sábado, 19 de agosto de 2017

Os últimos dias da Casa Armenia




"Tudo ai era português, a começar da loja dos Guedes e terminar no sonhador que descobrira as fontes de águas mineral, o Venâncio, Depois começaram a emigrar de Baependi os italianos- e Caxambu se encheu dos Viotti. Os sírios, os libaneses, os humildes turcos chegaram depois e o Bechara, o José Calil, o Abdallah, os Sarkis, mascates de uma genialidade itinerante que punha no chinelo a matreirice mineira, foram os antecessores de meu pai no lugar." (1)

E acrescentaria à lista do jornalista David Nasser, ele que também era filho de imigrantes libaneses e que morou até os 14 anos na cidade, outros sobrenomes como os Rosentais, Diórios,  Gadbens, NimansNabors, Rafles, Abrahaos, o Zhoury, Dauannys, Canaans, Hadads, Matucks, Salluns, Arjas,  Tabolares, JamalsBaldis, Fares David e... os Serabions. Sem esses bravos imigrantes Caxambu não seria hoje o que ela é. Eles ajudaram escrever a história cultural, política e econômica da cidade.

Peixes, camarão e pertences p/ feijoadas. Pra Quintino Boaiuva, 345, tel: 341- 2949. Quem hoje tentar telefonar para a Casa Armenia, ou passar pela praça Quintino Bocaiúva para fazer a sua encomenda de bacalhau para Semana Santa, vai dar com a cara na porta, diriam os mineiros.

Numa de minhas viagens ao Brasil, fui comprar pão como de costume na padaria, e passando em frente à Casa Armenia, estava lá os pintores mudando a cor interna de suas paredes. Tudo vazio. A casa Armenia mudava de dono? Levei um susto. O filho de seu Anisio, o Serabion, havia falecido e  a Casa Armenia fechava suas portas e com ela encerrava uma história de imigrantes.  

Sobrevivente

Expulsão dos armenios da Turquia
Anisio chegou ao Brasil como imigrante vindo o oriente, e era ainda menino quando aconteceu o massacre do povo armênio pelos turcos no ano de 1915. A maioria dos membros da família dos Serabions, (Babaplavian), em armênio,  foram mortos e sobraram somente os dois irmãos: Jacob e Anísio. Muitos fugiram para o deserto, assim como ele, agora órfão de pai e mãe, encontrando abrigo junto aos beduínos. O irmão Jacob, que servia  no exército libanês, resgatou mais tarde o irmão Anísio, levando-o para o para morar com ele no Líbano. Com a eclosão da Primeira Guerra Mundial, a família imigrou para o Brasil, mais precisamente para a hidrópolis Caxambu, na década de 1920, onde já morava o seu primo Salomão. Foi a terra escolhida e ao mesmo tempo a terra prometida. Assim o ramo dos Jacobs se tornaram comerciantes e dono do Bar dos Motoristas, e Anísio  fundou  a "Casa Armenia" dos Serabions.
Na cidade conheceu Araja Missa Srkis, casaram  e tiveram 6 filhos: LuciliaMoisés, Luisa, Laila Serabion, Cecília a minha professora de educação física. Sua geração esta espalhada pelo Brasil afora.

Família Serbion/Jacob em várias comemorações, em Caxambu
O universo entorno da Casa Armenia

A Casa Armenia de nossa infância era o lugar onde comprávamos aquelas balas de leite, embrulhadas cudasdosamente em papeizinhos e que ficavam naquele vidro grande de rodar. La também comprávamos os ingredientes para o tradicional bacalhau da Semana Santa, bem como azeitonas grandes, pretas, mergulhadas num vidro grande, junto com as pimentas. Minha mãe contava, que seu Anisio comia uma colherada só de pimenta retirada daqueles vidros e não fazia careta. E quando íamos comprar as azeitonas, observámos o seu Anisio, e lembrávamos das pimentas ardidas. Ele ali sentado entre os sacos de arroz e batata...

Depois de publicado o texto, muitas pessoas recorreram aos seus baús de memória e nós aqui prontificamos publica-las, ja que o nosso Blog é interativo. Foi o caso de Newton Louis Rodrigues, num comentário publicar no Facebook informando que participou de rifas, promovidas pela Casa Armenia. Naquela época a propaganda tinha que ser feita de outro jeito e a criatividade não tinha limites. Então eles recorreriam às rifas. O mais interessante eram os "prêmios": bacalhau, azeite, vinhos e outros produtos importados e muito cobiçados, já que eram produtos exclusivos e caros.  

A Casa Armenia ficava bem dizer, quase no fim da cidade, de quem ia em direção à Baependi, no entroncamento da estrada que dava para o Bairro Trançador, e fazia divisa com Estádio Rangel Viotti, conhecido como CRAC. Na pracinha havia outros dois estabelecimentos, o Mario Caetano  do lado, João Caetano, de frente. Também havia o armarinho do Lourival, logo abaixo, onde comprávamos aqueles envelopes de figurinhas para colar num álbum, que ao ser completado, dava direito a uma colcha de chenil azul.  Para a minha tristeza faltaram duas figurinhas difíceis. Não poderíamos esquecer  dos picolés do seu Lourival, que tinha uma grande diversificação de sabores. Tempos de infância. Tudo ali nequele pequeno universo em torno da Casa Armenia...

Com lagrimas nos olhos fiz as derradeiras fotos, em 2013, antes da pintura do lado de fora ser apagada. Não podia acreditar, agora a Casa Armenia era história.

Casa Armenia em 2011, foto abaixo, em 2013
Agradecimentos:
Ao meu colega de Ginásio, Jacob Serabion, pelas informações.
Fotos:
Solange Ayres
Fotos antigas de Caxambu
Wikipedia
Fonte:
(1) O Cruzeiro, 1967
Nasser David, em Cadernos de Memórias de Getulio Vargas (fragmentos)
Notas:
Vários grifos meus

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