sábado, 29 de julho de 2017

Cônego José de Castilho Moreira, o Padre Castilho / Água benta e política.




"A professora era Dona Ester Castilho e eu me sentava ao lado de seu filho Zezé. Era o lugar mais seguro. Certo dia, Zezé me apareceu mais sério. Murmurou-me ao ouvido que ia ser padre. Hoje é o vigario de Caxambu."(1)

Quando soubemos na família da morte do Padre Castilho, eu ainda era adolescente. Morreu subitamente, em dia 8 de outubro 1973, no Rio de Janeiro. O pároco se fora. Meu pai José Ayres deu a notícia: Ele estava em viagem negociando a vinda de uma universidade para Caxambu, quando faleceu.

O padre Castilho era conhecido por Zezé, no tempo que foi coroinha do Monsenhor de José João de Deus. Depois de sua confirmação como padre, foi nomeado para a Paroquia de Cruzília,  1946, mas não esquentou cadeira na cidade. Com o falecimento do Monsenhor Joao de Deus, o cargo ficou vago e ele foi nomeado, em 11 de agosto do mesmo ano, para dirigir a paróquia de Caxambu, o qual exerceu o pastoreio por 27 anos. Sua vinda para a cidade teve a ajuda de Rangel Viotti, que era procurador da prefeitura da cidade e... ateu convicto. Viotti intercedeu junto ao amigo Oto Mota, Bispo de Campanha, para que o padre Castilho voltasse a Caxambu como pároco.

No dia de sua nomeação, a cidade estava em ritmo de comemorações. A comitiva composta de membros do clero sul mineiro, como Cónego Lucas Mais, padre José Arantes, vigário e Cruzília e o padre Gorgulho Garcia, chegou a Caxambu, por volta das 9:40 da manhã, e foi recebida com uma salva de palmas, noticia o jornal O Patriota. Após a calorosa recepção, foi celebrada a missa, agora pelo pároco empossado Castilho Moreira. As alunas do Colégio Normal Santa Terezinha, que compunham o coro, fizeram sua presença cantando peças sacras. E às12 horas e meia, foi oferecido um almoço pelo município, no Hotel Caxambu, que foi fechado com um discurso de improviso pelo novo padre, lembrando a infância na sua querida Caxambu.

O padre e as moças 

Mas Castilho tinha das suas. Ia para o púlpito falar mau das moças da cidade que "não se comportavam direito". A pregação chamou a atenção de um veranista que abordou a jovem Ruth Villara Viotti,  após a missa . "- A senhora é daqui da cidade? e ela, "- Sim". "- E seu pai, onde esta ele que não toma uma atitude contra esse padre"? Naqueles tempos eram assim.  Os padres  se assumiram como as instancias morais de suas paróquias e davam os pareceres em alto e bom som nos púlpitos das igrejas.

Mas o cargo de vigário da cidade era mais que celebrar missas.  Ele era a autoridade religiosa e se fazia presente nos eventos importantes, como na inauguração da Fonte Dom Pedro, no Parque das Águas e na construção da escadaria que leva à Igreja Santa Izabel da Hungria (fotos), bem como abençoou o Mosteiro Beneditino de Caxambu na sua inauguração, em 25 de março  de 1973.

Mas ha um fato a ser registrado. Rangel Viotti, como dissemos, ateu convicto, nunca foi frequentou missa, confessou ou comungou. Ao pretender casar no religioso com Isabel da Silva Villara/Viotti, o padre Maia se recusou fazer o casamento e o embrulho  estava feito. O casamento de um ateu com uma católica? Nem pensar! O padre  Maia se recusou a realizar a cerimonia, que aconteceu só no civil e por consequência, seus filhos não puderam ter sido batizados.

Vinte e cinco anos após o incidente, o Padre Castilho celebra o casamento religioso, no mesmo dia que o casal fazia bodas de prata. Então Ruth Villara pode ser batizada, aos 22 anos, "porque queria ser católica", disse. O casamento foi celebrado com uma festa de arromba, na Casa Paroquial, com os mesmos padrinhos quando do casamento civil: Ernestina e Reinado Guedes. Tudo nos conforme e com 25 anos de atrazo e... pelo padre Castilho.

O padre político e em carne e osso

Segundo David Nasser, Zezé Castilho era um dos meninos que mais aplaudiam Getulio, naquela manhã  que visitara a cidade, logo após a Revolução de 1930. E escreve: "Tantas e tantas foram as voltas que a vida deu, tantas e tantas foram as decepções do colega Zé Castilho, o cura de minha aldeia (hoje uma cidade que tem arranha-céus), que o Padre Castilho se pudesse excomungaria Getúlio. Jurou que se a UDN perdesse a eleição, não realizaria a tradicionalíssima Samana Santa, a Procissão do Encontro, a Descida da Cruz, os santos coberto de negro, as matracas a apregoar pelas esquinas que Jesus tinha morrido."


Mas padres também são de carne e osso e tomam decisões terrenas. "A UDN perdeu a eleição e Padre Castilho, que eu o conhecei tão manso, tão cordato, tão humano, despachou para Cruzília ou Aiuruoca, não sei bem, todo o material divinatório - e realizou la na paroquia alheia a procissão caxambuense. Creio que desde o crime do Calvário não houve outro maior sobre a Mantiqueira. Mas o Padre Castilho, no mais, se porta como um excelente Vigário de Deus.", escrevia Nasser.

Relatos do Coroinha e o inferno

E aqui a história tem que ser  reescrita, pois o nosso Blog é interativo e quando os fatos veem à luz, hão ser contados, recontados. O protagonista Antonio Claret Maciel Santos, que também foi coroinha nos anos de 1960, dá a sua versão diferente de David Nasser e reconta:

Ouso intrometer na crônica de David Nasser. Eu era coroinha em 1960 quando ocorreu o seguinte episódio por ele escrito equivocadamente: Padre Castilho era fervoroso integrante do PSD e não da UDN. Aí nas eleições para prefeito em 1960, ele ameaçou a não fazer as solenidades da Semana Santa do ano seguinte se o PTB (Abel Murta de Gouveia) fosse eleito. Como este foi eleito, em 1961 não houve Semana Santa, a mais esperada e curtida festa católica, pois Padre Castilho colocou as imagens sacras em um caminhão, reuniu o Côro chefiado pela Dona Conceição e até os coroinhas e fomos, todos, fazer a Semana Santa em Carrancas, onde era pároco o Padre Jair dos Santos Pinto, hoje Monsenhor, irmão do prof. Jose Carlos. Por fim Padre Castilho era ferrenho torcedor do Fluminense. Nas tardes de domingo, atrasava a missa das 18:00 horas quando seu time jogava e ficava na sacristia com um rádio de pilha ouvindo a transmissão do Jorge Curi.
Leitores, os fatos agora foram então esclarecidos por uma verdadeira testemunha, presente em carne e osso nos acontecimentos!

Outra testemunha das pregações do padre  recorda de um sermão na missa das 9 do domingo: - "Não estou aqui para fazer campanha, mas quem votar no prefeito comunista... vai para o fogo do inferno!" A pobre criança, hoje adulto, escutou essa quando tinha 10 anos de idade e morria de medo das ameaças. O prefeito era Abel Murta.

E para completar a história, Dalva Monteiro, a princesa da Radio Caxambu nos anos 60, que lendo o texto, agora compreendeu porque sua mãe Geralda Pereira quase morreu de tristeza da Semana Santa não ter ocorrido em Caxambu. A família não sabia que era por motivos políticos.

Pra ver a banda passar

Uma das fortes lembranças que tenho do Padre Castilho, foi do tempo em que ocupou a direção da Escola Estadual Ruth Martins de Almeida, o EERMA. Nas comemorações do aniversário da cidade, 16 de setembro, a banda marcial do Ginásio era a grande esperada, na passagem pelo palanque das autoridades. A banda foi uma iniciativa sua e antes dos desfiles, os ensaios. Os músicos, alunos da escola desfilavam pela cidade indo até o trevo de Caxambu, como exercício para o grande dia. Cinco horas da tarde a gente ia para a rua para... ver a banda passar. E me lembro como se fosse hoje, o padre Castilho com lágrimas nos olhos, quando seus pupilos passaram diante do palanque. Nosso peito reverberava ao som do retumbantes tambores. A banda era um show. Ela existe até hoje como Banda Marcial Cónego José de Castilho Moreira. E para quem parte da cidade, a pracinha da Estação,  conhecida como  praça da Rodoviária, traz o seu nome. O padre deixou lembranças.

No meu álbum de foto esta ele la eternizado, pelas mãos do Padre Castilho, recebi o diploma de Admissão, um ano perdido das reformas do ensino, mas cheio de lembranças.
Fotos:
Arquivo privado da Família Ayres,
Fotos Antigas de Caxambu
Fonte:
Divertidas conversas telefônicas com Ruth Villara Viotti Brasil/Alemanha, em julho de 2017. A ela agradecemos suas memórias a nós confiadas.
Revista O Cruzeiro,1967

4 comentários:

  1. Reiza Villara Viotti29 de julho de 2017 20:49

    Muitas lembranças do Padre Castilho irmão de Ruth,de quem sou afilhada de crisma.

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  2. As lágrimas brotaram em meus olhos,a saudade do torrão abençoado por Deus, quem bebe das Águas Virtuosas jamais esquece da porta do paraíso... Imagina nós que lá nascemos... Como é bom ler essa história... Obrigado Solange pelas suas memórias...

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    1. Prazer também é nosso de poder compartilhar as histórias com vocês .

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  3. Padre Castilho era filho do casal Nequinho da Farmácia e Esther de Castilho, correto? Se sim, ele era irmão do meu avô Manoel Olyntho Nogueira Filho e tio do meu pai Marcos Nogueira - jornalista paulista radicado no Maranhão, morto em 2012.

    Meu pai fora comunista na juventude e participou da diretoria colegiada da UNE quando ela passou atuar na clandestinidade.

    Meu pai contava que no início dos anos 70, haveria um encontro secreto entre os líderes da UNE em Caxambu ou na região próxima, mas a comitiva descobriu que o exército já estava sabendo e tinha montado uma emboscada no local do encontro.

    Foi então que meu pai teve a brilhante ideia de se refugiar na Igreja em que o seu tio era Padre. Chegando na Igreja, relatou ao tio que ele e os amigos estavam correndo perigo e pediu abrigo e prontamente foi atendido: o Padre escondeu o sobrinho e os comunistas na torre (existe torre na Igreja de Padre Castilho?) e ligou para a polícia - todo mundo foi preso.

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