A moça era bonita. E como! Celia Ayres de Lima abafava na década de 1940, na cidade de Caxambu. Não só pela sua beleza, mas também sua inteligência. Quase que por um triz ela não continuava matriculada no Colégio Normal Santa Terezinha. Segundo ela, as rígidas freiras educadoras não quiseram renovar sua matrícula, pois ela tinha tirado notas baixas, oque a impedia de continuar na instituição. Imagine! Vó Gervásia apelou para o delegado, o coronel Martinho Lício, autoridade na cidade.
"Ele era um político feroz. Trabalhava na prefeitura e andava com um cravo de flor na lapela esquerda. Antigamente usava-se flor na lapela, broche, flor legítima. Onde ele chegava todos se calavam. Era o manda-chuva da cidade, o padrinho do Caxambu inteiro! Andava de bengala cumprimentando todo mundo. Teve um ano que não passei de ano. As professoras não tinham pedagogia para ensinar. E lá foi mamãe (vó Gervásia) pedir os seus préstimos.
- Compadre, estou enroscada. Célia levou bomba no Santa Terezinha, e não querem que ela continue.
- A senhora pode ir para casa, que eu vou resolver. E lá foi ele:
- Quero que vocês façam a matrícula de Célia.
- Sim Comendador. "
Célia foi novamente registrada e passou de ano, e... foi assim que a normalista do Colégio Normal Santa Terezinha se tornou uma das primeiras educadoras da cidade de Caxambu, indo lecionar no Grupo Padre Correia de Almeida, e posteriormente no famoso Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, onde se aposentou. Então, valeu, seu Martinho Lício!
Mas o que eu quero contar hoje é outra história. Em uma das muitas conversas com a tia, ela revelou que mantinha correspondência com os pracinhas na Segunda Guerra mundial. Ah, pena, nenhuma das cartas sobreviveu. Ela enviava as missivas, e com foto! Claro que tinha que ter foto. Era a "visualização" das musas. E quem as recebia, ficara estonteado. Não era pra menos.
Ela era a Madrinha do Tiro de Guerra 63, de Caxambu, comandado pelo 1° Sargento Benedicto Cacilhas, e era figura pública, discursando em favor da pátria. Ela estava presente nas programações oficiais da cidade, como no jantar oferecido a Benedito Valadares, candidato de Getulio Vargas ao Governo de Minas, em 1945, no Hotel Glória, onde foram também, convidados políticos e personalidades da cidade, como Ivon Curi. Não perguntei se ela estava usando naquele dia o seu vestido azul de organdi, com aplicação de florzinhas cor de rosa, que um dia a vó Gervasia resolveu dar fim. O vestido "causava" nos bailes de fim de semana na velha hidrópolis.
Voltando às correspondências... o Estado brasileiro teve a iniciativa de "distrair o soldado", e o programa "era parte importantíssima do esforço de guerra", publicada no jornal A Noite, de 1945. As iniciativas de "distrair o espírito dos soldados feridos e mutilados que estavam hospitalizados eram programas de música, teatro, mágica, palestras de diferentes assuntos. E naturalmente, escrevia o jornal, as moças eram parte relevante do esforço de distração. Era incentivada a correspondência com as "madrinhas", que lhes escrevessem, mandassem pequenos presentes, que segundo a Noite "encheria os seus dias de doce vivificante poesia". Tia Célia fez parte dessa história. Ela me contou que enviava cartas e com fotografias, cartas que passavam pelo crivo da censura, e tinham as palavras borradas com tinta, caso a missiva contivesse algo "comprometedor". Ah, que consolo ver essa beldade que os escrevia, esquecendo de suas dores, feridas e perdas.
Fonte:
A Noite (RJ) 1940 a 1949
MARQUES, Glaucia Diniz, in Cartas em tempos de Guerra: uma missão cívico-patriota da Associação Brasileira de Educação (1942-1045) - Tese de dissertação. Rio de Janeiro, 2008.
Associação Brasileira de Educação
Revista Educação - 2005
Em Guarda, revista 2010
Fotos:
Arquivo privado da família Ayres
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