quarta-feira, 30 de setembro de 2015

O universo de Arminda



Nascida na cidade de Baependi, mais precisamente na região que hoje é chamado "Gamarra", a 15 de agosto de 1922, filha de Sebastião Gomes Francisco da Luz (1892-1951) e Vitória Maria da Conceição (1898-1958), suspeitava que poderia ser um pouco mais velha, pois o seu pai não a registrou assim que nasceu, e sim esperou anos para fazer  registro de todos os irmãos e irmãs juntos.



Vaca na cozinha 

Primeira casa onde Arminda trabalhou
Rua Manoel Joaquim, Baependi, 2004
A vida na roça vivida tinha horas alegres, tristes e horas de muito trabalho, plantando e colhendo.   A época da colheita era a melhor época, principalmente no campo das melancias, quando as crianças as deixavam rolarem morro abaixo. Era bronca na certa. Dentre muitos afazeres diários executados também pelas filhas como descascar mandioca para fazer polvilho, colher arroz, milho, sua mãe Vitória, resolveu criar uma bezerra rejeitada. Resultado: Em dias frios aquela baita vaca entrava cozinha adentro  poc, poc... procurando, o calor do fogão à lenha. Imaginem a cena.

Até os seus 20 e poucos anos trabalhou arduamente na roça   para ajudar os seus pais e um dia a vida tinha que mudar. Como não teve oportunidade de estudar, não restou outra alternativa que trabalhar de doméstica em casa alheia. De Baependi (foto) ela foi parar em São Paulo. Contava que nas suas horas de folga nos domingos, ia com outra colega passear pela cidade, freqüentava o cinema e acompanhava a família à praia nos verões de Guarujá no final da década de 1940. Contava ela com saudade deste tempo, da São  Paulo vivida e suas possibilidades culturais que limitadamente aproveitou.

Teria ela passado por esta praça de Guarujá?

A lâmpada e a esposa 
Arminda Maria Ayres e José Ayres, 1960

Acometida por uma anemia e de volta à Caxambu, quando os seus patrões faziam estação de veraneio na cidade, conheceu o meu pai, José Ayres,  já viúvo, quando ele foi instalar uma lâmpada na casa do seu patrão e ali "acendeu a faísca". Era tempo de Semana Santa e eles se encontraram em frente à igreja, perto do carrinho de pipoca do Seu Dodô. E assim iniciou o romance de curta duração. Casaram-se discretamente em 1949, sem pompas, igreja e... com alianças emprestadas. O meu pai prometeu comprar-las posteriormente, o que ficou somente na promessa. Em 1952 veio sua primeira filha ao mundo e em 1960, oito anos depois eu; assim meu pai constituiu sua segunda família.

Semana Santa, dos vivos e dos mortos

Os dias iluminados do mês de março  se tornavam mais curtos e as noites um mistério ocupado pelos espíritos e assombrações. As tardes acabavam em raios, trovões, ventos e fortes tempestades desciam do Morro, derramando água sobre a cidade. Em seguida o vento Mistral frio limpava o céu e o que se via era um azul-anil estupendo e noites estreladas. No alto a constelação do Cruzeiro do Sul, as Três Marias. Eram dias e noites de muito frio, tempo da quaresma. As comemorações religiosas chegavam ao seu ápice na Semana Santa. Os postes e suas lanternas, os denominados "tomates na ponta da vara" por meu pai, jogavam uma luz amarela e ténue sobre as ruas e portais das casas, como se o próprio Coisa Ruim quem tivera acendido as lâmpadas, para mostrar a verdadeira face da escuridão. Um estranho sentimento de culpa tomava conta da mente dos crentes e religiosos. Os fiéis retornavam às suas casas após as profissões percorrendo as ruas desertas e  o medo enchia de fantasia o universo de Dona Arminda.

Procissão de Sexta Feira Santa, Caxambu  
O temor a Deus era tão grande quanto ao diabo e qualquer sombra da noite se transformava em alma penada ou coisa parecida. Assim debaixo do poste no final da Rua  Magalhães Pinto, em Caxambu onde trabalhava, viu um vulto, um pequeno vulto branco com grandes olhos (fechados), de cabeça baixa, sentado debaixo do poste, como uma criança. Contava que tomou distancia, passou para o outro lado da rua e subiu a escadaria correndo sem olhar para trás. Era a assombração. De uma fresta da janela que dava diretamente para o poste, viu a criatura diminuir, diminuir. De medo foi deitar cobrindo a cabeça. Ela contou ano após ano, várias vezes a mesma estória, sempre com os mesmos detalhes.

A gaiola de passarinho e a independencia



Talvez um dos maiores ensinamentos de minha mãe veio não didaticamente com discursos feministas, até porque na época a palavra não era conhecida, e sim de um episódio prático, vivido muito antes de eu nascer.
Dona Arminda tinha dois robbys: a jardinagem e o outro criar passarinhos em gaiola. Para os dias de hoje o fato seria ecologicamente incorreto, mas ha décadas traz era comum casas terem passarinhos aprisionados em gaiolas. Tiravam a liberdades dos pobres bichos para deixa-los cantar magoados perto dos nossos ouvidos e ainda se justificava: Eles aqui tem comida, lá fora eles tem que procurar, senão passam fome...

Inúmeras gaiolas eram dispostas nas paredes da casa, espalhadas pela varanda: Sabiás, Pintassilgos, Canários, Trinca Ferros... Contava ela um dia gostaria de poder comprar mais uma gaiola para seus passarinhos, quando recebeu um "não" de seu José Ayres. Indignada, contou muitos anos mais tarde a história e acrescentou com a cara enrugada e cheia de raiva e que até hoje não esqueço: "Nunca dependa de marido. Trabalhe para que ganhe o seu próprio dinheiro". Pois esta história carreguei a vida inteira no meu pensamento. Sábios conselhos. 

Estrangeira 

Caxambu parecia-lhe uma terra estranha, como se morasse no estrangeiro... Baependi é que era sua verdadeira pátria, onde moravam seus entes queridos e disso ela nunca se esqueceu. Em 1975, por um desejo dela, refizemos a pé por quatro horas o antigo caminho que ligava Baependi ao Gamarra, passando pelo alto da Serra. Na matula, deliciosas coxinhas de galinha confeccionadas no dia anterior. No programa estava visitas aos antigos parentes e vizinhos. Os casebres das famílias remanescentes ainda estavam lá, em precaríssimas situação, e mesmo assim fomos recebidos com alegria, muito café quente e pude dormir em um macio colchão de palha de milho. Em outra parada, sentamos debaixo de uma laranjeira com uma faca na mão. Saímos de lá com a barriga cheia. Não me lembro de termos chupado tantas laranjas de uma só vez em nossas vidas...

No final da década de 80, com a idade 45 anos resolver ir à escola, matriculando-se no Mobral, escola  noturna no bairro Caixa D`Agua e assistiu aulas com a professora Lucia  Maria Villela Levenhagem. Um dia ela recebeu com orgulho seu diploma de 4° ano primário. Agora ela sabia ler e escrever. Ah, mas bem lembrou a outra professora Magali Brochado, que foi uma das incentivadoras   de minha mãe prosseguir os seus estudos, ela orgulhosamente chegou até a 7a série.

Pling... Pling...

Nos dias chuvosos de dezembro, era o tempo que mais minha mãe sentia saudades da sua vida na roça; quando as chuvas de verão caiam pesadas sobre o telhado, ela colocava uma daquelas latinhas redondas de manteiga Skandia na saída da calha para ouvir durante a noite o pingar da água... Pling... Pling... Sempre alegre e otimista queria viver para sempre, mas ao mesmo tempo refletia: "Os mortos tem que dar lugar para os vivos, veja quanta gente que nasce..." E acrescentava que quando morresse queria ser sepultada juntamente com sua mãe em Baependi. O seu desejo foi cumprido.

Último retrato, Caxambu 2006
Arminda Maria Ayres faleceu em abril de 2012, aos 89 anos, na Santa Casa de Misericórdia de Caxambu em conseqüencia de  uma grave fratura no femur.

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Alegria de viver




Conversa na padaria, gravada em 2007, com Dona Arminda do alto dos seus 83 anos.
Arminda Maria Ayres, que foi casada com José Ayres.


sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Um dedo de prosa com Tio Tibério e Dona Arminda




Para sempre: Tio Tibério e minha mae, a Dona Arminda.
Conversa gravada na casa do Tio Tibério e tia Ana, em Baependi em marco de 2007.

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Sabina e Gervásia visitam Nha Chica

E foi lá pelo ano de l890, quando Sabina Maria da Conceição  juntamente com sua filha Gervásia que tinha cerca de 10 anos, puseram-se a caminho em direção à Baependi. Mãe e filha  saíram cedinho de casa. Eram muitas horas de caminhada, passando pelo Gamarra e subindo a Serra, até chegar a cidade. Elas moravam longe, quase debaixo da Serra da Careta e resolveram fazer no domingo uma visita especial, muito especial... 

Cumadre Nha Chica

Francisca de Paula de Jesus ou Francisca Izabel, conhecida por Nha Chica (1808-1895), filha e neta de escravos nasceu em Santo Antonio do Rio das Mortes um distrito de São  João d`El-Rey em 1808, vindo pequena para Baependi. Sua mãe recomendara a vida solitária, para melhor praticar a caridade e conservar a fé cristã. Rapazes de seu tempo pediram-na em casamento; recusou a todos, sem se mostrar contrariada; tinha uma missão a cumprir. Moça   ainda, Nha Chica já era a "mãe dos pobres", e pouco a pouco foi se estendendo a sua fama, porque os seus conselhos eram sempre muito "ajuizados".

Morto seu irmão, ela herdou uma fortunazinha, em ouro que consagrou à edificação de uma igreja, junto à casinha onde crescera e atingira à velhice. E ali era recebia a todos indistintamente, sempre alegre.

Naquela época Nha Chica  já era uma "celebridade" em todo o sul de Minas e era visita obrigatória a quem ia  de visita à Baependi. A todos ela recebia com bondade, assim como recebeu minha bisavó Sabina e minha avó Gervásia. As horas de cansaço a pé pelos caminhos  não impediram que elas viessem para tomar umas palavras de consolação e de conforto junto à velha senhora.

Era quase por volta do meio dia quando as duas chegaram à pequena casinha onde morava a "cumadre", assim ela era chamada por Sabina, para pedir bençãos e ouvir os seus conselhos...

Igreja Nha Chica, 1894

A visita

No alto da colina via-se a igreja muito modesta e nos fundos a casinha com a portinha sempre meio fechada: "Entre" gritou ela  com uma vozinha seca e fina. Então penetraram na salinha de aspecto monástico, bem asseada, bem caiada, e meio escura, porque a janela e a porta nunca abriam de todo; o chão de terra batida. A mobília constava de seis cadeiras, dois bancos de pau, onde elas se sentaram, a mesa com seis cadeiras, uma cama, sem colchão  nem lençol. Ela vivia sozinha com o seu gato. Sobre a mesa estavam umas velas de cera, castiçais de altar que ela acabara de receber como doação para sua igreja. A cumadre vestia-se com muita simplicidade e o lenço  grande envolvia a sua cabeça e o pescoço. Mãe e filha pediram benção e beijaram a sua mão seca deformada pelo reumatismo. Depois de um fio de prosa, elas deram conta que era hora do almoço. Sabina  lançou o olhar em direção as panelinhas de tropeiro que estavam sob o fogão à lenha sentindo que tinham fome, depois daquela longa jornada até a cidade. E como a hospitalidade mineira ainda era lei, foram convidadas para almoçar. Sabina pensou: "A comida não será suficiente para todo mundo, devido ao tamanho das panelas... " Seguindo o olhar de Sabina e quase lendo os seus pensamentos, Nha Chica começou dizendo: "-Eu estava fazendo a sacristia: o mestre da obra dizia-me que os tijolos não bastariam: eu rezei e respondi que os tijolos bastariam: até o último dia ele insistiu; foi a conta justinha: não sobrou um, mas também não faltou um só. O mesmo acontece com a comida. Vocês pensam que não haverá suficiente para nós todas, pois vai dar sim para todo mundo". E as três comeram a comida de arroz, feijão e taioba e ainda sobrou para o gatinho da comadre. 

A prosa continuava depois do almoço. Nha Chica tinha algumas preocupações: -Eu só tenho medo de não  poder acabar a minha igreja, por isso rezo toda noite assim: "-Vance não me engane, deixe-me acabar o frontispicío, depois pode me levar." Mas eu hei de acabar igreja, o poder de Deus é grande. E continuou. Vances viram no domingo passado como o sol estava amarelo? Dizem que foi um eclipse. Mas qual! Eu também vi na bacia, foi uma nuvenzinha preta, ruim que se pregou no sol; quem foi lá tirá-la? Só Deus, porque ele não quer o sol encoberto, nem parado. As duas concordaram abanando as cabeças.

A conversa estava boa, mas elas tinham uma promessa a cumprir e solicitaram as chaves da igreja  para depositar velas de cera e um prato de esmolas colhidas pela cidade, antes de se porem a caminho de casa. Acompanhadas por um senhor que abriu as portas  da Igreja, admiraram de como tudo estava zelosamente conservado e asseado. Quase toda sua ornamentação, imagens, vaso, órgão, lâmpadas foram ofertas feitas à Nha Chica. Ao sairem da igreja, votaram para se despedir dela que recitou: "É o Espírito que inspira, porque tenho fé viva"

Assim escreveu Henrique Monat:

"Exemplo de virtude, de abnegação, espirito de caridade, dominado pela fé, ella é uma inoffensiva buendicha, convicta, mas que nunca se quiz impor; habituram-n`a ao papel de adivinha, ella o tomou a sério e o faz sem esforço . 
Ha quem já anteveja sua beatificação e ulterior a canonização.
Santa Francisca de Baependy!
E porque não? Porque é pouco versada em política, em astronomia e metrificação?
Outros santos, menos milagrosos, foram mais pobres de espirito.
Santa Francisca de Baependy, ora pro nobis!
Amen.

Nha Chica faleceu em Baependi em 14 de junho de 1895. A campanha pela sua beatificação iniciou-se no ano de 1952 e depois de vários procedimentos eclesiásticos de confirmação de uma cura no ano de 1995 de Ana Lucia Meirelles Leite, moradora de Caxambu, que teria um problema congénito no coração e considerado muito grave pelos médicos. A cura teria se dado sem intervenção cirúrgica e foi atribuída às orações intercedidas à Nha Chica. Reconhecendo o milagre, em 28 de junho de 2012 o Papa Bento XVI autorizou a Congregação para a Causa dos Santos  a promulgar o decreto do milagre atribuído à intercessão de Nha Chica. A Beatificação aconteceu no dia 4 de maio de 2013, em Baependi. Desta forma, Nha Chica se tornou a primeira leiga e negra brasileira a ser declarada beata pela Igreja Católica.

Nota:

Todo o conteúdo do texto é real. Algumas partes do texto foram adaptadas do trecho da única entrevista de Nha Chica a Henrique Monat, cronista da época, extraídas do Livro "Caxambu" de 1894, no capítulo sobre Baependi; a outra parte vem dos relatos de Celia Lima Araujo, filha caçula de Gervásia do real encontro de Sabina e Gervásia com Nha Chica. A conversa telefônica Brasil x Alemanha foi realizada no dia 2 de junho de 2015. 
Fotos:do Livro Caxambu, de Henrique Monat. O "cardápio" servido, acrescento aqui "arroz, feijão e taioba", foi ouvido por Luiz Henrique Dióiro, também em conversas com Tia Célia. O resto foi da minha fantasia.

Solange Ayres
Kreuzau, 8 de julho de 2015, Alemanha

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Terra, água, fogo, ar, Ayres

Da esquerda para a direita: Celia Lima Araujo, Samuel Ayres de Lima, Palmira Ayres, Josino Ayres de Lima, Silvia Diório, Luiz Ayres de Lima, Maria Ayres, Silvio Ayres de Lima, Mercedes Ayres Soler, José Ayres. No centro, meus avós, Gervásia Maria da Conceição, José Ayres de Lima
















Acredito que nunca foi conhecido  casamento entre parentes na nossa família, claro que não. Pelo menos não era sabido até... Até eu achar  no mês passado em junho de 2015, a Virgolina Balbina de Lima que fora filha de João  José de Lima Silva no Censu populacional  da cidade de Pouso alto do ano de 1839, publicado pelo Cedeplar da UFMG e confrontar com o meu arquivo de pesquisas.

Virgolina Balbina de Lima foi mãe de Bernardino Lopes de faria, casado com Elvira Simões e que pelas minhas pesquisas, teve um relacionamento com a escrava Sabina Maria da Conceição, pertencente ao plantel de escravos do sogro, João  Ferreira Simões, gerando Gervásia Maria da Conceição.

Assim através da união com José Ayres de Lima, o Zé Trancador com Gervásia resultou num casamento consangüíneo, isto é, casamento entre parentes sem que eles soubessem. Ou sabiam? Não podemos dizer. Esta conversa foi feita com Célia Lima Araujo, a tia Célia o arquivo vivo de nossa família sem que ela tenha notícia ou sabido do fato.

Terra, água, fogo e ar

Normalmente a igreja era quem fazia as "diligencias" para saber saber o grau de parentesco e dar a permissão para as uniões, mas como Gervásia não tinha pai conhecido, ou melhor, reconhecido oficialmente, não puderam "detectar" a união consangüínea. Gervásia foi batizada, se nossas suposições estiverem certas, pelo próprio pai Bernardino Lopes de Faria; nas sequências dos assentos paroquiais, (vide foto) seu irmão Josino, que tinha o sobrenome de "Lopes de Faria", sendo batizado pela sua avó torta, Virgolina como comprova a certidão. Era também costume dar nome ao batizado o nome de seu padrinho, assim como também adotar sobrenomes de seus senhores de escravos, do qual eles estavam sob proteção.

Mas na história estas  uniões consangüíneas não foram raras, senão, como nós nos reproduzimos no começo da humanidade? Os cientistas estimam que os primeiros a migrar da África estavam entre 700 a 10.000 indivíduos. Diante desses números pequenos, e do fato de que essas pessoas estavam provavelmente dispersas em pequenos grupos de caçadores/coletores e muitas vezes casadas dentro de seu clã ou tribo, parece inevitável que algum nível de união entre parentes próximos tenha ocorrido. Então não fomos exceção.

No Brasil, o código civil impede o casamento de ascendentes com descendentes e de consanguíneos  colaterais até o 3° grau, o que estende a restrição a irmãos, meio-irmãos, tios e sobrinhos.

Ja a igreja por um milênio proibiu o casamento entre parentes, até o sétimo grau, com base do preceito bíblico de que o mundo foi criado em sete dias. Mais tarde, ela passou a proibir os casamentos até o 4° tomando como base os quatro elementos da natureza. E assim sendo a Família Ayres nasceu e esta sob o signo dos quatro elementos da natureza: terra, água, fogo e ar, ar de Ayres.

O casamento

Para entender o emaranhado dos parentes, montei um diagrama que facilita localizar as uniões  na família e seus descendentes.



O filho dele, José de Souza Lima, o "José Trançador" como era chamado, portanto NETO, isto é (relação de de 2°grau), casou-se com Gervásia Maria da Conceição, BISNETA (relação de 3° grau) de João José de Lima e Silva. As setas em vermelho indicam a linhagem da família.

Aqui em detalhes os filhos, netos e bisnetos de João  José de Lima e Silva

1- Joao José de Lima e Silva (1798-1875), Pouso Alto, casado com
    Joana Thereza Ribeiro de Lima (1807-1860) 

Filhos: 1-Virgolina Balbina de Lima (1834-?), 2-José Ignacio de Lima e Silva (1835-?), 3-Thereza Ribeiro de Lima/Jesus (1837-?),4- Rufino de Lima e Silva (1853-?), 5- Ignacia Ribeiro de Lima (?-?), 6- Maria de Souza Lima/Silva/lima de Souza (?-?) casou-se com José Fernande Ayres da Silva (que também como seu filho era apelidado de Trançador) (?-1902), 7- Francisco Theodoro de Lima (?-?),  8- Joao José de Lima (?-?).

1.1-Virgolina Balbina de Lima (1833-?) casada com
      Francisco/Bernardino/Lopes de Faria

Filhos: 1- Bernardino Lopes de Faria (1853-?), 2- Luciana de Faria (1856-?), 3- Lodgero Lopes de Faria(1858-?), 4- Lucinda de Faria (1861-?), 5- Eliziel Lopes de Faria (1862-?), 6- José de Faria (1864-?), 7- Arminda de Faria 1867-?), 8- Sabina Bernardina de Faria (1869-?), 9- Bruno de Faria (1872-),10- Maria de Faria, (1875-?, ?11-  de Faria (1875-1875), 12- Juvêncio de Faria (1877-?), 13- Escolástica/Lopes de Faria (?-1879)

2.1-Bernardino Lopes de Faria, (casado com Elvira Ferreira Simões)
      engravidou a escrava de João  Ferreira Simões, seu sogro,
      Sabina Maria da Conceição (1865-?)

Filhos: 1- Gervásia Maria da Conceição, (1881-1971), 2- Josino Lopes de Faria (1883-?),3-   Eduardo Lopes (1884-?), 4- Luiz Lopes/Nego (?-?), 5- Manoel Lopes (1886-?).

      José Ayres de Souza Lima, o José Trançador (1873-1943)

Filhos:
José Ayres, Mercedes Soler Ayres, Silvio Ayres,  Maria Ayres,  Luiz Ayres de Lima, Silvia Diório Ayres, Josino Ayres de Lima, Samuel Ayres de Lima, Célia Ayres de Lima.

Solange Ayres
Kreuzau, 7 de junho de 2015, Alemanha

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Quarteirão 2, Fogo 17, Pouso Alto




Contando a  história de traz para frente, ou vice versa

E quando as minhas esperanças de reconstruir a vida de nossos antepassados já iam longe, encontro novamente ele, Joao José de Lima e Silva (1798-1877) em... Pouso Alto. E mais! Dona Virgolina Balbina de Lima, (1833-?) que foi madrinha de batismo de Sabina Maria da Conceição (1865-?) e de Josino (1883-?), irmão de Gervásia Maria da Conceição (1881-1971), que já suspeitava de seu parentesco com a Família Ayres, se confirmou.  Encontrei toda a família no Censu da População  da cidade de Pouso Alto, de 1839, desvendando de vez o quebra cabeças: Virgolina Balbina de Lima era filha de João José de Lima e Silva. E mais, todas as pessoas da tabela (vide abaixo) coincidem com os personagens, digo, parentes aqui biografados: João José de Lima Silva, Joana Teresa, que tinha o sobrenome de Ribeiro de Lima (1807-1860), Virgolina, que no quadro aparece com 6 anos de idade, cuja data de nascimento confere com a sua certidão  de casamento, datado de 1849; fazendo as contas do Censo, ela tinha 6 anos de idade, assim sendo ela se casou com 16 anos, então ela nasceu ,em 1833, pois o senso é de 1839; José que tinha o sobrenome de Ignacio de Lima e Silva, Tereza de sobrenome Ribeiro de Lima, casada com José Florencio Bernardes. E... Benedito, escravo, que tinha o sobrenome de Manoel de Lima, em cuja certidão consta que ele faleceu na Santa Casa de Baependi em consequência de úlcera cancerosa  de... Pouso Alto.




Quarteirão 2, Fogo 17, Pouso Alto

Este seria o endereço de João José de Lima e Silva se fossemos lhe mandar uma correspondência pelos correios nos tempos coloniais, tendo como inspetor José Francisco da Silva Vieira. O Brasil estava dividido em 20 Províncias e estas subdivididas em Municípios. Os Municípios eram divididos em Freguesias, que por sua vez eram divididas em Quarteirões. O Quarteirão constituía-se a menor unidade administrativa, sendo formado por um número mínimo de 25 casas ou "Fogos", de fogão à lenha, sendo que cada conjunto de três Quarteirões formavam um distrito.

Brancos e Livres

Então não restou dúvidas, a família foi encontrada nos seus primórdios em Pouso Alto. Dona Joana Teresa tinha já 3 crianças e eles possuíam 5 escravos adultos: 3 homens, uma mulher e um menino. E além de "branco e livre" nas anotações do Censo o senhor João José de Lima e Silva era "agricultor" e... "le e escreve", como na maioria dos fazendeiros homens listados. Mulheres que sabiam ler e escrever era raridade para a época.

*2
17
1
41
branco
Casado
livre



2
Joana Teresa
32
branco
Casado
livre



3
6
branco
Solteiro
livre



4
José
4
branco
Solteiro
livre



5
Teresa
2
branco
Solteiro
livre



6
Adão
31
crioulo
Solteiro
escravo



7
Vicente
28
crioulo
Solteiro
escravo



8
Benedito
26
crioulo
Solteiro
escravo



9
Celestina
38
africano/preto
Viúvo
escravo



10
José
10
crioulo
Solteiro
escravo


Senta que lá vem mais história!

E aqui vamos contar um pouco a história do município de Pouso Alto, onde a Família dos Lima e Silva que ainda não era os "Ayres", primeiramente se estabeleceram, antes de se mudarem para o Chapeo, próximo à Baependi. 

Como o nome diz Pouso Alto esta situado no alto de uma colina, onde em 1692 o sertanista Antonio Delgado da Veiga paulista de Taubaté pernoitou, proveniente do Vale do Paraíba. Muitos desses,  aventureiros demandavam os sertões  de Minas em busca de riquezas, ouro e pedras preciosas. E como quase todos os municípios mineiros, também Pouso Alto se formou em torno de um cruzeiro que eles lá deixaram, símbolo  da fé cristã.

Caminhos do sertão

Tomo emprestado o texto de Luiz Alexandre Guimarães Vilella, Pouso Alto-Relicário da História das Minas, que muito bem descreve o povoado:

"Pouso Alto tornou-se marco glorioso epopéia sertanista. Nas idas e vindas pelos vales do Rio Verde, os bandeirantes fizeram pousadas nestes sítios. No rancho, à beira dos córregos ou nos cimos dos morros os homens descansavam para recomeçar, ao romper da madrugada seguinte, a longa e penosa jornada. Era a primeira escala nos campos sul mineiros, a marcha rumo ao Sabarabuçu. Taubaté , Pindamonhagaba, Guaratinguetá, Guaipacaré e as roças de Bento Gonçalves iam ficando para trás. Vencida a Mantiqueira, por cinco serras altas, começavam os bandeirantes a cortar o ribeirão Passa Vinte (porque vinte vezes por ele se passava), iniciando nova ascensão de serras agras onde era preciso descarregar as cavalduras, devido os riscos de despenhadeiros. E chegaram a Pouso Alto. Ali fixaram seus "ranchos de tropas". Prepararam as roças de abóbora, milho e feijão, lavouras feitas para garantir a alimentação, no regresso ou, dos que viriam depois, em outras expedições. Abriram-se , assim, as primeiras picadas para o sul de Minas e os bandeirantes se irradiaram pelas serranias próximas: Boa Vista, Caxambu, Baependi, terras de Juruoca até as nascentes do Rio Grande, na Bocaína do Miratão; marcharam em outras direções para os campos do Carmo de Pouso Alto, Maria da Fé e Campina do Rio Verde rumo as minas de Sabará." 

As expedições pelos sertões brasileiros ficaram conhecidas como Bandeiras e seus empreendedores como Bandeirantes. Algumas dessas Bandeiras, percorriam trilhas ja conhecidas pelos indígenas, como a Trilha dos Guaianases, a partir do Vale do Rio Paraíba do Sul, através da passagem da Garganta do Embaú, na Serra da Mantiqueira, em direção às Minas Gerais denominado Caminho dos Paulistas ou Caminho Geral do Sertão, ligando a Capitania de São  Paulo às Minas. A descoberta de ouro intensificou o transito de pessoas, animais e gêneros alimentícios entre o litoral e o interior. A notícia de descoberta de ouro se espalhava rapidamente, e assim houve a grande corrida para o interior de Minas Gerais iniciando assim o "Ciclo do Ouro", povoando as vilas ao longo dos caminhos. E desta forma  das 36 mais antigas cidades fundadas pelos paulistas, estão Pouso Alto, juntamente com Baependi, Aiuruoca e Campanha.

Esses sertanistas e bandeirantes, por outros chamados "desbravadores" eram descendentes de primeira e segunda geração de portugueses, mas também castelhanos, genoveses, bascos, napolitanos, sarracenos, enfim uma mistura geral de gente que gostava de aventuras; e com toda a certeza os Lima e Silva descenderam deles. Nota-se no gráfico a família era composta de "brancos" e "livres"...


Nossas Senhoras!

A pequena Pouso Alto crescia e não era mais tão pequena. No alto da colina a capela construída sob a invocação de Nossa Senhora da Conceição chamava os fieis através das badaladas dos sinos, dando ritmo à vida no sertão. No ano 1748  o Capitão Estácio da Silva encomenda, de Portugal, uma imagem de Nossa Senhora dos Remédios para Caxambu, e na mesma época o povo de Pouso Alto encomenda também uma imagem, mas de Nossa Senhora da Conceição. Chegadas no Brasil a confusão: A Nossa Senhora dos Remédios foi parar em Pouso Alto e a imagem de Nossa Senhora da Conceição foi para Caxambu e... Até hoje não foram trocadas.

Enquanto isso no Chapeo...

Virgolina Balbina parece que foi a primeira a se mudar de Pouso Alto para a região próxima à Baependi, recapitulando, casando-se ainda muito jovem, aos 16 anos, em 13 de setembro de 1849, na Capela de Santo Antonio do Piracicaba. Seu pai não estava presente no casamento. Morava ele ainda em Pouso Alto? 
No ano de 1853 foi realizado o batismo do primeiro filho de Virgolina, Bernardino Lopes de Faria (1823-?), que posteriormente se casaria com Elvira Maria do Nascimento, filha de João Ferreira Simões (1835-1919). O padrinho e pai João José de Lima e Silva também não compareceu pessoalmente a este evento, mas apresentou uma procuração pela sua irmã, dona Tereza Ribeiro de Lima casada com José Florencio Bernardes, moradores do Chapeo.

Pois então a família permaneceu,em Pouso Alto, até por volta do ano 1853, ou quem sabe antes já teriam feito a jornada para o interior. A data do  primeiro registro de que a família já morava no Chapeo foi o batismo do filho caçula de João José de Lima e Silva, o Rufino, em agosto de 1853, (abaixo), portanto parece que na data eles ja teriam se mudado de Pouso Alto para o Chapeo, ou melhor Lagoinha do Chapeo.

Certidão de batismo de Rufino, primeiro registro da Família  Lima e Silva na Capela do Santo Antonio do Piracicaba, no ano de 1853 em Baependi.
E tudo virou cinzas...

Infelizmente, em 5 de abril de 1855, um incêndio destruiu a Igreja Matriz de Pouso Alto e junto com ela sua história desde 1752. Os registros civis só vieram ser feitos em cartórios após a instalação da República ou seja, em 1889. Até então os registros eram feitos e guardados nas Igrejas. A Igreja Matriz  de Pouso Alto poderia ser considerada a "Capital das Terras Altas da Mantiqueira" pela sua importância histórica. Documentos eclesiais contendo valiosas informações sobre a origem de nossos antepassados se perderam para sempre. E eu, alegre por ter descoberto o lugar de procedência de meu trisavô na velha Pouso Alto e triste, por não poder mais consultar os documentos que viraram cinzas.

*Censu de Pouso Alto, 1838
 Cedeplar, UFMG

segunda-feira, 25 de maio de 2015

O Baependiano



O periódico O Baependiano circulou na região  do Sul de Minas de 15 de julho de 1877 a 17 de novembro de 1889. Elele foi e é fonte de informação para reconstrução dos fatos históricos que fazem parte da Família Ayres. 

O periódico continha anúncios de toda a sorte, dava notícias do tempo, conselhos espirituais, preços  das mercadorias vendidas na Corte do Rio de Janeiro, escravos fugidos, quem nasceu e quem morreu. E na Gazetilha era anunciado o que acontecia na sociedade baependiana e redondezas como casamentos, batizados e festas religiosas.

Nos seus 8 primeiros anos a sede do jornal esteve localizada na cidade de Baependi, mas em 31 de abril de 1884, mudou-se para a cidade de Caxambu. Embora em seu edital reafirmasse  não "desposar a causa de nenhum partido", o seu proprietário e editor, Amaro Carlos Nogueira, que era amigo de José Florencio Bernardes, e membro do partido Liberal, elegeu-se deputado provincial mais de uma vez, juntamente com outros colaboradores do jornal. O Amaro Carlos Nogueira era proprietário de terra e escravos, além de possuir uma escola noturna o chamado "Liceu" com 40 alunos, dirigida por ele, Dr Antonio Tristão  Nogueira e Dona Thomasia Maria de Jesus a professora que ministrava aulas para meninas. Ele por vezes, afirmou em seu jornal fazer parte da "nobre classe" -  os proprietários e lavradores. 
O jornal se proclamava uma folha "Científica, Literária e Noticiosa", além de acreditar ser responsável não apenas pela informação, mas pela condução da opinião pública tendo por missão "doutrinar o povo sobre o que lhe importa saber" e vangloriava-se por ser "um dos principais diretores de opinião na parte mais... "adiantada do Império". Ou seja, o jornal conferia a si próprio o papel de guiar as idéias da população do Sul de Minas, mas mais importante, se considerava o porta voz de um grupo bem definido, a elite fazendeira e lavradora da região.  Os Liberais do O Bapendiano, por serem eles também proprietários de escravos, defendiam a emancipação gradual da escravidão, pois temiam que uma medida tão radical provocaria graves consequências sociais, pois para eles as coisas não poderiam ser mudadas assim de uma noite para o dia.

Aceita-se e tolera-se

Anúncio do Jornal O Baependiano
Inaceitável e intolerável, hoje diríamos, mas na edição de 30 de maio de 1880, a mentalidade era outra e aqui seguem os argumentos  contraditórios sobre o regime escravista:

"Não! Protestamos com as indignações  de nossa  alma:  não ha brasileiro que não deplore a triste herança da escravidão que nos legaram nossos maiores e que vai deseje ver terminar essa instituição odiosa, jamais essas estigmatisada por quantos adjetivos e imagens forte a eloquência tribunícia do Sr. Joaquim Nabuco. Aceita-se, ou melhor, tolera-se o facto porque é o facto; mas não se admite o direito, porque este é o bem da verdade eterna."

E o texto vai além justificando o injustificável:

"Aqui viria a propósito comparar a condição do escravo do Brasil com a de seu igual outrora nos Estados Unidos, ou com a do escravo moderno na Europa, mísero proletário." "... E sua condição tem o escravo melhorado cada vez mais de condição, tanto porque hoje não ha mais onde recruta-lo como principalmente porque o progresso da instrução vale continuamente melhorando a fundo já de sim bom de nosso povo." 

Da família

Então o argumento válido para o senhor  Amaro Carlos Nogueira, era  também válido para José Florencio Bernardes,  que costumava colaborar com o jornal, casado com Thereza Ribeiro de Lima.   (Ela era a minha tia-bisavó, filha de João José de Lima, meu trisavô) . Para eles o escravo não estava... "assim em situação tão ruim se comparado aos Estados Unidos e a Europa". 

"Acrescentaríamos que d`entre os senhores, uns, e  esse formam a maioria,  consideram o escravo, como pessoa da família, pensam-no, si não com amor, com humanidade, principalmente nas moléstias, quando em geral são objecto de mais desvelos que as pessoas da classe pobre, que o liberto pertenceria amanha"... " E esses menos humanos, ou polidos, não deixam contudo de zelar do escravo, ao menos é duro dize-lo, como mercadoria, como outro objeto de sua propriedade. 

E fazia a  comparação absurda com o proletariado europeu, que "a debater-se nas ancias da fome e das privações, no meio da industria alienada". No pensamento dele era melhor ser escravo que livre proletário, pois proletário passava fome, escravo não, ora vejam!

A partir do ano de 1888, o jornal deixa de circular regularmente, alegando o proprietáro por motivos de saúde. Em sua última edição, em novembro de 1889, anunciou a queda o Império sob o título de "Revolução"

"Para quem escreve estas linhas, o ano de 1888 foi verdadeiramente bissexto, pelo calendário e pela sorte que lhe trouxe, o que terá acontecido a muitos de seus leitores, que, de comum com ele, tiveram a sorte de que lhes fez a lei notável, que, para ser coberta só de bênçãos, e não também de algumas maldições, como infelizmente foi, bastava que os legisladores, ao confecciona-la tivessem mais em vista a observância da fé pública, e, sem demora, a acompanhassem das providências que ela reclamava. Assim não aconteceu, e foi má a sorte da nobre classe, a que pertence o escritor por seu nascimento e pelos melhores de suas modestas posses e também faz parte a maioria dos leitores desta folha. 
O que a todos nos reserva o novo ano?...”

O Baependiano, 21 de abril de 1889.

Nota: O jornal "O Baependiano" fonte de informação para a reconstrução da biografia dos familiares da Família Ayres.

José Florencio Bernardes, o homem dos raios


A conquista e colonização do Brasil foi resultado de um longo processo de expansão  espacial de famílias. Uma das principais famílias  que participaram a formação da Capitania de Sao Vicente, depois denominada Sao Paulo, foi a família Leme. Os Lemes são originários de Flandes, hoje Bélgica, sendo o primeiro membro desta família o Martin Lem (foto), comerciante de Bruges por volta do ano de 1400.

E o que os Lemes teriam haver com a nossa família? Bem, muitas dessas famílias se misturam ao longo da história, como foi o caso dos Lemes e dos Limas, que ainda não eram os "Ayres". Então vamos reconstruir a história das famílias que fazem parte da história do nosso Brasil...

A família dos Lemes era interessada no comércio com Portugal, isso os motivou a imigrar para o Brasil. Passaram pela Ilha da  Madeira  em meados do século 15;  posteriormente foram os pioneiros na colonização de Sao Paulo no século 16. A família já gostava da proximidade do poder e tinha boas relações  com o reino de Portugal. Chegando ao Brasil foram morar em Santos e São   Paulo, organizando expedições de exploração juntamente com seus familiares, agregados e escravos ocupando terras, fundando ocupações. O tronco da família dos Lemes ainda hoje possue ramificações no Estado de São Paulo.

E foi de Guaratinguetá, província de São Paulo que partiu um membro  família dos Lemes rumo as Minas Gerais. A povoação que hoje tem sua data oficial de fundação de 1651, da chegada de Domingos Leme, representante do donatário D. Diogo Faro,   foi o primeiro centro abastecedor do território mineiro. Sua economia era voltada para o comercio de "beira de estrada" de fundamental  importância para o ciclo do ouro feito ao longo da Estrada Real, que ligava Minas ao mar.

E a caminho estava, no caminho ficou. O  avô de José Florencio Bernardes, Domingos Lemes Bernardes (1767-1838) seguindo para Minas, passou por Alagoa, hoje município de Aiuruoca, que ficava num ramal alternativo à Estrada Real, e por lá ficou, tomando a mão  de Ursula Francelina de Castilho (1791-?) em 29 de outubro de 1811 em casamento, onde tiveram 13 filhos: (Anna Francelina, Carolino, Ursula, Maria Clementina, Emerenciana, Candida, Balbina, Antonio, Silvéria, Carlota, Carolina, Domingos, Salviano). Os pais de Domingos Lemes Bernardes já moravam por aquelas bandas. O pai dele Domingos Lemes de Brito (foi padrinho de batismo de Francisco na Capela do Rosário, de Aiuruoca em 19 de dezembro de 1777, comprovando sua residencia na região.

Os Lemes e os Limas

E de casamento em casamento o neto dos Lemes, José Florencio Bernardes (?-?),  casou-se com Thereza Ribeiro de Lima (1837-?), filha de Joao José de Lima e Silva (1798-1875) na Igreja Matriz de Baependi em 22 de julho de 1855, tendo como padrinho  Francisco Bernardino de Faria (1823-?) marido da já aqui biografada  Virgolina Balbina de Lima (1833-?). Virgolina que também batizou a sua filha Priscilliana Isidora do Espírito Santo (1864 -?), assim como também   foi madrinha d a então escrava Sabina Maria da Conceição (1866 -?), mãe de Gervásia Maria da Conceição (1881-1971).

José Florencio Bernardes nasceu em data desconhecida até agora; ele era filho de José Ferreira Gomes e Anna Francelina de Castilho (1800-1889), que era filha de Domingos Lemes Bernardes tinha ocupação de "lavrador", vide nota no "O Baependiano", ou fazendeiro, e possuia um plantel contabilizado até agora de 18 escravos, o que poderia ser considerado "médio" para um fazendeiro em Minas Gerais, segundo a classificação do historiador Douglas Lybbi, aliás meu professor na cadeira "Escravismo no Brasil" da UFMG nos anos de1980.

Da união com Thereza Ribeiro de Lima nasceram 7 filhos:

1) José (1854-?),
2) José Bernardes (1860-?),
Certidão de casamento de José Florencio Bernardes e Prisciliana Isidora
do Espírito Santo, no Jornal "O Baependiano", 1886.
3) Prisciliana Isidora do Espírito Santo (1864-?),
4) Recém nascido sem nome (1870-1870)
5) Maria Florencia (1867-?)
6) Bernardes (1875-1875),
7) Maria Alexandrina (?-?)

O 8° filho de José Florencio Bernardes, foi batizado com o mesmo nome de seu pai, José Florencio Bernardes Junior (?-?), era filho "natural" dele com Maria Eugenia de Lima (?-?), isto é, nasceu fora do casamento com Thereza Ribeiro de Lima, e mesmo assim parecia "integrado" à família, já que o seu casamento foi realizado no altar privado na fazenda de seu pai no Chapeo e com direito à nota no Jornal "O Baependiano", como consta ao lado.

Deu na imprensa

O Bapendiano
6 de Agosto de 1886

José Florencio Bernardes era amigo de Amaro Carlos Nogueira, que editava o Jornal "O Baependiano" e eleito deputado pelo Partido Liberal da Província por várias vezes. Os Liberais, por também serem proprietários de terra e escravos, defendiam uma lenta e gradual emancipação da escravidão, pois temiam consequências sociais graves se as coisas fossem feitas às pressas.

Esta posição com certeza era também compartilhada  por Florencio Bernardes. Fazendo parte dos 0,15 % dos cidadãos eleitores que puderam comprovar 100 mil Reis de renda, era ativo na política baependiana  sendo por várias vezes escolhido para compor câmara de votação como jurado em assuntos jurídicos e administrativos de Baependi, além colaborar com jornal contando os seus reais "causos". Para vocês, no original publicado no Jornal "O Baependiano".


"Digam agora os sabios da escriptura
Que segredo foi esse da natura"

O Baependiano
20 de fevereiro de 1883
E dois anos depois, na edição de 18 de janeiro de 1885 num dramático texto relata o seguinte:

Faisca eleetrica- No logar denominado Chapéo, da freguesia da cidade, deu-se em 10 do corrente o seguinte e lamentável acontecimento, que nos é communicado por nosso amigo o Sr. José Florencio Bernardes:
Tendo Jesuino, morador daquelle logar, chegado da roca às 6 horas da tarde, como estivesse molhado, dirgio-se para a casinha, onde estava sua mulher com 5 filhos menores, 1 filha casada e seu marido e 2 pessoas de fora, e ali sentou-se perto do fogo para enxugar a roupa, chegando-se a ele duas filhas. Nesta ocasião caio no esteio da casinha um raio que matou o infeliz Jesuíno, produzindo-lhe fortes queimaduras de um lado. 
O Bohemio,
Baependi, 6 de marco de 1883
As duas meninas que se achavam ao pé dele ficaram também queimadas, principalmente uma, e as demais pessoas que se achavam na casa perderam os sentidos com o choque, mas a exceção disto nada soffreram. A casinha que era de palha, queimou-se. O infeliz deixa na pobreza a viuva e os filhinhos menores.

E mais raios!

Parece que os fenômenos naturais causavam susto e curiosidade e mais uma vez José Florencio Bernardes é notícia, não mais no jornal "O Baependiano, mas no "O Bohemio", também de Baependi, junto com o anúncio de uma encenação  teatral.Veja à nota à direita

O Bapendiano,
31 de maio de 1881
Com o passar dos anos a   vida de Florencio Bernardes veio a sofrer grandes transformações. Parece que ele estava mais ativo na cidade de Baependi que na sua fazenda no Chapeo, pois era frequentemente chamado para participar da câmara de jurados sendo elogiado até no Jornal como  "um dos mais ativos eleitores". Por duas vezes aparece na coluna "Gazetilha" que dava entre outras notícias o que acontecia na sociedade bependiana, como mostra a nota ao lado: Sua filha D. Presciliana Isidora do Espírito Santo casa-se com Antonio Cassiano Pereira.

Em janeiro de 1886 por motivos de doença  é anunciado sua substituição  da lista de votantes e  em agosto do mesmo ano coloca sua fazenda à venda. 

Vende-se

O que o levou a colocar toda a sua propriedade à venda? Estaria José Florencio Bernardes doente? Não podemos saber. Somente no ano de 1871 faleceram 3 de seus escravos, que não posso dizer se crianças ou adultos, em 1879, Adao, totalizando 4, uma perda grande, ja que os escravos não poderiam mais serem comercializados. O certo é que o anuncio ao lado não esconde o desespero dos fazendeiros, que ja não podiam contar com a mão de obra escrava, para tocar seu trabalho e tentavam se livrar de suas posses, custasse o que custasse: "recebe-se qualquer quantia; para o mais da-se praso." José Florencio estava vendendo tudo, terras, casa, moinho, monjolo e... Toda a mobília da casa! E ainda quase 100 reses! Os negócios iam mau, muito mau para a economia da região...
O Bapendiano,
6 de agosto de 1886

Henrique Monat, em seu livro "Caxambu", publicado em 1894, dedica um capítulo à Baependi, e como cronista, descreve com vivacidade a cidade e através de suas impressões podemos entender  a real situação econômica da região.

Baependi

Causa agradavel impressão  a vista da cidade, quase toda sobre uma collina, com suas casas cercadas de vegetação   sempre abundante: o aspecto é risonho e constrasta com o isolamento arido das casas de Caxambu.

Ao penetrar-se, porém, na cidade, triste decepção! são ladeiras cheias de buracos, outrora calcadas     por lages, de que existem ainda restos; casas velhas, de aspecto lugubre, pobre, algumas a esboroarem-se, a procurarem um centro de gravidade, muitas com o reboco cahido, deixando ver o adobro , a taipa, o arcabouço que as sustentam. 

A`s janelas uma ou outra cabeça aparece, attrahida pelo tropel dos cavallos.
As ruas sao desertas; apenas ás portas das vendas pauperrimas encontra-se uns indivíduos de aspecto miseravel;

Baependy, hoje em decadencia, floresceu até uns vinte annos passados; o tabaco fez-lhe a reputação  de municio opulento, e na história o imperio os grandes principios democraticos ali encontraram defensores heroicos.

Foi berço de homens illustres nas scencias e na politica.  Hoje, nao tem tabaco para dous cigarros, e vive de recordações ; a ver crescer a fama de Caxambú, como uma mãe velha e exhausta ve, cheia de orgulho e de esperancas, elevar-se o filho que a amamentou.

As charutarias do Rio expõem rolos e cigarros que de Baependy só tem os dizeres o rotulo; e a infeliz cidade nem energia tem mais para protestar contra o papel gratuito de testa de ferro. 
A lei de 13 de Maio foi o golpe de misericordia dado a sua lavoura, já decadente.

E termina o texto: Baependy é uma cidade em decadência, disse eu.

Na cerimonia de batismo de sua netinha Auta, em 1887, filha de José Florencio Bernardes Junior, realizado na Capelinha do Piracicaba, ele não estava presente, mas apresentou procuração atravez de seu próprio pai, José Ferreira Gomes (1791-?). Dos últimos registros históricos da vida de José Florencio Bernardes, consta o casamento de Camilo Ferreira Junior (1858-?), filho de Sabina, ainda seu escravo, no ano de 1888, três meses da proclamacao da Lei Aurea, e o casamento de Efigenia, sua ex escrava em 26 de outubro de 1889.

José Florencio Bernardes faleceu em data até agora desconhecida e deixou uma geração filhos, netos:

José Bernardes (1854-?)
José Bernardes (1860-?)

Prisciliana Isidora do Espírito Santo (1864-?), filha casada com Antonio Cassiano José Pereira:

1) Zulmira Cassiano Pereira (1884-?)
2) Alexandre Pereira (1886-?)
3) Pedro Pereira (1887-?)
4) Alfredo Pereira (1892 -?)
5) Casimiro Pereira (1896- ?)
6) Vital Pereira (1899-?)

Maria Florencio Bernardes (1867-?)

Bernardes  (1875-1875)

Maria Alexandrina de Jesus (?-?), filha casada com João  Martiniano de Gusmão

1) Juvenal de Gusmão  (1886-?)
2) Gloria de Gusmão (1890-?)
3) Palmira de Gusmão  (1897-?)
4) Delmira de Gusmão  (1898-?)

José Florencio Bernardes Junior (?-?), filho casado com Maria Francisca/Francelina/ de Castilho

1) Antonia Bernardes (1887-?)
2) Alda Florencio Bernardes (1887-?)
3) José Bernardes Junior (1888-?)
4) Reinaldo Florencio Bernardes (1891-?)
5) Vinaldo Bernardes Junior (1892-?)
6) Alda Bernardes (1894-?) cujos padrinhos de batismo foram: Bernardino Lopes de Faria e Elvira Ferreira Simoes, esposa de Joao Ferreira Simões.
7) Cicomoda Bernardes (1899-?)
8) Amancio Florencio Bernardes (1900-?)

Todos batizados foram realizados na Capela de Santo Antonio do Piracicaba, Baependi, Minas Gerais, Brasil.

Parentesco:
José Florencio Bernardes é parente da Família Ayres por afinidade.  Sua esposa, Thereza Ribeiro de Lima, foi tia-avó por parte de mãe (irmã da mãe) de  José Ayres de Lima, o José Trançador    casado com Gervásia Maria da Conceição, a minha avó.