segunda-feira, 8 de junho de 2026

O trens da história/Izidra Nogueira Mendes da Luz/ Tudo começou em Caxambu...

Izidra à direita, e sua família

Quem foi Izidra? Oque estaria ela fazendo no Blog da Família Ayres? Porque? Ah sim, vamos contar tudinho! Izidra Nogueira/ Mendes da Luz foi a esposa de Adolpho Alves dos Santos, cujo marido tinha, digamos, mais de uma família, formada 25 anos antes de seu casamento, com Rosalia Angelina de Carvalho, mãe de Alzira de Carvalho/Ayres, que se casou de primeiras núpcias com meu pai José Ayres. Seus filhos com Rosalia Angelina já eram adultos quando, em 1923, Adolpho disse sim, em Caxambu, para Izidra. A surpresa veio depois, conta Helena, ainda viva e lúcida, filha de Adolpho e Izidra. Sua mãe desconhecia a "família paralela" que seu marido tinha formado muito antes de se casar. Foi um grande choque.

Senta que la vem história!



E se a gente vai contar a história da família, vai falar também de história do Brasil, do fim da escravidão, da passagem de uma sociedade escravocrata para a república, da grande migração de trabalhadores do Sul de Minas para as regiões das grandes plantações de café no vale do rio Paraíba. Ao iniciar as minhas pesquisas genealógicas, não conseguia entender como Izidra teria nascido em Barra do Pirahy, indo parar em... Caxambu. Ao achar sua certidão de nascimento estava claro: seu pai trabalhava na Companhia de Estrada de Ferro, oque marcaria sua família para sempre. 

Aqui então vamos apear no trem, no trem da história, pois  Minas é história, e é trem que não acaba mais. Estaremos falando dos caminhos que ligavam Minas ao mar, cujos trilhos, segundo o poeta Milton Nascimento, mandaram arrancar...

A região onde a família de Izidra se estabeleceu era próximo aos trilhos. Sendo seu pai trabalhador da Estrada de Ferro Central do Brasil (não sabemos qual cargo exercia) não poderia ser de outra maneira. A estrada Presidente Pereira que passava pela localidade Macacos, atual Paracambi, onde grande e parte de seus irmãos nasceram, foi inaugurada, em 1861, e fazia parte da malha ferroviária que ligava o Sul de Minas a Barra do Pirahy. A localidade denominada Tarietá, 3° distrito de Itaguaí, eram separados pelo Rio dos Macacos, que também era nome de fazenda, mais tarde denominado Paracambi. A Fazenda dos Macacos era pouso de tropeiros que circulavam entre Minas e São Paulo.

O trecho entre o povoado de Macacos pela estrada "Presidente", como era conhecida, trafegavam todas as cargas de produções agrícolas e passageiros de Vassouras,Valença e Barra do Pirahy. Era o entroncamento ferroviário mais importante do Brasil! A ligação entre Barra do Pirahy e Caxambu foi inaugurada, em 1891, como extensão que vinha da cidade de Soledade. Assim se explica a mobilidade das famílias, e explica como Izidra foi parar em Caxambu.

Seu pai Emílio Mendes da Luz como funcionário da Estrada de Ferro, vivia em constante mudanças, e os registros de seus filhos seguiam os nomes das estações de trem. Todas as localidades citadas acima constam das certidões de nascimento de Izidra e seus irmãos. Elas me facilitaram a pesquisa, e foi só seguir... os trilhos. Seu primogênito, João Mendes, nasceu na localidade de Macacos,  em 1886, (que se chamou também Tairetá, e finalmente, Paracambi, aqui repetindo) A estação de trem da localidade se chamava Rodeio,  (foto acima) que também era nome de uma fazenda, foi inaugurada, em 1863, pela família imperial, e renomeada, em 1946, para Paulo de Frontin.

Estação Sagrada Familia do Tinguá

Nos fins do século XVI as terras da região eram habitadas pelos índios Tamoios, antes de ser uma sesmaria da Sagrada Família do Tinguá, em 1755. Depois vieram os colonizadores. O povoado surgiu assim como surgiram outros lugarejos do Brasil, formado por caravanas de tropeiros que partiram do litoral Brasil adentro em busca de novas terras. Por algum tempo foi nome de estação (foto). 

Rodeio

A localidade Rodeio era ponto convergente entre Minas e São Paulo, e onde eram feitos de fato os rodeios do gado, destinado ao corte.

Estação Rodeio, Marc Ferrez, 1902

Assim notícia Ciro Ciocleciano Ribeiro Pessoa sobre a região, em 1886.

"As estações de Serra, Palmeiras e Rodeio são muito procuradas pelo seu excelente clima e são os germens e lindas e pitorescas povoações para onde afluirá a população da Corte na estação calmosa. Na estação Rodeio acha-se estabelecida a fábrica de formicida Capanema, tão importante para a nossa lavoura". 

Izidra nasceu, em 1890, na localidade Oriente, e foi registrada na povoação Rodeio; Eurico nasceu,  em 1892, na mesma localidade. Em 1892 consta que a família ainda residia na localidade Oriente, onde também nasceu Maria Ana da Luz/ Soller , e onde existia a fazenda do mesmo nome Fazenda Oriente, grande produtora de café, hoje pertencente ao município Vassouras. A fazenda emprestou o nome à estação inaugurada, em 1878, mais tarde denominada Mario Belo. A partir dela iniciam os túneis 1 e 2 em direção a estação Engenheiro Gurgel, onde seria o começo da tragédia que atingiu a família...

O trem azul, muito antes de Lo Borges...

"O Cruzeiro do Sul" era mais do que um trem: era uma instituição, um símbolo de luxo, um emblema de grandeza (...). No silêncio das noites de Rodeio, nunca chegando antes, nunca chegando depois, ouvíamos o "Cruzeiro do Sul" ainda ao longe, saindo do túnel 11 e vindo majestosamente, serpentede aço azulado, precisando cumprir o horário, nunca parando ali. Ninguém ia dormir sem que ele chegasse com seus vagões iluminados, deslizando sobre os trilhos como uma lagarta fosforescente, fazendo a estação rejeitada tremer de orgulho ferido, mas de vaidade também (...) Assim eram os trens daquele tempo, assim era o Cruzeiro do Sul, que não dava bola para Rodeio e o humilhava com o seu desdém, passando lentamente com seus vagões iluminados e se perdendo na noite. Mesmo assim, Rodeio sentia que vivera mais um instante de glória. Podia adormecer, agora, no silêncio deixado pelo trem azul, silêncio magnífico, silêncio que cheirava a carvão e cheiraria a saudade" . (1)

Acredito que os avós de Izidra tinham uma ocupação, em alguma das fazendas, cujos donos pertenciam aos barões do café. Na região era a única forma de estar ocupado e ganhar algum dinheiro. O café estava ainda no auge, e a lavoura precisava de braços livres para seu cultivo, já que a escravidão se aproximava do fim quando foi abolida, em 1888. Em 1882 a fazenda Rodeio apresentava números consideráveis: 59 alqueires, pastos e plantações de café no valor de 8.260$000 contos de reis.  Dentre o inventário de "coisas e objetos de prata" constavam num total de 102 escravos, sendo 60 homens e 42 mulheres e 51 menores. Mas no início do século XX os braços que trabalhavam na lavoura migraram para outras profissões com o declínio do cultivo do café. Possivelmente foi o que aconteceu com Emiglio Mendes da Luz, que ocupou um posto na Ferrovia Dom Pedro II.

O trem, denominado Barrinha, que servia a região, relinchou sobre seus trilhos pela última vez, em 1996, mas continua lá os gritos silenciados nos túneis dos inúmeros acidentados, um deles o pai de Izidra, que ficou órfã aos 4 anos. O primeiro acidente noticiado aconteceu, em 1881. As baldeações eram tumultuadas e perigosas, pois não havia ordem, nem fiscalização, causado perigo aos passageiros, e trabalhadores ferroviários. Ha notícias de descarrilhamentos, colisões, carros que desprendiam das composições disparando sem freios serra abaixo, atrasos provocados por perigosas falhas mecânicas. Fora as intempéries. As chuvas provocavam deslizamentos de terra, principalmente nas áreas de aterro, e pedras soltavam-se das encostas, causando danos nas locomotivas, e pondo em perigo quem trafegava. O trajeto tinha onze túneis e o trecho era de fato perigoso. 

Seguindo os trilhos da história / Sete e meia da noite no Oriente/Onde mora o perigo




E foi por volta das sete e meia da noite que aconteceu o acidente. Era um 28 de abril de 1894, na localidade Oriente, que ainda não era, Mario Belo, próximo onde morava. O acidente foi registrado somente, em 15 de maio, num comunicado ao cartório de Macacos, e teria ocorrido no túnel Dois, da estação Mario Belo, em direção a Engenheiro Gurgel, hoje município de Vassouras. A causa do acidente: "Por baterem com a cabeça na ponte 2". Na foto o relatório dos acidentes do ano de 1894. Túnel 2, sim como consta na certidão civil de óbitos. Literalmente da noite para o dia a família ficou sem o arrimo seu arrimo. Que fazer?

No ano de 1894 ainda não havia previdência social, nem amparo para as viúvas e seus filhos, em caso de acidentes de trabalho; assim viviam de doações. A primeira lei da previdência dedicada aos funcionários da EF Central do Brasil passou a existir somente, em 192l, portanto não sabemos a real situação em que a família se encontrou após o falecimento de Emílio. No mesmo ano, Ana Maria e seus quatro filhos se mudam para Caxambu. O quinto ainda estava em sua barriga, e foi nascer na hidrópolis. Por quais razões a viúva e seus filhos se mudaram para Caxambu? Seria porque a cidade estava em ascensão e viram a facilidade de chegada a ela nos trilhos uma solução? Muitas perguntas, mas poucas respostas. Somente os fatos. A vida seguiu. Em Caxambu foram criados os filhos Izidra, João, Eurico e Emílio que posteriormente migraram em direção ao Rio de Janeiro, e lá faleceram, com exceção de Maria, que viveu e faleceu, em Caxambu, casou-se de primeiras núpcias com Salvador Y Contesti Soller, dando origem ao ramo dos Sollers. Mas esta já e outra história.

Izidra conheceu José Augusto Nogueira, com quem se casou, em 10 de fevereiro de 1912, na Igreja Matriz Nossa Senhora dos Remédios de Caxambu com a presença das testemunhas do coronel Martinho Lício, autoridade local, e Antonio João. Aqui Izidra adquire o sobrenome de "Luz Nogueira". Da união vieram dois filhos ao mundo: Alice Luz Nogueira dos Santos (1912-?); José Geraldo Nogueira (1916-?). Mas o destino mais uma vez mudou sua vida. José Augusto Nogueira faleceu,  em 20 de fevereiro de 1924, aos 42 anos de idade, vítima de... syphilis.

Assim a viúva Izidra conhece Adolpho, e se casaram, em 2 de maio de 1926, em Caxambu, tendo Angelo Morelli e Reynaldo Olavo Maciel como testemunhas. Em 27 março de 1927 eles já tinham se mudado de Caxambu, e estavam morando, em Guaratinguetá, data do nascimento de seu primeiro filho Adolfo Alves dos Santos, o Adolfinho. Maria Aparecida dos Santos nasceu em 2 de outubro de 1928; Aluízio Alves dos Santos, em 4 de fevereiro de 1933, e falecido em 2022, em São Lourenço, Minas Gerais; José Luiz dos Santos (1936-?); Helena dos Santos, ainda viva.

A saga da família continuava. Entre idas e vindas Adolpho adquire terras em Santa Branca, que ficou sob as aguas, após a construção da barragem, mas voltaram para Minas, São Lourenço, onde também tentou ser administrador de um hotel na cidade. Segundo Helena, o pai comprou literalmente gato por lebre. O hotel era velho, as roupas de cama rotas. O negócio não foi para frente. Mais uma vez a família muda para Guaratinguetá, onde também gerenciaram um hotel pensão... nela a família viveu uma grande tragédia, e que será contada no próximo texto.

Fonte:

A Província, de São Paulo, 16.3.1882.
O Estado de São Paulo, 25.07.1897
Jornal do Brasil, 24 1 1992,  Barrinha Estação Mario Belo
O Estado de São Paulo, 3.1. 1917.
Serra: Paracambi - uma junção que deu certo in Jornal do Brasil, 1, marco 2025.
MELLO Carvalho Pedro, Kreter Ana Cecília de Medeiros Nitzche  - in A economia do Café no século XIX.
ALEGRIO Leila Vilela, in Histórias não contadas da Familia Werneck - Século XIX
*Carlos Heitor Cony, 1996 (1)
Pessoa Junior, Cyro Diocleciano Ribeiro, in Estudo descritivo das estradas de ferro do Brasil, RJ, 1886.
Estrada de Ferro Central do Brazil. Relatório do anno de 1894, apresentado ao cidadão Geraldo Bibiano Serigo de Macedo da Fontoura Constalat. Ministro e Secretário de Estado dos Negócios da Indústria, Viação de Obras Públicas, pelo Coronel do Grupo de Estado Maior de 1a Classe Vespiano Gonçalves de Albuquerque e Silva. Diretor da mesma Estrada.

Foto: 
Foto do arquivo privado da familia Alves dos Santos.
Fernando Oliveira fone flickr.
Gravuras Carlos Linde , 1873.
Choque de trens 1892 e veo O Estado de sao paulo 6 2 1892.
Agradecimentos:
Agradecimentos a Marcos Vinicius e a tia Helena pelas preciosas informações publicadas neste blog.
Todas as fotos foram baixadas de vários sites da internet, muitas delas sem informações. Se alguém reivindicar sua autoria, serão removidas.
Nota: 
Tentei aqui contar o que ouvi com a maior fidelidade possível, respeitando a história pessoal de cada indivíduo. Não estamos fazendo qualquer julgamento de valor, pois as histórias teem que serem entendidas nos seus contextos histórico e familiar.