domingo, 12 de fevereiro de 2017

Outros Carnavais/ Caxambu e o Carnaval de 1920. O reinado das crianças/ Parte 2


Passaram-se vinte anos anos da primeira notícia do carnaval de Caxambu, em 1887, noticiado pelo Jornal O Baependiano. Entramos agora no novo século. O Entrudo  e suas guerras de farinha e água suja na cidade de Baependi era passado. Dos carnavais dos "Zé Pereiras", também nenhuma lembrança. Em 1901, Caxambu ganha emancipação de Baependi e começa a escrever sua própria história. A cidade teve finalmente sua grande ascensão como estancia hidromineral. Mais e mais áquaticos  procuravam na cidade descanso, o bom clima e suas maravilhosas águas.

Em 1912, na administração de Camilo Soares, teve prioridade a abertura e pavimentação das ruas do centro, canalização do Bengo, melhoramentos no Parque das Águas, bem como a construção da Praça 16 de Setembro, com desenho paisagístico do artista Chico Cascateiro. A cidade estava então preparada para receber os veranistas.

Para turista ver, para não ver...



"O Governo de Minas em boa hora compreendeu o valor de Caxambu e tratou de dotá-la de todos os elementos do conforto necessários. Água, luz, esgoto, tem sido as primeiras preocupações desta Prefeitura. Agua potável, temos-a abundantíssima, capaz de abastecer o triplo da população que ora conta a localidade (cerca de 4.000 almas). A rede de esgoto deságua a 1.800 metros da villa."(Anuário de Minas Gerais, 1912). Essas foram as informações divulgadas pelo prefeito Camilo Soares à imprensa.

Bem, ha 1.800 metros da vila não era muito... O esgoto, a partir daí continuaria correndo a céu aberto até o final da década de 1970. Estou aqui me lembrando do evento das Olimpíadas acontecido no Brasil, em 2016... A Baia de Guanabara... O esgoto e lixo flutuantes... Ah, desculpem, o assunto é Carnaval e estamos falando do ano de 1912.

A cidade merecia! Digo, as melhorias. Todos tinham  interesse de que a cidade progredisse. Com uma sólida estrutura hoteleira, o objetivo era atrair mais turistas, e que por sua vez encheriam os cofres de impostos, os hotéis de hóspedes e dariam  emprego para muita gente. Os hotéis investiam na propaganda e diversos anúncios eram semanalmente inseridos nos jornais, principalmente do Rio de Janeiro, apresentando as suas luxuosas instalações. O Hotel Palace aparecida nos jornais espetacularmente, não sem razão, e claro, as águas que faziam milagres e curavam todos os males. Irresistíveis os apelos, irresistíveis. Ah, mas voltemos ao carnaval...

Fatos e fotos


E podemos dizer então que as décadas de 1910 e 1920 foram de ouro para a cidade. Com o advento da imprensa, Caxambu e seus hospedes eram fotografados de todos os ângulos e publicados na Revista Fon Fon, que trazia os costumes e noticias do cotidiano da sociedade carioca. Nela seus veranistas brilharam por duas décadas. Em 1912, duas hóspedes do Hotel Palace foram flagradas fantasiadas: uma de bandeira nacional a outra do Chile (foto). Era chic, muito chic ter seu nome ou foto publicados lá. Assim pudemos acompanhar os acontecimentos carnavalescos no início do século na hidrópolis Caxambu, através de suas reportagens e fotos entre 1913 e 1928. Quem não gostava de carnaval fazia seus passeios equestres, comemoravam festas no parque, jogava tênis e se deixava fotografar nos lugares pitorescos como na Cascatinha, bancos, em frente ou sentados nas obras de Chico Cascateiro.

Diversão só

Os hotéis da cidade não só se preocupavam em atrair os veranistas, mas também ocupá-los, no bom sentido da palavra. As tais estações de água eram uma festa só. O ponto alto era o Carnaval, principalmente porque coincidia com a alta temporada de turismo. As comemorações eram muito mais civilizadas e finas, e não tinham absolutamente nada com os Entrudos do fim do século passado.  De dia acontecia os desfiles de rua. Os foliões fantasiados desfilavam em cima das charretes e carruagens (foto acima) com suas famílias e amigos. À noite, nos salões dos hotéis, aconteciam bailes animados por orquestras ao vivo. As crianças não ficavam de fora e concursos de fantasias infantis eram realizados nas seções de Matinê. Pelo numero de fotos publicadas na revista, elas é que reinaram nas comemorações carnavalescas da cidade.



Aqui os pequenos hóspedes dos hotéis, no carnaval mirim de 1928, fantasiados à moda, posando em frente ao prédio mais suntuoso da cidade: o Balneário, do arquiteto Alfredo Burnier inaugurado no início dos anos de 1920. Estou vendo ali uma, ou melhor duas de holandesa, um alerquim, uma odalisca, um sultão, marinheiro...
Os meninos fantasiados de Peter Pan ou  anões da Branca de Neve também foram flagrados no banco do Parque das Águas. Já a duplinha de Pierro e Colombina esta numa romântica pose. A primeira à direita foi a vencedora do concurso de fantasias do Hotel Palace de 1928, de holandesa. Um charme.


As crianças davam o que falar como se vê. Parece que as  seções infantis eram tão concorridas quanto a dos adultos, e inúmeras fotos de filhos dos importantes políticos eram  estampadas, como as do prefeito da cidade Camilo Soares, Martha e Maria, abaixo à direita. Ah, não mudou muita coisa até os dias de hoje...

Para que muitos pudessem se divertir, outros trabalhavam


E os antepassados da Família Ayres jamais iriam ser estampados nas revistas, não, não. Eles eram aqueles que trabalhavam atras dos palcos das festas. Não vamos esquecer de Ramiro Rodrigues Freitas (?-?), que foi  jardineiro e era quem cuidava dos jardins do Parque das Águas, bem como João de Deus (1902-1981), neto de José Fernandes Ayres, o Trançador-pai (1849-1878), que trabalhou por 40 anos no engarrafamento da Empresa, e o seu filho Francisco, varrendo as ruas da cidade (de calça clara no centro da foto). Quatro dos Ayres/Rodrigues Freitas trabalharam para o Palace HotelAna Ayres de Lima (1883-1946), a tia-avó Lica, como era chamada, que labutou na lavanderia por anos, o seu marido, José Eugenio, conhecido por  Zezinho, o "faz tudo", bem como o seu filho Silvio Aires, que aos 10 anos de idade ajudava a matar as aves consumidas pelos turistas. Ah, também o tio Silvio Ayres de Lima, (1908-1990), o filho do vô José Trançador-filho e vó Gervásia Maria Ayres, que foi empregado jovem la no Palace e era quem fazia o café para os hóspedes e que depois foi exercer a profissão de barbeiro na cidade. Não podemos esquecer ninguém.  O Parque, a praça, ruas varridas, a roupa limpa dos hotéis, as festas  não brilhariam sem eles.

Fotos:
Revista Fon Fon
Revista Tico Tico
Fonte:
(1) Anuario de Minas Gerais, 1912
Revista Fon Fon
Revista Tico Tico
Revisão  :
Paulo Barcala

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