domingo, 29 de março de 2015

João José de Lima e Silva o senhor dos escravos

Escravos na colheida de café em Sao Paulo
A reconstrução da vida de João José de Lima e Silva (1798-1875) não foi e não esta sendo tarefa fácil. Ele é o ancestral mais antigo da Família Ayres. Desde o início de minhas pesquisas e até agora, não encontrei maiores informações sobre seus pais e nem de sua procedência.  Mas em função de minhas últimas pesquisas (14/06/2015), quase 3 meses da publicação de sua biografia, tenho agora que reescrever sua história pessoal.

João  José de Lima e Silva foi visto em... Pouso Alto! Ele constou no Sensu da Província de 1839 no Quarteirão 2, Fogo 17  aos 42 anos, casado com Joana Teresa (1807-1860), 32 e já pai de 3 crianças: Virgolina  de sobrenome Balbina de Lima, 6 anos, que ha muito já suspeitava de seu parentesco com a Família Ayres e agora confirmado,  José, de sobrenome  de Lima e Silva de 4 e Teresa  de sobrenome Ribeiro de Lima de 2 anos de idade. Todos brancos e livres. Ele na época possuía 5 escravos: Adão, 31, Vicente, 28, Benedito  26, solteiros, Celestina, 38, viúva e José, de 10 anos. A profissão "agrícola"" e sabia ler e escrever. Pelas contas ele nasceu no ano de 1798 e até o ano de 1839 ele morava em Pouso Alto, mas sabemos que ele se mudou para o Chapeo possívelmente nos anos de  1850.

Sensu de 1839, cedido pelo Arquivo Público Mineiro

As informações compiladas das certidões comprovam que ele foi possuidor de um número superior a 20 escravos, 15 a mais que possuía em Pouso Alto e que para a época seria considerada pelos historiadores como "média", como na maioria dos proprietários da Comarca do Rio das Mortes, denominação  territorial do Brasil Colonial, onde se encontrava Baependi. Para poder comparar, uma grande propriedade teria cerca de 50 cativos. O número de escravos pode ser ainda mais elevado e poderá ser alterado à medida que a minha pesquisa avance. 

Pois bem, os registros históricos constam que ele se mudou da freguesia de Pouso Alto para a localidade do Chapeu, hoje município de Baependi, anterior ao ano de 1853, onde nasceu seu filho Rufino, pois ha um registro de 1851 do batizado de Felippe, filho de Florinda, sua escrava. A partir daí temos registros de casamentos de seus filhos e batismos de seus netos, assim como também registros de nascimento e casamento de seus escravos e ex escravos indicando que ele morou lá e lá criou sua família.

A história nas cinzas

Por uma divisão de paróquias, os registros não estão todos reunidos nos cartórios de registro em Baependi, e sim em Aiuruoca, Campanha e em outras localidades, daí a dificuldade de reunir as preciosas informações para completar a nossa pesquisa.  Os registros civis antes da proclamação da Republica, em 1888, eram feitos pela igreja, bem como o seu arquivamento. Em 1855 a catástrofe: A Igreja Matriz de Pouso Alto foi incendiada e com ela viraram cinzas valiosos documentos  que poderiam ajudar a reconstruir a vida dos nossos antepassados.

Senta que lá vem história

Fazenda Engenho, Baependi
Bem, para situar o nosso tataravó na história temos que ir no tempo mais atras, em meados dos anos de 1750, quando foram encontrados veios auríferos nos lugares de nominados "Engenho", (foto ao Lado a antiga Fazenda do Engenho) e "Lavrinhas". A notícia se espalhou e provocou um afluxo de imigrantes de várias partes das províncias que se instalaram na região.

Baependi desenvolveu-se às margens da primeira grande via de comunicação regular do Brasil, hoje a "Estrada Real", que ligava Minas ao mar, isto é, ao porto da pequena Paraty, de onde o ouro era exportado, ou contrabandeado para a Europa, como queiram denominar.

Logo logo as esperanças de encontrar ouro em grande quantidade se desvaneceram e os imigrantes se fixaram pelos seus arredores. Do sonho de enriquecimento sobrou a realidade. A mineração foi substituída pela agricultura e a região foi se destacando  na produção de tabaco, milho, feijão, assim como a criação de gado. 

Do "Engenho" ergueram uma pequena Capela à margem direita do Rio Baependi, para o atual lugar da Igreja Matriz. O povoado se constituiu mais tarde com nome de Santa Maria de Baependi, depois Baependi, que na língua Tupi "mba`eapiny" que significaria "rio do monstro marinho", referente ao rio Baependi, que corta a cidade.

E assim neste  tempo histórico viveram os nossos antepassados.
No livro de Henrique Monat, um dos mais importantes cronistas  da época em visita à Caxambu, e descreve a situação política e econômica da região, e as dificuldades vividas pelos produtores de tabaco frente as conseqüências da abolição da escravatura.

"Baependy, hoje em decadencia, floresceu até uns vinte annos passados; o tabaco fez-lhe a reputação de municipio opulento, e na historia do imperio os grandes principios democraticos ali encontraram defensores heroicos. Foi berço de homens illustres nas sciencias e na politica. Hoje, não tem tabaco para dous cigarros, e vive de recordações, a ver crescer a fama de Caxambú, como  uma mãe velha e exausta vê, cheia de orgulho e esperanças, elevar-se o filho que amamentou.

As charutarias do Rio se expoem rolos e cigarros que de Baependy só tem os dizeres do rótulo; e infeliz cidade nem energia tem mais para protestar o papel gratuito de testa de ferro.
A lei de 13 de maio foi o golpe de misericórdia dado a sua lavoura, já decacente." 

João e Joana

João José de Lima e Silva casou-se em data e local desconhecido até agora com Joana Thereza Ribeiro e tiveram nove filhos e um adotado.
São  eles:

Virgolina Balbina de Lima, (1833-?), casada em 13 de setembro de 1849 com Francisco Bernardino /Lopes de Faria (1823-?)

Rufino de Lima (1854-?), casou-se em 26 de julho de 1875 com Rita Carolina de Castro (?-?)

Ignacia Ribeiro de Lima ( -?), casou-se em julho de 1861 com Candido José Ferreira (?-?).

Maria Ribeiro de Lima/Souza Lima (?- Falecida antes de 1902), casou-se em 1868 com José Fernandes Ayres da Silva , o José Trançãodor-pai (1835-1897)

Thereza Ribeiro de Lima/Jesus (1837-?), casou-se em 22 de julho de 1855 com José Florencio Bernardes (?-?).

Ignacio José de Lima e Silva (1835-?), casou-se em 12 de agosto de 1860 com Fraujina Honorina de Jesus (?-?). (avô  de Pedro Francisco de Lima que se casaria om Lina Amelia Lima, originando, mais à frente o Ramo dos Lima/Loide) 

João José de Lima (?-?), casou-se em 23 de agosto de 1863 com Theodora Constancia de Vasconcelos (?-?).

Francisco Theododo de Lima (?-?), casou-se em 23 de fevereiro de 1870 com Maria Gabriela Alves/Ribeiro (1855-?). 

José de Lima e Silva, exposto (?-?)/Adotado.

Casamentos e casamentos

Não posso afirmar ao certo se os casamentos foram "arrajanos", como era comum na época. Mas fazendo uma análise dos casamentos de seus filhos e filhas as coisas ficam mesmo  muito interessantes. Vamos por partes. O seu João concedeu a mão de sua filha Ignacia Ribeiro de Lima em casamento a Candido José Ferreira, possuidor de um número "médio" de escravos, até agora contabilizado de 20 a 30 nos meus registros.

Já Maria Ribeiro de Lima, casou-se com Fernando Ayres de Lima e Silva (também apelidado de Trançador, como seu filho), que segundo a tia Célia tinha propriedades que se extendiam desde onde hoje se situa o Bairro Trançador, na cidade de Caxambu, até as divisas com a cidade de Conceição do Rio Verde; propriedades estas perdidas em questões jurídicas com a família Carneiro, que as reivindicou para si. Detalhes ainda a pesquisar.

A filha Thereza Ribeiro de Lima casou-se com José Florencio Bernardes, cujos bisavós vieram de Guaratinguetá, Província de São Paulo e que por sua vez também era possuidor de cerca 20 a 30 escravos.

E por fim Theodoro Francisco de Lima que desposou Maria Gabriela Alves, filha do, lembram?, Gabriel Alvares Ribeiro, aquele rico homem que doou o sino para a Capelinha do Santo Antonio do Piracicaba e dono das terras na região do povoado de Piracicaba.

Concluímos então que as famílias não eram nem pobres e nem remediados. Elas faziam parte de um grupo de senhores de escravos que tinham o seu status social como produtores de bens e riquezas, além de possuírem terras. Mas ironias da historia, parece que as famílias de seus descendentes cresceram na medida oposta à economia da região, baseada na mão de obra escrava. A decadência aconteceu vinte e cinco anos antes da visita de Henrique Monat em 1890. O derradeiro golpe, repetindo,  e por bem, foi a abolição da escravidão.

Dando nome aos seres humanos

Quero e faço questão de nomear os escravos de João José de Lima e Silva,  que mesmo sem sobrenomes nos registros fique para a nossa lembrança. Aqueles que proporcionaram o enriquecimento e o crescimento de sua família, por ordem cronológica dos acontecimentos relacionados entre os anos de 1851 até o ano de 1890:

Em 31 de agosto de 1851, foi batizado Felippe, filho de Florinda, sendo os padrinhos João  e Genoveva, todos de sua escravaria.

Em 13 de julho de 1854 foi batizada Florinda, filha de Rita , sua escrava por Marcelino também pertencente a sua escravaria.

Em 2 dias do mes julho de 1857 foi batizada Maxima Roza de Jesus , filha de Roza.

Em 3 de setembro de 1858 foi batizado Camilo , filho de Justina, na verdade Justiniana, pertencente a ele até a esta data.

Em maio de 1859 foi batizada Anna, filha de Benedita.

Em 25 de abril de 1860 foi batizada Sebastianna, filha de Roza, sendo padrinho Jeronimo, também seu escravo.

Em 4 de setembro de 1862 foi batizado Nicolau, filho de Virginia, que era de propriedade conjunta com José Florencio Bernardes, que casou com a sua filha  e Virgolina Balbina de Lima, avó torta de Gervásia Maria da Conceição, a vó Gervásia.

Em 13 de novembro de 1863 foi batizado Firmino, filho de Ritta.

Em  29 de maio de 1866 foi batizado Florencio , filho de Florinda.

Foi padrinho de Marcelino, escravo do mesmo e Brigida, escrava forra, isto é liberta.

Em 25 de maio de 1874 foi enterrado Francisco no Cemitério de Piracicaba.

Em  janeiro de 1875 faleceu Francisco.

Em 19 de agosto de 1875 faleceu Ritta, filha de Benedita, escrava liberta.

Em 10 de novembro de 1889 casou-se Damásia, escrava do finado.

Em 25 de janeiro de 1890, faleceu Benedito Manoel de Lima de 70 ex escravo, natural de Pouso Alto, vitima de uma úlcera cancerosa no Hospital de Baependi. (Ele consta no sensu acima) 

Em 17 de maio 1890  casou-se Mateus de Lima e Silva, seu ex escravo.

Os Lima, os Ayres

Alguns de nós trazemos ainda o "Lima" no sobrenome e de fato, veio lá do nosso tataravô. Já o "Ayres" veio do lado de sua filha Maria Ribeiro de Lima que se casou com José Fernandes Ayres e foi mãe de José Ayres de Lima, o Trançador, que se casou com Gervásia Maria da Conceição, a vó Gervásia, originando a Família Ayres de Lima.

João José de Lima e Silva não viveu para ver a libertação de seus escravos. Faleceu no Chapeu, ou Lagoinha do Chapeu como o local era chamado, (vide certidão abaixo)  em 31 de janeiro de 1875, já viúvo ha 15 anos de Joanna Thereza Ribeiro, falecida em 26 de maio de 1860,  e foi enterrado no Cemitério de Santo Antonio do Piracicaba, ao lado da Capela de Santo Antonio do Piracicaba, hoje bairro de Baependi.
Assim foi.


Grau de parentesco: 

João José de Lima e Silva foi o avô de José Ayres de Lima, o Trançador-filho, e este casado com Gervásia Maria da Conceição, a vó Gervásia, esta bisneta de João José de Lima e Silva, portanto, um casamento consangüíneo na família (leia o texto para melhor compreender as relações de parentesco na Família Ayres).

Solange Ayres
Kreuzau, 29 de março de 2015, Alemanha

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Joaquim Roque, o jardineiro e suas estórias fantásticas

Milharal plantado por Joaquim Roque
no pomar de vó Gervásia.
Seu Joaquim Roque fez parte do universo de nossa família, tanto na roça, onde moravam Justiniana e Sabina, que ele chegou a conhecer e conviver, quanto na cidade, quando nos meses de novembro, dezembro vinha cuidar da horta da vó Gervásia, administrada pelo tio Silvio, capinando, plantando milho e confeccionando cercas de bambus intransponíveis, uma verdadeira obra de arte, da qual Janice Drumont e eu presenciamos.
Com vocês Janice e suas, nossas lembranças:

Conta! Conta, seu Joaquim! 

Margaridas sendo plantadas, beirando a cerca da casa do eletricista Luiz (também chamado "porsuavêz", fato a ser esclarecido em outra história). Crianças rodeando aquele velhinho negro, papai noel antítese do tradicional, muito negro, rosto marcado pela varíola, estatura mínima, mãos ultra calejadas. Ele focado no serviço, a gente criança, a infernizar a vida dele, rei da paciência, pedagogo prático. Conta! conta! seu Joaquim... e ele: não sei não, depois vocês vão ficar com medo.... conta seu Joaquim , conta!!!!!

E ele: Antes de vir pra cá, trabalhei numa fazenda. Mas era uma fazenda enorme, muito velha. O dono, que era viúvo e também velho, toda noite me mandava fazer uma fogueira no patio e dizia que era pra espantar coisa ruim. E era eu quem também buscava a lenha. E toda vez que ia buscar, passava longe da capoeira porque já tinha visto uns barulhos esquisitos que sempre vinham de la. Não sabia se era saci, mas coisa boa que não era... Aí teve um dia que enquanto catava a lenha, ouvi uns gritos tão altos que parecia alma penada morrida no fogo. Sai correndo e voltei sem a lenha. E o patrão ficou zangado, foi dormir preocupado e ainda me disse. Se acontecer alguma coisa a culpa é sua. Fiquei com medo mas tinha que ir dormir, então fui.

La pelas tantas, a noite já ia alta, começou o barulho no corredor. Um barulho de chinelos que arrastavam ( e ele fazia o som: "shiac shiac"), que iam e vinham pelo corredor afora. Na casa não tinha mais ninguém, só eu e nhô Lau e nhô Lau, nunca vi de chinelo... Quando os passos chegaram bem perto da porta do quartinho que eu dormia, o barulho parou... Eu sabia que tinha alguém ali, mas nem por deus que eu ia querer saber quem era. Daí a pouco la ia o chinelinho e voltava. E tornava a parar na minha porta. E foi a noite inteira assim, e eu rezando o "creindeuspai" e fazendo o sinal da cruz (e ele explicava pra gente como era a oração "creio em deus pai, todo poderoso, criador do céu e da terra..." e desenhava no corpo o sinal da cruz).

La pelas tantas, já com o dia quase pra amanhecer, peguei coragem e quando o chinelinho parou na porta, gritei: é o senhor nhô Lau. E nada... ninguém respondeu. Nasceu o sol e ainda custei a sair do quarto de tanto medo que fiquei. Na cozinha encontrei nhô Lau tomando cafe. Perguntei quem estava passeando a noite no corredor e ele me disse: ninguém Joaquim, a falecida que ficou brava com a falta da lenha, que a fogueira que faço todo dia é pra dar a ela um pouco de luz coitada. Ela tinha um monte de pecado então não conseguiu ir para um bom lugar e o capeta que vigia ela, mora la na capoeira. E a historia parava aí...

E a gente: o que o senhor fez seu Joaquim? E ele: Eu minha fia? Eu tô é aqui!!! arrumei correndo minhas trouxas e vim parar aqui. E não passo mais por la de jeito nenhum. Vocês que ficam aí embrenhando no mato, nas beiras do Bengo, que tomem cuidado... que tem muita coisa por ai que a gente nem sabe o que é.
KKKKKK Imagina o medão da meninada!!!!!!!

"Conto Caxambuense ou a História do jardineiro Joaquim Roque (filho de escravos) para arquivo da família Ayres Solange Ayres"

Este texto foi escrito por Janice Drumont, vizinha de frente da casa da vó Gervásia, na antiga Rua Magalhães Pinto, a qual ela chamava de "vó Juruva", e que a considerava como vó "por ser minha vó antes mesmo de eu saber falar".
À nossa infância... 

Foto: Meu padrinho Jorge, que sempre vinha me visitar no mês de janeiro, data do meu aniversário, 1965.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Lei do Ventre Livre


A Princesa Imperial Regente, em nome de S. M. o Imperador e Sr. D. Pedro II, faz saber a todos os cidadãos do Império que a Assembléia Geral decretou e ela sancionou a lei seguinte:


Art. 1.º - Os filhos de mulher escrava que nascerem no Império desde a data desta lei serão considerados de condição livre.


§ 1.º - Os ditos filhos menores ficarão em poder o sob a autoridade dos senhores de suas mães, os quais terão a obrigação de criá-los e tratá-los até a idade de oito anos completos. Chegando o filho da escrava a esta idade, o senhor da mãe terá opção, ou de receber do Estado a indenização de 600$000, ou de utilizar-se dos serviços do menor até a idade de 21 anos completos. No primeiro caso, o Govêrno receberá o menor e lhe dará destino,em conformidade da presente lei.


§ 6.º - Cessa a prestação dos serviços dos filhos das escravas antes do prazo marcado no § 1°. se por sentença do juízo criminal reconhecer-se que os senhores das mães os maltratam, infligindo-lhes castigos excessivos.


Art. 2.º - O govêrno poderá entregar a associações, por êle autorizadas, os filhos das escravas, nascidos desde a data desta lei, que sejam cedidos ou abandonados pelos senhores delas, ou tirados do poder dêstes em virtude do Art. 1.º- § 6º.


§ 1.º - As ditas associações terão direito aos serviços gratuitos dos menores até a idade de 21 anos completos, e poderão alugar êsses serviços, mas serão obrigadas:


1.º A criar e tratar os mesmos menores;


2.º A constituir para cada um dêles um pecúlio, consistente na quota que para êste fim fôr reservada nos respectivos estatutos;-


3.º A procurar-lhes, findo o tempo de serviço, apropriada colocação.


§ 2.º - A disposição dêste artigo é aplicável às Casas dos Expostos, e às pessoas a quem os juízes de órfãos encarregarem da educação dos ditos menores, na falta de associações ou estabelecimentos criados para tal fim.


§ 4.º - Fica salvo ao Govêrno o direito de mandar recolher os referidos menores aos estabelecimentos públicos, transferindo-se neste caso para o Estado as obrigações que o § 1.º impõe às associações autorizadas.


Art. 3.º - Serão anualmente libertados em cada província do Império tantos escravos quantos corresponderem à quota anualmente disponível do fundo destinado para a emancipação...


Art. 4.º - É permitido ao escravo a formação de um pecúlio com o que lhe provier de doações, legados e heranças, e com o que, por consentimento do senhor, obtiver do seu trabalho e economias. O govêrno providenciará nos regulamentos sôbre a colocação e segurança do mesmo pecúlio.


§ 1.º - Por morte do escravo, a metade do seu pecúlio pertencerá ao cônjuge sobrevivente, se o houver, e a outra metade se transmitirá aos seus herdeiros, na forma da lei civil. Na falta de herdeiros o pecúlio será adjudicado ao fundo de emancipação, de que trata o art. 3.º..


§ 4.º - O escravo que pertencer a condôminos e fôr libertado por um dêstes, terá direito a sua alforria indenizando os outros senhores da quota do valor que lhes pertencer. Esta indenização poderá ser paga com serviços prestados por prazo não maior de sete anos...


§ 7.º - Em qualquer caso de alienação ou transmissão de escravos, é proibido, sob pena de nulidade, separar os cônjuges e os filhos menores de doze anos do pai ou da mãe.


§ 8.º - Se a divisão de bens entre herdeiros ou sócios não comportar a reunião de uma família, e nenhum dêles preferir conservá-lo sob seu domínio, mediante reposição da quota, ou parte dos outros interessados, será a mesma família vendida e o seu produto rateado...


Art. 6.º - Serão declarados libertos:


§ 1.º - Os escravos pertencentes à nação, dando-lhes o govêrno a ocupação que julgar conveniente.


§ 2.º - Os escravos dados em usufruto à Coroa.


§ 3.º - Os escravos das heranças vagas.


§ 4.º - Os escravos abandonados por seus senhores. Se êstes os abandonarem por inválidos, serão obrigados a alimentá-los, salvo o caso de penúria, sendo os alimentos taxados pelo juiz de órfãos.


§ 5.º - Em geral, os escravos libertados em virtude desta lei ficam durante 5 anos sob a inspeção do govêrno. Êles são obrigados a contratar seus serviços sob pena de serem constrangidos, se viverem vadios, a trabalhar nos estabelecimentos públicos. Cessará, porém, o constrangimento do trabalho, sempre que o liberto exigir contrato de serviço.


Art. 8.º - O Govèrno mandará proceder à matrícula especial de todos os escravos existentes do Império, com declaração do nome, sexo, estado, aptidão para o trabalho e filiação de cada um, se fôr conhecida.


§ 1.º - O prazo em que deve começar e encerrar-se a matrícula será anunciado com a maior antecedência possível por meio de editais repetidos, nos quais será inserta a disposição do parágrafo seguinte.


§ 2.º - Os escravos que, por culpa ou omissão dos interessados não forem dados à matrícula, até um ano depois do encerramento desta, serão por êste fato considerados libertos.


§ 4.º - Serão também matriculados em livro distinto os filhos da mulher escrava, que por esta lei ficam livres. Incorrerão os senhores omissos, por negligência, na multa de 100$000 a 200$000, repetidas tantas vêzes quantos forem os indivíduos omitidos, e por fraude nas penas do ari. 179 do código criminal.


§ 5.º - Os párocos serão obrigados a ter livros especiais para o registro do nascimento e óbitos dos filhos de escravas, nascidos desde a data desta lei. Cada omissão sujeitará os párocos à multa de 100$000.


Art. 9.º - O Govêrno em seus regulamentos poderá impor multas até 100$000 e penas de prisão simples até um mês.


Art. 10º - Ficam revogadas as disposições em contrário. Manda, portanto, a tôdas as autoridades a quem o conhecimento e execução da referida lei pertencer, que a cumpram e façam cumprir e guardar tão inteiramente como nela se contém. O Secretário de Estado de Negócios da Agricultura, Comércio e Obras Públicas a faça imprimir, publicar e correr.


Dada no Palácio do Rio de Janeiro, aos 28 de setembro de 1871, 50.º da Independência e do Império


Princesa Imperial Regente

Sabina Maria da Conceição

Foto: Amauri Soares Moreira, Capela de Santo
Antonio do Piracicaba, 2013.
Em 1° de marco, na Capela de Piracicaba, no fim do tempo das águas, num dia de céu azul anil em 1865, já passados  6 meses, de seu nascimento o reverendo José Eduardo Honorato da Silveira batizou e poz os santos óleos em Sabina, vinda ao mundo em 30 de setembro de 1864, filha natural  de Justiniana Maria da Conceição, escrava de João Ferreira Simões.
Os padrinhos foram os irmãos  José Ignacio de Lima e Silva e aqui biografada Virgolina Balbina de Lima , a madrinha de todos e todas, descoberta em julho de 2015 que era fora filha de João José de Lima e Silva.

Sabina como consta na certidão era filha "natural", isto é, o pai não era conhecido e se as teorias de tia Célia estiverem certas, Justiniana engravidou-se do feitor da fazenda, até agora desconhecido.


Infelizmente não podemos virar a ampuleta do tempo e recompor os fatos, então somos obrigados a nos ater às informações fornecidas pelos registros de batismo, casamento e óbito e pelas preciosas informações fornecidas oralmente por Célia Araujo de Lima, a filha caçula de Gervásia.

O certo contava mais tarde sua filha Gervásia da Conceição, que Sabina sua mãe cresceu uma moça muito bonita. Ela era uma típica mistura  de sangue de português com africano, como grande parte da população brasileira também originada deste caldeirão cultural da miscigenação forçada ou não das raças. Sendo assim Sabina foi desejada  por muitos e aconteceu a primeira gravidez aos 17 anos.

Todos filhos dela foram registrados como "naturais", como dito, ou o pai nao era conhecido, ou a mãe não era casada. Diante das pesquisas e fatos confrontados com a nossa maior biblioteca familiar, Célia Ayres, a tia Célia, chegamos a conclusão que Gervásia Maria da Conceição foi fruto da união de Sabina com Bernardino Lopes de Faria, casado com Eliza Ferreira Simões, filha de Joao  Ferreira Simões e era quem comandava o plantel de escravos do sogro.
E seus avós por parte de pai, por tortos caminhos, eram então Virgolina Balbina de Lima e Francisco Bernardino de Faria.

Ouvia-se falar na família Ayres anos mais tarde, que o nascimento dos filhos de Sabina, foram considerados na família dos Lopes de Faria como um "acidente de percurso" e claro, ninguém queria falar mais no assunto. O fato é que Gervásia foi batizada, se os indícios estão certos, pelo seu próprio pai, Bernardino Lopes de Faria. E não por acaso seu outro irmão foi batizado com o sobrenome de Josino Lopes de Faria.

Filhos de Sabina com Bernardino Lopes de Faria (suposição)
Josino Lopes de Faria(1883-?),
Eduardo Lopes dos Santos (1884-?),
Luiz, apelidado de Nego (?-?)
Manoel (Lopes de Faria?) (1887-?)

O home do saco




Sabina viveu uma segunda união com José Luiz de Castro, conhecido como... "Ze do Saco" já em Caxambu, onde é hoje o bairro "Caxambu Velho".  O apelido incomum é confirmado na certidão de casamento, vide ao lado, de José Ribeiro e Rita Candida, ele como testemunha, sacramentado pelo Monsenhor José João de Deus. Até hoje não  sabemos porquê ele se chamava assim.

Relatos do tio Samuel por telefone ha dois anos passados, me contava que Sabina, ajudada por Gervásia,  ia de tempos em tempos buscar no matadouro municipal, localizado no hoje bairro Santa Rita, em Caxambu, banha de porco para preparar a comida. Mas antes a banha tinha que ser aquecida e líquida colocada em latas para conservar e  posteriormente ser consumida. Nesse dia era dia de trabalho no Caxambu Velho. 

Os filhos de Sabina Maria da Conceição e José Luiz de Castro:
José de Castro (1896-?),
Maria de Castro(?-?),
João de Castro ( 1898-?),
Alzira de Castro (1904-?),

Os filhos de  pais não conhecidos

Sabina Maria/ Diório (1900-?),
Joaquim da Conceição ( 1901),
Antonio da Conceição (1903-?)

As Sabinas

Sabina foi mãe de Sabina que se casou com João Diório, originando o ramo da Família Diório, mas esta já é outra história e esta ainda para ser escrita.

Sabina ainda  teve dois irmãos e uma irmã:
Camilo Ferreira Junior, (1858-?) batizado por José Florencio Bernardes e Thereza de Lima Ribeiro Bernardes.
Salviano (1861-?) batizado por João José de Lima e Ignacia Ribeiro de Lima (respectivos tio e tia de primeiro grau de José Ayres de Lima, o Trançador).
Salviana Maria da Conceição, (?-?).

Sabina Maria da Conceição faleceu em data desconhecida até agora.

1a Nota:
Consta na certidão de batismo (foto)  que sua mãe Justiniana era escrava de "Joaquim" Ferreira Simões e na certidão de seu irmão Salviano, "João" Ferreira Simões.  Se eles João, ou Joaquim eram as mesmas pessoas ainda não consegui identificar. O certo é que não encontrei em nenhuma certidão posterior o nome de "Joaquim", somente "João".

2a Nota: Nomes e datas faltantes poderão ser acrescidos e ou alterados no decorrer da pesquisa.

Camilo Ferreira Junior, o escravo

Igreja Matriz de Baependi
Um dia o pequeno escravo, ao receber a tarefa de retirar o pó do oratório da casa da fazenda, pode chegar perto do nicho situado no canto da sala, onde ficava a imagem de Jesus cruxificado. Advertido por sua mãe, sempre baixava os olhos toda vez que passava em frente a ele. Muitos anos mais tarde, ao adentrar a igreja Matriz, no dia do seu casamento, voltou à lembrança o pequeno oratório, lugar sagrado da casa, onde fora batizado. Neste dia impressionou-o a imensidão da igreja, o cheiro de insenso, a penumbra, as cores azuis dos nichos onde se encontravam os Santos, o brilho do ouro. E diante das gigantes dimensões das imagens se sentiu novamente pequeno.




Camilo, filho "natural" de Justina, escrava de João José de Lima ,foi batizado pelo Vigário Joaquim Gomes do Carmo,em 13 de setembro de  1858, no oratório do Chapeu, também denominado Lagoinha do Chapéu, hoje bairro de Baependi, por José Florencio Bernardes e Thereza Ribeiro de Lima. E como era comum naquela época os escravos adotarem nomes de seus respectivos senhores, foi denominado "Camilo Ferreira Junior" de João Ferreira Simões, que era dono de sua mãe.

Um detalhe da certidão que me passou despercebido: O nome de sua mãe Justiniana foi escrito erroneamente como "Justina" que era escrava, até a data de 1858, de João José de Lima, que viria a ser o avô de José Ayres de Lima, o Trançador por parte de mãe. Em alguma data, entre 1858 e 1861, data de nascimento de seu irmão Salviano, sua mãe Justiniana aos 17 anos mudou de proprietário e foi ser propriedade de João Ferreira Simões.

Não posso dizer ao certo se por compra ou doação, Camilo foi parar nas mãos de seu padrinho José Florencio Bernardes como escravo. O certo era que, uma forma dos senhores de escravos utilizavam para burlarem as leis de 15 de setembro de 1869 e a Lei do Ventre Livre de 1871, que proibiam os menores escravizados de serem separados das famílias, bem como a compra e o tráfego, era a adoção "por apadrinhamento", pois assim os menores permaneciam "em família". Este fato se confirma quando analisamos a certidão de nascimento de Camilo (foto acima) que teve seu status de "escravo" de José Florencio Bernardes até seu casamento em fevereiro de 1888.

Se Camilo foi separado de Justiniana, também não posso aqui afirmar de forma definitiva, mas o interessante é que os lugares em que viveram as famílias de José Florencio Bernardes, João José de Lima, João Ferreira Simões, Virgolina Balbina de Lima eram sempre citados nas certidões como: Chapeu, Lagoinha do Chapeu, Oratório do Chapeu, Fazenda São Pedro, hoje município de Baependi, indicando que as famílias residiam próximas umas as outras, ou moravam na mesma casa ou conjunto de casas  com seus escravos Justiniana Maria da Conceição, a Nana , sua mãe e sua irmã Sabina Maria da Conceição.  

Senta que lá vem história!

No Brasil Colonial o batismo tinha duas funções a social, a entrada do pagão no seio da Igreja Católica e outra mais profana: interessava aos senhores de escravos o registro dos inocentes, com o nome do proprietário, o que lhe garantia a posse efetiva dos mesmos.

As crianças sem pai conhecido, segundo historiadores, eram mais comuns serem separadas de suas mães se comparados com as crianças pertencentes a um núcleo familiar negro. A prática era a separação em idade improdutiva, isto é, ainda muito pequenos. Pesquisando vários documentos, tento aqui reconstruir a história de nosso personagem Camilo, que de alguma forma  ficou sob custódia da família de seus padrinhos e servindo a eles como escravo. 

É bom lembrar que escravos eram valiosos no Mercado da cidade de  Mariana no período de 1858 a 1887, pois sob pressão da Inglaterra, o Brasil no poderia mais importar negros da África e uma alternativa para os senhores era a reprodução do seu próprio plantel. Então as crias eram "benvindas" no sentido negativo da palavra para os pequenos.

Pois na localidade do Chapeu o nosso Camilinho participava de atividades simples na fazenda. A medida que crescia também crescia a carga de suas tarefas. Quando muito pequeno acompanhava sua mãe na capina de ervas daninhas, semeadura do milho, cuidava dos animais domésticos. No campo, ajudava a descaroçar algodão, descascar mandioca, fabricar cestos e cordas. Também trazia e levava recados bem como pode ter trabalhado como pagem, arreava cavalos, lavava os pés das pessoas da casa e mesmo escovava as roupas e engraxava os sapatos de seus donos.


Camilo teve a infelicidade de nascer antes da proclamação da Lei do Ventre Livre de 1871, conhecida por Lei do Rio Branco, e antes da Lei Áurea, portanto ele nasceu e permaneceu escravo até o seu casamento como consta no registro (foto ao lado), três meses antes da abolição da escravidão. Ao completar 30 anos num sábado de fevereiro de 1888 tomou a mão de Ana de Jesus em casamento, na Igreja Matriz de Baependi. Foram testemunhas Francisco Ignácio de Lima, filho de João José de Lima e Silva, o avô de José Ayres de Lima, o Trancador, e João José da Natividade. Em 13 de maio de 1888 a princeza Izabel assinava a Lei Áurea libertando os escravos de seus grilhões e senhores, mas não de suas árduas vidas. Camilo faleceu em data até agora desconhecida.

Solange Ayres, Kreuzau, Janeiro de 2015.



sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

José Ayres, o eletricista

Assim era conhecido meu pai, seu Zé Ayres, profissão eletricista. Contava ele que um dia, aos 21 anos, saiu de Caxambu em direção à cidade de Aiuruoca a procura de trabalho. Ao que seu pai,  soube, foi buscá-lo de volta. Ele respondeu ao pai que precisava trabalhar ter uma profissão e seguir a vida. Seu pai calou-se, com lágrimas nos olhos o abraçou e o deixou ir.

José Ayres nasceu em 26 de dezembro de 1906, filho mais velho de Gervásia Maria Ayres e José Ayres de Lima, conhecido como José Trançador, batizado em 7 de Janeiro de 1907 por Nicolau Tabolar e Paulina Tabolar Brochado na igreja Nossa Senhora dos Remédios, em Caxambu. 

Sua infância foi vivida num quintal, onde é hoje a rua Policarpio Viotti, em Caxambu, cercado por um imenso bambuzal, pés de jabuticabas, laranjeiras, pés de uvas, um pequeno paraíso naquela época, "fora do centro" da cidade, onde quando criança  chegou a caçar um... urubu e o colocou para cozinhar. Disse que o pobre bicho era de uma carne duríssima. Não sei se ele chegou a... a...provar a tal carne, ah, isso eu não sei. 

Pés descalços

A família ia aos domingos à missa e como ele tinha somente um par de  sapatos, que eram calçados somente à porta da igreja, aconteceu de ele levar um tropeção e ferir o dedão do pé e foi comentado entre os irmãos: "Já pensou se tivesse calçado, teria estragado o sapato..."


Calçando os sapatos na porta da Igreja Matriz  em Caxambu, ano de 1907
No início dos anos de 1900 a cidade já era conhecida mundialmente pelas suas fontes de água mineral e ele era um de seus degustadores:  Não faltava água mineral na mesa do almoço. A que mais apreciava era procedente da fonte Viotti, mas também as águas magnesianas, bem como a fonte Venâncio eram degustadas com prazer entre um frango a molho pardo, o seu prato preferido. Dizia ele que eram as águas mais famosas do mundo, e por nada trocaria um copo de nossa água  por cerveja ou coca-cola, esta última que classificava, não sem razão, como "água suja", para a decepção de nós crianças, que gostávamos de beber do líquido preto, vendido nos caminhões que passavam de quando em quando, popularizando-a. Ele resistiu à moda e continuava fiel às "águas milagrosas".

Primeira família

José Ayres casou-se pela primeira vez com Alzira de Carvalho em 25 de outubro de 1928, na Basíca  da cidade de Aparecida no estado de São Paulo. Da união nasceram as filhas: Jane dos Santos Ayres, Eny dos Santos Ayres,  Vany Dos Santos Ayres, Geralda dos Santos Ayres e Lindenberg dos Santos Ayres. 
Outros 2 filhos falecidos quando crianças, Luiza Maryland dos Santos Ayres, nascida em 9 de setembro de 1931, nos registros, a sexta filha do casal e Steinberg dos Santos Ayres, nascido em 5 de julho de 1940 falecido de sarampo, que cheguei a conhecer o menino em foto dentro de um caixão... Naqueles tempos era comum fotografar seus entes queridos dentro dos caixões. A tal foto era vista de vez enquando, quando abríamos os envelopes "secretos" no armário de minha mãe.

O eletricista Zé Ayres

 Na década  de 20,  ele chegou a ser funcionário da prefeitura de Caxambu como gerente da Subestação de Soledade  do qual foi suspenso por 8 dias no dia 9 de outubro de 1929 "por fazer ligação de luz clandestina para sua casa". Ao escrever o texto achei diversas correspondências que me permitiram escrever esta pequena biografia. Na verdade a história foi contada por ele de outra maneira. Por uma desavença com o senhor "Picolé", um outro trabalhador da prefeitura, que fez a tal "denúncia vazia" e nunca se confirmou e de fato, achei outro documento de 15 de agosto de 1928 que comprova a sua inocência. Na verdade José Ayres não residia na casa citada e sim morava num comodo pertencente a José Ambrósio de Lima, que escreveu uma carta atestando que na verdade a residência referida pelo denunciante não era de propriedade de José Ayres.

Em 11 de julho 1935 assinou contrato com a Companhia de Forca e Luz de Aiuruoca para  a construção  da linha de transmissão e rede de distribuição para a sede do distrito de Carvalhos, com prazo de entrega de 4 meses após o inicio das obras.

José Ayres, 5° da direita para a esquerda.
Turma do curso técnico em geladeira
 Frigideire na General Motors em São Caetano
do Sul, São Paulo no ano de 1955.
Em 1936 realizou trabalhos de instalação elétrica no anexo do Edifício Palace e em 17 de janeiro de 1940 ele volta à prefeitura de Caxambu contratado pelo prefeito como " Operário do Serviço Municipal de Eletricidade ". Em 24 de julho de 1941, recebeu a incumbência do engenheiro Asdrubal Teixeira de Souza para  fazer  consertos na turbina da Usina de Congonhal, no município de Baependi.
Em 20 de marco de 1943 é concedida licença sem vencimentos para "tratar de assuntos de interesse particular".

Não tenho registros de quando ele se desligou da prefeitura e passou a ser trabalhador autônomo, mas o certo é que no ano de 1955 participou de um curso de refrigeração em São Caetano do Sul, São Paulo, na General Motors, fabricante da geladeira marca "Frigideire", que tínhamos como relíquia na copa da casa e da qual me separei somente no final de 2006, por  não ter mais condições de ser consertada. Mas ele nunca gostou de consertar nem geladeiras, nem ferros elétricos. De vez enquando eu o ajudava na confecção de resistências para ferros elétricos... Ele gostava mesmo era de trabalhar em grandes projetos.

Por sua forma correta e honesta e sua competência, era requisitado para obras grandes como o serviço de eletricidade do primeiro edifício da cidade, o edifício Anice, o edifício Halley em 1962/63, Condomínio do Edifício Palace em 1972, assim como o edifício Aparecida 1972, e a grande reforma elétrica do engarrafamento de água do Parque das Águas, em 1977/78, na época coordenado pelo senhor Edmundo Dantas, um velho amigo, sendo este seu  último grande trabalho executado antes de se aposentar aos 65 anos. 

Tomate na ponta da vara

Me lembro quando a Cemig, Centrais Elétricas de Minas Gerais, instalou seus primeiros postes de luz e a rua foi iluminada, e batizada com o nome do candidato a deputado Federal pela Arena em 1966, Magalhães Pinto que apoiou a instalação do Ato Institucional n° 5, que restringiu as liberdades democráticas, dentre elas caçar mandados de parlamentares e proibir manifestações de políticas.  Nas noites que se seguiram a inauguração,  milhares de besouros de todas as cores e tamanhos perdiam suas vidas voando em torno as lâmpadas.

Por ter pouca capacidade de iluminação, meu pai considerava o antigo sistema de postes e lampadas como... "tomates em ponta de vara".  E lembrava: "O Kennedy, (presidente dos Eua) estudou sob a luz de um poste de luz e chegou onde chegou." Verdade ou não, para ele a eletricidade era a revolução.

Na sua profissão de eletricista, construiu muitas "mini-usinas" pelo interior das Minas Gerais, Liberdade, Carvalhos, Seritinga, Serranos, Aiuruoca, principalmente para fazendeiros, que com suas pequenas quedas d`agua movimentavam, moinhos e iluminavam suas casas. Aiuruoca particularmente fez parte de sua juventude e onde pela primeira vez teve uma... namorada.
Fiel permaneceu ele ao seu alfaiate o "Nego", que fazia suas calças de zuarte verde-claro. Uma vez acompanhei meu pai numa viagem à Aiuruoca, quando ele foi lá tirar as medidas para confecção das ditas, e que quando ficaram prontas foram enviadas via "ônibus" para Caxambu. Assim era. 

Depois veio o "progresso" e com as grandes companhias elétricas, as pequenas usinas movidas à água perderam o seu sentido. A eletrificação tornou-se projeto de grande escala estadual e o governo reservou para si o direito de produzir energia elétrica  e proibindo  a geração de energia para consumo privado. Assim as viagens pelo interior de Minas foram se tornaram escassas e ele se ocupou mais com obras na cidade.

Embora fosse profissional autônomo, era um seguidor de uma rotina disciplinar: Acordava entre 7 e 7:30 da manhã, tomava seu café com leite e pão com manteiga e ia para o trabalho, voltando às 12 horas, quando soava o apito do parque. Depois do almoço, fazia a "siesta" até no máximo 13:30 e depois saia para trabalhar, voltando às 18 horas para comer um prato de sopa de macarrão com carne, que ficava cozinhando desde as 16 horas da tarde. Às 19 já estava na cama.

Segunda família

José Ayres e Arminda Maria Ayres
em sua casa em Caxambu, 1961.
Na década de 50 ele enviuvou-se e voltou a se casar com Arminda Maria da Conceição, de Baependi, que conheceu ao instalar uma lampada na casa do patrão dela, em Caxambu, e com idade já avançada para a época, com 46 anos foi pai de Elizabeth Ayres e aos 54 anos, de Solange Ayres, que aqui vos falo.

Admiração pelo Sputnik , mas sem telefone

Ele era admirador das novas tecnologias. Minha primeira calculadora recebi de suas mãos, daquelas que faziam contas de mais e menos e raiz quadrada. Uma revolução! Com ele também cheguei a ver o satélite Sputnik que voava sob nossas cabeças piscando num céu escuro, na pracinha em frente onde era a venda do senhor Caetano e da Casa Armênia. Em uma noite escura de maio saí com ele para ver o trabalho das máquinas que abriam a estrada em direção à Baependi e ele me ensinou a memorizar os nomes inscritos nas cavadeiras: "marechal", "coronel", "major". Tempos da ditadura...
Mesmo com toda a admiração pela técnica, nunca tivemos telefone em casa, pois "não queria ser perturbado nos fins de semana". A demanda de serviços elétricos na cidade era grande e ele não teria mesmo sossego.

Meu pai era um crítico severo da igreja e sua pompa. Dizia que o Papa deveria vender suas ricas vestes de ouro e entregar o dinheiro aos pobres.
Além do que, descobriu ele (por parte da empregada que trabalhava na casa paroquial) , na quaresma, tempo de jejuar, o padre tinha em sua mesa um grande bife. Para ele um acinte. Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço, repetia.
Assim foi desacreditando da igreja e seus dógmas. Em nome de Deus, dizia ele, eram feitas guerras. Mesmo assim, acompanhávamos as procissões de semana Santa e ele se emocionava na Sexta Feira Santa quando o coral entoava os seus canticos... 

José Ayres, Arminda Maria Ayres, Elizabeth Ayres
e Solange Ayres, fotografados por Menininho
 em 1965.


José Ayres, teve um excelente aprendiz, seu neto Luiz Henrique dos Santos Ayres, hoje funcionário da Cemig, em Três Corações filho de Lindenberg dos Santos Ayres, já falecido. Somente ele pode contar como foi trabalhar com o seu avô.

José Ayres faleceu no hospital Cônego de Monte Raso, em Baependi,  em 1 outubro de 1988, aos 81 anos de falência múltipla dos órgaos.

domingo, 20 de abril de 2014

Justiniana a avó de todos e todas

Violinos de arcos quebrados
Natureza morta em afrescos
Insistem no mesmo roteiro
A memória em seu vehiculo
Apenas reúne as perdas
seculares

Eustáquio Gorgonne
Quando pensei que não mais poderia reconstruir a história da Família Ayres antes de Sabina Maria da Conceição (1865-?), mãe de Gervásia (1881-1971), acho nos arquivos a certidão de casamento de Justiniana, a Nana como era chamada, mãe de Sabina. Que satisfação! Também encontrei nos registros outros filhos dela, que até agora ficaram perdidos no tempo. E se não fosse a ajuda da memória da tia Célia...


Assim consta que Justiniana Maria da Conceição, aos 45 anos de idade, que foi escrava de João Ferreira Simões (como consta em 2 certidões de batismo de seus filhos Salviano e Sabina), casou-se num sábado às 2 horas da tarde, na Igreja Matriz de Baependi, em 20 de outubro de 1888, com Pedro, que foi escravo Gabriel Theófilo de Andrade, conhecido fazendeiro em São Thomé das Letras. A data provável de seu nascimento é 1943 e este registro até agora não foi encontrado. O certo é que Justiniana morou em Baependi, mais preciso, no Chapéu, batizando os seus filhos  na Capela do Piracicaba e na Igreja Matriz em Baependi. Foram eles: Camillo Ferreira Junior (1858-), Salviano (da Conceição ?) (1861-?) e Sabina Maria da Conceição (1865-?). Salviana Maria da Conceição ( ?-?)

          
Decreto da Lei Área
de 13 de maio de 18
Libertos!

Atentem para o detalhe do documento acima: Pedro e Justiniana foram "libertos"! Quanta felicidade! Este casamento tardio pode-se entender no contexto da abolição da escravidão. O certo é que houve na época uma "onda" de casamentos entre negros após a proclamação da Lei Áurea em 13 de maio de 1888, (vide decreto ao lado) pois  contei um grande número de uniões ao fazer minha pesquisa. 

Não posso assegurar se Pedro, com quem ela se casou oficialmente, foi o pai de seus filhos, pois nos registros constam todos como "filhos naturais" o que significava que os pais ou não eram casados oficialmente, ou não eram conhecidos. 

Certidão de batismo de Salviano de 1861

Desvendando as certidões...

 Certidão de Batismo de Camilo de 1858
Mais outra informação foi resgatada dos arquivos, já que o quebra cabeças da família não se desvenda de uma certidão e sim de várias certidões e cruzando as informações. Assim aconteceu ao analizar a posteriori a certidão de nascimento de Camillo, o primeiro filho de Justiniana. Nela consta que ele era filho de "Justina", (ver documento ao lado) possivelmente escrito erroneamente, "Justiniana", escrava de... João José de Lima e Silva. Ora, até neste momento da minha pesquisa achava que Justiniana fora escrava de João Ferreira Simões, mas no registro de nascimento de Camillo constava que ela, em 1858 era escrava de João José de Souza Lima, o avô de José Ayres de Lima, o Trançador. 

E o destino uniu casa grande e senzala

E por destino o neto de  João José de Lima e Silva, José Ayres de Lima, o Trançador, casou-se com a neta de Justiniana, Gervásia da Conceição. Então parece que tudo ficou em família.

Certidão de Batismo de Sabina de 1865
Provavelmente João José de Souza Lima vendeu Justiniana para João  Ferreira Simões após o ano de 1858, pois consta nas certidões seguintes de nascimento de Salviano e Sabina, nascidos respectivamente em 1861 e 1864 que ela, Justiniana, era de propriedade de João Ferreira Simões.

Por algum tempo Justiniana morou em Baependi, ou na propriedade de seu ex dono, como era costume. Para onde iriam os escravos depois de abolida a escravidão? Conquistaram a liberdade mas não a cidadania. Por não terem outra alternativa de sobrevivência, sem formação profissional, sem escola, provavelmente continuaram trabalhando na terra , agora como "libertos" para os seus antigos senhores, ou buscaram no trabalho informal uma maneira de sobreviver. O destino de nossos antepassados não foi diferente de milhões de outros negros no Brasil

Pedro, o marido

O marido de Justiniana, Pedro pertenceu ao plantel de escravos de Gabriel Theófilo de Andrade. Pude reconstruir parte de sua história pessoal comparando os dados dos arquivos. O seu dono, Gabriel casou-se com Maria José da Luz Junqueira em 30 de abril de 1872 em São Thomé das Letras. Em 1875 registrou uma filha na paróquia de Baependi e em 1890 outra em São Sebastião da Encruzilhada, hoje Cruzília. Em alguma das três povoações Gabriel adquiriu Pedro, que após a abolição da escravatura, casou-se com Justiniana. Gabriel o ex-dono de Pedro não pode ver seus escravos livres e nem o casamento de Pedro com Justiniana. Ele faleceu  antes de 1888.

Atestado de óbito de Justiniana de 1813
Justiniana terminou os seus dias na já proeminente Caxambu, que em 1901 foi elevada à categoria de vila emancipando-se de Baependi. No ano de sua morte, Caxambu tinha status de Estância Hidromineral e era visitada por inúmeros turistas em busca da cura de várias doenças através de suas "Águas Virtuosas". Mas suas fontes de águas medicinais não puderam ajudar Justiniana, que faleceu em 23 de novembro de 1913, (documento) aos 60 anos de insuficiência cardíaca, sendo sepultada no Cemitério Paroquial de Nossa Senhora dos Remédios.

Nota: A datas de nascimento e falecimento de Justiniana não correspondem. Se ela tivesse "60 anos", portanto teria nascido em 1853 e o seu primeiro filho não poderia ter nascido em 1858, pois são apenas 5 anos de diferença. Assim suponho que foi um erro cometido por quem deu, ou fez as anotações pois segundo a nossa tia Célia, Justiniana teve seu primeiro filho também muito jovem, assim como Sabina, aos 14 anos de idade.

Geração familiar seguindo a linha matrilinear de Justiniana Maria da Conceição:

Primeira geração  nascidos como "naturais":
Filhos de Justiniana

Camilo Ferreira Junior (1858-?)
Salviano da Conceição (1861-?)
Sabina Maria da Conceição (1865-?)
Salviana Maria da Conceicção ( ?-?)

Segunda Geração
Netos de Justiniana

Filhos da relação de Sabina Maria da Conceição com Bernardino Lopes de Faria
Netos de Justiniana:
                               
Gervásia Maria Ayres
Josino Lopes de Faria (Nego)
Eduardo Lopes dos Santos
Luiz (?)
Manoel (1886- ?)

Netos de Justiniana
Filhos da relação de Sabina Maria da Conceição com José Luiz de Castro, apelidado de "José do Saco".

José de Castro
Maria de Castro
João da Conceição
Antonio da Conceição
Alzira de Castro
Sabina de Castro Diório

Observando que Sabina de Castro, que casou com João Diório, originou o ramo da família dos "Diários", era meia irmã de Gervásia Maria da Conceição, que casou-se com José Ayres de Souza Lima originando o ramo da família "Ayres".

Bisnetos de Justiniana
Filhos do casamento de  Gervásia Maria da Conceição com José Ayres de Souza Lima, o Trançador.

José Ayres
Mercedes Ayres
Silvio Ayres
Maria Ayres
Luiz Ayres de Lima
Palmira Ayres
Josino Ayres
Silvia Ayres
Samuel Ayres
Celia Ayres

Kreuzau, 20 de julho de 2014, Alemanha.
Foto: Solange Ayres, piso do Coreto da Pracinha central da cidade de Caxambu.




terça-feira, 25 de março de 2014

João Ferreira Simões, o português




Baependi em 1870
O passeio de Caxambu a Baependy é intessantíssimo; ora, vê-se uma paysagem pittoresca, ora um bloco immenso de pedra calcaria, branca que se pulverisa facilmente; aqui é uma descida escarpada, tortuosa, accidentada; alli um morro, onde se descortina um panorama delicioso...
Causa agradável impressão a vista da cidade, quasi toda sobre uma collina, com as casas cercadas de vegetação sempre abundante o aspecto é risonho e contrasta com o isolamento arido das casas de Caxambú.
Ao penetrar-se, porém na cidade, triste decepção! são ladeiras cheias de buracos, outrora calçadas por lages, de que existem ainda restos; casas velhas, de aspecto lugubre, pobre, algumas a esboroarem-se, a procurarem um centro de gravidade... 
Baependy, hoje em decadência, floresceu até uns vinte annos passados, o tabaco fez-lhe a reputação de município opulento, e na história do império os grandes princípios democráticos ali encontraram defensores heroicos.

Foi berço de homens ilustres nas sciencias e na politica. Hoje, não tem tabaco para dous cigarros, e vive de recordações, a ver e crescer a fama de Caxambú, como uma mãe velha e exausta vê, cheia de orgulho e de esperanças, elevar-se o filho que amamentou.*



Assim se parecia Baependi na chegada do imigrante João Ferreira Simões (1837-1919) um dos personagens centrais de nossa história. Se vocês não se lembram, ele era o proprietário, digo, dono das escravas Justiniana Maria da Conceição mãe de Sabina Maria da Conceição, sendo Sabina a mãe de Gervásia Ayres de Lima, (nascida Maria da Conceição) nossas bisavós, trisavós, tataravós... Tomei emprestado o texto acima, datado do ano de 1894, que encaixa exatamente no contexto em que viveu ele, analisando com vivacidade cidade de Baependi.

A história de João Ferreira Simões, 25 anos de idade "do reino de Portugal" e "que se justificou livre", como consta na certidão abaixo, começa para nós quando ele que se casa com Maria Eugenia de Lima, 23 anos de idade em 27 de outubro do ano de  1860 no "Oratório da Lagoinha do Chapeu". 
A cerimônia foi realizada em "um oratório particular", uma tradição de origem européia, praticada pelos portugueses que aqui chegaram.



"O oratório (do latim oratoriu)  era um  nicho ou armário com imagens religiosas, de origem medieval, é concebido como um tipo de capela particular em que reis e nobres realizam suas orações, e, freqüentado em seguida também por associações religiosas leigas. Ligado, de início, ao modo de vida das camadas abastadas, o hábito de ter altares particulares logo se dissemina pelos mais variados estratos sociais. O oratório chega ao Brasil com os portugueses e sofre adaptações de acordo com as formas de vida local. No Brasil colonial, essas peças religiosas estão presentes nas fazendas, senzalas e sobrados urbanos. Parte do equipamento da casa colonial, o oratório - que substitui progressivamente as capelas anexas às fazendas - é introduzido nas residências, colocado em nichos nas paredes ou nos quartos para uso individual. A presença dos oratórios dentro das casas e o hábito de rezar individualmente sinalizam uma "vida íntima em ascensão", nas palavras da historiadora Leila Mezan Algranti, e fornecem ainda elementos para a compreensão das formas de religiosidade na colônia, oriundas da mescla de tradições culturais distintas. (texto extraido do Museu Itau Cultural)

E a familia cresceu...

Mas não como esperado. Ao contrário da maioria dos fazendeiros, cujas proles eram grandes, José Ferreira Simões e Maria Eugenia de Lima tiveram somente 3 filhas: Elvira Maria do Nascimento Simões, nascida em 1862 e Elízia Simões, em 1876 e Inocencia Ferreira Simões (14/03/1907), que faleceu aos 32 anos em Pouso Alto de febre Pueril. Para os fazendeiros naquela época era certamente um problema ter uma pequena prole, já que os filhos eram braços para tocar as lavouras, principalmente do sexo masculino. A administração da fazenda, o cultivo da terra, o comércio dos produtos produzidos, tudo ficava em sua responsabilidade e esta situação perdurou por muitos anos, pois sua família não crescia como era desejado. Ele foi pai pela primeira vez aos 27 anos.

E talvez por esta razão o casamento de sua filha mais velha, Elvira se realizou tão cedo, quando tinha apenas 13 anos de idade com Bernardino Lopes de Faria de 22. Esta foi a solução dada, segundo minhas hipóteses, casar as filhas logo para que os genros e netos dessem continuidade ao trabalho na fazenda.

E de Elvira nasceu Elvira. Ela ela foi a primogênita e recebeu o mesmo nome de sua mãe, e infelizmente veio falecer aos 11 anos de idade. Depois seguiram mais 12 crianças resolvendo o problema da descendência de nosso personagem João Ferreira Simões.

Inicialmente o seu João ficava na fazenda e com o passar dos anos adquiriu um  terreno, onde hoje é o bairro denominado de "Caxambu Velho" e lá construiu uma casa. Estas informações foram retiradas de uma certidão de óbito datada do ano de 1896 (abaixo) entre tantos outros que  encontrei:


"Consta que em um dia em fins de março de 1896, ausente durante a Semana Santa em Baependi, fora sepultado no cemitério de Nossa Senhora dos Remédios de Caxambu o cadáver de uma criança da casa do Sr. José Ferreira Simões, cuja a guia civil não deixaram-me, sendo o mesmo João Simões residente fora desta povoação."

Casa no Caxambu Velho

 Caxambu no início de 1900 o caminho, de quem
vem de Baependi passando pelo Caxambu Velho,
hoje parte da Estrada Real, com certeza percorrido
por João Ferreira Simões até chegar à cidade.
Aos 60 anos podemos dizer que ele  ainda era ativo para tomar as empreitadas à cavalo e participar das comemorações da Semana Santa em Baependi. Também podemos deduzir que ele tinha alguma posse e era "abastado" em comparação com a maioria da população pobre e escrava, possuindo uma casa "na cidade".
A decisão de sua mudança de Baependi para as "Águas Virtuosas", como era chamada Caxambu naqueles tempos, foi muito bem relatada no texto acima e os argumentos de Henrique Monat encaixam-se exatamente no período histórico em que viveu João Simões e sua família. Assim como outros tantos proprietários de terras, o declínio da mineração e das lavouras causado por falta de mão de obra escrava atingiu toda a região.

No jornal O Baependiano, que circulou de julho de 1897 a novembro de 1899, havia alguns anúncios de venda de propriedades com os mesmos argumentos: falta de mão de obra para tocar a fazenda, e como prova a nota abaixo, um fazendeiro anunciava sua propriedade dizendo às claras: "o preço é muito módico em conseqüência do proprietário não ter gente bastante para cultivá-la". Não nos esqueçamos também que movimentos abolicionistas chacoalhavam a província. No ano de 1871 foi promulgada a Lei do Ventre Livre, e ditava que todo filho de escrava a partir daquela data era livre, da qual  Gervásia Maria da Conceição nossa avó, bisavó foi beneficiada, e em 1888 a escravidão foi definitivamente abolida.

 Nos anos seguintes à abolição, Baependi foi perdendo sua força econômica e política, e a novas vilas e povoações foram se emancipando e ganhando importância, como Caxambu, que passou a categoria de vila em 1901. A mudança de João Ferreira Simões para as "Águas Virtuosas do Caxambu" também pode ter se dado pelas boas condições climáticas e de seu status como estância hidromineral.

Em família

Assim como Virgolina Balbina de Lima a dona Virgolina, ele tinha também inúmeros afilhados entre escravos, filhos de escravos e parentes. Ele batizou em 1862 no Oratório da Fazenda Sao Pedro, junto com sua esposa, Nicolau, filho de Virginia, escrava de João José de Lima e Silva e José Florêncio Bernardes. Lembrem-se que João José de Lima e Silva era o avô pelo lado materno de José Ayres de Lima, o nosso Trançador.

João Ferreira Simões faleceu em 5 de agosto de 1919 em sua casa em Caxambu, aos 84 anos, um matusalém para a época.  A "causa mortis", "marasmo senil", sendo enterrado no Cemitério da Paróquia Nossa Senhora dos Remédios da cidade. Dois anos após seguiu sua mulher, dona Maria Eugenia de Lima que faleceu de gripe em um dia frio de junho de 1921.

Descendentes da primeira  geração

João Ferreira Simões com Maria Eugenia de Lima:

Filhos:
Elvira Maria do Nascimento Simões (1862-?)
Eliza Ferreira Simões (1876-?)
Inocência Ferreira Simões ( 14/03/1907)

Descendentes da segunda geração:

Elvira  Simões com Bernardino Lopes de Faria:

Netos:
Elvira Lopes (1878-1889)
Elvira Maria de Faria (1880-?)
Urbana Lopes (1882-?)
Amancio Lopes (1882-?)
Amancio Lopes de Faria (1884-?)
Luiz Lopes de Faria (1886-?)
Maria Lopes de Faria (1888-?)
Travassos Lopes de Faria (1890-?)
Francisco Lopes de Faria (1891-?)
Escolástica Lopes de Faria (?-1879)
Sebastião Lopes de Faria (1892-?)
Antenor Lopes de Faria (1895-?)
Francisco Lopes de Faria ( ?-?)

Eliza Ferreira com João Gomes Murta:

Netos:
Maria Murta (1894-1895),
Maria Murta (1901-?) casada com Guilherme Vilella Gouveia (?-?)
Elvira Ferreira Murta (1905-?), 
Adelina Ferreira Murta (1909-?)

Innocência Ferreira Simões com João Batista Dias

Netos:
Adolpho Dias (1889-?)
Idalício Dias (1897-?)
João Dias (1890-?)
Avelino Andre Dias (1900-?)

Maria Murta (1901-?) neta, casada com Guilherme Vilella Gouveia (?-?)

Bisneto
Abel Murta de Gouveia (1935-2008)


Texto:
Henrique Monat, sobre a cidade de  Baependi extraido do livro "Caxambu" de 1894.