Tinha pés grandes sempre calçados de alpargatas que nunca esqueci (vide anuncio), cabelos, acredito, outrora louros, trançados e unidos no alto da cabeça, e uns grandes olhos azuis. Costumava "pitar" cigarro de fumo de rolo, que cortava fininho e secava no fogão a lenha, enrolado em palha de milho, assim como a minha avó.
Samaria não era casada, não tinha filhos, nem parentes. Ela também esta nas lembranças de Janice Drumond, a vizinha de frente, que na sua infância também frequentava o quintal mágico de vó Gervásia e a conheceu.
Fiquei sabendo em conversas com o meu tio Samuel Ayres que ela foi abandonada pelos parentes na Santa Casa de Caxambu. Então o meu tio Silvio a levou para trabalhar na casa vó Gervásia. Aos domingos à tarde ela saía para o seu costumeiro passeio nos arredores e trazia uma espécie de grama, que crescia no alto do morro do Bairro Santa Rita, que amarrada, formava uma vassourinha e que servia para varrer as cinzas do fogão à lenha.
Então Sá Maria ficou velha, muito velha. Como não havia outro modo de cuidar ela, meu tio Silvio Ayres de Lima arrasou para que ela tivesse um lugar no Asilo da cidade. Não posso esquecer o quanto seus olhos brilharam ao me ver, quando fui lhe fazer uma visita. Assim um dia recebi a notícia que a Samaria partiu.
Em tempos de Brasil pós escravidão até aquela data, é difícil ainda de acreditar, mas Samaria foi a única empregada branca de olhos azuis que conheci na vida que serviu uma mulata, a minha avó, a vó Gervásia.
Como sempre muito gostoso seu contar, contadora de histórias.
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