domingo, 13 de agosto de 2017

Cinema de Caxambu/ A 7a Arte chega à cidade


Exatamente 21 anos após os irmãos Lumierè fazerem uma  apresentação pública dos produtos do seu invento, o qual o chamaram de Cinematógrafo, no Salão Grand Café, em Paris, Caxambu iria ter o seu Cinema. Imaginem! 

A primeira exibição de cinema no Brasil aconteceu, em 8 de julho de 1896, no Rio de Janeiro, por iniciativa do exibidor itinerante belga Henri Paillie. Numa sala alugada do Jornal do Comércio, na Rua do Ouvidor, foram projetados os 8 filmes de um minuto cada um, retratando cenas pitorescas do cotidiano de cidades da Europa. O público era seleto, até porque quem podia pagar os ingressos era a elite carioca. E talvez pela grande proximidade com o Rio de Janeiro e as constantes trocas culturais, econômicas e políticas entre as cidades, Caxambu teve o seu cinema, já no início do século, por volta de 1916, quando acontece na cidade as grandes reformas urbanas, iniciadas na administração de Camilo Soares (1912-1916).

O Cinema-Theatro e o Radium-Cine

Caxambu tinha o seu cinema, digo, dois. Um cinema era teatro, outro radio. O iniciador do primeiro empreendimento foi Saturnino Vital Santos, que  administrava o Cinema-Theatro, e se localizava exatamente, onde é hoje atual prédio do cinema, na Praça 16 de Setembro. Saturnino tinha um pequeno negócio de secos e molhados, em  1911, e também aparece como proprietário de uma colchoaria, isto é uma fábrica de colchões. Ele provavelmente resolveu iniciar em outro ramo, e a 7a Arte chega à cidade, em 1916. Assim como escrito, o salão devia servir tanto às apresentações de teatro como projeções de filmes. Recordo que meu pai, José Ayres, relatou que foi assistir uma dessas seções de cinema. Era preciso ter paciência. As projeções eram constantemente interrompidas pelo rompimento das fitas de celulóide. Ah, e mudo.

A segunda sala de cinema foi o Radium-Cine, pertencente a Antonio de Paiva. Acreditamos que deveria ser uma sala,  onde eram projetados os filmes e ao mesmo tempo, também servia de para as transmissões de radio, bem como com aqueles auto-falantes instalados pelo lado de fora.

Numa prosa Brasil/Alemanha com Ruth Vilara, em junho de 2017, conta que ela teria freqüentado, quando criança, por volta dos anos 30, uma sala de cinema, onde era o antigo Club CRAC, e hoje é um supermercado. Outra sala de cinema? Seria onde Ruth assistia os filmes de farwest,  daqueles de bang-gang, nas cadeiras de madeira, que rangiam, o tal Radium-Cine? Na lembrança, a dona Chiquinha na portaria e as crianças lá pedindo a permissão para entrar "para ver se a mãe estava lá dentro". Desculpa esfarrapada. Elas queriam era ver os filmes de graça. Ah, as crianças. E lá vem a confirmação de nossa biblioteca familiar Celia Ayres de Lima/Araujo: "La funcionava também a radio".

Minas afora / Baependi, um modelo

Em Minas Gerais a cidade de Juiz de Fora foi a primeira a exibir seus filmes, no Teatro Juiz de Fora, em julho de 1897. O jornal O Pharol, publica sua programação, anunciando a maravilha elétrica, que punha as imagens em movimento. As salas de cinema se alastraram pelas estancias hidrominerais. Ter uma sala de cinema elevava o status da cidade. Cada uma queria ter a sua. Cambuquira tinha o seu cinema, em 1913, e segundo o Anuário Estatístico, as seções eram bastante concorridas. Queluz tinha o seu cinema também, em 1913 e a sua programação, igualmente concorrida e Lambari, em 1916. Montes Claros fazia grande alarde de sua programação, em 1927.  Campanha anunciou,  em 1943, que estava planejando a sua.

E a nossa vizinha Baependi, que sempre esteve à frente de Caxambu em várias ocasiões na história, no ano de 1921, tinha 2 cinemas, o Cine Modesto e Baependi Felipe de Mangia e C&. Em 1943, anunciou a construção de um cinema, com capacidade para 600 lugares. E quem era o "avalista" do projeto? A Santa Casa. Investimento na cultura para assegurar a saúde. Bem pensado, Baependi. Em 1943, ele chegou a representar o 2° lugar na arrecadação da instituição de caridade. Ele foi idealizado executado por João Mangia, mediante donativos, empréstimos, benefícios e a aquisição do maquinário foi sem nenhuma despesa para a Santa casa. Quase um milagre!

E as regras do bom conviver já teriam sido enumeradas pelo conselho deliberativo do consórcio para sua construção. Seria uma casa de diversões e para que fosse... "digna de uma cidade civilizada, como a nossa (Baependi) é imprescindível, que a Mesa adote algumas providencias e o faça  com toda energia, a saber: impedir que se fume no salão; não consentir que sejam guardados lugares com chapéus, jornais ou agasalhos sobre as poltronas, deixando sem acomodações os frequentadores que comparecem mais cedo: proibir algazarras injustificadas das crianças e mesmo dos adultos, etc."

Parece que os cinemas  eram muito frequentados, sendo diversão de fim de semana para famílias inteiras. Para melhorar a "renda", os porteiros tinham que impedir a cobrança da 1/2 entrada para adultos e "eliminar as entradas de favor". O espaço do cinema era mesmo um espaço público e  o seu  salão recebia festas de cunho caritativo, em beneficio da caixa escolar, sem falar que a arrecadação ia direto para o hospital, que tratava dos pobres. Era um outro mundo. Já disse e repito, Baependi esteve sempre à frente de seu tempo. Não era o máximo?

Cinema: Um livro das imagens luminósas / Caxambu na era Vargas


Enquanto o espaço do Cinema de Baependi era aberto para atividades com fins caritativos, o cinema de Caxambu já foi inaugurado para o glamour e representação. Sua primeira seção, em 25 de janeiro de 1940, já mostrava a que vinha. Foi durante o Estado Novo que Getulio Vargas reconhece o valor das projeções cinematográficas como instrumento  de propaganda política. No seu discurso, em 1934 escreveu: "O cinema como livro das imagens luminósas." Filmes-propagandas eram realizados para difundir uma imagem de Vargas como um líder carismático. Nos jornais ele era mostrado inaugurando obras, e excursionando por vários estados e... passeando no Parque das Águas de Caxambu, cenário para sua propaganda política. A cidade estava prontinha. Getúlio mobilizou recursos federais para a sua construção, que foi edificado no mesmo lugar, onde ja tinha funcionado o Cinema-Theatro de Saturnino, no terreno pertencente à Empresa das Águas, que também era proprietária do Hotel Caxambu, em anexo, ali na Praça 16 de setembro. As obras andaram relativamente rápidas. E em três anos o cinema estava pronto.

O imponente cinema se tornou  o ponto central das atenções da cidade e recebia vários tipos de comemorações políticas, cívicas, estudantis. Em abril de 1939, quando o espaço ainda não havia sido inaugurado oficialmente, a família do presidente Vargas compareceu ao local para assistir uma seção especial, promovida pelo Departamento Nacional de Propaganda do Governo. O filme exibido: "De braços abertos", com Spencer Tracy.

Inspirado em arte-deco, o seu interior era  luxuosíssimo (e ainda é), com as paredes revestidas de uma areia especial que refletiam um brilho de estrelas, quando a sala ficava na penumbra. Com capacidade para 200 lugares, sua inauguração foi um acontecimento, não só para a cidade, mas como também para as cidades circunvizinhas.

E o Vento levou Ruth Villara ao cinema



No aniversário da cidade, em 16 de setembro de 1940, foi exibido o filme E o vento levou, em várias seções, com entrada franca para os caxambuenses. Agora se segurem: Era a première do filme no Brasil.  Duas seções foram exibidas, uma no Rio de Janeiro e a outra... em Caxambu! E, ei! Ruth Villara, a filha de Rangel Viotti, estava presente! Ela nos contou que com o alvoroço da novidade,  assistiu E o vento levou 3 vezes! 3 horas e 42 minutos. Pensem bem...

Besame mucho




Décadas se passaram e muitas gerações cresceram assistindo filmes, naquele maravilhoso cinema.  Bateu uma tremenda nostalgia ao ouvir o Besame Mucho de Ray Connif, tocado antes de iniciar as seções, quando a iluminação mágica do teto ia mudando de cores. As luzes abaixando... vinha aquela luz amarela... agora as paredes refletiam, embora estivéssemos na penumbra, uma miríade de pontos luminosos... e era o tom de rosa...  e... aparecia aquele gavião de todo mundo enxotada... ou o leão da Metro... O cinema tremia. Urrrauu!!

Muitas cenas de namoros rolavam no escurinho. Quantas. Não vamos esquecer do Tomé, porteiro, com a lanterninha dando bronca. A criançada, ao pagar as luzes, imitava uma cabra e diziam: -Tomééé. Quanta traquinagem! E Izabela Jamal Guedes conta. "- Lembram da parte suspensa do cinema? Mesanino? Área de namoro e da bagunça? A turma do meu irmão, Ronaldo, que morreu aos 17 anos, jogou uma galinha viva lá de cima, em um filme de terror. Pânico geral e expulsão da turma toda, já que não sabiam quem era o culpado." E mais. Fui ao Cinema com o meu colega de classe Amauri Soares Moreira. Em cartaz: Lua de Papel, com Tatoo O`Neal. Nas primeiras cenas, passa pela tela um carro antigo e ele lascou: "- Olha lá o caminhão do Zé Bucha!" O cinema inteiro veio abaixo. Não sei se alguém lembra, o Zé Bucha tinha um caminhão daqueles antigos e com ele fazia entrega de gaz na cidade. Mais um outro se manifestou: Antonio Clare Maciel Santos. " -Eu fui baleiro! Vendia balas de doce de leite feitas pela Dona Cecília Levennhagen. Ficava no Hall do cinema. Assistia filmes de graça." Hoje é o  Novo Cine Caxambu. Ah, é o velho cinema e o mesmo charme, sem seu Dodô pipoqueiro ali em frente. Vale a visita, seja lá qual filme que estejam projetando.

(Façam aqui uma visita virtual ao Cinema de Caxambu)
Foto:
Fotos Antigas de Caxambu.
Da web
Fonte:
Correio da Manhã , Rio de Janeiro.
O Patriota.
Almanak Lammert, Rio de Janeiro.
Rocha, Adriano Medeiros da. in, O cinema chega às montanhas de Minas.
Almanak Laemmert- Anuário Conmercial, Industrial, Agricola, Profissional e Administrativo para 1921-1922.
Agradecimentos:
Aos colaboradores em permitir reproduzir as "conversas paralelas" do facebook, entre Izabela Jamal Guedes, Antonio Claret Maciel Santos e Ruth Villara, esta por telefone Brasil/Alemanha, em 2017.

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