foi batizado Manoel, filho de seus escravos Anastácio e Josefa, e batizado por Isabel, "negra forra";

- Em 3 de abril de 1741, foi batizada Escolástica, filha de Francisco Teixeira da Fonseca (?) Lee e Joana... Foram padrinhos: Estácio da Silva e Maria Pires, mulher de Domingos Dias;

- Em 2/? de 1741, batizou Mariana, filha de Francisco e Isabel, escravos de Estácio.

- Em 2/? /de 1741, foi batizado, Antônio, filho de Manuel e Inácia, escravos dele. Foram padrinhos Antônio Fernandes e Domingos Dias.

- Em 6 de julho de 1741, foi batizada Mariana, filha de Sebastião e Maria, escravos de Domingos de Oliveira Lobo. Foram padrinhos Francisco e Isabel, escravos de Estácio da Silva.

- Em 1742, batizou Antônio, filho de Caetano Gomes Pereira Maria Pires;

- Em 13 de outubro de 1743, nasceu Francisco, filho de Manoel e Inácia, seus escravos, tendo a escrava Isabel como madrinha.

E o plantel de seus escravos crescia. Em 14 de maio de 1744, batizou Mariana, filha do Cap. Domingos Teixeira Vilela e Ângela Isabel. Foram padrinhos Estácio da Silva, ainda solteiro, e Joana Nogueira, casada com João Gomes de Lemos

Ainda, em 9 de julho de 1747, Estácio da Silva aparece como testemunha de casamento como "morador no sítio de Caxambu", ainda solteiro. Era o último registro em que apareceria como "solteiro". E era mesmo um solteirão para aqueles tempos, pois, aos 44 anos, ainda não havia se casado. Então veio o tempo...

Estácio da Silva deixa de ser solteirão



O casamento de Estácio da Silva com Maria Vitória Vajana, procedente de Vila Nossa Senhora dos Remédios de Paraty, hoje Parati, aconteceu entre os anos de 1744 e 1748. O fato se confirma, pois encontrei uma certidão datada de 18 de fevereiro de 1748 (acima), em que ele, já casado, figura como padrinho de casamento de Antonio Tomaso Gouveia e Anna (?)  Correia.

O fato mais importante para a cidade de Caxambu, que nem povoado era, e que viria a se chamar Paróquia Nossa Senhora dos Remédios, aconteceu em 1743, quando ele solicita ao bispado do Rio de Janeiro permissão para a construção de uma capela em sua propriedade. Até aquela data, a diocese "dava obediência aos Bispos do Rio de Janeiro" (2). Em 2 de fevereiro de 1748, a autorização foi concedida, cinco anos após a data do pedido, e assinada pelo primeiro bispo de Mariana recém-empossado, Dom Frei Manoel da Cruz.

Nos registros das Instituições e Igrejas do Bispado de Mariana consta: 116 — Caxambu. Capela "na fazenda do Caxambu, freguesia de Baependi", erigida a pedido de Estácio da Silva por provisão episcopal de 8 de junho de 1748.

"... foi-lhe concedida permissão para edificar a capela dedicada a N. Sra da Conceição, em sítio a ser assinalado pelo vigário de Baependi. Construída a capela, preferiu o fundador dedicá-la a N. Sra dos Remédios, que passou a ser o orago, de acordo com a concessão diocesana."



Em 30 de novembro de 1752, o Coronel Estácio da Silva vem a falecer, aos 52 anos de idade, deixando a viúva Maria Vitória Vajana como sua herdeira universal, pois não tiveram descendentes. No seu testamento, ficou registrado o desejo de que fossem rezadas três missas a Nossa Senhora dos Remédios.

A viúva, o viúvo, o viúvo da viúva


Bem, naquela época não se perdia tempo, até porque quem ajudaria administrar a fazenda e os escravos? Pois Maria Vitória casa-se novamente, em data ainda desconhecida, com João José Pinheiro, filho de Pedro Pinheiro Maria da Boa Nova, natural de São Salvador, Bispado de Angra, Portugal.

Interessantemente, em 29 de outubro de 1755, três anos após a morte de Estácio da Silva, consta despacho, em Vila Rica, hoje Ouro Preto, de um requerimento sobre a concessão de uma Sesmaria do sítio chamado Mombasa, Freguesia de Baependi, por João José Pinheiro. Estaria o novo marido tentando a legalização das terras em seu nome? Seguramente, porque agora a família iria crescer: Maria Vajana estava grávida. Mas a felicidade do casal não foi duradoura. Em 5 de outubro de 1756, Maria Vitória veio a falecer, deixando como herdeiro universal e consequente de suas propriedades o seu segundo marido, agora também viúvo, João José Pinheiro. No inventário, o viúvo declara que Maria Vitória Vajana faleceu "estando doente de sobreparto" (1), isto é, complicações pós-parto; que tiveram uma filha chamada Maria, que também faleceu. Os bens inventariados: um sítio em que morava, chamado "Caxambu", no Caminho Velho, freguesia de Baependi"que tem adjunto outro sitio, chamado Mombasa, com casas e vivenda cobertas de telhas, paiol, senzalas, cobertos de telhas. Matas virgens e capoeiras." (1)

As famílias herdeiras e os casamentos


Vocês acham que as histórias dos casamentos acabaram? Que nada! O povo continuou casando, formando família e espalhando seus descendentes. A 4 de outubro de 1757, o viúvo da viúva, o Alferes João José Pinheiro, casa-se novamente com Maria Custódia Nogueira, ela que era filha de Luiz Pereira Dias e Maria Nogueira do Prado, resultando da união os filhos:

1) Maria Antônia Nogueira, que se casou em Ouro Preto com o Sargento Mor José de Meirelles Freire, filho do capitão do mesmo nome e de Maria Magdalena Gonçalves da Cruz:

2)  Salviano de Meireles Freire, que faleceu deixando a viúva Anna Engracia , filha do Capitão Antonio Gomes Nogueira Cobra.

Os nomes, as pessoas

Anna Engracia, viúva, casa-se de segundas núpcias com João Constantino Pereira Guimarães, português e negociante de Baependi. João Constantino associou-se, em 1852, a Antônio Teixeira Leal e ao Coronel José Ignácio Nogueira de Sá, grande proprietário de terras na paróquia, entre as quais se encontravam as fontes minerais, os 30 alqueires que deixou como herança no condomínio da fazenda "Caxambu", que abrangia o Vale do Bengo. Falecido Nogueira de Sá, a viúva vendeu o terreno, em 1853, a outro sócio de Constantino, o português Antônio Teixeira Leal, que tinha agora novo sócio. Teixeira Leal construiu um abrigo de alvenaria de pedra e cal e uma casa para banhos, abastecida pelas fontes. Essas foram as bases para o futuro Balneário de Caxambu.

E a princesa engravidou

Com o crescer da fama, a povoação recebe a visita da Família Imperial. Foi com a visita da Princesa Isabel que o governo de Minas acordou para a estância hidromineral. Isabel, que não conseguia engravidar, fez o uso das águas e concebeu um herdeiro para o trono.

Então obras foram realizadas, iniciando-se com a canalização do córrego Bengo, e as fontes foram cobertas com telheiros. Nessa época foi que as fontes receberam os nomes da Família Imperial: Fonte D. Leopoldina, D. Pedro, D. Isabel, Conde d`Eu, Duque de Saxe, com exceção da fonte D. Teresa que não existe mais. 

Analisadas as águas e conhecidos os resultados, houve quem pleiteasse a exploração das fontes, o que não foi à frente. Em 1883, o Dr. Saturnino de Sales Veiga fez novo pedido e cedeu seus direitos ao Dr. Lavandera, cuja concessão foi o embrião da primeira empresa arrendatária. Os empresários locais, como Antônio de P. AndradeCosta Guedes e muitos outros, se reuniram e constituíram capital de 300:000$000 para iniciar o projeto, tendo como presidente o Barão de Maciel, auxiliado pelo Dr. Policarpio Viotti, encarregado da parte técnica e da administração. Uma nova era inaugurava-se.

Assim, o terreno da antiga Sesmaria de Estácio da Silva, passado por herança de geração para geração, se transformou numa das maiores estâncias de águas minerais do planeta.
Fonte:
Instituições e Igrejas do Bispado de Mariana
Arquivos da Diocese de Campanha (3)
Projeto Compartilhar (1)
Familia Search
Esboços Coroghaficos, Baependi 1692.1822, Pelúcio J.
(2) Revista Brasileira de Geografia - Sumário, julho de 1940.
(4) Correia Filho,Virgilio, eng. assistente técnico do Conselho Nacional de Geografia, em "Caxambu".
Edição e revisão: Paulo Barcala

Paulo Barcala/ O Blog da Familia Ayres agora tem Redator e Editor!


Paulo Barcala nasceu em BH nos fins da década de 50. Estudou na rede pública do primário à universidade. Começou no jornalismo pela imprensa alternativa e sindical, escolas de vida e profissão. Andou muitos caminhos na comunicação institucional, política e cultural. É autor de três livros sobre arte e patrimônio. Tem a mesma companheira há um quarto de século, um casal de filhos e um de netos. Vive pensando no futuro.

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Caxambu, seus cantos e encantos





A cidade também se transforma, escrevia o poeta Eustaquio Gorgonne. 
Eu digo, os poucos testemunhos (arquitetônicos) ainda estão lá para contar suas  memórias.


Foto: 
Solange Ayres

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Troncos sobre o Bengo / A obra de Chico Cascateiro na cidade de Caxambu

Saio pelos campos a copiar
 as árvores do ano passado
a lua presa em seus ramos.
Fotos:
Solange Ayres
Poesia: 
Eustaquio Gorgonne, in Manuscritos de Pouso Alto- 2004

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Henrique Ayres na Siberia - Trip to Talovskiye Chasi


Não ha como a gente não ficar feliz querido sobrinho Henrique Ayres. Seu bisavô José Ayres e seu avô Lindenberg Ayres também iriam estar felizes e orgulhosos de você. O seu sonho se tornou realidade. Aqui não só divertimento, mas cultura, conhecimento. A tia Solange Ayres aqui na Alemanha esta torcendo por você. 
Fonte:
Do Youtube

domingo, 10 de setembro de 2017

16 de Setembro esta chegando / Os cantos e encantos / Uma homenagem à cidade de Caxambu



O que diria o meu amigo poeta Eustaquio Gorgonne sobre esta fotografia? Gorgonne... eu acrescentei um "n" a mais no seu sobrenome e ele gostou. Gorgonne. 
No mês do aniversário da cidade, quando Caxambu se enche de flores  e sopra as velinhas do seu aniversário, vamos arrancando poesia do seus cantos e encantos.

O Verde preso no verde
arrastado pelos amarelos 
pelos azuis em parelhas

Fotos:
Solange Ayres
Poesia:
Gorgonne, Eustaquio in Ossos Naives, 2004

sábado, 9 de setembro de 2017

Caxambu e seu Campo de Pouso Tenente O`Reilly de Souza/ Pista de primeira classe, pilotos com bússola no pescoço



Em 12 de marco de 1932, às 13 horas e 18 minutos aterriza o avião da marca Curtiss, para a inauguração do campo de pouso de Caxambu.

Mas voar no início do século XX era aventura pura, se compararmos hoje com as parafernálias modernas que cruzam os nossos céus. Imaginem que a previsão do tempo, fator importante para as viagens aéreas, vinham pelos fios do telégrafo. Telegrafo? Fios? Então os pilotos tinham que confiar no seu talento. Instrumentos de bordo? Qual! Os olhos dos pilotos eram a vida ou a morte, e as maquinas dependiam da capacidade dos pilotos de manobrá-las.

O Correio Aéreo Militar

Tudo começou com o Correio Aéreo Militar. A história da vinda de um avião à cidade teve início, no dia 12 de junho de 1931, quando decolou do Campo dos Afonsos do Rio de Janeiro, em direção à São Paulo o primeiro avião com a missão de levar a primeira mala postal do Correio Aéreo Militar (CAM). O vôo foi de pioneiros liderado pelo Major Eduardo Gomes. A viagem, que era para durar 3 horas, ficou em cinco, e os pilotos não conseguiram localizar o Campo de Marte, lugar da aterrissagem, e tiveram que improvisar. O Joquei Club, no bairro da Mooca, serviu de pista de pouso. Pois não é que os pilotos pularam os muros, entraram num taxi e entregaram a tempo o malote, na central dos correios? Ufa! A partir desta data, o Correio Aéreo, que se desenvolveu paralelamente ao transporte de carga e passageiros, abriu os céus para as linhas comerciais, transportando malas de correspondências, encomendas de toda sorte e gente, pela América do Sul e também na Europa.

Pista de primeira classe e bússola no pescoço 

No Jornal da Lavoura de 1934 dizia que a pista de Uberaba era a melhor do Brasil (foto). O general Eurico Dutra, diretor da Aviação do Exercito classificou o campo de pouso "... com um pouco mais de serviço, pode ser classificado como pertencente ao de primeira classe". Se ela era de primeira classe nem queiramos pensar nas de segunda, terceira... mas de qualquer forma os aviões faziam seus aterrisagens nela, uma vez por semana.


Era comum, pelas mas condições do tempo, aterrisagens de emergencia, como aconteceu em Goiânia, quando um avião foi forçado a descer no campo de futebol da cidade. No acidente o avião ficou danificado, pois o trem de aterrissagem foi de encontro a... um cupim. Afim de prevenir acidentes desta ordem o prefeito mandou destruir todos os cupins nas imediações do campo de esporte, para em caso de novas aterrisagens de emergencia.
  • Esses pioneiros varavam os céus do Brasil, de lado a lado, a todo o momento enfrentando a morte, em velhos aviões de um só motor, sem a necessária cobertura do vôo sem radio e outras seguranças de navegação, à merce das mais variadas condições atmosféricas. Sem embargo, cumpriam as missões recebidas. "Iam sobranceiros, ao imenso continente brasileiro, desenvolver a aviação comercial, antes que houve aviões comerciais (...)
  • Atirava-se ruidosamente à conquista do espaço. Improvisavam a técnica. Era o avião "Arco e Flecha", isto é, sem infraestrutura apropriada, e consequentemente, sem o respectivo instrumental de bordo. De resto havia o "olhômetro", e a "bússola estava no pescoço"... (1) 
  • Em novembro de 1931, o Correio Aéreo expandiu sua rota Rio-Minas. Os militares estavam convencidos que um avião de correspondência incentivaria as prefeituras a construirem os seus campos de aviação.
Surpreendentes resultados estatísticos foram publicados do Correio Aéreo Militar do ano de 1932, no jornal Lar Católico. 592 vôos de um total de 131.285 km, sendo as linhas em funcionamento na época: São Paulo-Goiás, São Paulo-Mato Grosso, São Paulo-Curitiba. Ah, eles foram mesmo os verdadeiros heróis.

Caxambu e seu campo de pouso Tenente O`Reilly de Souza

O nome do campo de pouso de Caxambu foi dado em homenagem ao aviador do exercito, o 1° Tenente aviador Altamiro O`Reilly, o primeiro aviador a sobrevoar a cidade de Caxambu e morto em um acidente aéreo, num voo de treinamento, em 23 de dezembro de 1931, na cidade de Três Rios, no Rio de Janeiro. Ele foi também o um dos pioneiros do 1° pouso de um avião, em Resende, que ocorreu na Fazenda Santo Amaro, em 1931, a bordo do Curtis 269, pertencente à Escola de Aviação Militar do Realengo.

O tal "campo de pouso" era mais que um terreno aplainado de terra batida, mas o avião "Curtiss" do exército aterrizou, em Caxambu, no dia 12 de março de 1932, às 13 horas e 18 minutos, um sábado, comandado pelo coronel Pederneiras e pilotado pelo tenente Julio Reis. Eles saíram do Campo dos AfonsosRio de Janeiro, às 11 horas e 5 minutos fizeram o percurso de 140 quilômetros em duas horas e 13 minutos sendo recebidos pelas autoridades locais, o prefeito de Caxambu, Mario Milward e o prefeito de Baependi. O vôo decorreu sem grandes incidentes, apesar do mau tempo te-los acompanhado durante todo o percurso da viagem. O campo de aviação ficava situado entre as fazendas dos coronéis Joaquim Pereira e Reynaldo Pereira, à margem esquerda do Rio Baependy, distante da cidade 11 quilômetros. 

Na enxada

Na verdade, o trabalho de construção da pista de pouso foram realizados no contexto histórico da Revolução Constitucionalista de 1930 que foi o maior movimento armado ocorrido no Brasil, quando guerrearam paulistas e mineiros. Os prós e contra Getulio. O governo de Minas subiu no muro e assumiu a posição "neutra". Os paulistas invadiram o Sul de Minas e os maiores e mais sangrentos combates aconteceram na cidade de Cruzeiro. As pacatas cidades do interior de Minas, que viram-se envolvidas no conflito. São Paulo perdeu a batalha, mas se mantiveram na liderança política e econômica do país. O resultado da revolução: uma nova Constituição anos depois, que deu voto às mulheres. De tudo não foi em vão.

E em Caxambu, como tudo agora eram as estratégias militares,  o "comando das forças do Sul de Minas" fez levantamento para a construção da pista e sondou o terreno mais apropriado, tendo apoio do prefeito para a execução do trabalho.150 trabalhadores rurais pegaram na enxada para, em 10 dias, aplainar o terreno que serviria de campo de pouso. Uma pista feita na enxada.

O registro histórico acima, datado de 15 de março de 1932, achado no jornal Correio da Manhã, com históricos personagens. Na legenda original consta os nomes, mas as pessoas, infelizmente, estão pouco visíveis. Dos militares, o Coronel-aviador Amilcar Sergio Velloso de Pederneiras (1894-1950) foi quem buscou o corpo do tenente O`Reilly em  Três Rios, após o terrível acidente que lhe custou a vida, o coronel-aviador, então tenente-aviador, Julio Américo dos Reis, e o capitão-aviador, posteriormente, coronel-aviador Martinho Cândido dos Santos .  Martinho Cândido dos Santos era filho de Martinho Cândido Vieira Licio, natural de São Tomé das Letras, que veio moço para Caxambu e se tornou chefe político e onde nasceu o filho, que agora retornava pelos ares à cidade. Os aviadores, em sua curta estadia na hidrópolis, foram recepcionados no Hotel Caxambu, onde foi realizado um banquete oferecido pelo prefeito municipal. No dia seguinte estava programado um grande baile no Palace Hotel em homenagem aos aviadores.
E gentes, é difícil acreditar que tudo isso aconteceu... em Caxambu.

Foto:
Jornal Correio da Manhã, 1955
Fonte:
(1) Instituto Histórico-Cultural da Aeronáutica - Idéias em destaque- n° 40, 2013.
Aragão, Isabel L.,Correio Aéreo Militar (CAM): uma história de pioneirismo, 2012.
Força Aérea Brasileira: A saga dos bandeirantes que criaram as rotas aéreas pelo interior.
Correio da Manhã,1955
Jornal Catholico, 1933
Bento, Claudio Moreira, Cel. em Resende-RJ- História Militar 1744-2001-Memória
A Crítica, RJ 1920-1930