Ao longo de nossas pesquisas deparamos com figuras públicas, que por prazer e gosto pelas histórias e biografias, decidimos contar a sua história pessoal.
E foram anos que Claudiana, que tinha o sobrenome de Teixeira da Motta (1878-1923) povoou o universo da cidade de Baependi, e da capital da Corte, Rio de Janeiro. Claudiana era quase um hormônio da avó paterna, Claudina Antonia Magalhães. Resolvemos contar sua história pessoal porque seu destino foi profetizado por Nhá Chica, e ao longo de nossos trabalhos de pesquisa, deparamos com uma figura pública que contribuiu para a obras caritativas e educação, na cidade do Rio de Janeiro. Bem que os seus conterrâneos gostariam ela tivesse seguido sua carreira na interiorana Baependi, mas a corte oferecia mais, muito mais.
Claudiana era filha do sacristão da Igreja Matriz de Baependi, Elias José da Motta (1832-?) e Ritta Leopoldina de Cassia (1855-1846). Nhá Chica, que tinha boas relações com os políticos, queria oferecer ao seu ajudante um cargo na Corte, através do 2° Conde de Baependi, aliás Brás Carneiro Nogueira da Costa Gama (1812-1887). O conde também já tinha mostrado interesse que a filha de Elias, a menina Claudiana, fosse enviada para ser educada num bom colégio, no Rio de janeiro, e assim foi. Nogueira da Gama foi figura importante na política brasileira; senador pelo Rio de Janeiro de 1872 a 1887, e presidiu a câmara e Senado por várias vezes. Era bisneto de Tomé Rodrigues do Ó, bandeirante nascido na Ilha da Madeira, fundador da cidade de Baependi, onde faleceu, em 2 de agosto de 1741. Seu filho Brás Carneiro Nogueira da Gama (1846-1922) concluiu seus estudos preparatórios, e ingressou na então Escola Central, depois denominada Escola Politécnica, onde se graduou em engenheiro geógrafo, em 1866; bacharel em ciências matemáticas e físicas, em 1867, e engenheiro civil, em 1868. Por um tempo decidiu dedicar-se à lavoura em Valença, mas logo abandonou os negócios agrícolas para dedicar-se à política. Ele foi o padrinho de casamento de Pedro e Claudiana (veja a assinatura como testemunha no enlace civil). Estava alí tudo ligado.
Os sábios conselhos da beata Nha Chica
Para tomar tão importante decisão, seu pai Elias foi fazer uma consulta, e ouvir as sabias palavras da beata Nha Chica. A família temia pela vida de sua filha, já que a cidade do Rio de Janeiro, em 1889, foi assolada por um violento surto de febre amarela, além de cem dias de estiagem, que provocou problemas no abastecimento de água. Numa segunda consulta, Nhá Chica teria dito ao seus pais: "Pode mandar sem receio. Não terá nada, será muito religiosa e casará bem".*
E a moçoila não decepcionou. Enviada para a capital, iniciou seus estudos no sistema de internato. Para frenquentar a Escola Normal da Corte, que oferecia o estudo gratuito, requeria a idade mínima de 15 anos para mulheres e 16 homens. Assim chega Claudiana ao Rio, pouco depois da proclamação da República. Aluna exemplar, foi aprovada com distinção, em 12 de marco de 1895, na cadeira de francês na escola Normal Livre do Rio de Janeiro, e em dezembro de 1896, foi chamada para fazer exames de inglês. Oh, inglês também? Yes!
Não por acaso Claudiana tinha a atenção especial do professor da escola Oscar Nerval de Gouveia (1856-1916). Oscar foi engenheiroo e doutor pela Escola Politécnica, médico e bacharel em ciências Jurídicas e Sociais, fundador do Ginásio Brasileiro, em 1898, e uns dos co-fundadores da Universidade Cândido Mendes, em 1902. Foi professor do Colégio Pedro II era casado com dona Guilhermina Rosa Nogueira da Gama, irmã do padrinho de casamento de Claudiana, Brás Carneiro, o conde de Baependi. Tudo em família.
O Rio de Janeiro no final do século XVIII
A população da capital tinha dobrado nos anos de 1890, e com isso a necessidade de extender os serviços nas áreas de saneamento, saúde e educação. No fim dos anos 1880, as professoras passaram a ser maioria na educação primária. A cidade contava com 94 escolas públicas em atividade: apenas 13 delas funcionavam nos sete prédios escolares, enquanto as demais continuavam nas residências alugadas e financiadas pelo erário público. Sorte para Claudiana.
Diplomada, Claudiana ingressa na carreira como professora, em 26 de setembro de 1897, aos 19 anos. Em 26 de setembro, casou-se e, 22 de outubro, tem a confirmação de sua classificação para a lecionar.
No ano de 1903, em que Claudiana ingressa no quadro de profissionais da educação como professora adjunta, na escola Modelo na praça Duque de Caxias.
O uma profissão, um casamento, os filhos
O consorte era nada mais nada menos que Pedro Fernandes Vianna da Silva, o futuro fiscal de obras da construção do Cristo Redentor inaugurado, em 1931. Na certidão de casamento constava que ele residia em Três Corações do Rio Verde, onde o primogênito, Oscar Motta Vianna da Silva nasceu (vide certidão de óbito de Oscar). Formavam um casal perfeito: ele engenheiro, ela professora. As previsões que Nhá Chica se concretizaram.*
Não conseguimos nenhuma informação sobre sua estada em Três Corações, se ele possivelmente como engenheiro, participou de alguma obra na cidade nesse período. A certeza são as duas certidões que confirmam a informação: uma, no registro de casamento (acima), outra uma certidão de óbito do filho Oscar, nascido em Três Corações (abaixo).
Pedro já viúvo, casou-se com Orminda Guimarães (vide o condomínio da família Ayres), e foi padrinho da filha do médico Sizenando de Freitas... em Três Corações. Então Pedro manteve seus contatos com a cidade de sua residência, no ano de 1897. A data coincide com a construção das ferrovias no Sul de Minas. O irmão de Sizenando, Victor Figueira de Freitas (1888-1976) era engenheiro de transportes, e também estudou na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, onde Pedro lecionou. Ele era funcionário da Central do Brasil designado para servir em Minas como engenheiro Ferroviário, atuando na implantação de ferrovias. Estava aí tudo ligado. Concluímos que o casal residiu na cidade por um curto espaço de tempo, e voltaram a residir no Rio de Janeiro.
Programa de domingo
As peregrinações religiosas eram programa de família. Num sábado chuvoso de 1904, ao todo 110 pessoas compareceram às 6 horas da manhã, na praça Duque de Caxias, em frente a igreja da Glória, onde estavam reunidos os peregrinos, e empreenderam uma caminhada morro acima, até a Igreja da Penha.
Pedro Vianna era muito religioso, relata o neto Pedro Geraldo, residente no México, em entrevista a este blog, em novembro de 2024. Os peregrinos partiram de pontos diferentes da cidade. Vinham da Freguesia do Engenho Velho 250 pessoas; Petrópolis 75; da freguesia da Glória 7, e tomavam bondes que os levariam ao Largo da Carioca de onde seguiriam até o largo do Rocio, e até a estação Francisco Xavier. Devia ser um espetáculo à parte com a subida da escadaria da Igreja da Penha que possui 265 degraus, onde era celebrada as missas. Eles cantavam hinos, vestidos a caráter, e eram recebidos com salvas das janelas.
A vida na capital era intensa. O casal participava das atividades eclesiais, bem como enterros. Fazia parte do ritual as pessoas comparecerem as missas rezadas. Quanto mais gente no enterro, mais importante eram julgados os mortos. E eram.
Desde então Claudiana trabalhou em escolas do centro e da periferia da cidade. Era uma professora engajada nas atividades caritativas ligadas à igreja, até porque Pedro pertencia a ordem dos Vicentinos. Em 1912, na semana do natal, participou da distribuição de brinquedos promovida pela prefeitura para crianças pobres na Praça da Glória. E a vida seguia.
Os filhos
Família constituída, vieram os filhos. Três:
Da biografia do filho Oscar Motta Vianna da Silva, também engenheiro da prefeitura do Rio de Janeiro, há oque se contar. Ele foi casado duas vezes, uma com Edith Barros /Vianna da Silva, com a qual teve José Maria Barros Vianna da Silva (1924-1947). Casou-se de segundas núpcias com Jandira Costa Neves com quem teve os filhos: Oscar Motta Vianna (?-?) e Pedro Geraldo Costa/Vianna da Silva (?-?) e Luiz da Costa Vianna da Silva (1942-1971).
Oscar Motta Vianna da Silva
Ele foi listado como professor nas turmas suplementares do Externado do renomado Colégio Pedro II, em 1926, contribuiu na direção de vários documentários educativos no Instituto Nacional de Cinema Educativo (1937-1966), abarcando diversos ramos do conhecimento, como física, geografia, literatura teatro, modo de trabalho. Era um projeto do Estado Novo de Getulio Vargas. Cinema como instrumento pedagógico, uma filosofia iniciada nos anos 1920 liderada por educadores. Alguns deles: "Atividades e bailados da União das Operarias de Jesus", com direção coreografia de Vaslav Veltechek; Pennas de Aço, 1939; Da Força Hidráulica à energia Elétrica, 1940; Mecânica Geral, 1942; A Corrosão Tecnológica de 1942 e muitos outros. Em 1951, Motta Viana trabalhou com Humberto Mauro no filme Conjunto Coreográfico Brasileiro. Oscar que nunca foi citado no Jornal O Patriota por ter estado na cidade, faleceu mais longe ainda, no Mexico, em 1998, aos 99 anos. E voltamos a afirmar, como constava na certidão, ele nasceu em Três Corações. Oscar tinha um cinema em Mendes, Rio de Janeiro onde foi lá que conheceu sua futura esposa Jandira.
Jose Maria da Mota Vianna da Silva (1906-1990)
José Maria era casado com Hermosina Bastos/Vianna da Silva (?-?). Da união nasceram Pedro Antonio (1944-?) José Maria Bastos/Vianna (1956-); Áurea Maria da Silva Vianna (1945-2012). Ele era o mais presente na cidade de Baependi, pois tinha seus aniversários lembrados pelo primo tipógrafo e proprietário do jornal O Patriota, José Vieira Manso. José Maria, em 1945, tentou voltar, para a terra de sua mãe, inscrevendo-se para uma vaga para auxiliar de escritório no Ministério da Agricultura para a subestação de Enologia de Baependi. Aposentado, faleceu de infarto do miocárdio, em São Gonçalo, no Rio de Janeiro, onde morava.
Elias de Jesus Motta Viana da Silva (1917-1991)
Elias estava domiciliado em Belo Horizonte quando ficou noivo, em 1943. Ele era comerciário e residia em Belo Horizonte. Ele que era frequentador da cidade de Baependi, e lá encontrou sua consorte a baependiana Noemia do Prado (1919-?). Da união nasceram Pedro Antonio/Vianna da Silva (1944-?); Áurea Maria Vianna da Silva (1945-); José Maria Barros Vianna (1956-) (?). Faleceu em São Gonçalo, Rio de Janeiro, de hipertensão e arteriosclerose.
O neto Pedro Geraldo, um astro de cinema
E aqui uma curiosidade, não aliás duas. Pedro Geraldo Costa Viana da Silva filho de Oscar, portanto neto de Pedro Fernandes, também era dado às artes cinematográficas estrelando um filme no... Mexico, em Yo Pecador", numa biografia do frei Mojica, ator e que abandonou a carreira de fama em Hollywood para se tornar padre franciscano. Ainda fez outros filmes no Rio de Janeiro, e se radicou no México, assim como seu pai, que faleceu, viúvo de Jandira Costa Neves, também no México, em 1998, aos 99 anos de idade.
Pedro Geraldo, depois de aposentar da carreira artística, trabalhou entre os anos de 1970 a 1989 como professor de matemática na escola Secundária Liceu José Maria dos Reyes, ao lado da hemeroteca Nacional, na cidade do Mexico , e como professor na Escola Benemérita Nacional de Maestros. A última informação sobre ele (2020), que estaria aposentado e radicado na cidade de Tlaxcala, Mexico. Para nossa felicidade, através das redes sociais, conseguimos contactar sua filha Yandira Vianna, que nos proporcionou um fantástico encontro virtual em novembro de 2024. Falaremos mais sobre Pedro Geraldo.
O sucesso de seu neto Pedro Geraldo, estrelado nas telas dos cinemas do ano de 1959, não pode ser visto pelo seu avô. Pedro Fernandes Vianna da Silva , pois ja havia falecido no dia 26 de dezembro de 1942.
Seu pai faleceu em sua residência, na rua Esteves Junior, n°1, no bairro Laranjeiras, Rio de Janeiro, (não existe mais) esquina com a rua, ironicamente, Conde de Baependi, cidade natal de sua segunda esposa, Orminda. O título de nobreza "conde" vem do tronco da família Nogueira, de Baependi, a qual pertencem vários políticos brasileiros. A causa mortis, arteriosclerose generalizada, insuficiência cardíaca sendo sepultado no cemitério São João Batista, Rio de Janeiro.
Claudiana, uma vida dedicada às causas sociais
Claudiana, em 1915, tem sua saude abalada e até o ano de sua morte precisou tirar inúmeras licenças para tratamento de saúde. Uma tuberculose lhe corroeu a saúde, vindo a falecer, em sua residência, no Rio de Janeiro, em 10 de dezembro de 1923, aos quarenta e cinco anos de idade. O seu concorrido cortejo fúnebre foi seguido por políticos, como Heitor da Silva Costa, Oscar da Costa, o engenheiro Paulo de Frontin, representado pelo seu sobrinho Henrique, além de autoridades eclesiais e inúmeras irmandades religiosas para qual ela prestou o seu trabalho caritativo. Nhá Chica tinha previsto para Claudiana, um futuro brilhante, casamento, filhos. Tudo se realizou. O jornal do Comércio escreve: "... a finada era uma devota fervorosa, exercendo a religião com toda sinceridade e procurando suavizar os males alheios, confortando os que soffriam". Nhá Chica predisse tudo, só não nos predisse que ela deixaria a vida terrena tão cedo.
E em Caxambu...
Claudiana mantinha sua ligação com a cidade de Baependi, bem como tinha amizades com José Maria Costa Guedes, o seu Costa Guedes, da Casa Guedes de Caxambu, pois compareceu, em 1920, na missa de 7° dia celebrada na igreja Nossa Senhora do Carmo, no Rio de Janeiro. De todos os irmãos de Claudiana, José Marcos da Mota, mais conhecido como o professor da Escola Wenceslau Braz, permaneceu, em Caxambu, e foi eternizado com o nome de rua. Ele foi casado com Almerinda Vonzella/Vianna da Silva/Motta, que era neta do pai do marido de Claudiana, e sobrinha do marido, Pedro Fernandes. Tudo em família, como sempre, porque não?
De volta ao passado
Quem quiser faca faça uma visita virtual na casa onde faleceu Claudiana Teixeira Vianna da Silva, última residência do casal, no ano de 1923. A casa esta lá, ainda intacta; é só passar pela Rua Teresina, n° 12, no bairro Santa Tereza, Rio de Janeiro. A residência ainda conversa a arquitetura de antanho.
Isto tudo porque a gente queria contar a história da nossa vizinha Dona Orminda, que morava no "Condomínio da Familia Ayres", na rua Quintino Bocaiúva, 113, em Caxambu.
Fonte:
SOUZA, Carlos - Roberto de, in Catálogo de Filmes produzidos pelo Instituo Nacional de Cinema Educativo.
LIMA, Ludmilla de Lema, Schmidt, Selma in em escritura registrada em cartório, autor do projeto do Cristo cedeu à Igreja os direitos autorais da obra- O Globo, 31/10/2011.
SANTOS, Heloisa Helena Meirelles dos, in Esther Pereira de Mello: carreira impresa nos registros jornalísticos (1902-1920)
*Transcrito do Jornal O Patriota, que por sua vez foi transcrito da revista católica Mensageiro do Carmelo.
- O Imparcial, 1920-1929
- Arquitetura no Brasil
- O Pais (RJ), 1890 a 1899
- Correio da Manha, 1959
- Correio da Manha, 1910 -1919
- O Imparcial: Diário Ilustrado do Rio de Janeiro (RJ) - 1912 a 1919
- Arquitetura no Brasil: Engenharia, construção (RJ) - 1921a 1926
- Prefeitura do Rio de Janeiro - site
- A Epoca (RJ) 1912-1919
- Correio da Manha (RJ), 1940-1949
- A Noite/RJ), 1940-1949
- Jornal do Brasil (RJ), 1890-1899
- Jornal do Comércio (RJ), 1890-1899-
Fotos:
Familia Search
Diario de Notícias, abril- 1944
Agradecimentos:
Julio Jeha, sempre, na eternidade
A Jandira Viana, neta de de Pedro Geraldo Vianna da Costa, residentes no Mexico. Entrevista feita em dezembro de 2025. Salutos!


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