quarta-feira, 21 de junho de 2017

Caxambu, uma das primeiras cidades planejadas do Brasil





A primeira cidade planejada no Brasil datada de 1549 foi Salvador, a capital da Bahia, fundada por Tomé de Souza, o primeiro governador geral do Brasil. Ela foi erguida baseada no traçado geométrico  do arquiteto  encarregado da Coroa portuguesa, Luis Dias. Niterói, no Rio de Janeiro, também é considerada pelos urbanistas como uma das primeiras cidades planejadas. Ela tinha um plano desenhado por Arnaud Pallière, em 1818, para urbanização da Vila Real da Praia,  nome da hoje, Niterói. Seguem-se então as cidades de Teresina, no Pauí, em 1852, projetada por José Antonio Saraiva e João Isidoro Franca, depois vem Aracaju, no estado de Sergipe, planejada pelo engenheiro Sebastião José Basilio Pirro, em 1855, e  Belo Horizonte,  capital das Minas Gerais, projetada por Aarão Reis, em 1897. Caxambu...

Caxambu e seus planos diretores

Ei! Mas Caxambu não tinha já uma planta? Sim, ela foi desenhada, em 13 de dezembro de 1873, "segundo dados fornecidos pelo Coronel Joaquim José Fulgêncio de Castro", para as "Aguas Virtuosas de Baependi". Pois então o planejamento de nossa cidade é anterior ao da hoje capital mineira, Belo Horizonte. Uma sensação!  Estes registros cartográficos aqui publicados foram fornecidos pelo Arquivo do Exército para o Blog da Família Ayres, em 2016.

Ha outro mapa, sem data, provavelmente, desenhado entre os anos de 1861 e 1865, anterior ao de 1873, pois ha muitos elementos se diferenciam do plano acima. Então a cidade escreve mais uma vez um capítulo na história das cidades planejadas deste Brasil. Caxambu à frente do seu tempo.


Agradecimentos:
Nossos especiais agradecimentos ao ARQUIVO HISTÓRICO DO EXERCITO (AHEX), DIVISÃO  DE HISTÓRIA E ACESSO A INFORMAÇÃO (DHAI), na pessoa do major Ferreira Junior, que prontamente dispôs vários mapas para o nosso Blog.

Fonte:
Wikipedia

sábado, 17 de junho de 2017

Luiza na fonte / Aos nossos antepassados, ao nosso futuro



Nada mais simbólico que a foto de Luiza Belculfine bebendo água na fonte do Parque das Águas de Caxambu. Aos nossos antepassados, que trabalharam para e pelas águas do Parque, ao nosso futuro. Luiza, gostaríamos que você e muitas outras gerações continuem a beber estas maravilhosas águas, assim na fonte, estendendo as mãos, como fizeram os nossos antepassados. Pela linha matriarcal: Luiza Belculfine, filha de Fernanda Belcufine, filha de Geralda Silva, a Daza, filha de Geralda Rodrigues/Freitas/Pereira (1908-1952), filha de Maria José Ayres de Lima/Rodrigues Freitas, vó Mariquinha (1881-1946), filha de Maria Ribeiro de Souza Lima (1841-1903), filha de Joana Thereza Ribeiro de Lima (1807-1860). 
Foto:
Arquivo privado da Família Rodrigues Freitas/Pereira/Silva, via Facebook.

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Água, aquáticos, enganaquáticos



Água pela manhãzinha,
logo que desponta a aurora; 
águas depois do sol fora,
aguas até a tardinha!
e mais aguas por mezinha
se bebem antes da cea.
Enfim, ninguém faz idéia, 
nem pode somar as pipas
d`aguas passadas em tripas!..
muito se bebe e passea! (1)

Água

H2O. Duas moléculas de hidrogênio e uma de oxigênio, elemento fundamental para o surgimento da vida na terra... Na terra das Águas Virtuosas de Caxambu. Sem suas águas Caxambu não existiria e seria somente nome esquecido de uma fazenda ao longo do ribeirão Bengo, pelos idos de 1790. Elas foram a principal razão pela qual inúmeros visitantes acudiam à cidade. As águas ajudaram a curar doenças e salvou a Princesa Isabel da infertilidade. Com sua fama espalhou o nome da cidade para o mundo. 

Aquáticos


Aquáticos... no caso, não palmípedes...
Tem cálculos biliares, mal de hepáticos...
Foram buscar remédio - pobres bípedes! -
No jogo... não nas aguas... São "aquáticos"...

E por jogo de amor, ou por amor ao jogo,
Lá se deixam ficar, dois e três meses...
Ferve o Casino. As "aguas"... pegam fogo...
Ha potins novos-ricos e burgueses.

E, mesmo o que perdeu no pano-verde,
Nem por isso voltou mais jururu.
Nas Aguas é assim: mesmo o que perde,
Volta mais lambary, de Caxambú. (3)

O conceito de "aquáticos" esteve sempre associado às aves que habitavam próximos a água. Mas a palavra era usada correntemente para denominar aqueles que vinham à Caxambu fazer uso de suas águas em tratamentos terapêuticos. A primeira referencia da palavra"aquático" consta no livro de Joaquim José Fulgêncio de CastroGuia para uma Viagem às Aguas Medicinais de Caxambu Província de Minas Gerais, publicado, em 1873, o primeiro livro sobre a cidade e que dava uma descrição sobre a povoação de Caxambu.

Não sabemos a partir de que data os visitantes das outras cidades, como CambuquiraLambari, São LourençoPoços de Caldas, que também possuíam fontes, foram denominados de "Aquáticos". A palavra foi citada pela primeira vez no jornal O Baependiano, de 1881, em uma  encenação de teatro e inicia assim sua definição:

(Nicolau) -Mas me diga uma cousa; quem é esta gente que aqui esta?
(Manoel)  - São  uns Aquáticos que...
(Nicolau) - O que?!
(Manoel) - São uns Aquáticos que vão ao Caxambú.
(Nicolau) - Aquáticos?!
(Manoel) - Sim senhor! Chamao-se Aquáticos as pessoas que vão tomar as águas do Caxambu.
(Nicolau) - Então eu que também vou tomar as águas, vou também tornar-me aquático como qualquer pato ou marreco?!
(Manoel)  - Se vai tomar as águas é Aquático; isto é que não tem dúvida alguma.

Henrique Monat em seu livro "Caxambu" editado, em 1894, também dá sua versão para a origem do "Aquático".

"Apesar dos esforços da antiga empresa e da actual, o solo parece apenas batida, o nivelamento é incompleto, e isso facilita as estagnações, quando por uma causa qualquer, os esgotos sofrem um embaraço. Transforma-se então o parque em extenso lamaçal; foi contemplando um dia o parque assim inundado e lembrando-me do imenso pântano, que outrora cobriu todo aquele sitio, que compreendi por que se chamava aquáticos às pessoas que frequentam as fontes; sempre me repugnou a deitar, para justificar o termo, a circunstancia de beber-se aguas medicinais.
Na verdade é que em Saint Amand chamam-se lamacentos (boieux) aos que tomam os banho de lama sulfurosa.  Com certeza, o termo aquático veio da comparação, que se fazia, do indivíduo que ia às fontes, atravez do atoleiro e da água estagnada, com os patos e demais aquáticos que ahi viviam."

E não se esqueçam! O aquático mais famoso, um dos primeiros a fazer propaganda do poder curativo de nossas águas, foi o Padre Correia de Almeida.

Aquáticos de Caxambu
Os diversos tipos de Aquáticos

O Baependino, de 1886, continua nos proporcionando histórias e dando suas impressões sobre os diversos "aquáticos" que povoavam as estações de veraneio, nas diversas cidades sulmineiras.

"Gazosas, sulfurosas, férreas, magnesiannas, todas tem fregueses. Os Aquáticos em Lambary distinguem-se pelo gorro e o grande cacete em punho. A ideia de copo onde-tem de beber o precioso liquido não lhes preocupa o espírito, porque sabem que junto à fonte encontraram dous  Ganimedes com as respectivas taxas, prontos a servi-los, mediante um ligeiro pour-boire.

Os Aquáticos de Caxambu salienta-se pelo clássico chapéu de linho branco, industrial do logar, e pelo copo que trazem, presos por cordões a tiracolo, ou balançando-o a guia de pêndulo. Os mais elegantes penduram o copinho na ponta da bengala, e lá vai para as fontes, como se partissem para uma pescaria."

No decorrer dos tempos e as possibilidades de locomoção de carro os Aquáticos  se visitavam mutualmente e se misturavam no seu visual. Os de São Lourenço vinham à Caxambu, os de Lambari e Cambuquira iam a São Lourenço e vice-versa, e assim quebrava-se a rotina das estações, nas Águas Virtuosas.

Aquáticos de São Lourenço em visita a Lambary

O último trem dos aquáticos

A terminologia foi muito usada no final do século passado e início do século XX, mas caiu em desuso até desaparecer por completo dos jornais, nos anos de 1940/50. No Jornal O Patriota foi citado somente duas vezes, uma vez em 1927 e outra em 1947. A revista O Cruzeiro 1932, 37, 44, e a partir dos aos 50 a palavra estaria associada ao esportes e não mais os que vinham a Caxambu como turistas. Uma penúltima referencia foi feita pela no Jornal da Manhã  do Rio de Janeiro, em 1952: "O trem dos aquáticos", para aqueles que iam em direção ao sul de Minas fazer suas estações de veraneio.  A última citação da palavra foi no conto "A lua caiu", na  revista O cruzeiro de 1962. A palavra sumiu definitivamente  do noticiário, mas os veranistas não.

Enganaquático


E para completar a história da nomenclatura, agora o Enganaquático, um biscoito muito leve de polvilho, comprado pelos turistas, quando ainda era muito cedo para almoçar ou jantar. O biscoitinho em forma redonda era feito na  única padaria da cidade e  tinha como finalidade "enganar" o estômago  dos veranistas, digo, "aquáticos" entres as refeições. Com a fusão das palavras ficou "biscoito enganaquático". Assim o nome esta até hoje na memória e ainda hoje podem ser comprados na cidade, em outra padaria que faz a mesma receita, como patrimônio daquela época.

Todas as sextas feiras, quando meu pai regressava do trabalho, passava na padaria do seu Gabriel e da Dona Boneca e comprava um saco enorme daqueles maravilhosos biscoitos, que sumiam em nossa boca, em poucos minutos. Os biscoitos da foto foram fotografados por Graça Pereira Silveira,  numa de suas estadas na cidade. São recordações dos tempos memoráveis, quando a povoação era ainda chamada Águas Virtuosas de Caxambu. As águas? Continuam virtuosas.

Despedida de Caxambu

Vou me embora, satisfeito
D`estas aguas virtuosas, 
Que para curar meu peito
Não são assaz poderosas; 
Contudo, me diverti
Com aquáticos por ahi
E aquáticas formosas (2)

Fotos: 
Revista Fon-Fon
Biscoitos enganaquáticos de Caxambu por Graça Pereira Silveira, 2016.
Fonte: 
(1) Manoel de Almeida Coelho Margarida, em O Baependiano, 1885.
(2) A volta dos "Aquáticos" por Mr. Darlino, em O Careta, 1925
(3) Jornal O Baependiano
Castro, Coronel Fulgêncio - Guia para uma viagem às AGUAS SDE CAXAMBU PROVÍNCIA DE MINAS GERAIS - Acompanhada de uma BREVE NOTICIA Sobre a povoação, Rio de Janeiro, 1873.

sábado, 10 de junho de 2017

Festival de Cinema de Caxambu de 1956/ O festival com cinco "Cs": Caxambu, Cinema, Churrasco, Consagração, Camaradagem



E no ano de 1956 aconteceu. Caxambu foi escolhida para sediar a 5a Semana do Cinema Brasileiro,  organizada pelo departamento de Turismo e Propaganda, e bem dito no Jornal Vida Doméstica, o festival com cinco "Cs": Caxambu, Cinema, Churrasco, Consagração e Camaradagem e.. Chique, acrescentaríamos. A idéia da cidade sediar o evento nasceu de uma sugestão dada ao vivo, na Radio Nacional, por Adolfo Cruz, radialista e crítico de cinema, no programa especializado "Cinelândia Matinal". Ele foi também o responsável pela programação feita em parceria com a prefeitura de Caxambu e os hotéis. Todos com um objetivo: promover o cinema nacional e claro, a bela  hidrópolis Caxambu.
Uma maratona de eventos
Dia 20 de Abril, sexta feira
Recepção no Rancho das Acácias

O programa foi intenso. Diversas solenidades foram organizadas: Na sexta feira dia 20 de abril , às 18 horas chegou a Caxambu o ônibus trazendo a constelação de astros e estrelas do cinema nacional, além de representantes do Rádio, mais os repórteres de vários jornais de peso da época. A recepção? No Rancho das Acácias, uma espécie de boate, hoje chamaríamos de discoteca, localizado debaixo de um grande arvoredo, indo em direção à rodovia "Federal", para São Lourenço, lugar este "malafamadésimo" na minha infância. O prédio não existe mais e era considerado "um lugar da perdição", por meu pai. Lugar da perdição ou não foi onde oferecido o coquetel de boas vindas àquele povo todo, pelo proprietário Mario Julio dos Santos. A chave da cidade foi entregue pelo prefeito municipal Paulo Levenhagem Melo à  atriz Gilda de Abreu , e como no carnaval, quando a chave é entregue ao Rei Momo, os astros e estrelas agora tinham passe livre para se divertirem e proporcionar diversão à cidade. Na constelação também veio Jece Valadão, protagonista de "Rio 40 Graus", Maria Rubia, estrela não só do cinema como do teatro, Catalano, ator que fez parte do elenco de "Genival é de Morte", o galã  Anselmo Duarte, a "pop star" da época Marlene, atriz e cantora da Radio NacionalWilson Grey, Adelaide Chiozzo, Vicente Celestino, Gilda Abreu, Margot Morel.

Parece que a chegada dos artistas foi mesmo "triunfal" e estavam presentes "todas as garotas disponíveis de Caxambu", comentou um jornal (1). Imaginem! Escreveu o Jornal da Noite: "O foguetório comeu solto. Músicas bem escolhidas e variados salgadinhos juntamente com bebidas bem geladas aguardavam os artistas nacionais, componentes da primeira caravana, que daí a poucos minutos tudo devorou sob as vistas do prefeito Paulo Melo e do seu povo bom e hospitaleiro." O resto da tarde e noite foi o tempo de todos se acomodarem nos luxuosos hotéis da cidade, continuarem a tomar os seus drinks e se preparem para a "dura" jornada no fim de semana.

Dia 21 de Abril, sábado


Para quem não acordou cedo e  perdeu a visita às 9:00 horas, na Escola Agrícola Wenceslau Brás, o antigo Patronato; sim, sim, aquele prédio ali hoje abandonado estava no programa de visitas dos astros, foi direto para o Parque das Águas de Caxambu. Às 10:00 horas, realizariam algumas competições, digamos, "curiosas" para o evento, mas não menos divertidas: Uma corrida de sacos animou a manhã  dos artistas que não se fizeram de rogados. Muitos caíram na água, nas competicoes de 50 metros.  Na foto 1, um panorama geral da piscina, na n°2 Marlene, n° 3 Margot Morel, n° 4, Adeleide Chiozzo e Lurdes Maya em desabalada correria à beira da piscina.

Às 16 horas do sabadão, aconteceu o rodeio e Tourada na Exposição Agro-Pecuária, localizada no espaço à esquerda de quem vai em direção à Baependi. Tomaram parte da atração os mais renomados peões da região e... Os artistas! Mara Rubia corajosa apeou no cavalo (foto ao alto). A atriz conquistou de fato a simpatia do povo caxambuense e foi muito ovacionada. Pudera. Qual dos atores tiveram a coragem de subir num cavalo nesse dia? Nenhum. Do Anselmo Duarte ouviu-se: "Eu heim!"


A programação continuou às 20:30 horas no Teatro do C.R.A.C, sim, sim, naquele prédio central onde hoje é um supermercado. A peça  apresentada "Os Transviados" de Amaral Gurgel, foi encenada pelos artistas amadores do Corpo Cênico, com  presença da atriz caxambuense e conhecida na cidade como "Mericana", (foto 1 a primeira à esquerda, seguida da atriz Adelaide Chiotto, no chic casaco de pele). No intervalo entre os atos, as estrelas e artistas presentes  também subiram ao palco (fotos 1 e 3 Mara Rubia, Agnes Fontoura e Adelaide Chiozzo), e foram aclamados pelo público. Ah, digo a vocês, Caxambu teve diversão e arte.
Estámos falando de cinema, ou? Pois adiante. A programação seguiu. Às 23 horas aconteceu o show dos artistas na Boate do Cassino Gloria, com a presença de todo o estrelato, e Adelaide Chiozzo no seu acordeom e Carlos Matos na Guitarra.

Dia 22 de Abril, domingo
Todos queriam morder a carne de Mara Rubia


Haja fôlego! Acorda gente! No domingo, às 10 horas da matina, não sabemos se todos compareceram, mas teve missa cantada na Igreja Matriz Nossa Senhora dos Remédios, celebrada pelo reverendo Padre Joel Pinheiro Borges. E para aqueles que perderam a missa e levantaram às 12 horas, o programa era ir comer churrasco no Bairro Jardim Belvedere, oferecido pelo casal José Vieira Machado. Mara Rubia foi novamente a estrela do espetáculo e pareceu  muito divertida, e em outra cena, dois queriam tirar um naco carne da atriz... (1). Já Jece Valadão  provou a carne em outro "espeto" e gostou. Ninguém protestou que a cerveja foi servida em... Copinhos descartáveis de plástico.

E quem sobreviveu ao churrasco, pinga, cerveja e outras bebidas ainda mais fortes, foi participar da Seção de Gala no Cinema de Caxambu às 20:30 horas, com, claro, a presença dos astros e estrelas ao vivo. Na seção em "avant première": "Lenora dos Sete Mares".  

E para aqueles que não dormiram no escuro do cinema de cansaço, tiveram que ter fôlego para a última programação do dia: O Baile, na Boate do Hotel Glória, que teve início oficialmente às 22 horas. Caxambu estava em alvoroço. Na penúltima grande noite brilharam outros como Rodolfo Mayer, sua esposa Lourdes Mayer e Marlene protagonistas do filme "Leonora dos Sete Mares".

Ébrio

Antes do show da noite começar, ecom um público ainda  sóbrio, houve leilão beneficente em prol do orfanato da cidade e Mara Rubia e Avany foram convidadas para arrecadarem o dinheiro. E elas fizeram valer de todos os "recursos femininos" para a nobre causa. Um beijo de Mara Rubia custou 6 mil cruzeiros ao Caruso.

Às 23 horas aconteceu o show dos artistas. Alguns deles se deixaram esperar e só começariam a chegar, por volta da meia noite.  Na porta do Cassino, acotovelavam-se aqueles que não conseguiram reservar uma mesa, e mesmo pagando a entrada, tiveram que ficar em pé, na frente da boate, para não perder o espetáculo. Ébrios com certeza já estavam todos, quando o baile terminou, às 4 da manha. E foi Vicente Celestino que elevou sua voz para cantar... "O ébrio", provocando entusiásticos aplausos do público. Adelaide Chiozzo   atacou no cordeom e seu marido Carlos Matos na guitarra, fizeram e aconteceram, improvisara e... Arrasaram.  Marlene cantou e sambou, versos foram recitados, cenas de peças foram encenadas. Foi um "show" à parte. O festival era de cinema, mas os artistas não se fizeram de rogados e apresentarem suas versatibilidades ao vivo.

Uma constelação de astros estrelas ao alcance das mãos




Os organizadores ficaram muito satisfeitos com o andamento e organização do evento e fizeram um balanço positivo, principalmente da participação dos caxambuenses. Ao contrário da cidade de Petrópolis que ignorou por completo o evento, o de Caxambu foi um sucesso total de público. Não por menos. Houveram  sessões de cinema ao ar livre, patrocinado pela Embaixada dos Estados Unidos (sic) e os artistas eram para serem, não somente vistos, mas tocados. Nas fotos, Agnes Fontoura, no colo do vaqueiro e Mara Rubia, num segundo antes de ser beijada, e Catalano, sendo mimado pelas funcionarias do balneário.

Os gafanhotos

Os caçadores de autógrafos não deram sossego aos astros e foi o termômetro da aceitação popular. Assim definiu o Jornal das Moças: "Os caçadores de autógrafos surgiram como praga de gafanhotos. Para colher assinaturas utilizavam-se de livros, cédulas, cartões, caixinhas de fósforos de propaganda, etc." Ainda bem que a praga de gafanhotos atacou os artistas. Se não fosse assim eles não seriam artistas e não estariam lá para divulgar os seus trabalhos. Ossos do ofício. Mas os astros e estrelas deixaram-se cativar pela recepitividade do povo caxambuense. Quem iria não deixar de gostar de Adelaide Chiozzo, que subiu num caminhão e deu um show de acordeom, em praça pública, assim, assim de improviso? Ah, ela também visitou o orfanato da cidade e lá também o seu acordeom pode ser ouvido. Não foi o máximo? Vejam no filme Adelaide Chiozzo e seu acordeom, bem como o gala Anselmo Duarte no filme "Aviso aos navegantes", produzido na fábrica de sonhos brasileira, a Atlantida.

Dia 23 de Abril, segunda feira

Ainda na segunda a programação do Festival de Cinema continuou com a chegada de outros artistas, agora com o elenco do "Lenora dos Sete Mares", para a última seção de cinema.

E às 11:00 horas da manhã,  ou da noite para muitos que vararam até a madrugada na festa,  partiu parte da caravana de artistas rumo ao Rio de Janeiro. Uns foram de ônibus, outros de avião, pois muitos dos artistas tinham ainda compromissos com as temporadas de teatro.

Às 14:00 horas  houve Matinê! E às 20:30 horas, com os olhos ainda semi-abertos o público pode comparecer  à última Seção de Gala, no Cinema de Caxambu, com "avant premiere" do filme "Fuzileiro do Amor", com Mazzaropi. Ele estava ausente no festival, mas veio a bela atriz Margot Morel, a considerada rainha do mambo havaiano. Ela paralisou  os fuzileiros. Não percam o vídeo abaixo!


Às 22:00 horas o "grande finale", o Baile de despedida, na boate Cassino Glória. A última apresentação ficou por conta de Mara RubiaMarleneDelfinoWilson ViannaLourdes e Rodolfo Mayer, este último atendendo a pedidos da platéia, fez uma pequena encenação de improviso de "As Mãos s de Eurídice". O público veio abaixo.

Crítica: Os desocupados da Cinelandia

Até aquela data, 1956, foram organizadas 5 versões da "Semana do Cinema Brasileiro", em diferentes cidades. Foram elas: Belo HorizonteBahiaVitóriaQuitandinha, em Petrópolis e... Caxambu. Quem protestou e criticou o festival foi o Sindicado dos Artistas, porque eles queriam ter o monopólio de organizar festivais. Elas foram publicadas no Mundo Ilustrado:

"O Sr Adolfo Cruz, periquito da Radio Nacional, levou 40 contos do prefeito de Caxambu para realizar um festival de cinema de Caxambu, um festival de cinema de asfalto, ou seja, de desocupados da Cinelândia". E continuava: "O único elemento sério do "bando" era o humorista Leon Eliachar, que, mesmo convidado oficial e não se calou a respeito do ridículo que foram os dois dias de baderna. O prefeito de Caxambu que era o explorador do jogo do Cassino arranjou essa "marmelada" como atração turística." Ai!

Balanço final

Sem nenhum incidente grave ou escândalo o 5° Festival de Cinema de Caxambu ia encerrando sua programação, noticiava a Revista da Semana. Até o tempo ajudou e puderam tomar sorvete a 10° graus de uma sorveteria, cujo o dono era um holandês, e que fazia, segundo eles, os melhores sorvetes, melhores que a lanchonete Bob de Copacabana.
Na despedida final  da cidade, o ônibus que levava a constelação artistas de volta ao Rio, percorreu a cidade, e os caxambuenses puderam despedir de seus ídolos. E para fechar este texto, tomo emprestado os comentários da Revista da Semana:

"E assim transcorreram os quatro dias da 5a Semaninha do Cinema Brasileiro, sem complexos, sem desavenças, com alguns pára-quedistas (que não eram jornalistas nem pertenciam a qualquer atividade do cinema), sem nenhum contratempo. Nem sequer, houve as anunciadas mesas-redondas para discutir os problemas da indústria, e onde nada se aproveita. A turma foi para se divertir. E fazer propaganda do cinema brasileiro. Foi melhor a propaganda do Festival que a de muitos filmes nacionais..."
E foi.

Filmes:
Fuzileiro do amor, com o ator Mazarropi, Wilson Grey, Carlos Duval Grijó Sobrinho, Pedro dias, Margot Morel, sob a direção de Eurides Ramos e producao de Alipio Ramos,  para Cinelandia Filmes
Leonora dos Sete Mares, dirigido por Carlos Hugo Christiensen, com Arturo De Cordove, Rodolfo Mayer, susana Freyre, Henriette Morinnau, Heloisa Helena, Adriana Reis, Anilza Leoni, Luiz Otero, Arnando Montel, Osvaldo Louzada, Lobenca, Claudiano Filho, Jardim Filho, produzido pelo "Artistas Associados".  
Fonte: 
(1) Jornal da Noite
Jornal do Brasil, 1950-1959
Jornal das Moças 
Revista da Semana,
Revista do Radio
Fotos:
(3) Alberto Ferreira, in Revista da Semana, RJ

domingo, 4 de junho de 2017

Blog atual/ Presença de Graça Pereira Silveira no Fórum das Águas, em Caxambu


Graça Pereira Silveira, um membro a Família Ayres/Pereira/Silveira veio de longe, São José dos Campos, São Paulo e se fez presente no Fórum de Discussão  sobre a Gestão Sustentável do Parque das Águas/Dessfios e Alternativas Jurídico-Institucionais, realizado no dia 3 de junho de 2017, em Caxambu. Não falamos por todos os membros da família, mas lembramos que a história desta cidade esta intimamente ligada às origens de nossa família. Nossos pais, avós, bisavós trabalharam pela cidade e pelo Parque das Águas. Assim, mesmo que de longe, todos estamos preocupados com os destinos deste patrimônio, não só histórico, mas patrimônio da humanidade que são as águas.
Família Ayres: Ontem, hoje e sempre. Presente!
Foto: 
Graça Pereira Silveira

sábado, 3 de junho de 2017

A nossa Ninfa representante das Águas de Caxambu na Exposição do Centenário da Independência de 1922


E lá estavam elas, as nossas águas no seu devido lugar: num palácio, Palácio das Grandes Industrias, no Rio de Janeiro. Elas participaram da exposição em comemoração do Centenário da Independência do Brasil, realizada no governo de Epitácio Pessoa e que aconteceu entre setembro de 1922 e março de 1923. Foi a maior exposição internacional realizada até hoje em terras brasileiras.

Ao todo participaram da exposição 14 países e as nossas águas novamente foram expostas para o mundo juntamente com os produtos da Argentina, America do Norte, Bélgica, Dinamarca, França, Inglaterra, Itália, Mexico, Japão, Noruega, Suécia e Tcheco-Eslováquia.  O Brasil teve 6.013 expositores, representando os estados da federação. Minas compareceu com 1.075 expositores. Três milhões pessoas passaram pelos estantes que ficavam abertos até às 22 horas.

A exposição foi dividida em pavilhões: Administração, Alimentação, Estatística, Agricultura e Viação, das Pequenas Indústrias, das Grande Indústrias, Caça a e Pesca, Cervejaria Antártica, Jóias, e um em Honra de Portugal. Ah, esqueci de dizer que tinha também um Pavilhão das Festas. E... era festa todo dia! Em diversos pontos da Exposição realizavam concertos, bailes, danças, exibição de filmes e a noite espetáculos de fogos de artifício. Como a Exposição foi até fevereiro, não faltaram comemorações carnavalescas à moda dos anos 20, com batalhas de confete e serpentina, corsos, passeadas e alegorias.


A exposição tinha do leve ao pesado (fotos cima). O carro decorado pela Floricultura de Barbacena, que ganhou medalha de ouro no corso realizado durante feira, e a gigantesca hélice de um navio, fabricado nos estaleiros do Rio. O Leite Moça  fez sua aparição no "Chalé Moça" e esta aí até hoje nas prateleiras dos supermercados.  Concorrência por concorrência o Elixir de Inhame Goulart ganhou medalha com o slogan:  "Depura o sangue". As nossas águas fariam o mesmo efeito. Os produtores se enfeitaram posteriormente com os títulos ganhos e que eram a melhor propaganda para seus produtos. Mas não acreditamos muito  na veracidade da Academia Scientítifica da Beleza, que foi agraciada com o Grande Premio na exposição. Eles prometiam... reduzir ou aumentar os seios em 3 seções de tratamento. E por correspondência! Eram ainda os velhos tempos, ah eram.

A nossa água ficou hospedada no Pavilhão das Grandes Indústrias. O prédio abrigava o antigo Arsenal de Guerra e foi restaurado para se transformar em área de 9.500m de exposição. Ele foi projetado pelos arquitetos Archimedes Memória e F. Cuchet. O Estande da Empresa das Águas estava uma uva! Decorado com a Ninfa e uma gráfico da venda de nossas águas. As estatísticas contavam 6 milhões de garrafas vendidas anualmente!

Estatísticas? Poucos se interessavam por elas, menos ainda a imprensa, que na maioria  noticiava as festas, os banquetes em homenagem a fulano e sicrano. O verdadeiro sentido da Feira foi esquecido, isto é, os expositores e seus produtos, bem como quem ganhou o que, em qual categoria.  Faltou objetividade. Pouco ficamos sabendo o que realmente foi mostrado na feira, a não ser sobre as delegações estrangeiras que tiveram destaque nos noticiários. Minas ficou muito bem posicionada. Seus produtos foram agraciados com 886 prêmios, à frente de São Paulo, com 579 e Bahia, 437. Ninguém, ficou sabendo, muito menos em Minas.

E nas nossas barbas...

E debaixo de nossas barbas receberam o Grand Prix, isto é, o Grande Premio, a água de "Luso"; e a "Vidago", da fonte Salus que ficou com a medalha de ouro. Todas duas de... Portugal. As nossas?

Ninfa ausente



Agora uma dúvida. Foi a nossa Ninfa "pessoalmente" lá, digo, a retiraram do Parque das Águas, ou fizeram uma cópia e colocaram no estande da Empresa, na feira? Pelo menos, para o seu pedestal, tentaram reproduzir o estilo da Cascata de Chico Cascateiro. Ah talvez ela tenha aproveitando a estadia na cidade maravilhosa, até que ficasse pronto o laguinho, onde hoje ela se encontra.


Fonte:
A Exposição de 1922 (RJ)- 1922a 1923
Ilustração Brasileira 1901-1958
Relatório dos Presidente dos Estados Brasileiros (MG) 1891-1930.
Ilustração portuguesa Edição Semanal "O Século"
Jornal do Comerico, 1923.
Fotos:
Careta, RJ, 1922
Arquivo privado

sexta-feira, 26 de maio de 2017

A piscina do parque das águas de Caxambu / Mergulhando na saúde



Se vamos falar de piscina, falaremos de água. Sem ela, claro, não teríamos a... piscina. Mas, se tratando de piscina, ainda mais no Parque da Águas de Caxambu,  onde poderíamos mergulhar em  puríssimas águas minerais, vindas de seu próprio manancial? Não é para menos, a cidade tem o privilégio de possuir 12 fontes, cada uma com seu gosto e caraterísticas próprias e é a maior estancia hidromineral do planeta! Esta história foi sempre contada por meu pai José Ayres, que não cansava de divulgar as propriedades terapêuticas das águas, presentes todos os dias na nossa mesa. Nadar nelas então? Uau! Um luxo.

Construída no ano de 1937 e inaugurada, em janeiro de 1938, para a época já era uma "sensação": a única piscina de água mineral da América Latina! Com 25 metros de extensão e 12 de largura , ela   pode não somente ser considerada um lugar para a prática do esporte e lazer, mas um lugar de cura.  Sua construção foi na gestão administrativa de Edmundo Dantas. O nome do parque foi uma homenagem com toda razão ao médico, chefe do Posto de Saúde, prefeito eleito pelo PSD, na gestão de 1947/51:  Dr. Lisandro Carneiro Guimarães. As suas águas são provenientes das fontes Mayrink e possuem alto teor de radioatividade. Sua qualidade foi testada e garantida "isentas de germes" por Martin Fiker (1868-1950) bacteriologista alemão, que dirigiu entre os anos de 1926 até a Segunda Guerra,  o Instituto de Microbiologia  Kaisel-Wilhelm, em São Paulo, onde tinha também seu laboratório de análises químicas e bacteriológicas.

A composição da água que enche a piscina é complexa e é resultante da combinação de muitos fatores que a torna particular. Ela é uma mistura de elementos químicos, gasosos e proporcionando vitalidade a quem nela se banha. O efeito é sentido no corpo por fora e por dentro.


Pura medicina

As águas provém das fontes chamadas hipotermais, geologicamente definidas como águas que emergem a temperaturas inferiores a 25°. "As do parque chegam à superfície com 26 ° e perde naturalmente a temperatura passando para 15° a 20° ideais para banho de pacientes com nevropatias", assim relatou o jornal Gazeta de Noticias, em 1937. Os especialistas da época já lhe conferiam os poderes terapêuticos: "Por outro lado a água empregada na piscina de Caxambu contém gaz carbônico em estado nascente. Embora com notável superfície de evaporação, teremos sempre o ácido carbônico na água e sabe-se hoje da importante dedução deste facto." E continua:
"Considerando-se a pelle como órgão de secreção e, sabendo-se que a excitação cutânea vai estimular por esse meio indirectamente outras funções, activando o metabolismo é de se criar na indicação tônica dos banhos da piscina."

Mergulhando de cabeça 

Com todo o receituário acima válidos até hoje, só reforçam os argumentos para mergulharmos de cabeça nela.  Uma piscina pública com essas características não é para qualquer cidade. Caxambu possuía uma. Ir à piscina era um acontecimento na nossa infância e adolescência e era a atração dos fins de semana, principalmente nos meses de verão. O preço, hum..., salgado! Eu tinha que escolher ou ir no sábado, ou domingo. Para dois dias consecutivos o dinheiro não dava. E o dia começava cedo: 8.00 horas da manhã  estava eu lá ja na porta, excepcionalmente às 8:30, e saia somente quando aquela campainha soava e a Terezinha vinha tentar recolher os últimos renitentes a sairem da água. E quando batia aquela fome, íamos nós comprar os maravilhosos pasteizinhos de nata feitos no quiosque comandado pela Família Figueiredo. Quentinhos, saídos do forno, eram uma maravilha para matar a fome até chegar em casa.

E tinha espetáculo grátis! Do Trampolim, altíssimo, os jovens mais corajosos ensaiavam os seus saltos acrobáticos para os veranistas e platéia aquática. Luizinho, apelidado de Tarzan, com aquele shortinho de oncinha, se preparava para o salto. Suspense. Claro que havia o suspense para que todos os olhos tivessem tempo de se voltarem para o trampolim e para o saltador. Tchibum! Então o herói mergulhava nos seus 3 metros de profundidade. Não havia aplausos, mas a platéia gostava.

Jogadores da seleção na piscina


E não esqueçamos que a piscina foi palco para a história esportiva da cidade. Em várias ocasiões Caxambu recebeu da Seleção Brasileira de jogadores que se prepararam para competições a nível internacional como a Copa Mundial de Futebol, de 1938 realizado na Franca. Eles ficaram hospedados nos Hotéis Gloria e Lopes. As águas não fizeram milagres para a saúde dos jogadores, nem para o placar e o Brasil perdeu para o time italiano. Eles também estiveram na cidade, em 1945. E desta vez o "scratch" brasileiro se hospedou no Hotel Marques, em preparação para o campeonato Sul-Americano, no Chile. Para a Copa de 1954, na Suíça, os jogadores ficaram hospedados no Hotel Palace e, em 1966, no Hotel Gloria. Naquele ano a seleção tinha em sua equipe Pelé, Tostão e Garrincha. Com os treinos e a boa comida, segundo o noticiário, uns emagreceram outros engordaram, mas todos se esbaldaram nas águas de nossa piscina.  Ah, se esbaldaram.

Atletas X escorregadores

Mas mais uma vez o desconhecimento de patrimônio histórico fez sua vítima: retiraram o trampolim. Primeiro foi a parte mais alta, depois, ele todo.  Sem o histórico trampolim a piscina perdeu um pouco do seu charme. Ele foi substituído por um escorregador. Ah, já não podemos observar mais os corajosos e verdadeiros atletas. Na época os saltadores eram esperados com um certo suspense e a gente segurava a respiração. O escorregador não tem graça. O povo só grita e escorrega. Ou vice-versa.
Fotos:
Fotos Antigas de Caxambu
Arquivo privado: Expedito, aluno da antiga Escola Wenceslau Braz, a autora e Rosangela dos Santos Ayres
Fotógrafo: Minininho.
Fonte 
Jornal A Noite, 1937
Gazeta de notícias, 1937
Nosso Jornal/ Caldas de Sao Pedro, 1938
Jornal dos Esportes, 1945
A Batalha, RJ, 1940

domingo, 21 de maio de 2017

Coroação na cidade de Caxambu/ Os Anjos sem asas/ Parte 2


As Coroações do mês de maio estão sempre associadas aos anjos com asas, às meninas filhas das mães que organizavam a festa no mês de de Maria. Mas havia dias em que a cidade de Caxambu   fazia diferente. Numa rara foto, a supresa: A coroação  encenada apenas por meninos, na década de 1960, organizada pela festeira e professora Lourdes Silva. Como satisfazer as mães, cujos filhos eram homens e que também queriam "coroar"? Então temos aqui uma rara oportunidade de ver que os meninos também podiam. Como o fotógrafo nem sempre estava de plantão, muitas dessas coroações de meninos não foram documentadas. Um dia no mês era reservado a eles.

Serrote no pescoço

Para contar alguns detalhes das histórias, pedimos sempre auxílio ajuda e, desta vez foi Julio Jeha que contou das suas. Ele também participou de um "quadro" juntamente com a Telma Figueiredo na representação bíblica de José, o carpinteiro, o pai do menino Jesus. As cenas eram sem movimento, ali, tudo paradinho. Mas como as crianças "não tinham sossego", diziam na época, Julio não gostou da cena ensaiada e resolveu passar o serrote no próprio pescoço, antes das cortinas serem abertas. Não, não, foi tentativa de suicídio, nem teve sangue, pois o serrote estava do lado contrário. As crianças se  divertiam. A cena foi mais que hilária e, leitores, como veem, até hoje estamos aqui lembrando dela. Voltando às festeiras...

As festeiras mais conhecidas que organizavam as coroações compostas de meninos eram dona Zezé Pertele o Zezinho Dantas e de dona Ieda Dantas, minha madrinha de batismo, Edimundinho Dantas até porque elas tinham meninos.  Interessantemente todos vestidos a caráter, não com asas, mas em "mini-ternos" com gravatinhas borboleta e... calças curtas! Quanto sofrimento enfrentando o frio do mês de maio em calças curtas! Mas tudo pelo espetáculo. O Quadro do dia também foi ocupado pelos representantes do sexo masculino em miniatura. Uma jóia! A cena foi fotografada no exato momento que a cortina se abriu e se via o Quadro. Uns de cima olhavam para baixo e os de baixo olhavam para cima. Lindeza! Era a apoteose. 

Fotos:
Fotos Antigas de Caxambu
Agradecimentos:
Julio Jeha e suas lembranças 

domingo, 14 de maio de 2017

As coroações do mês de maio em Caxambu/Os anjos com asas / Parte 1

"A Matriz Nossa Senhora dos Remédios de Caxambu, no mês de maio, era pura festa. Todos os dias do mês dedicados a Virgem Maria, revezando entre a Igreja Matriz e a Igreja Santa Izabel, interligadas por uma rua: a Matriz embaixo, no centro da cidade e a Igreja escadaria acima, lá em cima, atrás do cruzeiro. A coroação na Igreja Santa Izabel, mais simples, mas a coroação na Matriz, verdadeiro evento."

Hoje mais uma vez, vamos pedir ajuda à Janice Drumond, a nossa vizinha de frente, lá da rua Quintino Bocaiúva, relembrando os memoráveis dias de maio, quando as crianças podiam brincar por algumas horas de serem anjos. E... Não era um "anjo" esta menina?

A missa começava às oito da noite e desde as sete a fila de anjos começava a engrossar. Nossas mães se esmeravam, caprichavam nas roupas de cetim. A minha era azul celeste, com peitilho todo trabalhado em “casa de abelha” feita pela mãe do Faridinho Cury, uma estrelinha prateada em cada arremate, as asinhas de plumas de ganso vinham de longe, a gente cheia de agasalho por baixo da roupa, um frio cortante de começo de inverno, a gente tiritando na fila, mas firme ali porque sabia da importância do evento.

Cada dia um festeiro e tinha festeiro que era muito concorrido. Ser festeiro era muito importante porque era ele quem determinava os papéis, que escolhia qual anjo poria a palma, qual jogaria as pétalas de flores do cestinho, quem colocaria a coroa na cabeça da nossa senhora , quem participaria do quadro vivo e... O mais importante... De que tipo seria o cartucho. Sim, o cartucho nosso principal interesse. Aquele cone cheio de gostosuras era nossa recompensa pelo incomodo da roupa e o frio. Talvez por isso a festeira mais aguardada era a Maria Boleira. O dia que ela era festeira, os cartuchos eram sempre garantia de surpresas.

Coroação causa traumas

Minha mãe Dona Dolores, ex “filha de Maria”, uma das fundadoras da Ação Católica na cidade, sempre me levava, deixando marcados em mim estes retalhos de memória que me fazem até hoje ter no céu dos amigos, todos aqueles anjos que compunham a enorme fila de coroação do mês de maio em Caxambu. Cumpri com todos os papéis, pus palma, pus coroa, joguei flores e participei dos quadros vivos.

Dois traumas ficaram bem marcadas na mente. O primeiro foi no dia em que minha mãe foi festeira na Igreja Santa Izabel e que realizei o sonho de por a coroa, diga-se de passagem, honra máxima numa coroação, e o fato dela, na praticidade dela, ao invés de cartucho, ter distribuído amarradinhos meia dúzia de balas... Uma pobreza frente aos cartuchos da Maria Boleira. Nunca me conformei com aquilo.

O segundo trauma descrevo aqui. Eu era sempre convidada a fazer o menino Jesus nos quadros vivos. Era a única criança da cidade com olho azul e cabelo enroladinho e dividia este papel com a Marcia Gallo, cuja mãe conseguia com um lápis, cachinhos melhores que os meus. Éramos sempre os meninos Jesus.

O quadro vivo funcionava como fechamento do evento. Uma vez colocada a coroa, a banda começava a tocar e disparavam os fogos de artifício ao mesmo tempo que uma cortina acima do altar se abria e expunha uma cena bíblica. E lá fui eu com meus 5 anos fazer a criança boazinha, deitada numa caminha, com a filha da Ivone pintora, linda, fazendo o anjo da guarda, de asas super imponentes, a proteger a terna criança em seu sono tranquilo. Assim deveria ser. E bem me explicaram: você fica quietinha deitada na caminha, e depois que abrir a cortina e a banda começar a tocar é pq terminou, então você já pode voltar para colo da sua mãe. Ok, fácil demais, mais fácil que subir nos caixotes pra ter acesso à caminha a partir dos bastidores. 

E assim foi. Deitei na tal caminha, a filha da Ivone maravilhosamente posicionada como anjo enorme a mãe proteger. Posta a palma, colocada a coroa, as flores atiradas, abre-se a cortina e a banda começa a tocar, os fogos a pipocar. Não tive dúvidas. Obedeci de imediato ao roteiro. Levantei, desci e fui pra plateia, para colo da minha mãe. Lá debaixo eu via o lindo anjo a velar a caminha vazia e levei anos pra entender porque o povo tanto ria. E quando entendi percebi também que a precipitação é uma característica que trago de berço.

Foto:
Arquivo privado de Janice Drumond

domingo, 7 de maio de 2017

O ribeirão Bengo de Caxambu e sua história

O Bengo de Caxambu, em 1868
E a denominação do ribeirão como Bengo é tão velha, quanto a ocupação do local pelos bandeirantes paulistas, que se embrenharam no sertão a procura de ouro e pedras preciosas. Eles foram se fixando ao longo dos caminhos da Estrada Real, plantando suas roças, criando seu gado, aumentando suas famílias e espalhado descendentes por Minas afora.

Bengo é denominação de outro rio, muito maior que o nosso ribeirão e corre na província do mesmo nome, Bengo, no norte de AngolaÁfrica e deságua no oceano Atlântico, onde, em 1670, teve o início do tráfego de escravos pelos portugueses, em direção ao Brasil. Os primeiros povoadores da região mantinham escravos para cuidar da lavoura e trabalhos domésticos. Importaram os escravos e  vieram junto sua cultura, hábitos alimentares, os nomes de lugares e de sua gente.  Bengo é também nome de uma variedade de capim, Braciaria mutica, originária da África, introduzida no Brasil, no ano de 1820, conhecida como capim Angola, que serve para alimentação de animais. Mas ha outros lugares homônimos da palavra Bengo, como um povoado, no município de São João Del Rei e outro localidade na Padre Paraíso. Todos em Minas Gerais. E... o Bengo de Caxambu.

Mas vamos voltar lá atras nos anos em que o ribeirão corria livre pelo vale, e não estava ainda apertado no corpete de cimento que hoje tem.

"O valle ocupado pela povoação de Caxambu tem pouco mais de dous kilometros de comprimento por quinhentos metros de largura e esta a 890 metros acima do nível do mar; o Bengo, afluente do Baependy, corta-o a princípio de leste a oeste, depois de sul a norte, formando um angulo recto; quasi toda a povoação ocupa a margem direita; á esquerda, destaca-se isolado o Morro do Caxambu com um bosque em sua frauda; no sopé o parque com as fontes virtuosas..." (1)
A foto do ribeirão Bengo acima é a mais antiga conhecida, datada de 1868, publicada, em 1894, no livro Caxambu, do médico Henrique Monat.

Um documento oficial com o nome "Bengo"


E em 9 de julho de 1798, em um histórico documento, (ao alto) aparece o nome  "Bengo", citado no requerimento de Luiz Antonio de Souza Mendes, morador de Baependi, pedindo uma Sesmaria, isto é, terras que ele já cultivava, "onde tem terras e roça" "na paragem chamada Bengo" e onde tinha sua morada. Não foi dito que se tratava de um ribeirão e sim "na paragem", isto é, um lugar. Com o pedido da Sesmaria, queria ele na verdade a regulamentação da posse da terra,  para torna-la legalmente o seu sesmeiro, pois como esta no documento "não tem Título Régio", isto é, não era legalizado oficialmente.

Sesmaria era uma porção de terra, dado aqueles que tinham "cabedal", isto é dinheiro, para ocupar e cultivar terras. As terras eram de propriedades do Capitão donatário, que pertenciam a nobreza portuguesa. Eles eram titulares das Capitanias e concediam terras aos sesmeiros. A distribuição das Sesmarias tinha como função incentivar a produção agrícola e se converteu, posteriormente, numa verdadeira política de povoamento da colônia.

Aninha do Bengo

Certidão de nascimento de Anna Leonízia de Castro, 1829, a Aninha do Bengo 
Luiz Antonio tinha como vizinho de porteira o Sargento Mor Antonio José de Castro Medronho, natural de Ouro Preto, e sua esposa Ana de Meireles Freire, que era filha de Dona Magdalena de Meireles Freire, natural de Guaratinguetá e que era proprietária da "Fazenda do Caxambu". Sua filha  Anna Leonízia de Castro  residiu por algum tempo na denominada... Fazenda do Bengo.

O jornal O Baependiano, de 1887, publicado por Amaro Nogueira, neto de terceira geração por parte de mãe de Anna, noticia seu falecimento, referindo-se no texto à antiga moradia  de sua trisavó a "Fazenda do Bengo".

"A finada, como dicémos, residiu a princípio nesta freguesia, na Fazenda do Bengo, cuja situação exata ignoramos, mas que deve ter sido no valle do rio que banha esta povoação e tem o mesmo nome". (2)

De fato, ela era nascida em Caxambu/Baependi batizada, em 25 de dezembro de 1829, na Igreja Mont Serrat (foto). Ana Leonizia de Castro casou-se em primeira núpcias com o Sargento Mor Manoel Dias Ferraz e de segundas núpcias, em Baependi, com Antonio Dias Ferraz, vindo a falecer, em Cristina, em 1887, onde tinha criado sua família. Curiosamente, era conhecida,  na ainda povoação das Águas Virtuosas de Caxambu por... "Aninha do Bengo". Todos as pessoas acima citadas podemos dizer que foram os primeiros povoadores de Caxambu e região.

O Bengo e a origem das fontes


O ribeirão  esta também  relacionado a fatos da descoberta das fontes de água mineral. Um outro neto de Anna Leonísia, assinado como JG, no jornal carioca Correio da Manhã, de 1959, relata as memórias de sua avó. Um de seus escravos chamado Felicio, ao pescar no rio Bengo, viu uma água "que borbulhava com gases, saindo em borbotões", e a provando apresentava um  gosto incomum acre. Segundo ele essa informação é anterior ao ano de 1791. Mais de dois séculos se passaram e as informações que não podem ser desprezadas, foram transmitidas oralmente na família. Esta aí mais uma versão do descobrimento das fontes de Caxambu.

Henrique Monat e suas previsões para o Bengo

O ribeirão Bengo faz parte da bacia do Rio Verde, junto com os rios  Baependi, Taboão  e João Pedro que banham o município. Nos seus primórdios corria livremente pelo terreno, onde hoje é o parque, em direção à Baependi, até que foram descobertas as fontes e foi dado início ao processo de drenagem do lugar, para a captação das águas, e claro, começaram os problemas. Assim predestina Henrique Monat:


"Causa lastima o estado do Bengo. Ao entrar na povoação, elle mede apenas de oitenta a cento e vinte centímetros de largura e as aguas deslizam-se com certa velocidade; canalizado-o, a Camara deu-lhes três, quatro metros e em alguns lugares mais, em toda a extensão da povoação; deixando-a o Bengo, volta à largura primitiva, descreve curvas, rápidas e zig-zags, atravessando extensos capinzais; forma charcos, lagoas, e estreita-se de novo, antes de desaguar no Baependy, com um volume insignificante." E conclui: A situação do Bengo esta a indicar que para elle devem convergir os esgotos da cidade.

Com as várias intervenções, drenagens e aterros, para captação das fontes sem planejamento adequado, o Bengo era motivo de preocupação, quando chegava a época das chuvas. Não precisamos descrever o dramático quadro: Coletores de esgotos obstruídos, águas estagnadas, que invadiam o parque inundando as fontes, lixo e sujeira espalhados por toda a parte. E a área do parque era a "mais bem aterrada de Caxambu", escreveu Monat "... no resto da povoação não se tomaram as precauções mais elementares; mas a Camara consente que se vá construindo, sem se lembrar dos perigos que acarreta tal imprudência, não só sob o ponto de vista hygiênico, como também quando à resistência do solo." O velho problema do crescimento  urbano desordenado, tudo sem planejamento...

Enfim...


E para o bem dos caxambuenses, em primeira linha e turistas, a paisagem foi sendo modificada.  Na administração do prefeito  Camilo Soares (1912-1916)  o Bengo foi canalizado, pelo menos a parte que corria no centro, levando-o para 1.800 metros da povoação. Bem, não era muito. O ribeirão continuaria correndo como ha séculos, agora como cloaca da cidade, quando foi definitivamente iniciado seu segundo grande processo de canalização, no inicio da década 1980, com a construção da "Avenida Beira Bengo". Ok, uma vez mais empurraram os limites de sua canalização para mais de um quilometro do centro da cidade...

É sujo, é limpo

Janice Drumond em suas memórias ajuda-nos a descrever o nosso ribeirão, na década de 1960, quando éramos vizinhas, na rua Quintino Bocaiúva. O Bengo corrida no fundo dos quintais de vó Gervásia, da casa de meu pai José Ayres e ia passar correndo pelo quintal da tia-avó Mariquinha, e do vo Ramiro, onde moram até hoje os seus descendentes da Família/Ayres/Rodrigues Freitas. Nas palavras de Janice, foi  cumprido o destino que Henrique Monat tinha profeticamente predestinado a ele. (leia aqui outras histórias de Janice Drumond)

"A pracinha quadrada, cortada perpendicular pelo Bengo, ribeirão sempre discutido - É sujo, é limpo - como ser sujo se vem direto do Parque, se vem do lago, suprido pelo veio d`águas-régias vindo do bosque? Tá certo que depois de correr a cidade, lá no final perto da fazenda Santa Terezinha, na pontinha que dá no Matadouro já está sujo. A gente sabia disso porque tomava bronca sempre que tentava atravessar a pé, nos fundos dos quintais, inclusive da avó Juruva *(vó Gervásia). Quando mais distante do parque, mais sujo."

Do Bengo que sonhamos, rodeado de árvores, correndo livre, sem ser contido por muros, contorcendo-se na várzea ao pé do morro... Sonho. Da romântica foto de Haroldo Kennedy, no interior do Parque das Águas para a realidade: As obras de sua canalização e os resultados.


Para onde foram as galinhas d`água?

Mas a história canalização do Bengo ainda não terminou! Depois de tantos anos correndo como cloaca da cidade, temos uma boa notícia: O esgoto vai direto  para a estação de tratamento. Aproximadamente 95% do material é tratado.  Mas o pobre ribeirão continua correndo desolado, sem nenhuma vegetação ciliar que o acompanhe até a estação de tratamento e que o proteja do assoreamento. Sem vida, assim pelado não  ha possibilidade de abrigar aves aquáticas às suas margens, como as galinhas d`agua que vi quando criança.

Citações:
*Janice Drumond  quiz dizer Vó Gervásia, pois quando pequena não conseguia pronunciar o nome, e sempre a chamava de "vó Juruva".
* vários grifos meus
Fonte:
(1) Henrique Monat, Caxambu
(2) O Baependiano, 1883
Correio da manhã, 1859
Familie Search
Arquivo Público Mineiro
ARSAE-MG Agencia Reguladora de Serviços de Abastecimento de Água e Esgotamento Sanitário do Estado de Minas Gerais do ano de 2015.
Fotos:
Arquivo privado
Parque das Águas: Fotos Antigas de Caxambu
Fotos da colagem: Prefeitura de Caxambu
Revista Fon Fon
Jornal O Boemio
Agradecimentos:
 Haroldo Kennedy que emprestou sua bela foto do Bengo, para o Blog da Família Ayres.

sábado, 6 de maio de 2017

A Evolução/Há evolução?


O Blog da Família Ayres esta ajudando vocês a refrescarem a memória. Por incrível que pareça a pendenga de quem administra as águas minerais da cidade de Caxambu é antiga. Aqui duas matérias da Revista semanal de política, direito e literatura, de Baependi chamada A Evolução, que tinha como redator o Dr. João Coelho Gomes Ribeiro, publicadas em... 1890. Caxambu naquela época ainda estava sob jurisdição da vizinha Baependi. Perguntamos: Há evolução?






Fonte: 
Revista A Evolução, 1890


domingo, 30 de abril de 2017

Morte no sertão / Na pista dos primeiros caxambuenses/ Parte 1/ Um sítio chamado Mombasa na paragem do Caxambu




Carlos Pedroso da Silveira foi um bandeirante, um dos primeiros a adquirir terras na "paragem do Caxambu", casado com  Izabel de Souza Ébanos Pereira. Ambos eram descendentes de famílias nobres e moravam em Taubaté, até ele ser assinado numa emboscada, em 1719.

Todo sacrifico pelo Brasil

No brasão da cidade de Taubaté, traz "Todo o sacrifico pelo Brasil", em homenagem aos bandeirantes, considerados aqueles que extenderam as fronteiras do Brasil para além do Tratado de Tordesilhas,  os descobridores de ouro e fundadores de povoados, que se tornaram as grandes cidades do Brasil. Mas este era somente um lado da medalha. Não podemos esquecer eles foram responsáveis do extermínio  da população indigena; mortos pelo trabalho, doenças transmitidas pelos brancos e a perda irrecuperável de sua cultura e identidade.  Em São Paulo ergueram-se monumentos aos bandeirantes, deram nome a ruas e praças e hoje são tratados como heróis.  Heróis? Mas esta é outra história. Voltemos para...

Carlos Pedroso não chegou a morar nas terras "na paragem do Caxambu" que recebeu de Sesmarias de D. Francisco Martins Mascarenhas, concedidas por provisão, em 30 de setembro de 1706, em parceria com o seu genro Francisco Alves Correia, mas mantinha lá uma pequena criação de gado para alimentar os sertanistas em suas viagens em direção às minas. 
Um lugar chamado Mombasa

Numa escritura de dívida contraída por Carlos Pedroso, datada de 3 de outubro de 1707, deu como garantia o dito sitio do "Mombaça". No seu testamento seus herdeiros declararam: "um sítio na paragem chamada Mombaça com duzentas braças de terras e a criação de trinta cabeças de gado vacum". Mombasa é a capital do Quênia, no continente africano, fundada no século XII pelos mercadores árabes e ocupada pelos portugueses nos séculos 15, 16, e 17. De lá saiam  de escravos para  a colônia Brasil e foram conduzidos para trabalhar nas minas e plantações e em terras de propriedade de Carlos Pedroso. Com eles vieram os nomes que entravam para a toponimia de Caxambu.

Ha nos registros paroquiais de Baependi diversos registros nomeados "sitio Mombasa", e isto quer dizer estamos falando do mesmo lugar e com absoluta certeza, era o mesmo dos seus primeiros ocupantes "na paragem do Caxambu". 

Abaixo o registro de 18 de abril de 1730, transcrito pelo historiador Pelucio, onde se lê: Rosaura, filha de Joana, escrava de Anna Moreira (Caxambu), isto é moradora do Caxambu, sendo os padrinhos Francisco d`Arruda, solteiro (Caxambu) e Margarida Buena, casada (Bombaça), escrito erroneamente com "b", batizada por Frei Miguel. Não restam dúvidas que o sitio Mombaça era o mesmo citado em outros registros. De fato o lugar existiu nos arredores da hoje Caxambu.


Carlos Pedroso ocupou cargos como militar, mestre-de-campo, ouvidor e governador de TaubatéPindamonhamgaba e Guaratinguetá sendo responsável, entre 1695 a 1705, pela captação dos impostos sobre  exploração do ouro. E "... por-que o seu carácter era um estorvo que convinha afastar" (1), isto é, ele foi rigoroso na cobrança dos quintos do ouro e isso gerou conflitos, que culminaram no seu assassinato. O crime não foi esclarecido, nem culpados foram punidos, como prometeu o Conde de Assumar em correspondência a viúva Izabel, que se mudou de Taubaté após o trágico acontecimento, por temer por sua vida e de seus familiares, indo morar com a família na... Nas terras que seu marido tinha na paragem do Caxambu. Então indiretamente Carlos Pedroso e sua família estão ligados a ocupação das terras que originaram a cidade.

"N`essas terras havia grandes plantações de mantimentos para os viandantes desde princípio das Minas", escreve Diogo de Vasconcelos, em História Antiga de Minas Gerais. Dona Izabel seus familiares deram continuidade ao trabalho e investiram nas plantações de mantimentos destinados aos viajantes que se dirigiam para as Minas e portanto foram mesmo os primeiro ocupantes das terras  que originaram a cidade de Caxambu. Segundo Francisco de Assis Carvalho Franco eles foram considerados "os primeiros grandes fazendeiros que ali se estabeleceram". (2)

Fonte:
(1) Vasconcelos, Diogo, História Antiga de Minas Gerais
Lima, Leandro Santos de, in Bandeirismo Paulista: o avanço na colonização e exploração do interior do Brasil (Taubaté, 1645 a 1720), 2011, São Paulo.
(2) Franco, Francisco de Assis Carvalho
Foto:
Monumento ao bandeirante, na cidade de Taubaté, inaugurado em 2000, in A Voz do Vale. Acervo de Liygia Fumagali Ambrogi.
Carlos Pedroso da Silveira, no vitral no Hall do Palácio da Bolsa, "A Epopéia dos Bandeirantes", em São Paulo, desenho de Benedicto Calixto, 1922, in Novo Milênio.