quarta-feira, 1 de março de 2017

Monsenhor José João de Deus, o padre de bronze de Caxambu



Ha pessoas que fizeram a diferença e foram eternizados  pelo seu legado. Pois o Pároco José João de Deus foi um deles. No dia 8 de junho de 1946, Deus levou José João de Deus. Cedo, muito cedo diríamos. Chegou em Caxambu para fazer um tratamento com as "aguas milagrosas" e lá permaneceu, tornando-se o seu Pároco.  Um dos poucos padres do seu tempo que era negro, aliás "o padre de bronze", assim denominado pelo jornalista David Nasser, repórter da Revista O Cruzeiro.

Saúde e educação

Santa Casa de Caridade São Vicente de Paula de Caxambu em diferentes etapas da sua construção
Se o Governo tinha planos para a educação e saúde, eles não chegaram à Caxambu do início do século. Sendo assim a Igreja assumia, como em todo o Brasil, a tarefa que era do Estado.

E então baseado nos preceitos do espírito caritativo e fé cristã, João de Deus empreendeu sua obra. Foi ele o fundador da Santa Casa de Caridade São Vicente de Paulo, a Santa Casa, inaugurada, em  9 de abril de 1926, data em que faziam 25 anos de sua ordenação como padre (1). Em 5 de julho do mesmo ano, trouxe para a cidade as irmãs Filhas de Sant`Anna, (foto) vindas da Casa de Saúde Dr. Eiras, do Rio de Janeiro (2) para dar início ao  projeto caritativo, cuidando dos pobres, enfermos e indigentes. Elas também prestaram serviço tanto na Santa  Casa, quanto a domicílio.

E também graças a ele existiu a "Escola", que se transformaria na Escola Normal Santa Terezinha, dirigida posteriormente pelas Irmãs da Providencia e que formou dezenas de jovens educadoras. Muitas delas foram trabalhar nas escolas da cidade, inclusive Celia Ayres de Lima, filha de Gervásia Maria da Conceição/Ayres e José Ayres de Lima, o Trançador-filho, que foi ser professora no Grupo Escolar Padre Correia de Almeida .

Ajoelhou tem que rezar?

O Padre João de Deus era conhecido por ser enérgico e de atitudes controversas. Ficava na porta da igreja "passando em revista", selecionando quem podia entrar ou não dependendo da "vestimenta" do fiel. Este feito lembrava o velho Frei da Santíssima Trindade, nas suas "Visitas Paroquiais", em 1824, quando chegou a Baependi. Assim escreveu ele:

"Com a mesma pena ordenamos aos reverendo confessores não confessem penitente algum sem o examinar da doutrina cristã, e nem admitam a recepção deste sacramento, e muito mais ao da Sagrada Eucaristia e a todos os ofícios divinos, as mulheres que se atreverem a parecer com vestidos indecentes, impróprios de matronas cristãs, e que só podem competir a gentias brutas, ou vis e ridículas comediantes, como tivemos a desgraça   lição  de observar e com o maior vigor nos transportamos à mais exemplar e pública repressão. Calem-se as mulheres no templo e nele entrem com as cabeças cobertas, é preceito bem sabido do Apóstolo e escrupulosamente observado por nossos pais, e se não quero anuir, saiam para fora do santuário e sejam privadas da participação dos seus mistérios." 

Os preceitos religiosos eram, digamos, intensamente vividos pelo pároco. A começar pelo nosso conhecido  doutor Abelardo  Guedesvítima de José João de Deus e de sua rígida forma de conduzir a Paróquia. O jovem Abelardo, que ainda não era doutor, participava junto com um grupo de jovens, de uma missa de corpo presente de um amigo falecido, quando tocou aquela sineta para que os fiéis se ajoelhassem. Os jovens permaneceram de pé e aí  aconteceu: João de Deus parou a missa e ordenou que eles se ajoelhassem. Como os jovens eram ousados se recusaram.  E  assim como  escreveu o Frei da Santíssima Trindade, os jovens foram convidados "sair fora do santuário". Foram expulsos da igreja, quase excomungados. O fato dos jovens "indisciplinados" deu o que falar na cidade. Esta história  foi contada pela filha de Abelardo, Izabela Jamal Gudes, para o nosso Blog.

Vela na cabeça

A severidade de João de Deus foi eternizada na Revista Cruzeiro em duas oportunidades pelo jornalista David Nasser. Ele que viveu parte de sua infância, em Caxambu e serviu (sofreu) de coroinha de João de Deus.

" ... e o dia em que esqueci de por sobre o altar, para a Missa, a ara, a pedra sagrada, sem a qual a missa de nada valia - quebrou-me uma vela de cera na cabeça, mal entrávamos na sacristia." (3)

Numa outra oportunidade, num conto "Grande Hotel", publicado em 1944:

"O vigário é Monsenhor, embora, se quisesse, seria bispo ha muito tempo. Monsenhor João de Deus, o Padre João de Caxambu, não gosta de pouca vergonha em sua paroquia, e ninguém discute sua autoridade como pastor de almas". (4)  Eu eu diria, ninguém discutiu sua autoridade, com exceção de Abelardo Guedes.

De Deus, o sobrenome que ficou eternizado na Família Ayres

Na família Ayres/Rodrigues/Freitas ele assinou muitos atestados de óbitos, batistérios, casamentos. A lista é grande. Começando pelo primeiro filho de vó Gervásia, o meu pai, José Ayres , batizado em 1907, assim como também o seu casamento com Alzira de Carvalho. La esta a rubrica de João de Deus. Mesmo conhecendo suas ovelhas desde o batismo até casamento, o casal vivenciou também o desagradável episódio de serem expulsos da igreja, por Alzira não estar usando véu.

Em 1908, batizou Silvio Ayres de Lima, também filho de vó Gervásia.  Celebrou o casamento de Romeu Rodrigues Freitas com Ieda, do ramo dos Ayres/Rodrigues/Freitas; batizou Mercedes Ayres/ Soler, em 1910;  em 1921 rezou a missa do enterro de Esther, filha de vó Gervasia, falecida aos 11 meses de idade; O casamento  de Anna Ayres de Lima, a Aninha, em 1924,  bem como fez os batizados dos seus filhos Olimpio, Luiz, Francisco e Antonio; batizou Geralda Rodrigues Freitas/Pereira, em 9 de janeiro de 1909, filha de Maria José de Freitas/Ayres, a vó Mariquinha,  e Ramiro Rodrigues Freitas para citar alguns. E... Assinou o atestado de óbito de Armando e Susana. Suzana que foi assassinada pelo marido ao pé do Morro Caxambu, no caso "O Crime de Suzana", contado aqui no Blog.


E na Família Ayres o nome passou a ser sobrenome. O filho de Manoel Fernandes Ayres, (foto ao alto à esquerda)  filho de José Fernandes Ayres-Tancador-pai, foi pai de José e teve  sobrenome de "João de Deus", sem o Ayres do pai e avo (foto à direita), por ter sido batizado por ele. Assim o sobrenome passou para frente.  José João de Deus, que trabalhou 40 anos no engarrafamento do Parque das Águas, e aqui biografado,  foi pai de Maria de Lourdes  tem o sobrenome "de Deus" (foto abaixo à esquerda fotografada por Graça Pereira Silveira, em 2016).

Fechou os olhos neste mundo, para abri-los na Eternidade*

Relata o Jornal O Patriota:

Monsenhor João de Deus em uma missa celebrada
no Parque das Águas
"Voltamos agora os olhos para os últimos acontecimentos de sua vida. Acamara-se poucos dias antes de sua morte. Clinicado, deliberou que devia sofrer uma intervenção cirúrgica. Monsenhor devia ser operado. Era isto de extrema necessidade. Depois de haver reconciliado com Deus, pela santa confissão em sua residência, dirigiu-se para a Santa Casa. Descansando por uns instantes, antes da operação, pediu o sagrado viático.  Foi atendido no seu desejo, pelo vigário cooperador. Quando ia consumir aquela hóstia cândida, que ele distribuíra a tantos, quer nos momentos de alegria, quer nos momentos de tristeza e de agonia, aquela partícula que por ele antes vezes fora transformada, pelo poder das palavras sacerdotais, solicitou um movimento de braço, ao seu cooperador, que parasse um instante. Depois de uma breve profissão de fé, terminou dizendo como São Pedro: "Domine, tua scis quia amo Te". Pouco após estes momentos tão solenes da nossa vida, e tendo sido confortado com os santos óleos, da  Extrema Unção, dirigiu-se para a mesa, de onde, ele sem dúvida, bem sabia, jamais se levantaria. 
E realmente assim foi."

Assim é o destino...

E como o mundo da comunicação nos proporciona surpresas, somos informados por Julio Leite, de quem operou o Monsenhor foi o seu avô , o doutor José Capistrano de Paiva Filho. João de Deus tinha um câncer no estômago em estado bastante avançado, com metástases em todo abdômen, assim relatado pela mãe de Julio. Quem "deu" a anestesia para iniciar a operação foi... Dr Abelardo, sim o mesmo Abelardo que na juventude foi expulso da igreja por não querer se ajoelhar. Ah, assim é o destino.

Deixei-vos o exemplo, para façais como eu fiz

Mas o seus feitos contam mais que o rigor no tratamento de suas ovelhas. Ao contrário, com sua diplomacia, conseguiu a separação das Paróquias de Caxambu e Baependi em boa paz. E mais! João de Deus deixou um sucessor, seu coroinha o Zezé como era conhecido, quando menino, que se tornou o padre  José de Castilho Moreira,  outro que teve um grande amor e dedicação pela sua paróquia.

"As dez horas de primeiro de junho foi cantada missa de corpo presente, ouvindo ao fim do Santo Sacrifício"*. Seu último e grande empreendimento foi a Maternidade Católica, que em vida não pode mais ver ser acabada. Mas deixou o exemplo.

Fonte:
Caxambu celebrou 90 anos da presença das Irmãs  Filhas de Sant`anna.
Publicação da Diocese de Campanha, MG.
* O Patriota, 1927-1951.
(1), (2) Jornal Catholico, 1891-1927(2)
(3) Revista O Cruzeiro,1967
(4) Revista O Cruzeiro, Caderno de Memórias, Getúlio Vargas, 1944
Fotos:
Irmãs de Sant`Anna, Publicação da Diocese de Campanha, MG
Construção da Santa Casa.
Fotos Antigas de Caxambu
Arquivo privado da Familia Ayres/Rodrigues/Freitas/De Deus.

2 comentários:

  1. Solange parabéns por seu trabalho e publicação. Muito ouvir falar de feitos do Monsenhor João de Deus por parte de minha mãe.

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    1. Obrigado pela visita e comentário. Esse padre que causou muita controvérsia na época foi um grande benfeitor da cidade. A ele nossas homenagens.
      Solange Aires

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