domingo, 4 de julho de 2021

Nossas Senhoras! / Caxambu e Pouso Alto e a troca das Santas


E recontando a história...

"A imagem da Padroeira de Pouso Alto, conforme foi publicado em "O JORNAL" de 7 de julho de 1957, não é de Nossa Senhora da Conceição, mas Nossa senhora dos Remédios. O caso se resume no seguinte: "O Capitão Estácio da Silva encomendara em Portugal uma imagem de Nossa Senhora dos Remédios, para Caxambu. Na mesma época, entretanto, o povo de Pouso Alto, encomendara também, uma imagem de Nossa Senhora da Conceição, tendo ambas chegado na mesma época ao Brasil, e por uma ocorrência até hoje inexplicável a imagem de Nossa Senhora da Conceição destinada a Pouso Alto foi parar em Caxambu e a de Nossa Senhora dos Remédios, padroeira daquela estância veio parar em Pouso Alto. Tendo isto acontecido, os católicos deste com daquele povoado não quiseram efetuar a troca das imagens e até hoje permanecem trocadas, nos templos de Caxambu e Pouso Alto. Isto se deu em 1748."
Foto:
Carimbo Oficial da Capela de 16 de setembro de 1890.
Fonte:
VILELA, Luiz Alexandre Guimarães, em Pouso Alto - Relicário da História de Minas
Revisão:
Paulo Barcala

quinta-feira, 1 de julho de 2021

Em memória à minha mãe, Arminda Maria Ayres/Nomes, lugares, gentes/ Piracicaba/ Baependi no tempo de 1870


Certidão de óbito de Joao José de Lima, falecia em 1875 e seu escravo, Francisco, falecido um ano
 antes, 1874; ambos foram sepultados no cemitério de Santo Antonio do Piracicaba no ano de 1875. 

Minha mãe é culpada. Muitos dos nomes de lugares ouvia de minha mãe ficaram na minha memória. Cinquenta anos depois fui buscar as raízes. Os arquivos consultados foram os registros de óbitos da região de Piracicaba, hoje bairro de Baependi, onde ela morou. No rio Baependi, na altura do Gamarra,  minha bisavó perdeu a vida. Ela se afogou ao cair de uma pinguela num dia de chuvas torrenciais de janeiro.

Nos arquivos  pesquisados também se encontra o registo do mais antigo ancestral da Família Ayres dJoão José de Lima e Silva (1798-1876), casado com Joana Thereza Ribeiro de Lima (1807-1860), sepultado no Cemitério de Santo Antonio do Piracicaba, Baependi.

Na década de 1870, Piracicaba e seus arredores, as localidades tinham muitos nomes, nomes relacionados a toponimia ou a pessoas.

Tive a paciência de colecionar os nomes, alguns conservando a ortografia e muitas repetições, escritas pelo pároco, que sabia bem onde as pessoas moravam. Eles foram compilados do livro de óbitos de Piracicaba entre os anos de 1869 e 1891; quase três décadas as fronteiras territoriais eram divididas com Baependi, Aiuruoca tinham muitos nomes. Hoje as localidades fazem parte do Parque Estadual da Serra do Papagaio. As referencias geográficas e o nomes caíram no esquecimento, outros permaneceram.

Baependi, Palmital, Lage, Piracicaba, Chapeo, Lagoinha do Chapéu, Lagoa, Gamarra termo da Lagoa, Santo Antonio do Piracicaba, Serra do Paula, Serra, Itahúna, Vargem, Congonhal, Fazenda de São  Pedro, Capoeirinha, Lagoinha, Passagem, Cubatão, Capão, Bananal, Rego d`Agua, São  Pedro, Serra do Paula, Lage da Cachoeirinha, Andradas, Gamarra acima da Passagem, Serra da Lagoa, Boa Vista do Chapeo, Prateado da Lagoa, Serrada Prata, Monte Seco, Serra da Aiuruoca, nas Vargens, Barra do Palmital, nos Limeiras, na Serra termo d`Alagoa, Casa Branca, Buracão, Boa Vista, Chapeo de Cima, Serra do Capão, Matto Dentro, Três Pinturas, na Ponte, Freguesia da Lagoa, no Theotonio, nos Felipes, Serra do Theotonio, Serra do Mato Dentro, Lagem, Gamarra termo da Lagoa, Theotonio do Termo da Lagoa, Gamarra baixo, Serra Baixa, Gamarra do Belém, Gamarra do Distrito d`Alagoa, Capão Triste, no Pica Pau, Serra da Lage, Capão dos Gomes, Fazenda do Sobrado, Gamarra da Lagoa, Chapada.

Que nossos ancestrais estejam em paz na eternidade.

domingo, 28 de março de 2021

Posto de vacinação de Caxambu/ Memórias de uma arquitetura


Quem se lembra do posto de vacinação de Caxambu? Muitos dos caxambuenses, que hoje estão espalhados pelo mundo afora, e que vivem sem as sequelas daquelas temíveis doenças infantis foram levados pelos seus pais para vacinar. O posto ficava na esquina da rua Major Penha com a rua Dr. Viotti, (foto). O prédio não existe mais, como podem ver nas fotos, mas ficou na lembrança. 

Lá tivemos as nossas bocas abertas pelos médicos e enfermeiras, que ajudavam na vacinação, e recebemos aquelas gotinhas que nos salvaram da paralisia infantil. Eu fui uma delas! Meus pais nunca duvidaram da medicina. Principalmente ele, José Ayres, eletricista de profissão, que acreditava na ciência, no progresso da humanidade. 

Hoje a ciência esta muito mais avançada. O Brasil conseguiu erradicar a temível varíola. O último caso notificado no Brasil foi em 1971 e no mundo, em 1977. A atuação do Plano Nacional de Imunização, PNI coordena a estratégia de vacinação nacional com sucesso, com vacinas certificadas pelas Organizações Mundial da Saude (OMS) em coordenação com o SUS, Sistema Único de Saude. Com sucesso as metas de imunização foram consolidadas e hoje doenças como sarampo, tétano neonatal foram drasticamente reduzidas. Outras doenças também formam controladas pela vacinação como difteria, coqueluche e tétano, hematite B, meningites, febre amarela, formas graves de tuberculose, rubéola, caxumba.
Alguém ainda duvida? Ninguém! Até tivemos uma carteirinha de vacinação de Gisele Rosalini Nogueira,  caxambuense, e que hoje mora no Rio de Janeiro, exclusiva aqui para o nosso Blog. Ela foi espetada pela profissional Laura Maria Andrade Luz, a tia Laurinha. Somos interativos, como sempre, e com a devida autorização, publicamos esta relíquia aqui em 13 de setembro de 2026. Não é chique? Brigadim Gisele!


Fonte: 
Ilha do Conhecimento
Fotos:
Fotos Antigas de Caxambu
Google

domingo, 17 de janeiro de 2021

Um dia de Natal na casa de Rodolfo Weber e dona Emilia


"Tudo ai era português, a começar da loja dos Guedes e terminar no sonhador que descobrira as fontes de águas mineral, o Venâncio, Depois começaram a emigrar de Baependi os italianos - e Caxambu se encheu dos Viotti. Os sírios, os libaneses, os humildes turcos chegaram depois e o Bechara, o José Calil, o Abdallah, os Sarkis, mascates de uma genialidade itinerante que punha no chinelo a matreirice mineira, foram os antecessores de meu pai no lugar."(1) 

Este texto, de David Nasser, retrata bem o perfil dos imigrantes que vieram para a cidade no início do século passado. Caxambu teve o privilégio de contar com eles, que ajudaram a escrever a sua história econômica e política. Hoje vamos contar sobre austríaco Rodolfo Weber, um imigrante tardio se compararmos com os seus antecessores. Ele chegou à cidade na década de 1940 e não a deixou mais. Suas obras podem ser vistas na região urbana  e nos arredores, parte escondida nos seus alicerces. Permanecem não só o seu trabalho em concreto, mas também uma geração de filhos e netos. Vamos lá!

O pai, um pintor famoso

Antes de falarmos sobre seu Rodolfo, temos que falar de seu pai, também Rudolph Weber, pintor conhecido da Academia de arte de Viena. Nascido em Spitz, Austria, em 1872, casado com Karolina Burnner (1889-1926), com quem teve três filhos: Marianne, Hans e Rodolfo (1906-?). 

Em 1900 Rudolph muda-se para Spitz an der Donnau e concentra-se em retratar os seus arredores. Convocado para a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), serviu como tenente oficial na marinha. Ao voltar para a casa, teve grandes dificuldades para se adaptar à nova vida, conta o bisneto Rodolfinho. O bisavô tinha alta patente militar e estava acostumado a ser servido. Karolina, que tinha se mudado para interior, estava mais  preocupada em dar comida aos três filhos. Ela falava em criar porcos para atender a demanda da cozinha, enquanto Rudolph pensava em suas telas de pintura. Ela falava em pão e ele, de arte. Duas diferentes visoes de mundo, que levaram à separação do casal. 

Rudolph casa-se então com a pintora Anna Tischler (1881-1955). Ambos faziam parte da União de pintores de Wachau. Juntos fizeram viagens, retratando paisagens italianas do Tirol, do Lago de Garda e de Adria. A partir de 1933, ele se ocupa em pintar a cidade de Krems an der Donau (foto). À primeira exposição em 1919, em Krems, seguiram outras 40. Seus trabalhos eram regularmente apresentados na Wiener Künstlerhaus. Ficou conhecido pelas técnicas de aquarela, guache e pintura a óleo. Apesar do grande esforço de manter a União dos pintores, o tempo chegou. A associação se dissolveu em 15 de janeiro de 1978 e deixou a memória de pintores como Rudolph Weber, o pai de Rodolfo, que faleceu em Krems-Stein em 1949.



Karolina Brunner, mãe de Rodolfo Weber, aos 25 anos de idade fotografada
em 1914. Ao fundo a residência da família de Rodolfo Weber no interior da Áustria.

Karolina teve um triste fim. Ela faleceu num acidente, aos 38 anos de idade, quando levava marmita para o genro, tendo seu vestido se enroscado numa turbina elétrica. Foi encontrada sem vida. Rodolfo tinha então 20 anos. As informações de como, onde e por quem os filhos foram criados nos faltam. Muitas lacunas ficaram. Elas estão para sempre sepultadas com os que se foram.

Uberaba, Uberlândia

O que pudemos resgatar, pelo esforço, telefonemas, conversas com o seu bisneto, Rodolfinho e sua mãe, nora de Rodolfo, pusemos neste texto.

Rodolfo Weber filho nasceu na cidade de Spitz, Áustria em 24 de maio de 1906. Imigrou muito jovem para o Brasil, mais especificamente para Minas Gerais. Ele chegou ao Brasil quando o Estado promovia a modernização da infraestrutura urbana dos municípios. Rodolfo deixou suas obras espalhadas por algumas cidade minieras. Como não possuía documento ou diploma que comprovasse sua qualificação profissional em engenharia civil com especialização em alicerces, foi declarada como profissão na sua certidão de casamento "pedreiro". Mas o que isso importava na época? A competência nos trabalhos confirmava sua formação profissional. Mão de obra especializada era valiosa para aquele momento que o país vivia. 

Inicialmente fixou-se em Belo Horizonte, onde se casou com a vienense Emília Antonia Suatek (24/5/1906-?) num dia que se anunciava a primavera, 20 de setembro de 1930. A prometida noiva, que tinha ficado à espera na Áustria, foi recebida no porto do Rio de Janeiro. O pretendido noivo financiou sua passagem para o Brasil com dinheiro ganho na... loteria. Emilia embarcou no vapor sem certeza de que ele a esperava. Uma aventura! Imaginem, não tinham telefone nem celulares. Mas na chegada, lá estava ele de chapéu de palheta à sua espera... Inesquecível. Da união nasceram quatro filhos: Rodolfo José, Christina Mari, Günther Hans e Emi Lucia.

Em Belo Horizonte trabalhou como mestre de obras, atuando na construção de igrejas. A igreja de São José, no bairro Barro Preto foi uma delas. Sua especialidade era erguer as sólidas bases de concreto armado.

 
Rodolfo morou ainda em Uberaba e Uberlândia antes de ir para Caxambu. Desde o início da colonização do Brasil, as duas cidades já eram ponto de confluência das províncias de Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso, e por isso, se tornaram um importante centro mercantil. Por Uberaba passaram boiadas, sal e outro, gêneros alimentícios. Em 1922 a Câmara Municipal de Uberaba aprovou um projeto de saneamento da cidade que somente pode ser realizado em 1937. A cidade passou por intervenções importantes no denominado "Saneamento e Planta de Extensão de Uberada", de autoria do engenheiro Saturnino de Britto executado pela Empresa Mineira de Construções tendo Rodolfo à frente como mestre de obras na canalização do Córrego das Lages, (foto). Na década de 40, Uberaba era uma cidade elegante, quase... européia. Lá que nasceu Gunther primeiro filho de Rodolfo. (foto/Praça Rui Barbosa).

Foto l ponte entre Uberaba e Uberlândia; foto 2 e 4 obras de canalização do Córrego das Lages, em Uberaba; foto 4: Rodolfo com sua motocicleta da marca India, presente de Emilia; foto 5: obra concluida.

Em Uberlândia, entre 1937 e 1938, Rodolfo fo gerente da loja Ocatiba, que tinha sede em São Paulo e era especializada na venda material de construção e ferragens. Foi lá que ele adquiriu experiência no ramo de negócios.

Rodolfo estava fazendo uma obra em São Lourenço, no início dos anos de 1940, quando foi chamado para trabalhar em Caxambu na construção do Cassino Glória (foto 4). Com projeto de Freire e Sodré, uma dupla de arquitetos cariocas responsáveis por inúmeras edificações pelo Brasil afora, o cassino foi inaugurado em 1942. A firma manteve Rodolfo sob contrato para erguer o Hotel Gloria, terminado em 1946.

Dona Emilia ainda não pensava em fixar residência na cidade e achava que voltariam para Belo Horizonte, mas acabaram fixando residência na hidrópolis. A vida seguiu. Como mestre de obras, prestava acessoria a diversas construções e administrava uma pequena loja de material de construção ao lado de sua residência, a única da cidade. O estabelecimento era gerido pela sua esposa na sua ausência. Quando o trem ainda rodava nos trilhos, chegavam à Caxambu vagões de cal e cimento a seu pedido. Caxambu também vivia um boom na construção de prédios.

 

Trabalhou na construção da Casa Oriental (foto 5, de costas) e ajudou a reerguer o Colégio Santa Terezinha (foto 1) após o terrível incêndio em 1960. Dirigiu as obras dos Edifício Halle e Aparecida (foto 6), seu último grande trabalho. Meu pai trabalhou em ambos como eletricista. No currículo de Rodolfo, também consta a coordenação das obras da ponte sobre o rio na cidade de Cruzília (foto, 3) e a ponte sobre o rio Taboão, além de obras no colégio Santo Ignácio em Baependi. Na foto 3, uma residência em Caxambu.

Em 1952 entrou com o pedido de naturalização, ano também em que foi padrinho de batismo de minha irmã Elizabeth Ayres. Foi candidato a prefeito de Caxambu pela UDN, União Democrática Nacional, em 1962, partido chefiado pelo Dr. Acácio de Almeida, perdendo para Abel Murta de Gouveia, que posteriormente foi cassado pelo regime militar em 1964. No mesmo pleito concorreu pelo PSD Edmundo Dantas. Estas últimas informações foram enviadas pelo atento leitor e colaborador várias vezes deste Blog, Antonio Claret Maciel dos Santos.

Álbum de família/As Emílias/ três gerações: as Omas/lembranças 


As gerações de brasileiros de imigrantes austríacos. Emilia Antonia Suatek (homônima de sua mãe) em sua felicidade com sua filha Emi e seu neto Rodolfinho (foto 1). No colo de Emilia Antonia Suatek, avó, Oma, em (foto 2 e 3) Rodolfo bisneto, conhecido por Rodolfinho, orgulho da bisavó, a "oma" que levava o bisneto à missa empedernidos das roupas de domingo e depois iam passear no Parque das Águas. 

Em busca das raízes


Em 1970 a neta de Rudolph, Emi Weber à esquerda e Adila Weber, nora de Rodolfo Weber fizeram uma visita à cidade de Krems. A cidadezinha continua lá com sua história, suas ruas, suas lembranças. 

Passados mais de 50 anos, o cheiro dos pães de mel com chocolate ainda estão no meu nariz, e a mesa de coberta de guloseimas, numa tarde de Natal, quando visitamos a família Weber em sua residência. Na soleira da porta estava a Grossmutter, primeira palavra em alemão que aprendi a falar. Exatamente nesta porta e exatamente vestida como a foto. Era a mãe de Emilia, também Emilia, que não falava português, e brincava com um novelo de lã e um gatinho. 
 
Agradecimentos:
Agradeço à família Weber por confiar tanta informação e material iconográfico, particularmente ao Rodolfinho e sua mãe, Adilia Weber, que forneceram valiosas informações para que pudéssemos contar a sua história.
Foto:
Todas as fotos dos Weber são do arquivo privado da família, cedidas gentilmente por Rodolfo Weber, neto de Rodolfo, conhecido como Rodolfinho.
Foto de Fernando Niman da construção da Casa Oriental.
Foto do Cassino Glória cedida por Julio Jeha.
Fonte:
KRUG, Wolfgang:Wachau. Bilder aus dem Land der Romantik. Aus der Sammlung des Niederosterrichen Landesmuseum und der Topographischen Sammlung der Niederösterreichen Landesbibliothek.

Arquivo Público Municipal de Uberlândia, acervo Naguettini in SIMAO Pamela Aparecida Viera -Cidade e fotografia: Espaços e história na produção do fotógrafo Angelo Naguettini, Uberlândia (1940-1950)

Silveira, Leonardo José in Evolução do centro urbano de Uberaba/ MG/ Brasil
Miranda, Ana Paula Tavares, in Arquitetura Moderna no Triangulo Mineiro e Alto Paranaíba, indicios para a constructor de uma cultura arquitetônica (1945-1975).

Lourenço, Luis Augusto Bustamante, in Das Fronteiras do Império ao coração da república: O território do Triangulo Mineiro na transição para a formação sócio- espacial capitalista na segunda metade do século XIX- São Paulo, 2017.
(1) Revista O Cruzeiro, David Nasser
Agradecimentos:
Julio Jeha

quarta-feira, 25 de novembro de 2020

Aconteceu no Casarão/Casamento civil no Casarão Guedes/ Ramiro Rodrigues Freitas casa-se com Maria José de Lima Ayres




Ramiro Rodrigues de Freitas, Maria Ayres Rodrigues fotografados
em uma de suas peregrinações a Aparecida do Norte. A pessoa ao
centro não é conhecida
Aos 19 de fevereiro de 1890, no distrito Caxambu, que ainda pertencia ao município de Baependi, casou-se em cerimônia  civil Ramiro Rodrigues Freitas, aos 20 anos de idade, natural de Portugal, profissão lavrador, com Maria José de Lima/Ayres (1881-1946), solteira, 16 anos. Ele, filho legítimo de Joaquim Rodrigues e Maria de Jesus;  ela, filha legítima de José Fernandes Ayres, na data já falecido, e Maria de Souza Lima. Sim, a filha do velho Trançador estava se casando com um português.

Dado que os contraentes não sabiam  escrever, assinaram como testemunhas do enlace José Maria da Costa Guedes, junto com os fazendeiros José Julio Pereira  Antônio  Dias, este natural de Portugal e residente na cidade. Júlio e Antônio  foram também testemunhas no casamento no religioso.

Estiveram presentes na cerimônia civil - e constaram no livro de registro as filhas de Costa Guedes e Nonata, Leonor Ribeiro Guedes, Margaria Pereira e Maria da Conceição Guedes. Assim ficamos sabendo  que três membros da família Guedes participaram da cerimônia civil que foi realizada, para nossa surpresa, no Casarão  Guedes. Uma curiosidade: Leonor tinha apenas cinco anos e Maria da Conceição, doze, ambas menores de idade (foto), mas suficiente para serem testemunhas do casamento. Mas quanta honra!

Foi só atravessar a rua...


O casamento no religioso (certidão acima) aconteceu no mesmo dia do civil, na ainda denominada Capela Nossa Senhora dos Remédios e abençoado pelo pároco  Marcos Pereira Gomes Nogueira. O caminho era curto entre o casarão Guedes e a capelinha. Era só atravessar a rua.

O documento original, em que constam as informações do registro civil, foi solicitado por Leandro Leite e está arquivado no cartório de Caxambu. Ele é a prova de que Costa Guedes tinha um bom relacionamento com o seu compatriota Ramiro, tanto que foi convidado para ser seu padrinho de casamento. E tudo aconteceu no histórico Casarão...

Foto:
Arquivo privado da Família Ayres/Rodrigues/Silveira/Pereira.
Contexto: Foto feita na cidade de Aparecida do Norte no ano de 1920. Nela Ramiro Rodrigues Freitas e Maria José de Lima/Ayres. A moça sentada foi adotada pela família.
Arquivo privado da família Guedes; Costa Guedes e sua família em frente ao Casarão.
Agradecimentos:
Agradecemos Leandro Leite pelo fornecimento de importantes documentos que estão desvendando ainda mais as origens da Família Ayres e seus diversos ramos.
Izabela Jamal Guedes
Julio Jeha

domingo, 15 de novembro de 2020

À minha vó Vitória



 
E foram os tempos em que ouvia falar de vó Vitória. Sim, uma avó que nunca cheguei a conhecer. Vó Vitória faleceu antes do meu nascimento, em 1958 e foi enterrada em Baependi...


Maria Vitória da Conceição
nasceu em 30 de maio de 1898, batizada em 19 de junho na Igreja Matriz de Baependi. Seu padrinho foi o avô, Antônio  Martins de Brito e a protetora Nossa Senhora da Aparecida.  Casou-se muito cedo, como era costume naquela época, aos 17 anos com Sebastião Gomes Francisco da Luz de 25 anos, em 26 de julho de 1915. O casamento foi realizado às 13 horas, tendo como testemunhas José Rodrigues Prudente Filho e José Antônio de Castro.

Mas resgatar a biografia de minha avó me custou tempo. Sem material iconográfico, as pessoas não se "materializam". Dei sorte. Minha prima de primeiro grau, Rosangela Rosa, filha de tia Josina, tinha em seus arquivos uma única foto de vó Vitória. Aí resolvi revolver o seu passado...

Assim a Gazeta do Rio publica numa quinta feira de 25 de abril de 1822 a notícia que V.A.R, isso é, Vossa Altera Real, chega na província e lhe enviaram os comprimentos e o literal "beija mão", em nome da Câmara de vereadores, do clero e povo da Villa de Santa Maria de Baependi. Assim ficamos sabendo que o tataravô de vó Maria Vitória Martins Lopes/Gomes circulava na política baependiana.

Nem por isso a família teve melhor posição social ou alguma vantagem econômica. Eles viviam do que produziam na terra. Por relatos de minha mãe, soube que o que era produzido na propriedade da família, naquela época chamada Fazenda Santa Rosa, ia no lombo de cavalos para ser vendido no mercado de Baependi nos anos 40 e 50. O caminho era subindo e descendo a serra.

E Baependi, que produziu homens ilustres nos tempos do Brasil colonial, que ocuparam a alta tribuna política da província das Minas Gerais e na corte, não foi poupado da decadência política e econômica. No seu glorioso passado, Baependi exportava fumo que era vendido nas tabacarias do Rio de Janeiro. 

Não pude apurar se os antepassados de vó Vitória e sua, nossa família tiveram algum brilho. Sabemos que eles eram pessoas simples, que viviam do seu trabalho. Eram descendentes dos primeiros habitantes da região que vieram de Portugal, para tentar a sorte na promissora colônia. Eles possuíam algum cabedal, isto é, dinheiro, outros possuíam títulos militares - capitão, tenente, alferes - que os consagravam como autoridades locais e ainda obtinham títulos para ocupar terras. Com o crescimento das famílias e as divisões de terras por heranças, as propriedades ficaram menores e os seus habitantes continuaram a se dedicar à agricultura de subsistência. 

A desejo de minha mãe percorremos no ano de 1975, o caminho que seus antepassados fizeram para chegar à cidade. No sentido inverso caminhamos serra acima e abaixo, passando pela Toca do Urubu, em direção à Lavrinha e o Gamarra. Na matula, feita de véspera, deliciosas coxinhas de galinha. Visitamos  parentes, chupamos aos montes laranjas no pé e, mesmo num verão escaldante, tivemos que tomar muito café quente, daqueles de queimar a língua, como era comum nas casas mineiras, em cada casa que visitamos. E foram muitas...

Eu fui o que tu és, tu serás oque eu sou

Esse era o escrito na porta do cemitério de Baependi, que se localiza (ainda) no centro da cidade. Nele foi enterrado minha avó Vitória, falecida em 30 de outubro de 1958, de adinâmica circulatória, decorrente de uma operação de um câncer no intestino. Henrique Monat já descrevia o histórico cemitério:

"O matto cresceu cobrindo tudo; para ler as inscripções de algumas sepulturas tive de afastar terra, pedras, tijolos velhos, que cobriam as lapides; pelo chão viam-se ossos espalhados, pedaços de esquifes, restos de roupas, que envolveram cadáveres. Por onde que se passe, os pés vão quebrando pedaços de craneo de fêmures, ossos inteiros: não há um canto em que se não encontres restos humanos a rolar pelo chão."

Ainda, "... encontrei o (jazigo) de Felício Germano de Oliveira Mafra, o grande benfeitor de Caxambu, coberto por duas pedras de S. Thomé. Só dous monumentos de mármore atraem a attenção  do visitante: são a sepultura de Martinho Campos, vulto político eminente durante o segundo império representante da província, que o viu nascer, durante quase meio século, e a do Dr. Caetano Furquim de Almeida, que, grato pelos nove anos que Caxambu o fez viver, dizia em seu testamento, quiz ser enterrado em Baependy, por não haver cemitério mais perto."

Na visita ao seu túmulo na década de 70, me lembrei do desejo de minha mãe de ser sepultada no lugar onde sua mãe também estava. Para minha supresa o cemitério estava desativado e quase no mesmo estado em que se encontrava, quando Henrique Monat o viu há quase cem anos. Pensando, hoje, talvez seus restos mortais estejam também misturados e enterrados junto com dos políticos proeminentes. Quem sabe?

Foto:
Arquivo privado de Rosangela Rosa, Maria Vitória da Conceição e meu tio Tibério.
Fonte:
Monat, Henrique, em Caxambu, 1894
Agradecimentos:
Julio Jeha

quinta-feira, 1 de outubro de 2020

50 anos de casados, 50 anos de muitas vivências e convivências/ Graça e Vander comemoram suas bodas de ouro!


Nesses 50 anos de cumplicidade e lutas, muita coisa aconteceu na nossa vida. Dos acontecimentos, a mudança de cidade pequena para a cidade grande foi o diferencial pra manter essa convivência a forma que queríamos, ou seja, uma vida nossa, com os nossos valores e com as coisas que nós acreditávamos.
Viermal os filhos, Rodrigo, Thais e Tiago e hoje tem os netos, Gael e Marina e ainda o cachorro Wiske e a tartaruga Bebé! Tem o pé de manga, o fogão a lenha, o parquinho e o canto dos passarinhos. Aqui no "meu canto meu lado" a gente vive feliz com o que conquistamos!
Aqui a gente sempre acolheu quem quis passar por nossa vida e continuaremos esperando quem quiser aparecer.
Aguardem...
Ah... só lembrar, não pensa que é fácil tantos anos de convivência, viu? Tem que ter muita paciência e tem também que "soltar os cachorros" de vez enquanto! Kkk.

Fotos: 
Arquivo privado de Graca Pereira Silveria
Texto: 
Por Graça Pereira Silveira

quinta-feira, 10 de setembro de 2020

Do passado para o presente/ Vivos em nossas memórias



Duas fotos retocadas de meus avós José Ayres de Lima, o Trançador-filho e minha avó, Gervásia Maria da Conceição/Ayres. Os olhos de minha avó eram castanhos, mas os olhos do meu avô conferem com a descrição, verdes escuros.

Foto: 
Arquivo da Família Ayres.
Programa do MyHeritage de reconstrução de fotos.

terça-feira, 7 de julho de 2020

Casa da familia Arnaut desde 1900


Caxambu, 1917. Podemos identificar a Igreja Matriz, que ainda tinha suas duas entradas, o Casarão da Família Guedes, o prédio antigo do Colégio, o hotel Caxambu, e... imaginem que a casa da família Arnaut já esta lá. Preservem esta relíquia! Ela faz parte da história da cidade.


segunda-feira, 11 de maio de 2020

De volta ao passado/ João José de Lima e Joanna (Pereira) Ribeira



Hoje achei mais um documento comprovando que meu tataravô João José de Lima e Silva já poderia ter se mudado com a família para o Chapeo, Baependi, no ano de 1844. Os nomes não exatamente escritos. Na época quem fazia os assentos paroquiais, no caso o pároco local, acrescentava ou subtraía nomes e letras como entendia, ou não entendia, mas estou convencida de que eram as mesmas pessoas que moraram no Quarteirão 2, Fogo 17, constadas no sensu de Pouso Alto no ano de 1839. 

O documento acima trata-se do batismo de Manoel, filho de Fortunado Ferreira de Carvalho e Maria Antonia da Silva. No batismo consta o nome dos padrinhos assim escritos: João José de Lima e Joanna "Pereira" Ribeira. Os nomes corretos seriam João José de Lima e Silva e Joana Theresa Ribeiro de Lima.

Censo de Pouso Alto do ano de 1839
Foto:
Família Search
Censo do Cedeplar /Belo Horizonte, MG

sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

O Morro, ah morro!


"Minhas accusações  não deveriam pesar sobre esta localidade, porque combatem vícios nossos, que se podem apontar no Rio, como em São Paulo ou na Bahia; nem por isso julguei dever omitir-os. Critico, por exemplo o modo barbaro por que se tem destruído a vegetação em Caxambu..." (Henrique Monat)

A paisagem acima é uma relíquia e pertence a Coleção Principe D. Pedro de Orleans e Bragança, uma  gravura de  Nicolau Facchinetti (1824-1900) de 80 cm x 60 cm, datada de 1877. O pintor italiano chegou ao Brasil em 1849, fixou-se no Rio de Janeiro e se especializou em pintura de paisagens, consagrando-se como mais um dos mais importantes artistas de sua geração. Sua obra é um importante registo da paisagem agrária do Brasil do século 19. Viajou  para estudar as características das regiões serranas do Rio de Janeiro, subindo a serra da Mantiqueira em direção a Caxambu e São  Thomé das Letras por volta de 1877. Há uma impressionante gravura dele das montanhas de São Thomé das Letras. Seus grandes admiradores foram os membros da família real, a imperatriz Maria Teresa Cristina, a princesa Isabel e o Duque de Saxe.

Bárbara devastação 

Morro de Caxambu, Henrique Monat
Na descrição de vários viajantes que passaram pelo vale, sempre se destacava o morro em forma de cone. Vinte anos depois da gravura de Facchinetti, esteve de visita Henrique Monat, quem mais detalhou suas encostas e arredores de forma crítica,  no capitulo de seu livro Caxambu, publicado em 1894. Ele descreve a paisagem do ponto de vista de quem chega  na estação de trem e se depara com o morro isolado, tendo um bosque em sua fralda. O vale, na suas primeiras impressões, lhe pareceu abandonado, deserto, coberto por uma vegetação rasteira e uma camada de florzinhas roxas. Na várzea, um bambual transversalmente, onde é hoje o Parque das Águas. No entanto, aquele vale descrito não era sombra do que havia ali décadas antes. Por volta dos anos de 1890, quando de sua visita, a mata quase impenetrável que existia já tinha caído a golpes de machado. Nem um vestígio das araucárias, dos pinheiros e cedros, segundo ele, gigantescos que ali cresceram por séculos. Para ele, houve uma "devastação bárbara". E as poucas árvores que sobreviveram estavam sendo, impiedosamente, postas abaixo. A foto abaixo não o deixa mentir...

Morro de Caxambu, 1868
Caxambu, uma das primeiras cidades do Brasil a ter um planejamento urbano

A urbanização  da povoação de Caxambu teve inicio em 1872, quando Fulgêncio de Castro faz o  seu traçado. Caxambu foi uma das primeiras cidades brasileiras a ter seu planejamento urbano. Era o "progresso" chegando  e, com ele, as encostas dos vales foram sendo cortadas, aplainadas, e a planície aterrada, para a construção de ruas e casas. A sua bela cobertura vegetal desapareceu para sempre.


Nos tempos modernos, a mata original foi acrescida de eucaliptos. Era para "drenar" o terreno. eucaliptos eram sinônimos de "ar puro", "limpeza". Hoje vemos que a arborização do Parque das Águas de Caxambu e seu entorno se torna mais importante do que nunca. O morro é área de recarga das águas que deram a vida ao povoado. Portanto, plantem! Não queimem nem deixem queimar. O patrimônio já foi muito devastado.




Fonte:
MONAT, Henrique, in Caxambu, 1894.
NICOLAU Facchinetti. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa23040/facchinetti>. Acesso em: 29 de Set. 2019. Verbete da Enciclopédia.
ISBN: 978-85-7979-060-7
Gravura: Museu Imperial de Petrópolis.

Fotos: 
MONAT, Henrique, in Caxambu, 1894.
Agradecimentos:
A Vanessa Meines, por ter nos enviado a gravura de Facchinette.
Arquivo Histórico do Exercito (AHEX), Divisão de História e acesso a Informação (DHAI), na pessoa do Major Ferreira Junior, que prontamente dispôs vários mapas para o nosso Blog.
A Julio Jeha, sempre.

quinta-feira, 26 de setembro de 2019

Ramiro Rodrigues Freitas/ De Portugal a Caxambu/ Uma aventura


Partir é mais do que partir
Partir é 
partir
sem se saber
que se sabe
mais do que partir
partir é 
um corte
que corta tao fundo
que nunca se sabe 
o seu cessar
partir é sempre
mais do que partir*


Em recentes pesquisas de outros membros da família do Ramo dos Freitas e pra lá, tivemos sucesso e confirmação, por meios de documentos, de fatos contados oralmente. Se trata-se de Ramiro Rodrigues, o meu tio-avô Ramiro, casado com Maria Ayres de Lima, a minha tia-avó Mariquinha,  avós de Graça Pereira Silveira. Mariquinha era parteira de profissão, filha de José Fernandes Ayres, conhecido em Caxambu, por Trançador. Pois vamos lá!

Ramiro Rodrigues (sentado de chapéu) e sua família
Por que ficar? Por que partir? Por que?

Fatores históricos e econômicos conjugaram-se para que Ramiro deixasse Portugal. Em meados do século XIX mudanças demográficas ocorreram no país, provocando o aumento da taxa de natalidade e, e por conseguinte, gerando um excesso de mão-de-obra, principalmente no campo. O resultado foi o empobrecimento dos pequenos proprietários rurais. A esperança era a ex-colônia Brasil.

Por outro lado, o Brasil acabara de promulgar a Lei do Ventre Livre, de 1871, e a Lei Áurea, em 1888. Com os escravos libertos, quem iria tocar as lavouras? Os fazendeiros, então, foram procurar alternativas de mão de obra para suas plantações. Assim, o governo estimulou a imigração como forma de resolver a falta de braços, bem como o "branqueamento" de sua população. Cerca de 5 milhões de imigrantes entraram no Brasil de 1884 a 1963, a metade entre 1889 e 1913. No período de 1891 e 1900 foram 202.429 milhões de portugueses. A maioria dirigiu-se para São Paulo, Minas Gerais, Paraná, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Rio de Janeiro. Os principais portos de entrada eram Rio de Janeiro, Salvador e Santos.

Os navios gêmeos


Ramiro Rodrigues, o penúltimo da lista à esquerda dos destinados a cidade do Rio de Janeiro
Vista do Porto Lamarão de Recife, Pernambuco.
O navio em que Ramiro viajou pertencia à empresa navegação Chargeurs Réunis, fundada em 1872. Em 16 de outubro daquele ano partia o primeiro navio do porto de Havre, na França, com 450 passageiros, em direção ao Rio de Janeiro e a Buenos Aires. O governo francês tinha objetivos comerciais com o Brasil e, para atender os que viajavam em direção à América do Sul, foram construídos cinco navios gêmeos da série: "Ville": Rosário, San Nicolas, Montevideo, Buenos Aires e Pernambuco (foto acima). Os navios faziam a rota quinzenalmente entre Havre, na França, com escala em Lisboa, e Pernambuco, Bahia, Rio de Janeiro e Santos.

O navio Ville de San Nicolas fez sua viagem inaugural em novembro de 1881 e em 16 de fevereiro de 1889 partiu do Brasil em direção ao porto de Havre carregando 120 volumes de mercadorias diversas para participar da Exposição Brasileira Preparatória da Universal de Paris, a ser inaugurada no dia 10 de maio. Os produtores de fumo do Brasil queriam ganhar mercado internacional.

Havre, Lisboa, Recife, Salvador, Rio de Janeiro... 

Em 17 de junho de 1889, embarcou Ramiro no porto de Lisboa no navio de 1.668 toneladas, comandado pelo piloto francês A. Voisin. Os navios faziam a rota quinzenalmente entre Havre, França, com escala em Lisboa, Portugal, Pernambuco, Bahia, Rio de Janeiro e Santos. Era a última vez que ele veria Portugal. 

Dos 56 passageiros que embarcaram em Havre, um era angolano e dois italianos. Os que embarcaram em Lisboa eram portugueses com diferentes idades. Na lista de passageiros constam 36 do sexo masculino, sendo 11 crianças, a maioria delas acompanhada dos pais, com exceção de Ramiro; 17 do sexo feminino, sendo três meninas. Uma família vinha da Ilha das Flores, pertencente ao arquipélago de Açores. Dentre as profissões declaradas, eram "jornaleiros", isto é, diaristas e "menagerie", traduzido como pessoas que trabalhavam com animais, ou pastores. Todos com certeza venderam o que tinham para comprar um bilhete e transpor o oceano em busca de uma nova vida no Brasil. 

E Ramiro? Passageiro de primeira classe? Terceira? Como eram anunciados nos bilhetes? Porque quem viajava na primeira pagou de Portugal, 450 francos, e  os que viajaram de terceira, 80 francos. Ramiro não pagou nada. Ele teria embarcado clandestino indo trabalhar na cozinha como descascador de batatas. Assim era contado na família. Devia ser para pagar a passagem. A primeira vez que viu terras brasileiras foi quando o navio ancorou no lamarão do Porto de Recife, Pernambuco (foto) no dia 7 de julho.

Descida de passageiros em cestos, no porto de Recife, Pernambuco
A travessia do Atlântico era quase uma aventura, mas também descer do navio (foto). Os passageiros eram descidos em cestos para os barcos que os levavam até a terra firme. Os atrasos nas viagens eram comuns. No dia 2 de maio o navio encontrava-se em alto mar, na latitude de 35° N. quando enfrentou fortes correntes com velocidade de 75 milhas por hora, que fizeram o navio desvia-se de seu curso, conforme o comandante A. Voisin relatou para para o Jornal de Recife. Não só os passageiros, mas também as 130 caixas da Miranda Souza, contendo azeite batatas, conhaqueo, couros, conservas, chocolate, calcados, chapéus, livros, caixa de música, porcelana, perfumaria e vinhos devem ter chacoalhado bastante durante a viagem... 

A chegada

Porto do Rio de Janeiro, 1889
Em 14 de julho, chega o Ville de San Nicolas ao porto do Rio de Janeiro. Era domingo de céu azul em pleno inverno brasileiro, quando as temperaturas amenas variavam de 19,2° e 24° segundo o  Imperial Observatório do Morro do Castelo. Como ele chegou a Caxambu? Não sabemos. Pela tradição oral da família, ele teria sido "adotado" por uma família de libaneses, tanto que sabia cozinhar pratos típicos da cozinha árabe. Por outro lado, sabemos também que a comunidade portuguesa no Brasil era solidária e que Ramiro tinha boas relações com uma importante figura pública de Caxambu, Costa Guedes, o bem-sucedido comerciante português à frente da Casa Guedes. Tanto temos certeza do fato, que Costa Guedes foi seu padrinho de casamento, celebrado em 19 de novembro de 1898, bem como cedeu sua residência para que o enlace civil fosse realizado. Suas duas filhas menores, Leonor e Maria Guedes, foram testemunhas do casamento. Sabemos também que Ramiro trabalhou como jardineiro no Parque das Águas, muito provavelmente com o artista Chico Cascateiro. Foi ele apadrinhado pelo Sr. Costa Guedes? Perguntas. 

Ramiro Rodrigues em sua horta, na Rua Magalhaes Pinto, Caxambu.
Ramiro Rodrigues nascido às três horas da manhã   do dia 7 de julho de 1877 em Santa Maria dos Sepilhos, Concelho de Amarante, Portugal, filho de Joaquim Rodrigues e Maria de Jesus, profissão "jornaleiros", aqui, diaristas, seguiu em parte a profissão de seus pais: lavrador. Ele passou a assinar no Brasil o sobrenome "de Freitas". Ainda não achamos registros comprovando que seus familiares tivessem esse sobrenome.
Ele embarcou cheio de esperanças, assim como milhares de imigrantes, a procura de uma vida melhor. O que encontrou foi uma vida de duro trabalho. Casou-se aos 23 anos com Maria Ayres de Lima e, nove meses depois já era pai de Etelvina. Ao todo, o casal teve 11 filhos, cinco dos quais não chegaram à vida adulta. Izabel (1901-1903) faleceu em consequência de queimaduras aos três anos; Joaquim (1911-1913) faleceu aos dois anos de gripe intestinal; Laura (1913-1915) aos dois anos de pneumonia; José (1916-1921), de Laringite estridulosa aos 4 anos, Haroldo (1922-1923) com um ano, de meningite. Sobrevieram Etelvina Rodrigues (1898-?), Maria Izabel (1906-?), Geralda Rodrigues (1908-?), Romeu Rodrigues (1918-?), Edwiges Rodrigues (1918-?) e Agnelo Rodrigues (1920-?).

Até hoje nos perguntamos como pode ele empreender uma viagem tão longa sozinho. Sua idade, supreendentemente, confirmada no documento (foto numero 27)  com 12 anos de idade. Sempre nos perguntamos como seus pais o deixaram embarcar numa aventura marítima até o Brasil. Mas essa pergunta ficará sem resposta. Ramiro faleceu na Casa de Caridade São Vicente de Paula de Caxambu em consequência de insuficiência cardíaca, tendo seu atestado assinado pelo Dr Paiva em 29 de agosto de 1949.

O paquete Ville de San Nicolas? Foi vendido em 1901 para a Argentina e passou a se chamar Neuquén, nome da província argentina que faz fronteira com o Chile. Assim foi a história.

Fotos:
Cais do Ramos
Foto: Gilberto Ferrez
Fonte:
Poema: Amâncio de Souza Dantas 
Novo Milenio: Roda de Outro e Prata- Navios: O 'Ville de Pernambuco'
Diário de Minas 1889
The ShipsLis
SCOTT Ana Silvia Volpi in As duas faces da imigração portuguesa para o Brasil (décadas de 1820-1930) Saragoza, 2001.
RIBEIRO Gladys Sabina in Viagens e histórias de imigrantes portugueses na cidade do Rio de Janeiro na Primeira República: A trajetctoria de Florindo Gomes Bolsinha.

Agradecimentos:
Julio Jeha

terça-feira, 24 de setembro de 2019

Victor, o escravo que gostava de tocar viola




E num primeiro abril naquele ano de 1883... Victor foi dado como fugido da fazenda de propriedade de Antonio Severino Nogueira, na localidade de São Gonzalo de Sapucahy e "havia motivos para crer que ele seguiu para Baependy".

Fuja, Victor fuja!



Em 1° de fevereiro de 1884, novamente a notícia de sua fuga. O fato significou que foi capturado e devolvido ao seu senhor. Ah, o escravo Victor, agora com 24 anos, cabelos grenhos e pouca barba, pés grandes que gostava de lidar com animaes e tocar viola...

Fuja, Victor, fuja!

Fonte:
O Baependiano

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Izabel de Lima, a caxambuense batizada pela realeza / Diga-me por quem foste batizado e direi o status de tua família


Museu da Independência queimado, memória apagada. Que documentos estariam guardados esperando os historiadores para nos revelar novas ligações da princesa Isabel e sua família com a cidade de Caxambu? Como tudo virou cinzas, só podemos supor que cartas escritas e recordações da povoação estivessem entre os bens devorados pelo fogo. Fizemos aqui um esforço para contar a historia. Recordar para não esquecer. Vamos lá.

Um escarafuncha daqui, outro dali e, assim, os pesquisadores vão achando as coisas... Izabel de Lima filha legítima de Francisco  José de Lima e Severina Izabel de Lima apadrinhada pela... realeza.

Na verdade, as pesquisas sobre a batizada pela princesa Izabel, Izabel de Lima, foram iniciadas já há alguns anos. As certidões foram encontradas por mim e arquivadas para posteriores pesquisas, pois o sobrenome Lima pertence também à Família Ayres. Mais à frente, tinha encontrado a irmã de Izabel, Castorina de Lima, casada com José da Rocha Brochado, que eram avós de Magali Brochado, minha vizinha. Fiz contato com ela, no inicio de 2017, e veio a confirmação: os nomes eram de seus avós. Devido a outras prioridades de pesquisa, o material foi colocado "na geladeira" até que... Antônio Claret me alertou sobre Isabel, a apadrinhada pelos membros da família real. As informações estavam todas lá, só faltava reuní-las, associá-las aos fatos históricos e as biografias individuais. Então...


O conde d`Eu e dona Izabel, princesa regente, condessa d`Eu, assinaram uma procuração para serem padrinhos da filha de Francisco, representados pelo Reverendo João Pires de Amorim e por dona Ritta Maria de Jesus. O assento foi feito no livro de batizados de Baependi, em 30 de novembro de 1868. João Pires de Amorim não era um anônimo, e sim o coadjutor do pároco, monsenhor Luiz Pereira Gonçalves de Araujo na cerimônia do dia 22 de novembro, no lançamento da pedra fundamental da igreja Santa Isabel da Hungria, na povoação. Então estava tudo ligado.

Izabel de Lima nasceu em 10 de outubro de 1868, próximo à estada da família real em Caxambu. Na ocasião, sua alteza real fez o uso das águas e, na história contada, se curou de sua infertilidade e deu a luz ao príncipe regente dom Pedro de Alcantara. A partir dessa data, a fama de Caxambu, a estância das  "Aguas Virtuosas", ganhou mundo.

Embora o batismo tenha sido realizado e assentado na igreja matriz de  Baependi, a família Lima residia em Caxambu. Até então, as obras da capela Nossa Senhora dos Remédios não estavam concluídas, o que aconteceu por volta de 1871/72.

Diga-me por quem fostes batizado e eu te direi o status de tua família 

Mas quem era Izabel para ter padrinhos tão ilustres? Perguntamos primeiro quem eram os seus pais. Bem, eles eram de família que tinha boas relações sociais em Baependi e, oportunamente, conseguiram, através de um bom "contato", uma procuração para que o conde d`Eu e a princesa regente apadrinhassem sua filha. Era muito comum o apadrinhamento de crianças por pessoas de elevado status social. Acontecia com os mais ricos, remediados, os pobres e os escravos. Francisco José de Lima era ativo na política, o que significava que ele tinha algum "cabedal", ou status social, pois  fora cadastrado como eleitor em Baependi, sob o número 111, no ano de 1884. Ele votava e elegia políticos. Em 1871, Francisco José tinha uma propriedade na povoação de Caxambu, que foi edificada no ano de 1870, e pertenceu a Cloriana Pereira Meires (Meireles?), e que foi passada à frente, em 1871, comprovando que ele já morava em Caxambu nessa data. Muito curiosamente, todos os seus filhos, sem exceção, foram apadrinhados por gente, ou da política, ou de visibilidade social.

E como toda história puxa outra, vamos contar sobre os irmãos de Izabel. Todos eles nasceram em Caxambu e foram batizados na capela Nossa Senhora dos Remédios.  Foram eles:

Jeronimo



O primogênito Jeronimo nasceu nas Águas Virtuosas de Caxambu, em 23 de dezembro de 1870, e foi batizado, em 16 de janeiro de 1871 por outra figura proeminente da época, o conselheiro Jeronymo José Teixeira Junior e sua esposa Maria Henriqueta Carneiro Leão Teixeira (fotos acima), representados por America Brasilina Nogueira de Almeida. A criança recebeu o nome de seu padrinho, Jeronymo José Teixeira Junior, que era filho do comendador Jeronymo Teixeira. O padrinho nasceu no Rio de Janeiro, em 25 de outubro de 1830, bacharelou-se em direito pela Faculdade de São Paulo, casando-se, em 24 de dezembro de 1853, com Maria Henriqueta Carneiro Leão, nascida em Ouro Preto. Exerceu o ofício de promotor, em Niterói por dois anos, deixando o cargo para servir à diretoria da Estrada de Ferro Dom Pedro II. Foi deputado na Assembléia Provincial e deputado geral pelo Rio de Janeiro em diversas legislaturas. No ano em que batizou Jeronimo, era representante do Rio de Janeiro na Assembléia Geral. Dirigiu, por pouco tempo em 1870, a pasta da Agricultura e, em 1873, foi eleito senador do Império. Fez parte da comissão que apresentou o projeto da Lei do Ventre Livre. Dentre os cargos que ocupou, foi diretor do Banco do Brasil. Era fidalgo e cavaleiro da Casa Imperial, conselheiro da Ordem da Rosa e comendador da Ordem de Cristo, tendo recebido o título de visconde do Cruzeiro em 13 de junho de 1888. Publicou diversos trabalhos, entres eles "O Saneamento  da cidade do Rio de Janeiro". Faleceu em Roma, Itália, em 26 de dezembro de 1892. Jeronimo era também comerciante e capitalista. Enfim, o homem tinha não só nome na política, como também era dono de uma considerável fortuna.

A história continua. Aso 14 anos, Jeronymo teve seu destino publicado no jornal O Baependiano. Ele estudava no colégio do Sr. Pilar, em Baependi, e recebia uma pequena "pensão" de seu padrinho, agora Senador Jeronimo Teixeira Junior, com a qual eram financiado os seus estudos. O menino Jeronimo foi acometido de um "reumatismo no coração", vindo a falecer, em 10 de março  de 1885, sendo sepultado em Baependi. Parece que o menino caiu doente e sofreu por 11 dias. Os alunos do Colégio Nogueira, ao qual pertencia  o proprietário do jornal, agora sediado em Caxambu, carregaram o caixão de sua casa até o outeiro da Capela Nossa Senhora dos Remédios. Como Caxambu ainda não tinha cemitério, Jeronimo foi sepultado, em 11 de março, em Baependi.

Os outros filhos:

Oscar, nascido em 1873, apadrinhado pelos filhos de Jeronimo José Teixeira: Pedro José Netto Teixeira  e Maria  Henriqueta Teixeira ; 

Orminda, nascida em 1879, apadrinhada pelo comendador Antonio Theodoro Fortes Bustamante e dona Marianna Eliza de Meireles ; 

Albertina, batizada em 1882 por João Carlos Vieira Ferraz, vereador na Câmara de Baependi, e Maria Ferraz, fundadores do Palace Hotel.

Elvira, batizada em 1884 por Francisco José da Silva Simões, subdelegado de polícia da povoação de Rio Verde, e sua esposa Gabriela Candida Simões, proprietários de terras em Conceição do Rio Verde.

OscarII, batizado em 1886 por procuração a José Hilário Figueira, "da Corte", por Francisco de Castro dos Santos Monteiro, deputado da província eleito para vários mandados, e Adelina Costa Guedes, filha mais velha de José da Costa Guedes, proprietário da Casa Guedes .

Castorina, nascida, em 1889, teve como padrinho Vicente de Seixas Batista, ativo na política e  membro da junta de conselheiros para a administração da paroquia de Baependi, e dona Maria Silvania Nogueira.

Assim, os batistérios comprovam que a família de Izabel era gente que tinha boas relações com a aristocracia sul mineira. Eles pertenciam a uma rede de relações sociais que envolviam a nobreza, os ricos e os que circulavam em torno dos ricos. Era sociedade que reunia famílias de grandes fortunas, terras, escravos, lavouras e poder. Caxambu, através da fama de suas águas, passou a atrair o baronato, deputados e senadores da Província que frequentavam suas fontes, e assim as relações sociais se entrelaçaram. Ufa, tudo para contar quem foram os padrinhos dessas crianças.

O pai Francisco

Mas acredito que na história, José Francisco, o pai de Izabel, era peixe pequeno e nadava em águas rasas da política de Baependi/Caxambu. De qualquer forma, foi ele quem, em 1881, arrematou as obras para a iluminação pública da povoação das "Aguas Virtuosas de Caxambu". Ainda em 1885,  participou da iniciativa da construção do Asilo Nossa Senhora dos Remédios, juntamente com outras figuras proeminentes da povoação, como Costa Guedes. Do asilo, não sabemos onde foi edificado, nem se o projeto teve continuidade. Na ocasião, o capitão João Carlos ofereceu um terreno para a sua construção. É um tema ainda a ser pesquisado.

De Izabel, a batizada, nenhuma pista mais foi encontrada, nem de seu casamento, nem de seu falecimento, tampouco de seu irmão Oscar. Mas de Albertina, sim, era conhecida por Magali Brochado como "sá Berta". Ha ainda alguns descendentes e que ainda moram na cidade.

A ligação com a família Ayres

Josino Ayres, filho de José Ayres de Lima-Trançador filho e Gervásia Ayres de Lima) foi casado com Benedita Brochado (bisneta de Francisco de Lima, pai de Izabel)
Izabel era então tia de Benedita Brochado, conhecida por Tita.

Os filhos:
Lazara de Lima Brochado/Ayres
Ozéas Brochado/Ayres
Guaraci Brochado/Ayres

Os limites das pesquisas

Até agora, foram feitas pesquisas documentais sobre Izabel e alguns de seus irmãos e irmãs e nada foi encontrado. Eles não foram encontrados nos registros paroquiais, nem nas entrevistas com os familiares de quarta geração. Seus nomes não são conhecidos ou associados a outros parentes. Eis os nossos limites.

Fotos:
Museu Imperial de Petrópolis
Fonte:
Family Search
Mauro Luiz Senra Fernandes - web site.
MARTINS, Maria Fernanda, In O Círculo dos grandes: Um estudo sobre a política, elites e redes no segundo reinado a partir da trajetória do visconde do Cruzeiro (1854-1889)
Instituto Histórico e Geografico brasileiro.
GENOVEZ, Patricia Falco - Os Barões e os Trilhos. A Estrada de Ferro União Mineira e os Laços de Sangue na Zona da Mata de Minas Gerais.
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Agradecimentos:
Julio Jeha