| Izidra à direita, e sua família |
A região onde a família de Izidra se estabeleceu era próximo aos trilhos. Sendo seu pai trabalhador da Estrada de Ferro Central do Brasil (não sabemos qual cargo exercia) não poderia ser de outra maneira. A estrada Presidente Pereira que passava pela localidade Macacos, atual Paracambi, onde grande e parte de seus irmãos nasceram, foi inaugurada, em 1861, e fazia parte da malha ferroviária que ligava o Sul de Minas a Barra do Pirahy. A localidade denominada Tarietá, 3° distrito de Itaguaí, eram separados pelo Rio dos Macacos, que também era nome de fazenda, mais tarde denominado Paracambi. A Fazenda dos Macacos era pouso de tropeiros que circulavam entre Minas e São Paulo.
O trecho entre o povoado de Macacos pela estrada "Presidente", como era conhecida, trafegavam todas as cargas de produções agrícolas e passageiros de Vassouras,Valença e Barra do Pirahy. Era o entroncamento ferroviário mais importante do Brasil! A ligação entre Barra do Pirahy e Caxambu foi inaugurada, em 1891, como extensão que vinha da cidade de Soledade. Assim se explica a mobilidade das famílias, e explica como Izidra foi parar em Caxambu.
Seu pai Emílio Mendes da Luz como funcionário da Estrada de Ferro, vivia em constante mudanças, e os registros de seus filhos seguiam os nomes das estações de trem. Todas as localidades citadas acima constam das certidões de nascimento de Izidra e seus irmãos. Elas me facilitaram a pesquisa, e foi só seguir... os trilhos. Seu primogênito, João Mendes, nasceu na localidade de Macacos, em 1886, (que se chamou também Tairetá, e finalmente, Paracambi, aqui repetindo) A estação de trem da localidade se chamava Rodeio, (foto acima) que também era nome de uma fazenda, foi inaugurada, em 1863, pela família imperial, e renomeada, em 1946, para Paulo de Frontin.
| Estação Sagrada Familia do Tinguá |
| Estação Rodeio, Marc Ferrez, 1902 |
Izidra nasceu, em 1890, na localidade Oriente, e foi registrada na povoação Rodeio; Eurico nasceu, em 1892, na mesma localidade. Em 1892 consta que a família ainda residia na localidade Oriente, onde também nasceu Maria Ana da Luz/ Soller , e onde existia a fazenda do mesmo nome Fazenda Oriente, grande produtora de café, hoje pertencente ao município Vassouras. A fazenda emprestou o nome à estação inaugurada, em 1878, mais tarde denominada Mario Belo. A partir dela iniciam os túneis 1 e 2 em direção a estação Engenheiro Gurgel, onde seria o começo da tragédia que atingiu a família...
O trem azul, muito antes de Lo Borges...
"O Cruzeiro do Sul" era mais do que um trem: era uma instituição, um símbolo de luxo, um emblema de grandeza (...). No silêncio das noites de Rodeio, nunca chegando antes, nunca chegando depois, ouvíamos o "Cruzeiro do Sul" ainda ao longe, saindo do túnel 11 e vindo majestosamente, serpentede aço azulado, precisando cumprir o horário, nunca parando ali. Ninguém ia dormir sem que ele chegasse com seus vagões iluminados, deslizando sobre os trilhos como uma lagarta fosforescente, fazendo a estação rejeitada tremer de orgulho ferido, mas de vaidade também (...) Assim eram os trens daquele tempo, assim era o Cruzeiro do Sul, que não dava bola para Rodeio e o humilhava com o seu desdém, passando lentamente com seus vagões iluminados e se perdendo na noite. Mesmo assim, Rodeio sentia que vivera mais um instante de glória. Podia adormecer, agora, no silêncio deixado pelo trem azul, silêncio magnífico, silêncio que cheirava a carvão e cheiraria a saudade" . (1)
Acredito que os avós de Izidra tinham uma ocupação, em alguma das fazendas, cujos donos pertenciam aos barões do café. Na região era a única forma de estar ocupado e ganhar algum dinheiro. O café estava ainda no auge, e a lavoura precisava de braços livres para seu cultivo, já que a escravidão se aproximava do fim quando foi abolida, em 1888. Em 1882 a fazenda Rodeio apresentava números consideráveis: 59 alqueires, pastos e plantações de café no valor de 8.260$000 contos de reis. Dentre o inventário de "coisas e objetos de prata" constavam num total de 102 escravos, sendo 60 homens e 42 mulheres e 51 menores. Mas no início do século XX os braços que trabalhavam na lavoura migraram para outras profissões com o declínio do cultivo do café. Possivelmente foi o que aconteceu com Emiglio Mendes da Luz, que ocupou um posto na Ferrovia Dom Pedro II.
O trem, denominado Barrinha, que servia a região, relinchou sobre seus trilhos pela última vez, em 1996, mas continua lá os gritos silenciados nos túneis dos inúmeros acidentados, um deles o pai de Izidra, que ficou órfã aos 4 anos. O primeiro acidente noticiado aconteceu, em 1881. As baldeações eram tumultuadas e perigosas, pois não havia ordem, nem fiscalização, causado perigo aos passageiros, e trabalhadores ferroviários. Ha notícias de descarrilhamentos, colisões, carros que desprendiam das composições disparando sem freios serra abaixo, atrasos provocados por perigosas falhas mecânicas. Fora as intempéries. As chuvas provocavam deslizamentos de terra, principalmente nas áreas de aterro, e pedras soltavam-se das encostas, causando danos nas locomotivas, e pondo em perigo quem trafegava. O trajeto tinha onze túneis e o trecho era de fato perigoso.
Seguindo os trilhos da história / Sete e meia da noite no Oriente/Onde mora o perigo
Izidra conheceu José Augusto Nogueira, com quem se casou, em 10 de fevereiro de 1912, na Igreja Matriz Nossa Senhora dos Remédios de Caxambu com a presença das testemunhas do coronel Martinho Lício, autoridade local, e Antonio João. Aqui Izidra adquire o sobrenome de "Luz Nogueira". Da união vieram dois filhos ao mundo: Alice Luz Nogueira dos Santos (1912-?); José Geraldo Nogueira (1916-?). Mas o destino mais uma vez mudou sua vida. José Augusto Nogueira faleceu, em 20 de fevereiro de 1924, aos 42 anos de idade, vítima de... syphilis.
Assim a viúva Izidra conhece Adolpho, e se casaram, em 2 de maio de 1926, em Caxambu, tendo Angelo Morelli e Reynaldo Olavo Maciel como testemunhas. Em 27 março de 1927 eles já tinham se mudado de Caxambu, e estavam morando, em Guaratinguetá, data do nascimento de seu primeiro filho Adolfo Alves dos Santos, o Adolfinho. Maria Aparecida dos Santos nasceu em 2 de outubro de 1928; Aluízio Alves dos Santos, em 4 de fevereiro de 1933, e falecido em 2022, em São Lourenço, Minas Gerais; José Luiz dos Santos (1936-?); Helena dos Santos, ainda viva.
A saga da família continuava. Entre idas e vindas Adolpho adquire terras em Santa Branca, que ficou sob as aguas, após a construção da barragem, mas voltaram para Minas, São Lourenço, onde também tentou ser administrador de um hotel na cidade. Segundo Helena, o pai comprou literalmente gato por lebre. O hotel era velho, as roupas de cama rotas. O negócio não foi para frente. Mais uma vez a família muda para Guaratinguetá, onde também gerenciaram um hotel pensão... nela a família viveu uma grande tragédia, e que será contada no próximo texto.
Fonte:
A Província, de São Paulo, 16.3.1882.O Estado de São Paulo, 25.07.1897
Jornal do Brasil, 24 1 1992, Barrinha Estação Mario Belo
O Estado de São Paulo, 3.1. 1917.
Serra: Paracambi - uma junção que deu certo in Jornal do Brasil, 1, marco 2025.
MELLO Carvalho Pedro, Kreter Ana Cecília de Medeiros Nitzche - in A economia do Café no século XIX.