segunda-feira, 8 de junho de 2026

O trens da história/Izidra Nogueira Mendes da Luz/ Tudo começou em Caxambu...

Izidra à direita, e sua família

Quem foi Izidra? Oque estaria ela fazendo no Blog da Família Ayres? Porque? Ah sim, vamos contar tudinho! Izidra Nogueira/ Mendes da Luz foi a esposa de Adolpho Alves dos Santos, cujo marido tinha, digamos, mais de uma família, formada 25 anos antes de seu casamento, com Rosalia Angelina de Carvalho, mãe de Alzira de Carvalho/Ayres, que se casou de primeiras núpcias com meu pai José Ayres. Seus filhos com Rosalia Angelina já eram adultos quando, em 1923, Adolpho disse sim, em Caxambu, para Izidra. A surpresa veio depois, conta Helena, ainda viva e lúcida, filha de Adolpho e Izidra. Sua mãe desconhecia a "família paralela" que seu marido tinha formado muito antes de se casar. Foi um grande choque.

Senta que la vem história!



E se a gente vai contar a história da família, vai falar também de história do Brasil, do fim da escravidão, da passagem de uma sociedade escravocrata para a república, da grande migração de trabalhadores do Sul de Minas para as regiões das grandes plantações de café no vale do rio Paraíba. Ao iniciar as minhas pesquisas genealógicas, não conseguia entender como Izidra teria nascido em Barra do Pirahy, indo parar em... Caxambu. Ao achar sua certidão de nascimento estava claro: seu pai trabalhava na Companhia de Estrada de Ferro, oque marcaria sua família para sempre. 

Aqui então vamos apear no trem, no trem da história, pois  Minas é história, e é trem que não acaba mais. Estaremos falando dos caminhos que ligavam Minas ao mar, cujos trilhos, segundo o poeta Milton Nascimento, mandaram arrancar...

A região onde a família de Izidra se estabeleceu era próximo aos trilhos. Sendo seu pai trabalhador da Estrada de Ferro Central do Brasil (não sabemos qual cargo exercia) não poderia ser de outra maneira. A estrada Presidente Pereira que passava pela localidade Macacos, atual Paracambi, onde grande e parte de seus irmãos nasceram, foi inaugurada, em 1861, e fazia parte da malha ferroviária que ligava o Sul de Minas a Barra do Pirahy. A localidade denominada Tarietá, 3° distrito de Itaguaí, eram separados pelo Rio dos Macacos, que também era nome de fazenda, mais tarde denominado Paracambi. A Fazenda dos Macacos era pouso de tropeiros que circulavam entre Minas e São Paulo.

O trecho entre o povoado de Macacos pela estrada "Presidente", como era conhecida, trafegavam todas as cargas de produções agrícolas e passageiros de Vassouras,Valença e Barra do Pirahy. Era o entroncamento ferroviário mais importante do Brasil! A ligação entre Barra do Pirahy e Caxambu foi inaugurada, em 1891, como extensão que vinha da cidade de Soledade. Assim se explica a mobilidade das famílias, e explica como Izidra foi parar em Caxambu.

Seu pai Emílio Mendes da Luz como funcionário da Estrada de Ferro, vivia em constante mudanças, e os registros de seus filhos seguiam os nomes das estações de trem. Todas as localidades citadas acima constam das certidões de nascimento de Izidra e seus irmãos. Elas me facilitaram a pesquisa, e foi só seguir... os trilhos. Seu primogênito, João Mendes, nasceu na localidade de Macacos,  em 1886, (que se chamou também Tairetá, e finalmente, Paracambi, aqui repetindo) A estação de trem da localidade se chamava Rodeio,  (foto acima) que também era nome de uma fazenda, foi inaugurada, em 1863, pela família imperial, e renomeada, em 1946, para Paulo de Frontin.

Estação Sagrada Familia do Tinguá

Nos fins do século XVI as terras da região eram habitadas pelos índios Tamoios, antes de ser uma sesmaria da Sagrada Família do Tinguá, em 1755. Depois vieram os colonizadores. O povoado surgiu assim como surgiram outros lugarejos do Brasil, formado por caravanas de tropeiros que partiram do litoral Brasil adentro em busca de novas terras. Por algum tempo foi nome de estação (foto). 

Rodeio

A localidade Rodeio era ponto convergente entre Minas e São Paulo, e onde eram feitos de fato os rodeios do gado, destinado ao corte.

Estação Rodeio, Marc Ferrez, 1902

Assim notícia Ciro Ciocleciano Ribeiro Pessoa sobre a região, em 1886.

"As estações de Serra, Palmeiras e Rodeio são muito procuradas pelo seu excelente clima e são os germens e lindas e pitorescas povoações para onde afluirá a população da Corte na estação calmosa. Na estação Rodeio acha-se estabelecida a fábrica de formicida Capanema, tão importante para a nossa lavoura". 

Izidra nasceu, em 1890, na localidade Oriente, e foi registrada na povoação Rodeio; Eurico nasceu,  em 1892, na mesma localidade. Em 1892 consta que a família ainda residia na localidade Oriente, onde também nasceu Maria Ana da Luz/ Soller , e onde existia a fazenda do mesmo nome Fazenda Oriente, grande produtora de café, hoje pertencente ao município Vassouras. A fazenda emprestou o nome à estação inaugurada, em 1878, mais tarde denominada Mario Belo. A partir dela iniciam os túneis 1 e 2 em direção a estação Engenheiro Gurgel, onde seria o começo da tragédia que atingiu a família...

O trem azul, muito antes de Lo Borges...

"O Cruzeiro do Sul" era mais do que um trem: era uma instituição, um símbolo de luxo, um emblema de grandeza (...). No silêncio das noites de Rodeio, nunca chegando antes, nunca chegando depois, ouvíamos o "Cruzeiro do Sul" ainda ao longe, saindo do túnel 11 e vindo majestosamente, serpentede aço azulado, precisando cumprir o horário, nunca parando ali. Ninguém ia dormir sem que ele chegasse com seus vagões iluminados, deslizando sobre os trilhos como uma lagarta fosforescente, fazendo a estação rejeitada tremer de orgulho ferido, mas de vaidade também (...) Assim eram os trens daquele tempo, assim era o Cruzeiro do Sul, que não dava bola para Rodeio e o humilhava com o seu desdém, passando lentamente com seus vagões iluminados e se perdendo na noite. Mesmo assim, Rodeio sentia que vivera mais um instante de glória. Podia adormecer, agora, no silêncio deixado pelo trem azul, silêncio magnífico, silêncio que cheirava a carvão e cheiraria a saudade" . (1)

Acredito que os avós de Izidra tinham uma ocupação, em alguma das fazendas, cujos donos pertenciam aos barões do café. Na região era a única forma de estar ocupado e ganhar algum dinheiro. O café estava ainda no auge, e a lavoura precisava de braços livres para seu cultivo, já que a escravidão se aproximava do fim quando foi abolida, em 1888. Em 1882 a fazenda Rodeio apresentava números consideráveis: 59 alqueires, pastos e plantações de café no valor de 8.260$000 contos de reis.  Dentre o inventário de "coisas e objetos de prata" constavam num total de 102 escravos, sendo 60 homens e 42 mulheres e 51 menores. Mas no início do século XX os braços que trabalhavam na lavoura migraram para outras profissões com o declínio do cultivo do café. Possivelmente foi o que aconteceu com Emiglio Mendes da Luz, que ocupou um posto na Ferrovia Dom Pedro II.

O trem, denominado Barrinha, que servia a região, relinchou sobre seus trilhos pela última vez, em 1996, mas continua lá os gritos silenciados nos túneis dos inúmeros acidentados, um deles o pai de Izidra, que ficou órfã aos 4 anos. O primeiro acidente noticiado aconteceu, em 1881. As baldeações eram tumultuadas e perigosas, pois não havia ordem, nem fiscalização, causado perigo aos passageiros, e trabalhadores ferroviários. Ha notícias de descarrilhamentos, colisões, carros que desprendiam das composições disparando sem freios serra abaixo, atrasos provocados por perigosas falhas mecânicas. Fora as intempéries. As chuvas provocavam deslizamentos de terra, principalmente nas áreas de aterro, e pedras soltavam-se das encostas, causando danos nas locomotivas, e pondo em perigo quem trafegava. O trajeto tinha onze túneis e o trecho era de fato perigoso. 

Seguindo os trilhos da história / Sete e meia da noite no Oriente/Onde mora o perigo




E foi por volta das sete e meia da noite que aconteceu o acidente. Era um 28 de abril de 1894, na localidade Oriente, que ainda não era, Mario Belo, próximo onde morava. O acidente foi registrado somente, em 15 de maio, num comunicado ao cartório de Macacos, e teria ocorrido no túnel Dois, da estação Mario Belo, em direção a Engenheiro Gurgel, hoje município de Vassouras. A causa do acidente: "Por baterem com a cabeça na ponte 2". Na foto o relatório dos acidentes do ano de 1894. Túnel 2, sim como consta na certidão civil de óbitos. Literalmente da noite para o dia a família ficou sem o arrimo seu arrimo. Que fazer?

No ano de 1894 ainda não havia previdência social, nem amparo para as viúvas e seus filhos, em caso de acidentes de trabalho; assim viviam de doações. A primeira lei da previdência dedicada aos funcionários da EF Central do Brasil passou a existir somente, em 192l, portanto não sabemos a real situação em que a família se encontrou após o falecimento de Emílio. No mesmo ano, Ana Maria e seus quatro filhos se mudam para Caxambu. O quinto ainda estava em sua barriga, e foi nascer na hidrópolis. Por quais razões a viúva e seus filhos se mudaram para Caxambu? Seria porque a cidade estava em ascensão e viram a facilidade de chegada a ela nos trilhos uma solução? Muitas perguntas, mas poucas respostas. Somente os fatos. A vida seguiu. Em Caxambu foram criados os filhos Izidra, João, Eurico e Emílio que posteriormente migraram em direção ao Rio de Janeiro, e lá faleceram, com exceção de Maria, que viveu e faleceu, em Caxambu, casou-se de primeiras núpcias com Salvador Y Contesti Soller, dando origem ao ramo dos Sollers. Mas esta já e outra história.

Izidra conheceu José Augusto Nogueira, com quem se casou, em 10 de fevereiro de 1912, na Igreja Matriz Nossa Senhora dos Remédios de Caxambu com a presença das testemunhas do coronel Martinho Lício, autoridade local, e Antonio João. Aqui Izidra adquire o sobrenome de "Luz Nogueira". Da união vieram dois filhos ao mundo: Alice Luz Nogueira dos Santos (1912-?); José Geraldo Nogueira (1916-?). Mas o destino mais uma vez mudou sua vida. José Augusto Nogueira faleceu,  em 20 de fevereiro de 1924, aos 42 anos de idade, vítima de... syphilis.

Assim a viúva Izidra conhece Adolpho, e se casaram, em 2 de maio de 1926, em Caxambu, tendo Angelo Morelli e Reynaldo Olavo Maciel como testemunhas. Em 27 março de 1927 eles já tinham se mudado de Caxambu, e estavam morando, em Guaratinguetá, data do nascimento de seu primeiro filho Adolfo Alves dos Santos, o Adolfinho. Maria Aparecida dos Santos nasceu em 2 de outubro de 1928; Aluízio Alves dos Santos, em 4 de fevereiro de 1933, e falecido em 2022, em São Lourenço, Minas Gerais; José Luiz dos Santos (1936-?); Helena dos Santos, ainda viva.

A saga da família continuava. Entre idas e vindas Adolpho adquire terras em Santa Branca, que ficou sob as aguas, após a construção da barragem, mas voltaram para Minas, São Lourenço, onde também tentou ser administrador de um hotel na cidade. Segundo Helena, o pai comprou literalmente gato por lebre. O hotel era velho, as roupas de cama rotas. O negócio não foi para frente. Mais uma vez a família muda para Guaratinguetá, onde também gerenciaram um hotel pensão... nela a família viveu uma grande tragédia, e que será contada no próximo texto.

Fonte:

A Província, de São Paulo, 16.3.1882.
O Estado de São Paulo, 25.07.1897
Jornal do Brasil, 24 1 1992,  Barrinha Estação Mario Belo
O Estado de São Paulo, 3.1. 1917.
Serra: Paracambi - uma junção que deu certo in Jornal do Brasil, 1, marco 2025.
MELLO Carvalho Pedro, Kreter Ana Cecília de Medeiros Nitzche  - in A economia do Café no século XIX.
ALEGRIO Leila Vilela, in Histórias não contadas da Familia Werneck - Século XIX
*Carlos Heitor Cony, 1996 (1)
Pessoa Junior, Cyro Diocleciano Ribeiro, in Estudo descritivo das estradas de ferro do Brasil, RJ, 1886.
Estrada de Ferro Central do Brazil. Relatório do anno de 1894, apresentado ao cidadão Geraldo Bibiano Serigo de Macedo da Fontoura Constalat. Ministro e Secretário de Estado dos Negócios da Indústria, Viação de Obras Públicas, pelo Coronel do Grupo de Estado Maior de 1a Classe Vespiano Gonçalves de Albuquerque e Silva. Diretor da mesma Estrada.

Foto: 
Foto do arquivo privado da familia Alves dos Santos.
Fernando Oliveira fone flickr.
Gravuras Carlos Linde , 1873.
Choque de trens 1892 e veo O Estado de sao paulo 6 2 1892.
Agradecimentos:
Agradecimentos a Marcos Vinicius e a tia Helena pelas preciosas informações publicadas neste blog.
Todas as fotos foram baixadas de vários sites da internet, muitas delas sem informações. Se alguém reivindicar sua autoria, serão removidas.
Nota: 
Tentei aqui contar o que ouvi com a maior fidelidade possível, respeitando a história pessoal de cada indivíduo. Não estamos fazendo qualquer julgamento de valor, pois as histórias teem que serem entendidas nos seus contextos histórico e familiar. 


domingo, 31 de maio de 2026

Eu, Solange Ayres, neta de 34 gerações de Brunilda, rainha do reino Visigoto, Espanha.

 


Eu, Solange Ayres, neta de 34a geração de Brunegilda (543-613), princesa do reino Visigoto, Espanha, casada com Sigiber I, von Austrasien (535-575), nascida em Toledo, Espanha, assassinada por motivos de brigas por sucessão do trono, disputas políticas, e divisão de territórios. 

Sim, batalhas sangrentas foram travadas na disputa de poder entre os reis, rainhas e seus descendentes. Para resumir, a minha avó de 34 grau faleceu de morte matada, torturada três dias, atada ao rabo de um cavado e arrastada até morrer. Fontes controversas contam que ela foi desmembrada por quatro cavalos! Uma morte atroz. Faleceu em 13 de outubro de 613, sendo seus restos incinerados, e depositados no sarcófago do monastério de San Martin, fundado por ela, em 602, em Autum, na França. Hoje repousam suas cinzas no Museu Rolin, em Avigon. Uau, que história! 
Tia Célia Ayres, e a senhora me disse que parente de 3a geração não era mais parente. Mais olha aí, eu tenho sangue azul! (risos), e a senhora também.

Fonte:
Toda a minha linha de parentesco encontra-se na árvore genealógica no site Familie Search.

domingo, 7 de dezembro de 2025

Óia o trem/ Primeira estação de trem de Caxambu




Foram tempos que abaixo da estação de trem tinha um milharal e o bairro Santa Tereza não existia. Esta parte abaixo na foto hoje esta dentro da área do Parque das Águas e onde situa o lago. Tempo... tempo... tempo.

A Estação de Caxambu foi inaugurada em 1891, um prolongamento da linha que vinha de Soledade, trecho aberto pela Cia Viação Férrea do Sapucahy que ligava Cristina a Caxambu. O prolongamento até Baependi foi inaugurado em 1895, e em 1910, ligada a Barra do Piraí, constituindo a linha da Barra. Inicialmente estação funcionava em um barracão improvisado de madeira, posteriormente foi construída   em alvenaria. Infelizmente o prédio da foto, foi demolido, em 1939, e reconstruída, como o prédio de hoje.

Prédio antigo da Estação Ferroviária de Caxambu.

Predio atual da antiga Estação Ferroviária de Caxambu, construído em 1939.

Fonte:
Estações Ferroviárias do Brasil

domingo, 6 de abril de 2025

João José de Lima, o mais antigo ancestral da família Ayres/Lima/ Assinatura

 


Escarafunchando e achando.
Aqui a assinatura do mais antigo ancestral da familia Ayres/Lima num documento da cidade de Pouso Alto, do ano de 1800.

Fonte: Familie Search

sábado, 15 de fevereiro de 2025

Prédio do Isolamento/ "Caxambu um dos focos de propagação da lepra no mundo inteiro"/A polêmica crise sobre os casos lepra na cidade de Caxambu/Uma tentativa de resgate da história do prédio do Isolamento


Belizário Pena sendo retratado

Quando, em 1874, o médico e botânico norueguês Gerhard Henrik Armauer Hansen confirma que o causador da lepra era o Mycobacterium leprae, o estigma já havia se consolidado no imaginário popular. Acreditava-se que a doença era castigo divino, ou hereditariedade. Pela impossibilidade de cultivo em laboratório do agente causador, as pesquisadores tinham dificuldade de saber a forma exata de sua transmissão, ou do contágio, que supunham ser por mosquitos, como na febre amarela. A medicação veio somente na década de 1940, com o aparecimento das sulfonas. Na incerteza era recomendado o isolamento compulsório, oque causou traumas irreversíveis nas famílias, entes queridos separados de seus familiares, filhos criados em orfanatos, estigmatização. Não por acaso os prédios/hospitais eram chamados de "Isolamento". Caxambu teve o seu.

Ironias da história

Mas a história da povoação, que tinha o nome de "Águas Virtuosas", ou "milagrosas", está intrinsecamente ligada à doença, sim, sim à lepra. Ironicamente, os doentes acometidos da doença de Lázaro, foram quem melhor contribuíram para difundir o poder curativo das águas. Eles chegaram a acampar na área, hoje Parque das Águas, na busca da cura de suas feridas, sendo banidos, em 1847, por ordem judicial, tendo suas mais de 40 choupanas em volta dos, na época poços de água, queimadas. O futuro Parque da Águas de Caxambu assim ganhou fama muitos anos antes da sua Alteza real, a princesa Izabel fazer o uso de nossas águas. Muitas décadas se passaram e o mal de Lázaro ainda castigava o Brasil.

Embora presente a legislação sanitária de 1920, o isolamento dos doentes não foi posto em prática  por várias razões. A ausência de recursos e a falta ações coordenadas pelos estados, dificultavam o combate a doença. Assim, as providencias necessárias não foram tomadas para a separação social dos doentes, e abrigar os "isolados para sempre", uma política higienista praticada, antes de se ter conhecimento da disseminação da doença, bem como medicamento para combatê-la. 

Belizário Pena e a grande polêmica sobre os casos de lepra em Caxambu, no ano de 1926

O título do artigo citado publicado na revista carioca Brasil Contemporâneo de dezembro de 1926, onde Belisário Pena (1868-1939), médico sanitarista dava uma entrevista e o título estampava: "Caxambu um dos maiores focos de propagação da lepra do mundo inteiro". O entrevero e maus entendimentos foram tão grandes que Belizário foi obrigado a se retratar. 

Belisário cita o trabalho de doutorado do Dr Gumercindo do Couto e Silva sobre a lepra em Minas Gerais. Segundo ele era uma "immensa calamidade", e quem teria viajado o país podia avaliar "o espantoso desenvolvimento da terrível modéstia que assola o território e parece querer tragar a população num terrível sorvedouro". Esta era um a afirmativa sem bases concretas, uma vez que não havia estatísticas. E perguntava: - Por que é o sul de Minas a região mais castigada do Estado? E lá vinha uma explicação, que já tinha sido feito parte da história da hidrópolis Caxambu: - "Por ser ela onde se encontram quase todas as estanâncias de águas minerais, que foram sempre verdadeiros chamarizes de leprosos, esperançosos na cura ou melhora dos seus soffrimentos, não só as thermaes, de águas sulfurosas, para banhos, como as alcalinos-gasozas para uso interno". E continua: "Não há uma só dessas localidades, onde não seja avultado o número de leprosos vivendo, uns miseravelmente de esposas; outros, mais ou menos remediados, alguns quasi abastados, fazendeiros, sitiantes, criadores, fabricantes de queijos de maneira, fornecedores de leite, da carne de porco, toucinho e de produtos da pequena lavouras, exercendo outros ofícios de sapateiros, pintores, ferreiros, carpinteiros careiros, tropeiros, etc".

Em janeiro de 1927, o jornal baependiense O Patriota, bem como a Gazeta de Caxambu esbravejaram contra o médico. Eles saíram em defesa da economia local, já que o artigo dizia que mãos contaminadas estariam manipulando a confecção de queijos, doces e biscoitos "que saem de suas mãos", além de ocuparem os hotéis, casa de banhos, oque estaria facilitando a transmissão da doença. Ele comparava as estatísticas dos contaminados de São Paulo, as porcentagens populacionais, chegando a conclusão que somente a cidade de Caxambu teria 4.000 leprosos! Imaginem que a população da cidade, contada para o início da década de 1920 era de 5.000 habitantes. Isto é, a maioria estaria contaminada!

A notícia caiu como uma bomba no colo dos empreendores locais, dos hoteleiros. Logo quando Caxambu acabava ter recebido as reformas urbanas, e se projetava como uma das cidades mais belas e aprazíveis para os aquáticos. Era a catástrofe!

As afirmações eram baseadas em "provavelmente". "Enfim, as estâncias de águas minerais brasileiras todas sem exceção, tanto as de Minas, como as de S. Paulo e de Goyaz, tem sido provavelmente a origem de numerosos casos de lepra, sem explicação, e o ponto de partida da endemicidade o terrível mal em localidades, onde elle não existia". 

Belizário acusava o governo de Minas não ter interesse em tratar o caso como saúde pública e acusava  de "tolerância criminosa" por parte do poder público, e pedia que o governo fizesse um recenseamento "honesto" nos municípios de Passa Quatro, Pouso Alto, São Lourenço, Soledade, Lambary, Cambuquira, Caxambu, Baependy e Poços de Caldas, e que segundo ele, não seria de se espantar que "só nesses municípios encontrar 2.000 leprosos, senão ultrapassar esse número. (...) Não me surpreenderá que a cifra de leprosos de Minas atinja a mais de 11.000 casos portadores do mal".

Qualquer menção de insalubridade era motivo para espantar os aquáticos, e afetar a economia da povoação e assim Costa Guedes, comerciante e benemérito da cidade, já no ano de 1891, declarava que Caxambu estava livre da varíola, uma das mais temidas  doenças. As publicações eram feitas nos jornais da corte, Rio de Janeiro. A palavra de Costa Guedes era pregava com prego. Valia. Agora era vez de Rui Guedes, que o fazia no O Caxambuense.

Colonônia Santa Izabel/Betim

Em 1936 a cidade não tinha local para abrigar os doentes acometidos de lepra, já que a política era de "isolamento" dos pacientes. Então o chefe do sub-posto de Higiene de Caxambu, Dr Lysandro Guimarães escreve um comunicado ao prefeito, assegurando que Caxambu estava completamente livre da doença, e que em cooperação com a prefeitura, os doentes se encontravam internados na Colônia de Santa Isabel, em Betim. Foi a primeira colônia construída em minas gerais com o objetivo de abrigar e isolar pessoas diagnósticadas com hanseníase, que na década de 1930 chegou a abrigar quase 4.000 pessoas, dentre elas caxambuenses que chegavam de trens. Inaugurada em 23 de dezembro de 1931 a Colônia Santa Izabel em Betim, começou a receber os primeiros doentes, em 1932.  A colônia se achava próxima a estação da estrada de ferro. As prefeituras tinham que enviar verbas para a instituição para, praticamente,  ficarem "livres" de seus doentes. Assim também foi feito com os pacientes de Caxambú. Deles nada sabemos.

A construção do prédio do Isolamento da cidade de Caxambu

Trem de doido/Estação final: Barbacena


O local já foi sede de escola para alfabetização de adultos, no início da década de 1960, onde Graça Pereira trabalhou, por pouco tempo como professora denominada Escola Cabo Luiz de Queiroz. Um relato mais antigo, de 1956, vem de Vander Silveira, seu marido. Wander menino costumava ir para para aquela parte da cidade para "escorregar na terra", e lembra que o prédio tinha grades. Ele afirma que ali era, praticamente, o "centro de triagem", uma primeira estação  para enviar doentes com problemas de saúde mental em direção ao Hospital de Barbacena. A expressão "trem de doido" não é uma expressão qualquer da mineirice, mas sim triste realidade. Os trens levavam os pacientes psiquiátricos e paravam em Barbacena para, literalmente, para "descarregar" os pacientes, e assim chamados de trem de doido, expressão que ficou na memória e virou expressão popular.


Escavando as camadas mais profundas da história deste prédio, soubemos que ali, nos seus primórdios, provavelmente logo após sua construção, que aconteceu em 1937, era estação de isolamento de fato, para pessoas portadoras de alguma doença contagiosa.


Sua construção iniciou-se em 1937, na administração do prefeito nomeado pelo interventor Benedito Valadares, no período da Era Vargas, o engenheiro Fabio Vieira Marques que ficou à frente da prefeitura de 1934 a 1939. Juntamente com o prédio do Isolamento, foi erguido o Mercado e concluído o calçamento e arborização da Avenida Camilo Soares.  Estávamos na era Vargas e o Estado Novo, e os projetos estavam no contexto das medidas para manter o controle sanitário, e muito criticado ao longo de sua existência. Entre 1920 e 1950 foram inaugurados quarenta asilos-colônia em todo o Brasil. 80% deles foram criados no governo Getulio Vargas. 


Predio ocupado pela prefeitura municipal

Assim chegamos ao final. O prédio ainda esta lá, agora com outras características urbanas, e hoje abriga uma creche administrada pelo poder municipal. Com as reformas o imponente prédio perdeu seu estilo original. Eu ainda me lembro de quando ia buscar leite no seu Zé Magana, que morava em frente daquele prédio pintado de amarelo, esquecido naquele canto da cidade. Ele ainda esta na minha memória...


Foto:
Google
Fonte:
CUNHA, Vivian da Silva in Isolamento Compulsório em questão. Políticas de combate à lepra no Brasil (1920-1941), RJ, 2005

FILHO, Ronaldo Manzi, in Hospital Colônia de Barbacena: Um passado que insiste em se repetir, Revista Ideação, RJ, 2019.

Correio da Manhã (RJ) 1940 a 1949

O Radical (RJ) 1932 1943

O Imperial (RJ) 1935 a 1939

O Jornal (RJ) 1920 a 1929

Diário da Manhã (ES) 1908 a 1926

A Noite (RJ) 1920 a 1929

Agradecimentos:

A Vander Pereira e Graça Pereira Silveira pelas suas, nossas memórias.

Julio Jeha, na eternidade

terça-feira, 11 de fevereiro de 2025

Rufino Alves de Lima-neto/ Um baependiense em direção ao sul do país



Ah, recomeçamos com as nossas lembranças. A parentada vai aumentando e vamos acrescentando gente, fotografias, lembranças...

Rufino, nome dado em homenagem ao seu avô : Rufino José de Lima  casado com Rita Carolina de Castro, nascido no bairro Piracicaba, zona rural de Baependi. O avô era filho de João José de Lima e Silva e Joana Thereza Ribeiro de Lima, que foram avistados no sensu da cidade de Pouso Alto no ano de 1838.  Sim, seu João e dona Joana Thereza eram os mais antigos ancestrais da família Ayres, originada em Caxambu através do casamento de Maria de Lima, sua filha e José Fernandes Ayres conhecido Trançador-velho. Eram. Encontrei os bisavós de Rufino neto, João Jose de Lima e María Joana de Gouveia num testamento, em... Pouso Alto. (Confiram aqui o testamento com os nomes e datas).

Sua avó paterna Carolina de Castro  era neta de 5a geração do Capitão Mor Tomé Rodrigues Nogueira do Ó, (1674-1741), casado com Maria Leme do Prado (1686-1756), considerado o fundador da cidade de Baependi. Por vários casamentos formaram-se ramos e sub ramos das famílias, todos pertencentes aos Leme do Prado, Nogueiras, Bicudos vindos da Ilha da Madeira, Portugal. E coisa antiga que não acaba mais!

Sepultamento do pai de Rufino, José Ferreira Alves, Monte Belo,
Minas Gerais,1951

Voltemos ao nosso Rufino. Rufino era filho de José Ferreira Alves Junior (1873-1951), nascido em Areado e casado com Maria Rita Clementina (1882-1894), conhecida como Cota. Eles se casaram no limiar do século em Nova Resende, em 21 de fevereiro de 1900, e da união nasceram:

João Alves Ferreira (1903-1964);
José Alves Fortunado (1911-1983);
RUFINO ALVES DE LIMA (1920-1980);
Henriqueta Olimpia de Jesus (?-1978);
Juvenal Alves Ferreira (?-2008);
Antonio Ferreira (?-?);
Julia Orestes de Jesus (ß-?);
Maria Angusta da Conceição (?-?);
Rita Egídia de Melo (?-?).

Seu pai viveu e faleceu no bairro da Grama, na localidade denominada Juéria, distrito de Monte Belo, Minas Gerais. Encontramos uma foto de seu sepultamento. E que foto!


Casa da família de Rufino, no bairro Grama, na localidade de Juréia,
distrito de Monte Belo, Minas Gerais

Como podemos explicar a dispersão da família? Um dos argumentos foi migração da família se deu no contexto da expansão das lavouras de cafe pelo sul de minas junto com a expansão da malha ferroviária. Na localidade de Juréia, onde a família tinha casa (foto), antes era conhecida por Tuiuti, e entre 1938 a 1941 viveu uma época de desenvolvimento devido a conhecida Maria Fumaça, locomotiva movida a lenha, que fazia o transporte mercadorias, animais e gente de, e para a região de São Paulo. O município, cuja atividade econômica é ainda baseada agropecuária com a produção de queijos, doces, se situava exatamente do entroncamento de duas ferrovias, a linha Cruzeiro-Juréia, Estrada de Ferro Minas e Rio, e da Rede Mineira de Aviação, e o Ramal de Juréia, da Companhia Mogiana de Estrada de Ferro, ambas responsáveis pelo escoamento da produção leiteira, cafeeira e agrícola da região, e o transporte de passageiros entre os estados de São Paulo e Minas Gerais. E foi exatamente para lá que a família, que foi originada em Baependi, se mudou buscando novas possibilidades de sobreviver. Prova para os nossos argumentos é a foto da casa da família de Rufino neto, na Juréia, uma típica casa de fazenda, com curral apetrechos para o cultivo do campo. 

Indo mais para o sul...

Rufino e mais dois de seus irmãos foram ainda mais para o sul, em direção ao estado do Paraná, tambem seguindo a expansao do cultivo do cafe, nas conhecidas „terras roxas“, ideal para o cultivo da rubiacia. Ele faleceu aos 60 anos de idade em consequência de um tumor cerebral, seguida da parada cardíaca, no hospital Nossa Senhora das Graças, em Mamburé, distrito de Curitiba, Paraná, em 3 de janeiro de 1980, igualmente com seu irmãos, Jose Goncalves da Costa, falecido em Barbosa Ferraz, Parana;  José Alves Fortunato, falecido em Campo Mourao, no Paraná, assim como seu tio Benjamim José de Lima, profissão lavrador, que faleceu em Congonhinhas, também no estado do Paraná. 
Rufino foi casado Luiza e ainda não sabemos se deixou descendência. Se não fosse o Família Search, não teríamos podido recuperar as histórias

Fotos:

Arquivo privado da família de Rufino Alves de Lima, publicadas no Familie Search
Agradecimentos:
Julio Jeha, sempre, na eternidade.

sábado, 8 de fevereiro de 2025

Quase chegando a Cabral! Descobertas sensacionais dos ancestrais da família Ayres!




Para a minha alegria e surpresa achei mais ancestrais da família Ayres na localidade de Pouso Alto. O sensu da povoação, datado de 1839, nos indicou o caminho. João José de Lima e Silva e sua família constaram como moradores do quarteirão 2, fogo 17.  Assim eram os... endereços da época. 

Bem, depois muitas buscas, o família Search nos ajudou. Percorrendo os arquivos paroquiais de Pouso Alto, achei! Tinha perdido a esperança de encontrar qualquer pista de nossa família, quando constatei com tristeza, na época de minhas pesquisas iniciais, que a igreja Matriz de Pouso havia sofrido um terrível incêndio e os documentos paroquiais viraram cinza.

Mas... num testamento achado no dia 2 de fevereiro de 2025, mudou o curso de nossa história. Maria Antonia de Gouveia deixou seus bens para... João Jose de Lima e Silva, seu único filho. Também ficamos sabendo que ela foi casada com João Jose de Lima, que na data de 1842, já era falecido, isto é, pai de João José de Lima e Silva.

Os antepassados Maria Antonia e Gouveia já moraram em Pouso Alto desde 1799, data de falecimento de seu pai, Luis Soares da Costa, casado com Joana Rodrigues de Gouveia.  E… voltando aos arquivos do censu de Pouso Alto de 1838, a confirmação: Maria Antonia Gouveia, mãe de João Jose de Lima e Silva morava próxima do filho. Ela tinha a companhia de Manoel, 40 anos, e outro Manoel, escravo forro de 58 anos, e mais 16 escravos. Um outro Manoel, seu sobrinho, herdou parte da herança deixada por ela, junto com seu único filho João José de Lima e Silva. Acredito que a escravaria do pai foi passada de herança para o filho e... Justinianna Maria da Conceição, minha avó de 3° grau, escrava poderia estar no seu plantel. Aqui a certidão de nascimento de Camilo, datada de 1858, filho de Justinianna, escrita erroneamente como "Justina", escrava de... João José de Lima. Nota: tia Célia Ayres de Lima/Araujo,  nossa biblioteca familiar, conheceu o ... "tio Camilo". Ah, nossas conversas, nossas lembranças.

Certidão de batismo de Camilo, filho de Justinianna, minha avó de 3° grau,
mãe de Sabina Maria da Conceição, minha bisavó, mãe de minha avó Gervásia Ayres de Lima 
e mãe José Ayres, meu pai.

Tem mais! Depois do achado, as pesquisas continuaram e encontrei o óbito de João José de Lima, o pai de João José de Lima e Silva, que faleceu em 30 de julho de 1838, em Pouso Alto.

Assim sendo, os bisavós de nosso mais antigo ancestral, até agora João José de Lima e Silva, por parte materna, isto é, de dona Maria Antonia de Gouveia , que perdeu o sobrenome "Gouveia" adotou o "Lima" do marido, são originários de São Simão de Litém (São Simão), Leiria, Portugal.

Ah, estamos quase chegando ao Cabral! Sério! Os meus antepassados pelo lado de vó Gervásia datam de... 1550. Quase lá!

Arquivos:
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Agradecimentos:
Em memória a Julio Jeha. Ele diria: Bravo, você chegou de fato ao Cabral!

segunda-feira, 13 de janeiro de 2025

Conflito no Ermelino Matarazzo/Francisco Matias Silva Ayres , trineto de José Fernandes Ayres é assassinado em São Paulo


Uma violenta cena de sangue verificou-se sábado cerca de umas 20:30 horas em frente ao prédio 165 da rua Dois, na localidade de Ermelino Matarazzo em São Paulo...

E lá vamos escrevendo a biografia dos parentes antigos. Hoje vamos contar a história de um assassinato no bairro Ermelino Matarazzo, em São Paulo acontecido no ano de 1961 envolvendo Francisco Martins Silva/Ayres . Ele foi morto à facadas, segundo o jornal Diário da Noite, por uma rixa antiga, que ocasionou uma violenta contenda de tapas e pontapés, sendo Matias esfaqueado na barriga. Quando a briga foi apartada pelos policiais, o corpo de Matias estava lá estirado no chão. Cenas de sangue! Gravemente ferido, foi socorrido no posto de saúde do Tatuapé, vindo a óbito, quando deu entrada na sala de curativos. Foi uma curta carreira como motorista falecer aos 23 anos de idade. Os outros participantes também foram parar na unidade de atendimento e liberados, sendo  encaminhados para o plantão policial da Zona Leste. Interrogados Luiz Batista Lima, Davi Menachos, Orbelio Matias Ramos e Manoel Domingos Menachos negaram a participação no homicídio, apontando o autor dos ferimentos fatais um caminhoneiro foragido da cena do crime. Não podemos saber hoje quais os motivos da briga que causou a morte de Francisco, e nem se o culpados foram punidos. 

Quem era Francisco?

Francisco Matias da Silva Ayres era filho de Izolina Matias e Francisco Tomé da Silva filho, e neto  de Maria Ayres de Lima , que era filha de José Fernandes Ayres, o Trancador-pai que hoje é nome de bairro na cidade de Caxambu, portanto trineto do velho Trançador. A minha tia avó Mariinha, como era chamada, a partir da união com o pousoaltense Francisco Thomé Ribeiro da Silva Filho , perdeu o Ayres, e assim como os filhos passou a assinar Silva. De uma procura ocasional acabou virando pesquisa e história. A certidão de óbito de Francisco me surpreendeu, e a curiosidade coçou aqui os meus dedos para procurar mais informações sobre o ocorrido. E não e que achei? Fica aí a quem interessar.

Fonte:
Diário da Noite (SP) 1927 a 1980.
Agradecimentos na eternidade a Julio Jeha.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2024

Julio Cesar Jeha (1954-2024)/ O último texto não corrigido

 


É com imenso pesar que noticiamos a partida de Julio Jeha  no dia 8 de dezembro de 2024, em Belo Horizonte, grande colaborador do blog Família Ayres, histórias e memórias da cidade de Caxambu e Baependi. Julio era caxambuense, professor aposentado de literatura americana pela UFMG,  filho do Cesar Jeha (1925-1992) e Marina Levenhagen de Mello (1919-); neto de Domingos Gonçalves de Mello (1889-1961), conhecido como Mingote e Henriqueta Levenhagen de Mello (1889-1970), fundadores do Hotel Glória, hoje Glória Resort de Caxambu. Seus antepassados fizeram parte da história da cidade quando construíram o hotel. Nele aconteceram inúmeros eventos políticos e culturais de vulto para a cidade. 

Das memórias visuais e lembranças que tenho de Julio de Caxambu, aliás era conhecido entre os jovens da época por "Julião" pelo seu tamanho, vivia passeando de carro pra cima e para baixo, em direção à Baependi, nas tardes de domingo, dirigindo um veraneio, carro chiquérrimo, naqueles tempos. 

Em tempos digitais nos descobrimos virtualmente, e desde então não paramos de nos comunicar, aliás, quase diariamente. Inclusive nos encontramos aquí na Alemanha, e fomos de visita à cidade de Aachen. Eu vivia insistindo  para que Julio recuperasse a monumental história do Hotel Glória, mas infelizmente não deu tempo, agora não poderá mais ser possível, pois o nosso arquivo se foi. Ao seu companheiro de vida Mauricio Dias Correia e sua mãe, dona Marina Jeha meus, nossos sentimentos.
Julio, fica prometido, brindaremos com uma Taittinger lá na eternidade quando o tempo chegar.

Bodas de ouro de Domingos Gonçalves de Mello e Henriqueta Levenhagen




Foto:
Arquivo privado de Julio Jeha e Mauricio Dias Correia



domingo, 17 de novembro de 2024

Chácara das Uvas no roteiro turístico da cidade de Caxambu na década de 1950/ Só saudades


 A minha querida prima de segundo grau, Jacqueline Diorio, filha de Sylvio Ayres Diorio, o Sylvinho, já  falecido, me enviou está preciosidade. A saudade mata a gente.

domingo, 10 de novembro de 2024

José Joaquim de Sousa Pacheco/ um veterano da guerra do Paraguai sepultado em Caxambu



A postagem poderia ser iniciada com a frase: "Antonio Claret, um detetive no cemitério", por ter achado tantos pedaços de nossa história espalhados pelas lápides. O penúltimo foi o jazigo de Benedito Alves de Belém, outro veterano da Guerra do Paraguai, um pernambucano que faleceu em Caxambu, aos 100 anos de idade. Nós demos a ele dignidade: seu túmulo foi restaurado à expensas de Claret, e escrevemos sua história. Agora essa. Ai Claret!

Sim, sim, um português foi defender a bandeira do Brasil na contenda da Tríplice Aliança. Joaquim José de Souza Pacheco foi para guerra juntamente com o companheiro Antonio José de Castilho Junior, o avô  do padre Castilho da cidade de Caxambu. Ambos eram muito jovens quando ingressaram no exército de Voluntários de Pátria indo combater na Guerra do Paraguai (1865-1870). Sabemos que Castilho participou de combates, foi ferido, voltou como herói, e por um decreto imperial conseguiu o posto de fiscal da cidade de Baependi, já Pacheco construiu sua carreira como comerciante na cidade de Conceição do Rio Verde, e veio a falecer em Caxambu onde foi sepultado. 

Igreja de São Martinho de Recezinhos, Penafiel, Portugal, construída em 1568,
onde Joaquim José Souza Pacheco foi batizado, em 1846.

A guerra e os portugueses na guerra

A guerra do Paraguai foi o maior conflito armado da América do sul. Seu início se deu quando Solano Lopes na sua visão expansionista, invadiu o Mato Grosso e a Argentina. O império do Brasil e as repúblicas da Argentina e Uruguai se uniram para enfrentar o Paraguai. Ela teve início em fins de 1864 e terminou, em 1870, com a derrota devastadora para o Paraguai, com um custo altíssimo de civis mortos, entre 50 a 90% da população masculina. O Brasil não saiu melhor, pois endividou-se com os bancos ingleses, oque causou um grande desgaste político e acelerou da queda da monarquia. A Argentina foi a que mais levou vantagens, conseguindo a ampliação de seu território. O pequeno Uruguai, saiu como entrou, sem nada ganhar além das vidas perdidas. 

Devemos lembrar que o Conde D`Eu, consorte da Princesa Isabel, personagens do império, e que em Caxambu foram eternizados com nomes de fontes do Parque das Águas, estava à frente das tropas brasileiras, quando assumiu o comando, substituindo Caxias, praticamente no último ano da guerra, em fevereiro de 1869, e foi o responsável por escrever um dos mais vergonhosos capítulos da história do império. Na Batalha de Acosta Nü, acontecida em agosto de 1869, 3.500 crianças, recrutadas como soldados pelo exército paraguaio, foram cachinadas por 20 mil soldados. Sem palavras.

Até então a campanha militar dos portugueses na Guerra do Paraguai é ainda desconhecida. Portugal tentava manter-se "neutro", assim como todos os países europeus, posição que perdurou durante todo o conflito. Documentações diplomáticas comprovam a intervenção do governo brasileiro em convocar cidadãos portugueses para que acompanhassem os militares no Brasil. Passados o ardor patriótico dos primeiros meses da guerra da convocação voluntária de brasileiros para ingressarem nos batalhões da Guarda Nacional, e de Voluntários da Pátria, muitos cidadãos portugueses foram encorajados a se engajarem, voluntariamente, com o objetivo a troco de dinheiro, substituindo brasileiros que não desejavam ir para a guerra. Assim de alguma forma José Joaquim de Souza Pacheco foi para a guerra, e ainda bem que voltou, senão não estaríamos aqui contando as histórias.

De volta à Portugal/ A genealogia dos Souzas e Pachecos


Recezinhos de São Martinho, Penafiel, Portugal

Perambulei (virtualmente) muitos dias pelas ruas da velha São Martinho de Penafiel, antigo Recezinhos, na província Entre Douro e Minho, próximo a cidade do Porto, norte de Portugal, local de nascimento de José Joaquim de Souza Pacheco. Pensei encontrar a pequena localidade no estado que Pacheco a deixou há quase 165 anos, quando tudo ainda estava nos primórdios, paisagens bucólicas, casas antigas, alguma lembrança do passado... ledo engano! Hoje a Recezinhos de São Martinho tem não somente ruínas (foto), mas casas chiques, dizendo muito da situação econômica da região que até hoje é ainda baseada na agricultura, e principalmente no cultivo de uvas.

Joaquim José de Souza Pacheco nasceu 28 de março  de 1845,  e foi batizado em 7 de março  de 1846, na igreja de Recezinhos (foto). Ele era filho de Antonio Souza Pacheco e Maria Rosa Machado. Na localidade há um grande número de sobrenomes Souza Pacheco desde os anos de 1700. Para aquelas bandas há até um rio chamado Souza. E para mergulharmos na genealogia, Souza é topônimo relacionado às Terras de Sousa e as famílias que habitavam às margens do rio Souza, do latim Saxa, seixos: pedras. O primeiro a ter o sobrenome, segundo genealogistas, o nobre Dom Egas Gomes de Sousa, um nobre militar nascido em 1035. Assim a localidade se chamou Terras de Souza, na freguesia de Novelas, em Penafiel, perto de onde nasceu o nosso veterano. Já o Pacheco vem do latim Pacieco significa "aquele que vem de Espanha", e teria surgido na Península Ibérica. A primeira pessoa registrada com o sobrenome de Pacheco, em Portugal, teria sido Fernão Rodrigues Pacheco. Outra personalidade histórica foi Duarte Pacheco Pereira (1460-1533), que participou das negociações do Tratado de Tordesilhas, assinado em  22 abril de 1529, entre o a coroa portuguesa e espanhola, para dividir as terras "descobertas e por descobrir", resultantes da viagem de Cristóvão Colombo. Chega! Voltemos ao nosso Pacheco.

Porque tanto portugueses resolveram partir para a colônia? Uma de muitas explicações foi a limitação do desenvolvimento econômico, de estruturas agrárias tradicionais de Portugal. Na falta de industrialização que pudesse absorver a mão de obra, muitos foram tentar sua sorte além-mares. O Brasil exercia um atração para os portugueses. Um mundo, que apesar de desconhecido atraía gente de toda a idade. Minas Gerais, particularmente, atraiu os que estavam a procura de ouro e fortuna.

Em alguma data que ainda não pudemos identificar, Pacheco imigrou para, ainda colônia Brasil, vindo a residir primeiramente em Baependi, depois na povoação de Contendas, hoje Conceição do Rio Verde. Na ocasião eclodia a guerra do Paraguai. Não sabemos também se Pacheco foi convocado, ou se apresentou voluntariamente para compor o exército dos Voluntários da Pátria na Guerra. Ele fazia parte do exército da Guarda Nacional, e no decorrer de sua carreira, obteve a patente de "alferes" e mais tarde a de "major".


Em 13 de junho de de 1873, três anos após o fim da guerra, casa-se no altar privado de Antonio José de Seixas, seu sogro, em 13 de junho de 1873, em Baependi com Silvéria Candida de Seixas, conhecida como Tuca, tendo como testemunhas José de Seixas Batista e Zeferino José da Motta. Da união nasceram: Maria Pacheco (1874-?); Antonio Pacheco (1875-?), Joaquim Pacheco (1876-?), Augusto de Souza Pacheco (1877-?); Ovidio de Souza Pacheco (1883-?9 Alzira Seixas Pacheco (1883); Cincinato de Souza Pacheco (1885-?). Eurico de Souza Pacheco casado com Adolphina de Souza Pacheco (batismo 1911 menina Sylveria).Teodomiro de Souza Pacheco . (?-1950). 

Em 1874 aparece como "negociantes de fazendas, ferragens, armarinho, etc" no Almanak Sul Mineiro de Conceição do Rio Verde com o nome da razão social "Seixas Pereira e Pacheco". Era a oportunidade que o português teve de começar a vida nos negócios com a ajuda da família de sua esposa.

Contendas/ justificando o nome

Seguimos algumas pistas de sua residência em Conceição. Em 1883 um fiscal da cidade comunica à câmara de Baependi, a qual a povoação estava subordinada, por uma denuncia anônima, que o Pacheco teria fechado um terreno à margem do Rio verde, que ficava entre a sua horta, e um terreno do logradouro público. O fiscal solicitava a comissão informar a Pacheco para  que a contenda se resolvesse "seja tudo de harmonia com o direito". O caso, ou a "contenda" justifica o nome da cidade. Em 1758 o lugar foi denominado Contendas, exatamente devido as brigas entre os fazendeiros pela posse de terras. Posteriormente passou a chamar Águas de Contendas, e em 1948, o distrito passou a pertencer a Conceição do Rio Verde.  Pacheco então honrou a tradição. 

Almanak Sul Mineiro, 1883/Conceição do Rio Verde
Não só de contendas vivia Conceição. Além de ser "homem de negócios", com os títulos militares, Pacheco era uma autoridade na cidade. Ele tinha a patente Alferes da Guarda Nacional, e posteriormente foi promovido a Major pela sua participação no Exercito de Voluntários da Pátria. Pacheco era exaltado pela suas "brilhantes qualidades cívicas que o exornão  o seo carácter de cidadão de uma Patria Livre, a quem já prestou. V. S. valiosos serviços nos campos memoráveis do Paraguay". Ele auxiliava a justiça pública no serviço de segurança da pequena povoação. Em 1883 deu apoio ao segundo cadete Nicolao Antonio de Tassara de Padua, quando descobriam o autor do roubo feito por José Antonio de Campos, na igreja Matriz e o levaram para prisão.

Joaquim José de Souza Pacheco na década de 1880 figurava no Almanak Sul Mineiro como comerciante na cidade de Conceição de Rio Verde. Eram os famosos armarinhos onde eram vendidos "fazendas" tecidos, bem como produtos alimentícios. O sal era produto de destaque pra o rebanho de bovinos, e a carne produzida era destinada aos mercados do Rio de Janeiro. Em 1882 fez um requerimento à câmara de Baependi pedindo revisão dos pesos e medidas para a cobrança de impostos. Como negociante solicita a reformulação dos pesos e medidas como forma de cálculo dos impostos. Na época as unidades eram de varas, covados, balança e marcos, que caíram em desuso pela reforma. 

Almanack Sul Mineiro, 1884/Conceição do Rio Verde
Em 1883 arrematou serviços na cidade, aprovados pela câmara de Baependi. Isto queria dizer que ele prestava serviços de manutenção de água, luz, logradouros públicos, consertos da ponte sobre o rio  Verde, que foi várias vezes destruída por enchentes. Como era comum, investidores locais executavam os serviços, a serem reembolsados, posteriormente, pelos cofres da Província. Reconhecido como veterano da guerra, solicita Pacheco, em 1883, sua inscrição eleitoral, em Conceição, o que lhe daria direito de participar das eleições. Poderia ser eleitor somente aqueles que tivesse posses financeiras, ou no caso dele, patente militar, mas houve a imposição  de  que se naturalizasse, oque seria "um processo sumário", já que fora oficial do exército dos Voluntários da Pátria. 

Estrada Minas -Rio/ Estação de Contendas (Conceição do Rio Verde)



No dia 23 de junho de 1883 chega bufando o trem de lastro à Conceição do Rio Verde. A locomotivas Buarque de Macedo n° 8, em homenagem a Manuel Buarque de Macedo, ministro da Agricultura do Império, e seus 3 vagões de passageiros eram esperados ao som da banda de música e mais 3.000 pessoas que compareceram ao evento. O percurso de Cruzeiro até Três Corações do Rio Verde tinha uma extensão de 170 km e o maquinário correu numa média de 52 km por hora. Estava presente  o engenheiro chefe da estrada sr. Staley, bem como todas autoridades politicas da corte, Cruzeiro e claro, Pacheco que era o secretário da comissão da organização do acontecimento histórico para a cidade. Não faltou neste dia o baile no final na casa do sr. Barbosa, o anfitrião da festa, com comes e bebes.

Em 1900 Pacheco tinha seu título de major e residia em Caxambu, pois achamos diversos registros paroquiais que comprovam sua estada definitiva na cidade.

Destacamos dois de seus filhos: Antonio de Souza Pacheco também seguiu carreira militar, capitão do exercito em 1919. Ele foi casado com Alcina Azambuja (1902), em Santa Vitoria do Palmar, Rio Grande do Sul, e faleceu na cidade de  Porto Alegre, Rio Grande do Sul, em 16 de dezembro de 1944, e Theodomiro Souza Pacheco, casado com Maria Faria de Pacheco. Theodomiro ingressou na faculdade de Direito de São Paulo cursando de 1911 a 1915, com locação de grau em dezembro de 1916. Exerceu a advocacia até 1950. Faleceu em São Paulo em 30 de julho de 1950.


Joaquim José de Souza Pacheco faleceu em 1908, às quatro horas da manhã, em Caxambu, aos 56 anos de idade, e foi sepultado no Cemitério da Paróquia de Nossa Senhora dos Remédios. Pacheco deixou grande descendência espalhada por Minas Gerais, São Paulo e Rio Grande do Sul. Muitos de seus ancestrais ainda vivem em Portugal.

Fonte:
O Baependiano O Patriota (MG)
Diário de Minas (MG) 1866 a 1875.
A Actualidade: órgão do Partido Liberal (MG) 1878 a 1881.
Jaceguai, Artur (Almirante), in Reminiscencias da Guerra do Paraguai. Biblioteca do Senado.
Diário de Minas (1866 a 1875).
ABPF - Regional Sud de Minas. História e noticias da Regional Sul de Minas.
Noticiador de Minas (MG) 1868 a 1871.
Pharol (MG) 1876 a 1933.
CAMPOS, Bruno do Nascimento, inTropas de Aco: Os caminhos de Ferro no Sul de Minas (1875-1902).
SANTOS, Gerada, in A população da cidade de S. Martinho de Penafiel nos séculos XVII e XIX (17900-1807).
CHIAVENATO, Julio José in Genocídio Americano: A Guerra do Paraguai.
Arquivo Público Mineiro
Arquivo Nacional do Porto/ Tombos
Arquivo Distrital de Vila Real
CUNHA, Afonso Henrique Carvalho in, A Emigração para o Brasil no distrito de Vila Real (1838-1860). Universidade do Minho.
AH Aventuras na histórias web Ha 151 anos, mais de 3 mil crianças eram mortas na Batalha de Acosta Nu.
PAULA, Edgley Pereira, in A Guerra do Paraguai na imprensa portuguesa (1864-1870): entre a neutralidade oficial e o apoio à causa brasileira, Universidade de Coimbra, 2022.
Folhinhas de Laemmert - Chronica dos principaes acontecimentos concernentes á actual Guerra do Paraguai, 1865.
Foto:
Arquivo privado de Antonio Claret Maciel realizada no cemitério de Caxambu na dada de 2018.
Foto da Igreja de São Martinho de Recezinhos: Ecoreabilita, web.
Agradecimentos a Julio Jeha, sempre
Nota:
Antonio Maciel Claret, advogado, formado em 1975 pela Universidade de São Paulo. Autor dos livros: A Família Maciel em Baependi e a Saga do Tenente José Francisco Maciel, em 2016, e Memórias da Fazenda da Roseta e do Barão de Maciel, em 2019.

Solange Ayres, Licenciada em História pela Universidade Federal de Minas Gerais, e desde 2013 escreve o Blog Família Ayres, histórias e memórias da cidade de Caxambu e Baependi, juntamente com Graça Pereira Silveira, professora aposentada do ensino fundamental de São José dos Campos, São Paulo.