domingo, 22 de janeiro de 2017

A muretinha da Praça 16 de setembro de Caxambu e nossas memórias



E hoje vamos  tentar recapitular em fotos o que foi a Praça 16 de Setembro e como a muretinha que a circundava, ao longo dos anos apareceu e... Desapareceu. Nela, nos anos de 1950, sentou-se Maria das Graças Pereira, e estava feliz da vida pelo visto (foto). Pois 20 anos mais tarde ela viria se sentar la novamente para esperar o seu namorado, Vander Pereira, seu futuro marido.

Vamos aqui ser sinceros, se sentar na muretinha estava longe de ser confortável, pois as pedras de granito eram um tanto irregulares. Quem tivesse "pouca substancia" no traseiro, iria sofrer incomodo se permanecesse longo tempo sentado. Mas... Ela fez companhia a muitas gerações, que antes e depois das seções de cinema, se abundavam la para comer pipoca do seu Dodo, ou para ver o "movimento", principalmente nos sábados e domingos. Mas atenção! Esta muretinha tem história para além de ter sido assento de muitos caxambuenses.  Para tanto pedimos ajuda à Janice Drumond. Mas antes de deixar a Janice contar as suas impressões, vamos fazer um pequeno resgate histórico-fotográfico do lugar.

Assim era a praça 16 de setembro anos de 1920 (foto). O paisagista, o português Chico Cascateiro não somente desenhou seu jardim, mas também deixou sua obra esculpida em argamassa na praça e no Parque das Águas. E ele não estava sozinho. Para embelezar a hidrópolis e seus jardins teve as mãos do também português Ramiro Rodrigues, (?-?)casado com a minha tia avó Maria José Ayres de Lima, a Mariquinha. (1881-1946) Para lembrar, Mariquinha era filha de José Fernandes de Lima, o Trançador-pai, (1835-1897)que emprestou o seu nome ao bairro Trançador de Caxambu.

As obras tiveram o início no ano de 1912, na gestão de Camilo Soares e foram concluídas, em 1928, consumindo 7 anos de trabalho. A cidade ganhou contornos e melhoramentos foram feitos transformando as "Águas Virtuosas" num pequeno pedaço de paraíso.


A pracinha no desenho original era cercada por troncos imitados em argamassa e compunha o conjunto da obra de Chico Cascateiro na cidade. Mas parece que naqueles tempos como hoje, ninguém se preocupou em preservar o belo trabalho do artista. Na década de 1940, os contornos em forma de troncos ja não constavam mais da paisagem da pracinha, até que foi construída a... Muretinha...


Irmas gêmeas


Resgatando os cacos da história, podemos associar a construção da muretinha da praça com história a construção do Hotel Gloria, o "novo". Antes, nas fotos acima, sem a muretinha, por volta dos anos de 1945. Quase na mesma posição o hotel foi fotografado com a muretinha, idêntica à da pracinha. Podemos então dizer que ela foi construída no mesmo período e  afirmamos que elas eram irmãs gêmeas. O pedreiro que executou a obra no hotel deve ter sido o mesmo que fez o contorno da pracinha, na década de 1950.

E a muretinha se foi...

Na gestão do prefeito Isacc Rosental, 2005/2008 foi feita uma reforma na pracinha e a muretinha história foi removida;  lembrando o conjunto da praça estava tombado pelo Patrimônio Histórico, devido as obras de Chico Cascateiro. 

Ah, com vocês:
Janice Drumond a nossa vizinha de frente e suas memórias

Aí você amiga incita: vamos falar de infância, vamos recordar um tempo em que a pracinha de Caxambu tinha muretas. Falar disso é falar de muito mais. Não sei quanto tempo tem que as muretas da pracinha deixaram de existir, mas lembro muito do tempo que existiam.
Bengo sujo, Bengo limpo
Eram muretas de três fileiras sobrepostas e intercaladas , de pedras de granito, paralelepípedos, iguais aos que revestiam as ruas antes de vir o asfalto. Eram pedras retangulares iguais, as da praça e a das ruas, salvo o lustro e desgaste das que faziam o calçamento, de onde, à noite, a gente via foguinho saído do impacto das ferraduras das charretes, e ouvia o clok-clok mais que familiar que ainda ecoa fácil na memória. Já as pedras da mureta, mais preservadas, arranjadas geométrica e harmoniosamente, delimitavam a calçada de ladrilhos hidráulicos decorados... Chiquérrima, circundavam canteiros que faziam jus ao lema “medicina entre flores”.

A pracinha quadrada, cortada perpendicular pelo Bengo, ribeirão sempre discutido – é sujo, é limpo – como ser sujo se vem direto do parque, se vem do lago suprido pelo veio d’água vindo do bosque? Ta certo que depois de correr a cidade, la no final perto da fazenda Santa Terezinha, na pontinha que dá no Matadouro, já está sujo. A gente sabia disso porque tomava bronca sempre que tentava atravessar a pé, nos fundos de quintais, inclusive o da avó juruva. Quanto mais distante do parque mais sujo. 
Footing dos ricos, footing dos pobres
Mas ali na pracinha? Claro que não, só fazia compor os sentidos trazendo o cheiro mineral do parque. Ele dividia a praça em dois triângulos retângulos, enquanto a sociedade dividia a praça em dois meios retângulos. O meio footing dos ricos que ia da ponte do bengo à esquerda da praça, até a ponte do bengo à direita da praça. O meio footing dos pobres ocupava o outro grampo, ou seja, a meia parte dos fundos. Na frente da praça passeavam os importantes. Nos fundos passeavam os que os serviam. Eu sempre vi com bons olhos este vai e vem em meia lua, em que cada um sabia internamente limite e trajetória, e ninguém transgredia. Mas confesso que sempre gostei mais dos fundos da praça, achava mais divertido. Meu pai não gostava, mas a babá me levava.
Carpas no Coreto e matiné no cinema
A praça e as obras do artista que tanta coisa linda fez no parque. As muretas de moldura. Um belo coreto, digno da família Imperial, tinha sim banda que tocava, misturando som dos metais ao do cair da água, na cascata com laguinho. Quando criança ali tinha até carpas, a gente levava miolo de pão pra dar. De frente, um hotel famoso e chic, e ao lado o cinema. Aos domingos, qualquer família normal ia a missa cedo, depois ia ao parque, almoçava e a criançada ia pra matiné. Não dava pra faltar. Antes do filme tinha seriado, e a gente passava a semana curioso pra saber dos próximos 10 minutos no domingo seguinte. Era o Jim das Selvas, Tarzan, Zorro, em doses homeopáticas. Depois vinha o filme, pouco importava qual.
Mini Paris
Cinema de sonhos, paredes cimentadas em areia de malacassita. À meia luz, no ápice pra começar o filme, tudo brilhava ao redor, e o lustre enorme central mandava feixes de luz verde e azul. Lindo de fazer sonhar, de despertar estética em gorila... Às noites de inverno intenso, respeitando as proporções, a frente da praça parecia mini Paris, com as mulheres em seus casacos de pele, trazidos pela Mariazinha do Wallace, dono do único posto de gasolina. Ela trazia roupa chic de segunda mão, diretamente dos Estados Unidos. As senhoras esguias em seus saltos agulha, de braço dado com seus maridos, no footing meia lua, pra la e pra cá, glamour que nunca mais vi.
A Radio Caxambu
Do lado de la da praça, algumas residências, e a rádio, ah a rádio.... Quanta memória dai. E de frente pra radio, as muretas, mesmo formato e proporção, mesma função, mas muitas funções agregadas. Ponto noturno do povão, grupo mais numeroso que o grupo dos importantes, estes sim usavam as muretas pra sentar, fazendo aquela fila colorida de gente nos sábados a tarde, servindo pra ver melhor as externas da radio, onde Jackson do pandeiro e Almira corria solto, ao vivo, em cima do caminhão, com a filha da Ivone pintora no acordeon, o Leônidas alfaiate na bateria e adivinha quem nas maracas? Eu mesma, com meus 4 anos. Leônidas marido da babá Heloísa, tão bom baterista quanto alfaiate, tá certo que bebia um tanto e tinha umas ideias malucas, uma delas a de me treinar pra cantar musicas de letras bem improprias pra idade, fazer ele mesmo a saia de chitão da apresentação e me subir no caminhão, maracas na mão, sem entender nada. Até hoje agradeço a ele o estimulo musical. Eu fazia direitinho o que ele mandava e arrancávamos muitas palmas do publico, agradecimentos da rádio, ainda que o saldo final era sempre muita palmada. Meu pai ficava uma arara.
Azulejos "adapítados" 
A rádio, palco de tanta coisa, as muretas pensadas conjunto a ela. Tem apresentação na frente da rádio? Criança sobe na mureta, se cair é baixa, não machuca, de cima dela da pra ver mesmo com adulto em pé na frente. Na radio tinha o locutor Aristides, irmão da minha babá geralda. Minha mãe arrepiava toda vez que ele fazia propaganda de um certo azulejo. Ele falava em barítono empostado: Compre o azulejo tal.... o que melhor “adapíta” na sua parede. Isso valia sempre uma aula de português correto, minha mãe comentava que a radio não podia permitir isso, o povo ouvindo errado e aprendendo errado. Afinal radio é cultura, dizia ela, e era mesmo o único meio de comunicação além de jornal. Todo mundo mantinha sintonia com a rádio, dali vinha toda novidade, o que estava acontecendo e os avisos do padre. Anunciava a hora do ângelus simultaneamente a Igreja Matriz. 
Malba Thaan, o genial velho chato e a histórica Muretinha
Lembro de uma palestra na rádio, palestrante Malba Thaan. Autofalante propagando o dia todo. Não tinha idade pra saber quem ele era, penso que nem ele sabia que tornaria quem se tornou. Ao publicar sua maior obra, “O Homem que Calculava”, deu uma palestra de matemática na radio, demonstrava curiosidades matemáticas árabes e eu fui com mamãe, não tinha com quem ficar. Achei tão interessante sem entender que fui lá onde ele estava, à frente, e mamãe foi convidada a se retirar porque ele já tinha pedido pra não levar criança. Senti o clima, guardei o genial Malba Thaan como apenas um velho chato. Mais tarde vencendo a resistência pra ler o Homem que calculava, vi no prefacio que toda a obra foi escrita em Caxambu. Sabe onde? Sentado na mureta da praça. E eu tive o prazer histórico, desprazer pra ele, de atrapalhar o lançamento.

Viram? E só porque resolvemos contar a história da muretinha.

Fotos
Fotos Antigas de Caxambu
Agradecimentos:
Não sabemos onde por a nossa satisfação e ainda de ter a honra de publicar as memórias de Janice, a vizinha de frente, no Blog da Família Ayres.
Kreuzau, Alemanha

8 comentários:

  1. é com muito prazer que relato as memórias da nossa infância Solange. É um tempo que não volta mais, mas é desse tempo que retiramos o adubo que nos tornou o que somos. E viva Caxambu!!!!!!

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  2. Parabéns para vocês que tiveram o cuidado de guardar essas fotos que é a história de caxambu tempos que tinha muitos turistas que compravam ou construíam casas de veraneos os hotéis viviam lotados nas temporadas.

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    1. José Carlos, reconstruir as histórias não é tarefa fácil. Exige muita pesquisa. Ainda bem que temos alguns documentos históricos que nos permitem reconstruir os fatos. Agradecemos sua visita e comentário. Solange Ayres

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  3. Olá, voces podem me ajudar? Estou em busca de informações da família. Tenho uma ancestral chamada Anna Ayres casada com Ignacio Nunes de Marins. Ela nasceu por volta de 1840 no estado de Sao Paulo. Agradeço desde já.
    Obrigado.

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  4. Olá, voces podem me ajudar? Estou em busca de informações da família. Tenho uma ancestral chamada Anna Ayres casada com Ignacio Nunes de Marins. Ela nasceu por volta de 1840 no estado de Sao Paulo. Agradeço desde já.
    Obrigado.

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    1. Guilherme, voce vai ter que ter paciência. Ha inúmeros "Aires" espalhados pelo Brasil afora. Você deve pesquisar nos arquivos paroquiais do Famile Search. Primeiro tem que saber em qual paroquia sua família se encontrava em 1840. Você vai achar as certidões de batismo e para facilitar monte uma arvore genealogica da família. Boa Sorte. Solange Aires.

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    2. Solange, obrigado por responder. Eu não consegui localizar a referida certidão, mas localizei o perfil no familysearch: https://familysearch.org/tree/person/L6QX-NN6/details
      Seria essa pessoa. Agradeço se souber de algo.

      Obrigado.

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    3. Melhor que você tem a fazer é perguntar aos seus pais. Se tiver ainda avós, melhor ainda. Eles serão os primeiro a te dar pistas... "quentes" de onde eles vieram, onde moraram... Comece do começo. Tenho certeza que darão resultados. Ah, se você tiver uma daquelas tias bem ja idosas, elas saberão contar inumeras histórias que te ajudara a recuperar a história de sua família e consequente chegara a... Anna Aires. Saudações. Solange Ayres

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