terça-feira, 25 de agosto de 2026

A primeira escola de alfabetização da povoação do Caxambu era para meninas! E em 1870! E no terreno da antiga Escola Wenceslau Bras!



Sabem onde ficava a primeira escola de alfabetização de Caxambu? E para meninas? Na Chácara do Conselheiro Mayrink, rico industrial, benfeitor da cidade, onde hoje esta localizado o prédio da antiga Escola Wenceslau Brás, renomeada Funabem, que hoje desativada. Mas como sempre temos que contar os entrementes. Claro, história é... história.

As meninas primeiro!

A primeira iniciativa de educar na povoação das Águas do Caxambu foi, em 1870, e partiu do rico empresário  Dr Carlos Theodoro Bustamante, na chácara de sua propriedade, onde hoje abriga o prédio da antiga Escola Wenceslau Braz. O benemérito mantinha duas classes de aulas particulares de ensino primário, custeadas por ele próprio. E com uma particularidade: a primeira classe escolar instituída foi para meninas! Assim escreve Fulgêncio de Castro sobre a primeira inciativa de educar os menos favorecidos da povoação:

Existem presentemente duas escolas de instrução primária, sendo uma para meninas e outra para meninos pobres. Ambas foram instituídas pelo Dr. Carlos Theodoro de Bustamante, que paga os vencimentos dos professores. A primeira destas aulas foi inaugurada em 16 de Agosto de 1870. A professora é obrigada a matricular e a ensinar até seis discípulas, vencendo o dispêndio mensal de 20$000, com liberdade de receber qualquer outras discípulas mediante a retribuição mensal de 2$500 por alunas, pagos pelos respectivos pais.

A aula para o sexo masculino entrou em exercício, em 4 de Novembro de 1872. O professor era obrigado a matricular, e a ensinar 12 discípulos, recebendo a gratificação anual de 300$000, podendo usar da faculdade permitida à professora. Até 9 de Setembro de 1873 existiam matriculados 50 alunos, alguns dos quais apresentavam notável adiantamento, sobretudo em caligrafia e leitura, segundo observações de Fulgêncio de Castro.

Mais tarde, a dotação das verbas para as primeiras iniciativas de trazer educação para Caxambu foram de Domingos Rodrigues Viotti, deputado eleito da província. As verbas destinadas para à região incluíam "uma aula de primeira letras para meninos na povoação do Caxambu, e a verba de 500$ para a iluminação pública de Caxambu". Acreditamos que as crianças ainda faziam suas tarefas de casa sob a luz de velas, ou no luxo, iluminadas pela lamparina, como na casa de vó Gervasia. O querosene queimado era percebido nas narinas, retirado como uma borra preta do nariz, segundo o meu pai, José Ayres. Gentes, que tempos!

Se foi nesse terreno que surgiu a primeira escola da povoação, esperamos que possa voltar a ser uma entidade de ensino, para manter a tradição. Quem sabe?

Fonte:

Projeto Compartilhar
CASTILHO, Fabio Francisco de Almeida, em A transição da mão de obra no Sul de Minas - o braço imigrante e nacional nos periódicos locais.
ASSIS, Raquel Martins de; MARTINS, Juliana de Souza, em Faculdades da alma e suas implicações para a educação: saberes divulgados no século XIX, UFMG, 2012
Almanach Sul Mineiro, Campanha para o ano de 1874 de Bernardo Saturnino da Veiga.
NEVES, Leonardo Neves, VEIGA, Cynthia Greise, in Ensino Secundário em Minas Gerais: A construção de uma cultura pedagógica no Império.
CASTRO, Fulgencio de, Caxambu, 1873.
ANDRADE, Renata Fernandes Maia de, CARVALHO, Carlos Heinrique de, in A Educação no Brasil Império: Análise da Organização da Instrução na Província de Minas Gerais (1850-1889).
Annuário de Minas Gerais: Estatísticas, História, Chorographia, Finanças, Variedades, Biografia, Literatura e Indicações (MG) 1906-1913.
BALBINO, Antonio Gilberto in tese de pós-graduação da Universidade de São Francisco: Igreja e a educação feminina no Sul de Minas (1900-1950): O ultramontanismo e a incursões da modernidade- Itabira, 2018.

AGRADECIMENTOS:
Nossos especiais agradecimentos ao ARQUIVO HISTÓRICO DO EXERCITO (AHEX), DIVISÃO DE HISTÓRIA E ACESSO A INFORMAÇÃO (DHAI), na pessoa do major Ferreira Junior, que prontamente dispôs vários mapas para o nosso Blog.

A Julio Jeha, na eternidade

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Tempos de Guerra/1945/ Celia Ayres escreve aos pracinhas


A moça  era bonita. E como! Celia Ayres de Lima abafava na década de 1940, na cidade de Caxambu. Não só pela sua beleza, mas também sua inteligência. Quase que por um triz ela não continuava matriculada no Colégio Normal Santa Terezinha. Segundo ela, as rígidas freiras educadoras não quiseram renovar sua matrícula, pois ela tinha tirado notas baixas, oque a impedia de continuar na instituição. Imagine! Vó Gervásia apelou para o delegado, o coronel Martinho Lício, autoridade na cidade.

"Ele era um político feroz. Trabalhava na prefeitura e andava com um cravo de flor na lapela esquerda. Antigamente usava-se flor na lapela, broche, flor legítima. Onde ele chegava todos se calavam. Era o manda-chuva da cidade, o padrinho do Caxambu inteiro! Andava de bengala cumprimentando todo mundo. Teve um ano que não passei de ano. As professoras não tinham pedagogia para ensinar. E lá foi mamãe (vó Gervásia) pedir os seus préstimos. 

- Compadre, estou enroscada. Célia levou bomba no Santa Terezinha, e não querem que ela continue. 
- A senhora pode ir para casa, que eu vou resolver. E lá foi ele: 
- Quero que vocês façam a matrícula de Célia.
- Sim Comendador. "

Célia foi novamente registrada e passou de ano, e... foi  assim que a normalista do Colégio Normal Santa Terezinha se  tornou uma das primeiras educadoras da cidade de Caxambu, indo lecionar no Grupo Padre Correia de Almeida, e posteriormente no famoso Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, onde se aposentou. Então, valeu, seu Martinho Lício!

Mas o que eu quero contar hoje é outra história. Em uma das muitas conversas com a tia, ela revelou que mantinha correspondência com os pracinhas na Segunda Guerra mundial. Ah, pena, nenhuma das cartas sobreviveu. Ela enviava as missivas, e com foto! Claro que tinha que ter foto. Era a "visualização" das musas. E quem as recebia, ficara estonteado. Não era pra menos.


Ela era a Madrinha do Tiro de Guerra 63, de Caxambu, comandado pelo 1° Sargento Benedicto Cacilhas, e era figura pública, discursando em favor da pátria. Ela estava presente nas programações oficiais  da cidade, como no jantar oferecido a Benedito Valadares, candidato de Getulio Vargas ao Governo de Minas, em 1945, no Hotel Glória, onde foram também, convidados políticos e personalidades da cidade, como Ivon Curi. Não perguntei se ela estava usando naquele dia o seu vestido azul de organdi, com aplicação de florzinhas cor de rosa, que um dia a vó Gervasia resolveu dar fim. O vestido "causava" nos bailes de fim de semana na velha hidrópolis.

Voltando às correspondências... o Estado brasileiro teve a iniciativa de "distrair o soldado", e o programa "era parte importantíssima do esforço de guerra", publicada no jornal A Noite, de 1945. As iniciativas de  "distrair o espírito dos soldados feridos e mutilados que estavam hospitalizados eram programas de música, teatro, mágica, palestras de diferentes assuntos. E naturalmente, escrevia o jornal,  as moças eram parte relevante do esforço de distração. Era incentivada a correspondência com as "madrinhas", que lhes escrevessem, mandassem pequenos presentes, que segundo a Noite "encheria os seus dias de doce vivificante poesia". Tia Célia fez parte dessa história. Ela me contou que enviava cartas e com fotografias, cartas que passavam pelo crivo da censura, e tinham as palavras borradas com tinta, caso a missiva contivesse algo "comprometedor". Ah, que consolo ver essa beldade que os escrevia, esquecendo de suas dores, feridas e perdas.

Fonte:

A Noite (RJ) 1940 a 1949
MARQUES, Glaucia Diniz, in Cartas em tempos de Guerra: uma missão cívico-patriota da Associação Brasileira de Educação (1942-1045) - Tese de dissertação. Rio de Janeiro, 2008.
Associação Brasileira de Educação
Revista Educação - 2005
Em Guarda, revista 2010

Fotos:
Arquivo privado da família Ayres

terça-feira, 18 de agosto de 2026

Joseph/ Um nazista que viveu em Caxambu


Museu do Holocausto, Berlin, 2025

Tudo que relatar aqui foi vivenciado por mim no meio da década de 1970; 1973? 1974? Não estou bem ao certo. Um dia meu primo Edson, passando por Caxambu de férias, me levou até a chácara da tia Mercedes para um passeio. Na volta paramos num sítio, a uns 700 metros à frente da chácara, em direção à Caxambu, onde residia um agricultor, pois no momento de nossa chegada, ele dirigia um trator, do qual desceu para uma pequena conversa. Era o senhor Joseph, um sujeito aparentando seus 60/70 anos, alto, magro, mãos grandes de lavrador.  Era o senhor Joseph. Ele que tinha boa relação de vizinhança com a minha tia Mercedes, da Chacara das Uvas, por praticarem atividades agrícolas. Não chegamos a adentrar em sua residência. A conversa aconteceu numa construção de madeira do sítio. Não me recordo em que contexto ele foi nos mostrar  os seus… „ guardados“. Um longo casaco preto de feltro e… uma insígnia,  um broche da cruz gamada nazista, bem como um revolver. Do botton eu não me esqueço. Mostrou com orgulho. Nos despedimos. Sinistro...

Algum tempo mais tarde meu pai comentou que seu Joseph teria ido para São Paulo. Pesquisando, até agora não achei nenhuma notícia em jornais sobre o assunto, mas, no meio da década de 70 houveram varias denuncias de nazistas residentes no Brasil. Se alguém aí da minha geração da terrinha Caxambu se lembra de algum fato, ou conheceu a pessoa de seu Joseph, poderemos continuar a contar a história.

Foto:
Solange Ayres, museu do Holocausto, Berlin, Alemanha, 2025.