![]() |
| Princesa Isabel e o Príncipe Pedro |
Eu desminto. Contar é muito, muito dificultoso. Não pelos anos que já se passaram,mas pela astúcia que tem certas coisas passadas. Guimarães Rosa, Grande Sertão-Veredas
domingo, 8 de agosto de 2021
O desabafo/Carta da princesa Izabel ao Conselheiro Francisco de Paula Mayrink/ Assunto: Igreja Santa Isabel da Hungria de Caxambu
A construção da Igreja de Santa Isabel da Hungria/desvio de dinheiro e uma princesa indignada
No dia 22 do mesmo mês, em solenidade na Câmara Municipal de Baependi, foi lavrada a ata do lançamento da pedra fundamental para a edificação da igreja. A pedra foi benzida pelo reverendo monsenhor Luiz Pereira Gonçalves de Araujo, para posteriormente ser colocada pela princesa no local da construção do alicerce da igreja. Na ocasião S. A. Real ouviu pedidos para que removesse o cruzeiro do lugar onde se achava, plantado por Francisco Viotti, em 3 de maio de 1862, o que foi deixado a cargo do engenheiro Christiano Luz.
A princesa fez um depósito "considerável" de 50:000$000. O gasto, ou o "abono" quantia para construir a igreja, seria superior à da igreja de Petrópolis, onde residia a Família Real. Sim, superior, pois a igreja de Petrópolis era simples em comparação com o plano da igreja em estilo neogótico em moda. Na ocasião de sua estada, abriu subscrição para os voluntários fazerem seus donativos que somaram 4.000$000, assim noticiado em O Baependiano.
Para realização da grande empreitada, foi escolhida uma comissão local composta pelo coronel Justo Maciel, o vigário Marcos Nogueira, o comentador Mattos, dr. Viotti e o capitão João Carlos. Já havia uma comissão da qual faziam parte o coronel Francisco Werneck, o conselheiro Ribeiro da Luz e o Visconde de Mesquita.
Matriz insignificante X Igreja no estilo gótico
Mas qual! Relembrando, do lançamento da pedra fundamental até o início de sua construção arrastaram-se anos. No início do mês de dezembro de 1884, a comissão das obras da igreja deveria se reunir, afim de fazer a marcação exata no "Morro do Cruzeiro", para qual veio o deputado provincial Christiano Luz, um dos membros da comissão. Mas devido ao baixo comparecimento, a reunião foi transferida para o início de janeiro de 1885. No planejamento estava a abertura da rua que ligaria a praça da igreja até o alto do morro.
Assim noticiava o Jornal do Comércio, do Rio de Janeiro, em 1885 : "A matriz é insignificante; mas começa a abrir os alicerces para uma linda igreja gótica, Santa Isabel de Hungria, cuja planta vimos, e que depois de concluída ficara um primor de architectura, sendo que era situada em posição muito pitoresca. Era orçada em 130:000$, havendo já levantados 90:000$ aos esforços da Princesa Imperial, que tem pedido esmolas para essa construção. Estamos convencidos de que Caxambu melhorará muito com a edificação dessa igreja; tem visos de paradoxo esta affirmacao nesta época, mas precisa notar que estamos em Minas, província essencialmente católica."
Água X água benta
Em maio de 1885 eram concluídos o nivelamento do local onde seria edificada a igreja. A construção estava todo vapor e carroças de pedras já estavam sendo conduzidas ao alto da colina, noticiava O Baependiano e as obras "estavam em grande adiantamento" e que a igreja teria um jardim de "grandes dimensões" ao redor. E como toda obra é obra, os trabalhos foram paralisados e no ano de 1886, foram retomados, "a custo de perder o que ja tinha sido feito", segundo noticiava o mesmo jornal.
Como não havia separação do Estado e Igreja, as instituições religiosas recebiam dinheiro, muito dinheiro em comparação as outras tantas necessidades das pobres comunidades. Em 1887, foi encaminhado o pedido, e aceito, à Assembleia Provincial, através do deputado Américo de Matos, de consignar uma cota de 6.000$000 para a igreja Santa Izabel. Mattos apelava para o "fervoroso espírito religioso" dos parlamentes, muitos deles religiosos. No mesmo orçamento, a presidência autorizou despender 10$000 para conservação da estrada do Picu, hoje Itamonti, apresentado por Domingos Viotti. Não era muito se compararmos ao orçamento para uma capela sozinha, mas a lista das igrejas que recebiam dinheiro era muito mais longa que as de criação de escolas, manutenção das estradas, abastecimento de água, que ficavam para o segundo plano. A voz de alguns deputados soava baixa, quando citavam que não se esquecessem de dar algumas cotas, principalmente para o abastecimento de água potável. Água potável versus água benta, uma difícil disputa em tempos de Brasil Imperial.
Igreja Nossa Senhora dos Remédios X Igreja Santa Izabel da Hungria, a concorrência
![]() |
| Registro do livro Caxambu de Henrique Monat, 1894. |
Entre as cerimonias de lançamento da pedra fundamental e desejo de construir a igreja passaram-se mais de vinte anos, e sua inauguração, se deu apenas quando a Família Imperial estava no exílio. Depois de as obras se arrastarem por mais de 26 anos foi na administração do conselheiro Mayrink, um banqueiro rico e benemérito da povoação e que teve a concessão de explorar as águas minerais, que o projeto foi retomado. O concessionário das fontes foi quem levou a diante o projeto, numa segunda promessa, quando quebrou uma perna fraturada ao cair de um cavalo. Se voltasse a cavalgar, prometeu concluir o templo. De acordo com vesões não confirmadas, a lei 398 em 2 setembro de 1904, isentou o bispado de Pouso Alegre do imposto de transmissão da propriedade que deveria pagar, ao legalizar a "doação feita por Francisco de Paula Mayrink de uma Igreja em Caxambu". (1) Nenhuma confirmação foi encontrada em sua biografia.
Na correspondência, esclareceu a princesa que já no ano de 1873, de volta ao Rio de Janeiro depois de suas viagens pela província, teve conhecimento que o dinheiro depositado para a construção do templo tinha desaparecido e indignada disse que não despenderia nenhum centavo a mais para as obras.
Igreja Nossa Senhora da Conceição para Igreja Santa Isabel da Hungria.
Por ter Mayrink adquirido o terreno e o entorno se dispondo a terminar a obra, a igreja teve por alguns anos outro nome: Igreja Nossa Senhora da Conceição. Sim, era um projeto dele em sua propriedade, daí a mudança de nome que não agradou a população.
Isabel, que não queria ter seu nome associado a um projeto que não pode acabar, passou a responsabilidade a Mayrink, pela decepção de ver o dinheiro doado sumir. Assim templo foi renomeado para Igreja Nossa Senhora da Conceição durante as obras finais. Na época escreveram à princesa enviando um abaixo assinado de cerca de 600 pessoas para que ela consentisse que o nome fosse retornado, Santa Isabel da Hungria. A igreja teve portanto, por um curto período, entre 1885 a 1887 o nome de Igreja Nossa Senhora da Conceição. Mayrink, o benfeitor de fato da igreja, manteve-se discreto e a princesa agora ressurgia como a grande benemérita da obra, embora sua finalização se deu por causa do amigo.
As obras terminaram em abril de 1897. A igreja foi benta, segundo a mãe de Mayrink Lessa, neto do conselheiro Mayrink, em missa celebrada pelo cónego Amador em 12 de junho de 1897. A igreja, segundo ela estava "cheia e linda". E não duvidamos. Presentes estavam quase toda a família Mayrink, marquesa de Itamaraty e outras pessoas de vulto da comunidade religiosa, política e financeira. Segundo ela, os hotéis ficaram lotados. A controvérsia da missa realizada ter sido num templo "particular", e que se chamava Nossa Senhora da Conceição e que estava na propriedade de Mayrink, e por isso não constar nos arquivos diocesanos e sim que o templo foi "benzido" em 19 de novembro, assim oficializado sua existência como templo.
Inaugurada a igreja, protestaram dois parlamentares republicanos. Um telegrama recebido da povoação de Caxambu, constava que o conselheiro Mayrink, banqueiro, empresário e político, eleito deputado da província em1889, teria construído a igreja. Na verdade eles alegam que Mayrink se ofereceu para concluir e não que a obra tenha sido toda dele, acusando-o de "apavonar", isto é, se transformar em um pavão e dizer que a igreja teria sido feito seu. Podemos concluir que foi injusta acusação dos parlamentares em dizer que Mayrink queria projeção política ao terminar o templo por sua própria conta. Que a justiça seja feita. Mayrink salvou a igreja da ruína.
Patrimônio histórico / Onde estão os santos?
Enquanto Conselheiro Mayrink esteve em Caxambu, a igreja era, segundo o neto Mayrink Lessa, bem cuidada. Em 1913 o vigário da paroquia fez uma inspeção na capela e constatou que ali faltavam vários ornamentos religiosos da alvenaria, utensílios e muitos santos, assim como seus nichos laterais e púlpitos. Em visita em 1970, Mayrink Lessa confirmou o desolado estado da capela. Do relatório do vigário, só restavam a imagem de madeira de Santa Isabel. Segundo as freiras Irma Delfina e Marcelina, dos santos primitivos, procedentes da Europa, foram pouco a pouco transferidos sem nenhum controle para igrejas de outras cidades mineiras, consideradas "mais evoluídas". Assim foi contada a história.
domingo, 4 de julho de 2021
Nossas Senhoras! / Caxambu e Pouso Alto e a troca das Santas
E recontando a história...
quinta-feira, 1 de julho de 2021
Em memória à minha mãe, Arminda Maria Ayres/Nomes, lugares, gentes/ Piracicaba/ Baependi no tempo de 1870
![]() |
| Certidão de óbito de Joao José de Lima, falecia em 1875 e seu escravo, Francisco, falecido um ano antes, 1874; ambos foram sepultados no cemitério de Santo Antonio do Piracicaba no ano de 1875. |
Minha mãe é culpada. Muitos dos nomes de lugares ouvia de minha mãe ficaram na minha memória. Cinquenta anos depois fui buscar as raízes. Os arquivos consultados foram os registros de óbitos da região de Piracicaba, hoje bairro de Baependi, onde ela morou. No rio Baependi, na altura do Gamarra, minha bisavó perdeu a vida. Ela se afogou ao cair de uma pinguela num dia de chuvas torrenciais de janeiro.
Nos arquivos pesquisados também se encontra o registo do mais antigo ancestral da Família Ayres dJoão José de Lima e Silva (1798-1876), casado com Joana Thereza Ribeiro de Lima (1807-1860), sepultado no Cemitério de Santo Antonio do Piracicaba, Baependi.
Na década de 1870, Piracicaba e seus arredores, as localidades tinham muitos nomes, nomes relacionados a toponimia ou a pessoas.
Tive a paciência de colecionar os nomes, alguns conservando a ortografia e muitas repetições, escritas pelo pároco, que sabia bem onde as pessoas moravam. Eles foram compilados do livro de óbitos de Piracicaba entre os anos de 1869 e 1891; quase três décadas as fronteiras territoriais eram divididas com Baependi, Aiuruoca tinham muitos nomes. Hoje as localidades fazem parte do Parque Estadual da Serra do Papagaio. As referencias geográficas e o nomes caíram no esquecimento, outros permaneceram.
Baependi, Palmital, Lage, Piracicaba, Chapeo, Lagoinha do Chapéu, Lagoa, Gamarra termo da Lagoa, Santo Antonio do Piracicaba, Serra do Paula, Serra, Itahúna, Vargem, Congonhal, Fazenda de São Pedro, Capoeirinha, Lagoinha, Passagem, Cubatão, Capão, Bananal, Rego d`Agua, São Pedro, Serra do Paula, Lage da Cachoeirinha, Andradas, Gamarra acima da Passagem, Serra da Lagoa, Boa Vista do Chapeo, Prateado da Lagoa, Serrada Prata, Monte Seco, Serra da Aiuruoca, nas Vargens, Barra do Palmital, nos Limeiras, na Serra termo d`Alagoa, Casa Branca, Buracão, Boa Vista, Chapeo de Cima, Serra do Capão, Matto Dentro, Três Pinturas, na Ponte, Freguesia da Lagoa, no Theotonio, nos Felipes, Serra do Theotonio, Serra do Mato Dentro, Lagem, Gamarra termo da Lagoa, Theotonio do Termo da Lagoa, Gamarra baixo, Serra Baixa, Gamarra do Belém, Gamarra do Distrito d`Alagoa, Capão Triste, no Pica Pau, Serra da Lage, Capão dos Gomes, Fazenda do Sobrado, Gamarra da Lagoa, Chapada.
Que nossos ancestrais estejam em paz na eternidade.
domingo, 28 de março de 2021
Posto de vacinação de Caxambu/ Memórias de uma arquitetura
domingo, 17 de janeiro de 2021
Um dia de Natal na casa de Rodolfo Weber e dona Emilia
Antes de falarmos sobre seu Rodolfo, temos que falar de seu pai, também Rudolph Weber, pintor conhecido da Academia de arte de Viena. Nascido em Spitz, Austria, em 1872, casado com Karolina Burnner (1889-1926), com quem teve três filhos: Marianne, Hans e Rodolfo (1906-?).
![]() |
| Karolina Brunner, mãe de Rodolfo Weber, aos 25 anos de idade fotografada em 1914. Ao fundo a residência da família de Rodolfo Weber no interior da Áustria. |

Todas as fotos dos Weber são do arquivo privado da família, cedidas gentilmente por Rodolfo Weber, neto de Rodolfo, conhecido como Rodolfinho.
quarta-feira, 25 de novembro de 2020
Aconteceu no Casarão/Casamento civil no Casarão Guedes/ Ramiro Rodrigues Freitas casa-se com Maria José de Lima Ayres
![]() |
| Ramiro Rodrigues de Freitas, Maria Ayres Rodrigues fotografados em uma de suas peregrinações a Aparecida do Norte. A pessoa ao centro não é conhecida |
Dado que os contraentes não sabiam escrever, assinaram como testemunhas do enlace José Maria da Costa Guedes, junto com os fazendeiros José Julio Pereira Antônio Dias, este natural de Portugal e residente na cidade. Júlio e Antônio foram também testemunhas no casamento no religioso.
Estiveram presentes na cerimônia civil - e constaram no livro de registro as filhas de Costa Guedes e Nonata, Leonor Ribeiro Guedes, Margaria Pereira e Maria da Conceição Guedes. Assim ficamos sabendo que três membros da família Guedes participaram da cerimônia civil que foi realizada, para nossa surpresa, no Casarão Guedes. Uma curiosidade: Leonor tinha apenas cinco anos e Maria da Conceição, doze, ambas menores de idade (foto), mas suficiente para serem testemunhas do casamento. Mas quanta honra!
O casamento no religioso (certidão acima) aconteceu no mesmo dia do civil, na ainda denominada Capela Nossa Senhora dos Remédios e abençoado pelo pároco Marcos Pereira Gomes Nogueira. O caminho era curto entre o casarão Guedes e a capelinha. Era só atravessar a rua.
O documento original, em que constam as informações do registro civil, foi solicitado por Leandro Leite e está arquivado no cartório de Caxambu. Ele é a prova de que Costa Guedes tinha um bom relacionamento com o seu compatriota Ramiro, tanto que foi convidado para ser seu padrinho de casamento. E tudo aconteceu no histórico Casarão...
Foto:
Arquivo privado da Família Ayres/Rodrigues/Silveira/Pereira.
Contexto: Foto feita na cidade de Aparecida do Norte no ano de 1920. Nela Ramiro Rodrigues Freitas e Maria José de Lima/Ayres. A moça sentada foi adotada pela família.
Agradecimentos:
Agradecemos Leandro Leite pelo fornecimento de importantes documentos que estão desvendando ainda mais as origens da Família Ayres e seus diversos ramos.
domingo, 15 de novembro de 2020
À minha vó Vitória
domingo, 4 de outubro de 2020
Bodas de Ouro: Vander & Graça/ A vida continua! Viva a vida!
quinta-feira, 1 de outubro de 2020
50 anos de casados, 50 anos de muitas vivências e convivências/ Graça e Vander comemoram suas bodas de ouro!
quinta-feira, 10 de setembro de 2020
Do passado para o presente/ Vivos em nossas memórias
terça-feira, 7 de julho de 2020
Casa da familia Arnaut desde 1900
Caxambu, 1917. Podemos identificar a Igreja Matriz, que ainda tinha suas duas entradas, o Casarão da Família Guedes, o prédio antigo do Colégio, o hotel Caxambu, e... imaginem que a casa da família Arnaut já esta lá. Preservem esta relíquia! Ela faz parte da história da cidade.
segunda-feira, 11 de maio de 2020
De volta ao passado/ João José de Lima e Joanna (Pereira) Ribeira
![]() |
| Censo de Pouso Alto do ano de 1839 |
Família Search
Censo do Cedeplar /Belo Horizonte, MG
sexta-feira, 10 de janeiro de 2020
O Morro, ah morro!
![]() |
| Morro de Caxambu, Henrique Monat |
![]() |
| Morro de Caxambu, 1868 |
MONAT, Henrique, in Caxambu, 1894.
NICOLAU Facchinetti. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa23040/facchinetti>. Acesso em: 29 de Set. 2019. Verbete da Enciclopédia.
ISBN: 978-85-7979-060-7
Fotos:
MONAT, Henrique, in Caxambu, 1894.
Agradecimentos:
A Vanessa Meines, por ter nos enviado a gravura de Facchinette.
Arquivo Histórico do Exercito (AHEX), Divisão de História e acesso a Informação (DHAI), na pessoa do Major Ferreira Junior, que prontamente dispôs vários mapas para o nosso Blog.
A Julio Jeha, sempre.






























