sábado, 12 de março de 2016

Os Ayres e os Freitas, os elos que nos unem

Os elos, decoração do rio Bengo que corta a cidade de Caxambu, Minas Gerais
Foto Solange Ayres

Os elos que nos unem: Origem dos ramos da Família Freitas e da Família Ayres na árvore genealógica

Hoje vamos tentar elucidar como e quais os elos que unem as Famílias Ayres e a Família Freitas. Ah, a nossa história em comum começou ha muito, muito tempo...

Recuperando a memória...

O mais antigo ancestral da Familia Freitas/Ayres conhecido até agora, digo até agora, pois novas pesquisas podem nos revelar outras surpresas, é  João  José de Lima e Silva, nascido em 1798. Ele que aos 41 anos estava casado com Joana Theresa Ribeiro, 32 e nesta época residiam na cidade de Pouso Alto, antes da família se mudar para o Chapeu, hoje bairro da periferia de Baependi. Não posso dizer ao certo se os outros filhos nasceram em Pouso Alto. Se lá nasceram e lá foram batizados dificilmente poderemos resgatar esses documentos, que eram arquivados na igreja de Pouso Alto e que viraram cinzas num grande incêndio em abril de 1855.

João José de Lima e Silva estava cadastrado e praticava  atividade "agrícola", lia e escrevia. Seus três filhos, Virgolina, de sobrenome Balbina de Lima, José, de sobrenome Ignacio de Lima e Silva e Thereza, que assinaria Ribeiro de Lima/Jesus. Maria de Souza Lima, a mãe de Maria José de Lima ainda não havia nascido, bem como os outros filhos  no documento original abaixo.

Sensu da cidade de Pouso Alto do ano de 1939


Filhos de João  José de Lima e Silva com Joana Thereza Ribeiro de Lima:

             Virgolina Balbina de Lima (1833-?) (do censu)
             José Ignacio de Lima e Silva (1835-?) (do censu)
             Thereza Ribeiro de Lima/Jesus(1837-?) (do censu)
             Rufino de Lima e Silva(1853-?)
             Ignacia Ribeiro de Lima (?-?)
             Maria de Souza Lima/Silva/Lima de Souza (?-1902)
             João  José de Lima (?-?)
             José de Lima e Silva/exposto/adotado (?-?)
             Francisco Theodoro de Lima (?-?)
             Maria Antonia Ribeiro de Lima (?)

A matriarca da Família Freitas

Maria José de Lima (20/10/1881-?) a Mariquinha é considerada a "matriarca" dos Freitas, casada com Ramiro Rodrigues  Freitas. Ela é o ponto de partida  para a reconstrução das uniões na família. Vamos lá colocar essa "parentada" toda num gráfico para que vocês possam entender melhor os elos que nos unem:


Maria de Souza Lima/ Silva/ Lima de Souza se casou com José Fernandes Ayres/Silva (Trançador pai), originando o ramo da Família Ayres à direita no diagrama.
Seu filho, José Ayres de Lima, (Trançador filho), casou-se com Gervásia Maria da Conceição/Ayres   e o sobrenome Ayres foi mantido e levado à frente.

Não foi o caso da irmã dele, Maria José de Lima, a Mariquinha. Ela, que segundo as certidões, já não assinava mais o "Ayres" no sobrenome, mas somente o "Lima", com o casamento, adotou o sobrenome do marido, Ramiro Rodrigues de Freitas, originando aí a Família Freitas, à esquerda no diagrama, e assim o sobrenome "Ayres", a partir de Maria José de Lima, desapareceu.

Para lembrar a todos, José Fernandes Ayres era pai de José Ayres de Lima, o Trançador, que hoje é nome de bairro da cidade de Caxambu. José Fernandes Ayres também era apelidado de "Trançador"  e não só a profissão de trançar  relhos para cavalos passou de pai para filho, como também o apelido.

Ele era possuidor de terras, que segundo informações que circulavam na família, foram perdidas em disputas judiciais com a família Carneiro, terras estas que se extendiam até a divisa com a comarca de Conceição do Rio Verde. Segundo a nossa biblioteca familiar, a tia Célia uma irmã  de José Trançador, a Josephina Ayres da Silva, vivia com o filho  chamado João, (que trabalhava no engarrafamento do Parque das Águas), no alto do bairro, num pedaço de terreno herdado remanescente das tais disputas jurídicas. Essa notícia é recente, de 15/02/2016 e ainda à pesquisar.

Muitos da Família Freitas chamavam a vó Gervásia de "tia" não  por acaso. Mesmo não sabendo exatamente a correspondência de parentesco, as crianças na época não estavam erradas. José Ayres de Lima, o Trançador  era irmão de Mariquinha e assim a vó Gervásia se transformou em tia da família também.

A parentada: Os tios e tias, os primos e primas de vó Mariquinha

Para compreendermos quem fora Mariquinha na árvore da família, vamos fazer aqui uma lista de todos os seus tios, tias, primos e primas, alguns com biografia própria em links em azul. Atentem que muitos dos parentes foram padrinhos, ou afilhados em diferentes ramos das famílias, lá atras no passado.

A tia Virgolina Balbina de Lima era a mais velha. (Ela foi madrinha de batismo, junto com o seu irmão, José Ignacio de Lima e Silva  de Sabina Maria da Conceição, mãe da Gervásia Ayres de Lima) Ela se casou com Francisco Bernardino de Faria em 13 de setembro de 1849, com apenas 13 anos. Da união  nasceram 13 filhos. São  eles:

Os primos e primas:

1)- Bernardino Lopes de Faria (1853.?) que se casou com Elvira Maria do Nascimento.
Lembremos que Elvira era filha de João Ferreira Simões  que era proprietário de escravos, inclusive Justinianna Maria da Conceição mãe de  Sabina Maria da Conceição , que foi mãe  de Gervásia Maria Ayres. O neto de João  Ferreira Simões, Argentino Ferreira Murta,  foi padrinho de batismo de Celia Ayres/Lima Araujo, a filha da vó Gervásia.

2)  Lucianna de Faria (1856-?)
3)  Ludgero Lopes de Faria (1858-?)
4) Lucinda de Faria (1861-?)
5) Eleziel Lopes de Faria ( 1862-?)
6) José de Faria (1864-?)
7) Arminda de Faria (1867-?)
8) Sabina Bernardina de Faria (1869-?)
9) Bruno de Faria (1872-?)
10) Maria de Faria (1875-?)
11) De Faria (1875-1875)
12) Juvêncio de Faria (1877-?)
13)  Escolástica Lopes de Faria (?-1879)

O tio José Ignacio de Lima e Silva (1835-?) que se casou com Fraujina Honorina de Jesus em 12 de agosto de 1860, no Chapeo, em Baependi. Da união  nasceram 4 filhos:

Os primos e primas:

1) Anna Frauzina de Jesus (1857-?), que se casou com, pasmem, Camilo Ferreira Junior, filho de Justinianna Maria da Conceição , avó de Gervásia.
2) Candida de Lima (1860-?)
3)- Francisco Ignacio de Lima (1862-?)
4) Ana Ignacio de Lima (1865-?)

A tia Thereza Ribeiro de Lima/Jesus (1837-?) que se casou com José Florencio Bernardes em 22 de julho de 1855. Da união nasceram 7 filhos:

Os primos e primas:

1) José Bernardes (1854-?)
2) José Bernardes (1860-?)
3)Prisciliana Izidora do Espírito Santo (1864-?)
4) Maria Florencia (1867-)
5) Bernardes (1875-1875)
6) maria Alexandrina ( ?-?)
7) José Florencio Bernardes Junior (?-?)

O tio Rufino de Lima (1853-?) que se casou com Rita Carolina de Castro (?-?)
 em 26 de julho de 1875 na Capela de Santo Antonio do Piracicaba. Da união nasceram 7 filhos:

Os primos e primas:

1) José de Lima (1876-?)
2) Cesar de Lima e Silva (1878-?)
3) Maria de Lima e Silva (1880-?)
4) Antonio de Lima (1882-?)
5) Benjamim de Lima (1884-?)
6) Joao de Lima e Silva (1886-1897)
7) Eudoxia de Lima (1890-?)


A tia Ignacia Ribeiro de Lima (?-?) que se casou em 1861 com Candido José Ferreira (?-?)

Os primos e primas:

1) Bibiano José Ferreira (1862-?)
2) - Ferreira (?-1873)
3) Maria Candida Ribeiro (1864-?)
4) Candida Ferreira (1869-?)
5) Cornélio José Ferreira (1880-?)

 O tio João José de Lima  Filho (?-?) casado com Theodora Constancia de Vasconcelos (?-?)

Os primos e primas:

1) Izabel Francisca de Jesus (?-?)
2) Ludgelo de Lima (?-1865)
3) Galdino Emydio de Lima (1869-?)
4) José Augusto Anselmo (1871-?)
5) Amélia Eugenia do Espirito Santo (1872-?)
6) Samuel Augusto de Lima (1874-?)
7) Rachel Silva (1876-?)
8) de Lima, (?- 1884)
9) Theodora Constancia de Vasconcelos (filha) (1878-?)


O tio João  de Lima (?-?)

O tio Francisco Theodoro de Lima, (?-?), que se casou em 23 de fevereiro de 1870 com Maria Gabriela Alves Ribeiro (1855-?). Gabriela era filha de Gabriel Alves Ribeiro, aquele que doou o sino para a Capelinha de Santo Antonio do Piracicaba, na região de Baependi, Minas Gerais.

Os  primos e primas

1) Antonia de Lima ( 1873-?)
2) Marcos de Lima (1875-?)
3) Francisco de Lima (1875-?)
4) filho de Lima (1876.1876)
5) Maria de Lima (1877-1884)
6) Antonia Petronila de Lima (1879-?)
7) Agueda de Lima (1882-1882)
8) Gabriel de Lima ( 1885-?)
9) Maria de Lima II (1887.1887)
10) José de Lima (1889-?)
11 Tercilia de Lima (1892-?)
12) Dorcina Natividade (1894-?)
13 Priciliana de Lima (1897-)
14 Ercilia de Lima (1899-?)
15 João  de Lima (?-1888-?)
16 Joana de Lima (?-1883)

A tia Maria Antonia Ribeiro de Lima (1871-1903) (?)

Mais links para as postagens:
Capela de Santo Antonio do Piracicaba, uma visita

Agradecimentos ao Arquivo Público Mineiro pelo envio do documento do Sensu de Pouso Alto.

quarta-feira, 2 de março de 2016

Argentino Ferreira Murta, o professor

Turma da 4a Série de Contabilidade de 1966, em Caxambu
Quem conheceu o professor Argentino? Sei, poucos em 2016 vão dizer: "Eu!"
E vocês perguntariam, o que o Senhor Argentino estaria fazendo aquí no Blog da  Família Ayres? Temos muitas razões  para biografá-lo. Argentino Ferreira Murta era neto de João Ferreira Simões, o proprietário das escravas Justinianna Maria da Conceição e Sabina Maria da Conceição, respectivamente avó e mãe de Gervásia Maria Ayres, esta última livre, pois  nasceu posteriormente à lei do Ventre Livre.




Argentino foi o único filho homem do casal João  Gomes Murta e Eliza Ferreira Simões. Nasceu a 26 de agosto de 1896, batizado ao 26 de outubro do mesmo ano pela sua avo Maria Eugenia de Lima. A sua primeira irmã Maria não viveu um ano. Faleceu de bronquite capilar aos 8 meses em 1895. Em 1901 nasceu sua segunda irmã e novamente deram o nome de Maria Murta. Era comum  dar nome de um filho morto à próxima criança nascida. A terceira irmã, Elvira Ferreira Murta/Mello (1905-?) e a quarta, Adelina Ferreira Murta (1909-?), todas nascidas em Caxambu.



Em pesquisas posteriores, 28/09/2016, achei dois recortes no Jornal O Patriota, dos anos de 1945. Na sua estada em Caxambu, Argentino fez sua contribuição para a reconstrução da Capela de Nha Chica. Naquele tempo se prestava contas em público e em centavos! Três anos mais tarde, em 31 de maio de 1948, o mesmo jornal anuncia sua definitiva mudança para a cidade.




Esta tudo ligado, esta tudo ligado...




Argentino  e seus antepassados tiveram uma grande convivência com a Família Ayres. Não só porque eram vizinhos lá no  Chapeu, hoje bairro de Baependi, mas também porque ha laços  entre as famílias de apadrinhamentos tanto de batismo como casamentos. Sua mãe, Eliza Ferreira Simões/ Murta (1876-?), que foi batizada na nossa conhecida Capela de Santo Antonio do Piracicaba, teve como padrinhos sua irmã mais velha, a Elvira Murta que na época tinha 14 anos,  juntamente com Bernardino Lopes de Faria, filho de Virgolina Balbina de Lima.Vejam acima.

Mas não é só isso. A dona Eliza foi ainda foi madrinha de casamento juntamente com  João  Baptista Dias, (casado com Inocência Dias, a outra filha de João  Ferreira Simões), de Justinianna Maria da Conceição, ela aqui novamente, que se casou na Igreja Matriz de Baependi com Pedro, Maria que era ex escravo de Gabriel Theófilo de Andrade, fazendeiro na região de São Thomé das Letras e Cruzília. Na época do casamento, em 20 de outubro de 1888, Justiniana já era "ex" escrava de  João  Ferreira Simões, (vide certidão abaixo) o avo de Argentino, pois a princesa Izabel havia assinado a Lei Áurea em 13 de maio do mesmo ano.  A anotação dos nomes à esquerda é um sonho:   "libertos". 


Mas as relações  de Argentino com os Ayres não param por aí. Aos 26 anos de idade foi padrinho de batismo  juntamente com Maria da Conceição Machado, de  minha nossa tia Célia Ayres de Lima/Araujo,  na Igreja Nossa Senhora dos Remédios em Caxambu. Vocês virão? Esta tudo ligado.

Da rua das Murtas para a Estrada Real

Muitas pistas nos levaram a conclusão que  João Ferreira Simões teria tido uma residência no Caxambu Velho. As conclusões pude tirar ao ler a certidão abaixo do ano de 1903. Ana Francisca da Silva, de 70 anos, faleceu na casa de João Ferreira Simões, no "Caxambu  Velho", (vide certidão abaixo). Além do que, Sabina Maria da Conceição sua ex escrava também residia no Caxambu Velho. Então...

Interessantemente ha em Caxambu  uma rua denominada "Rua das Murtas", (veja no google). Se analisarmos bem, o terreno estaria situado na beira da Estrada Real, que ligava Caxambu à Baependi e de lá para o Chapéu, onde José Ferreira Simões tinha fazenda. No mapa, detalhei o caminho possível feito a pé, ou melhor, a cavalo, na época, entre Caxambu e Baependi. Este é o percurso oficial da Estrada Real, que inicia no Palace Hotel. Seria nesta rua em que "as Murtas", a filha e as netas, que talvez lá no terreno remanescente de seu avo João  Ferreira Simões, fizeram suas casas e lá moravam? Ainda esta para ser pesquisado.




Filosofando em grego

Argentino morou na sua juventude em Caxambu e foi para o Rio de Janeiro estudar. Voltou anos mais tarde para lecionar na Escola de Contabilidade, e lá se aposentou. Em 1973 ele ocupou por um ano a presidência da Camara dos Vereadores de Caxambu.

Mas a profissão de educador não o deixava ficar em casa. Mesmo aposentado cumpria a rotina de ir à escola noturna de Contabilidade acompanhado de sua pasta preta, todos as noites, que funcionava no Grupo Padre Correia de Almeida. Fui sua aluna, mesmo que somente por algumas poucas horas. Vez ou outra, quando algum professor faltava, estava lá o Seu Argentino para fazer substituição falando de Sócrates e filosofia grega, mesmo que os alunos quase o ignorassem. Uma pena, ele tinha muito a dizer e a nos ensinar.

20 anos de noivado

Argentino noivou-se por muito tempo, 20 anos! e depois se deu conta que ele não combinava com a noiva e assim desistiu de se casar. Essa história foi contada à sua aluna do Colégio Comercial de Caxambu. Faleceu solteiro convicto, em Caxambu, na década de 1990.

Abel Murta de Gouveia, o sobrinho cassado pelo regime militar

Abel Murta de Gouveia em campanha política
em frente à Igreja Matriz, Caxambu, 1960
Abel Murta de Gouveia e a fogueira suspeita

Bem, os laços familiares continuam se entrelaçando. Abel Murta de Gouveia era bisneto de João Ferreira Simões, filho de Maria Murta de Gouveia, a tia de Argentino, casada com Guilherme Vilela Gouveia. Ele se formou advogado foi diretor e lecionava na Escola de Comercial em que também o seu sobrinho Argentino lecionava, no ano de 1959. Ele foi eleito prefeito de Caxambu em 1964 e posteriormente cassado pelo regime militar. Constou na lista dos "indiciados" a absurda acusação de "uma fogueira suspeita" no quintal de sua casa, demonstrando a fantasia na cabeça dos militares, que viam em tudo o comunismo ameaçando o regime político vigente, isto é a Ditadura Militar, assim escrito no protocolo de acusação do  sobrinho Abel:

Abel Murta de Gouveia, sobrinho
 de Argentino Ferreira Murta
"E estas revelam o bom critério de defesa e melhor conhecimento da doutrina de Marx, e suspeita mais grave contra Dr. Abel é revelada pela testemunha José de Paula Pereira, quando afirma que entre meia noite e uma hora viu que ele e seus familiares levavam papéis a uma fogueira no quintal da casa, justamente um dia antes da prisão."

Enfim, os militares viam em tudo  o fantasma do  comunismo. Reabilitado, se tornou Juiz do Trabalho, atuando em Caxambu. Viveu seu últimos dias de aposentado, trabalhando ainda como advogado, na pacata cidade até sua morte em 21 de fevereiro de 2008.


Abel Murta de Gouveia (leia aqui uma entrevista dele em 2002)

Fonte: Arquivos do DOPS
Foto: Não  foi possível identificar o autor
Agradecimentos:  A Claudio Eduardo Gomes Nogueira, Zeka Rafide, e Sandra Helena Murta de Gouveia, pelas duas fotos enviadas, via grupo Colégio Normal Santa Terezinha.

sábado, 20 de fevereiro de 2016

Capela de Santo Antonio do Piracicaba, uma visita histórica


Capela do Santo Antonio do Piracicaca, e à direita
entrada para o Cemitério.
Capela de Santo Antonio do Piracicaba lugar em que os nossos antepassados foram batizados, se casaram e ao lado da Capela encontraram seu último lugar de descanso, como o nosso mais antigo ancestral, Joao José de Lima e Silva lá sepultado em 1 de janeiro de 1875. Nas nossas estatísticas foram realizados 306 batismos de parentes e afilhados e 18 descansam neste pedaço de chão ao lado , abandonado as ervas e picões. Essa capela tem história, muita história...


Estrada Real, Caminho Velho
A visita

Muito antes de nossos antepassados se radicarem na região de Piracicaba, hoje Bairro da Cidade de Baependi, Minas Gerais, a capelinha ja escrevia sua história. Um documento inédito  publicado em 2012, denominado "Visitas Pastorais", elucidou a vida e a administração das igrejas e paróquias de Minas e é sem dúvida o maior  e mais importante conjunto de textos de natureza estatística. Um rico relato feito pelo Dom Frei da Santíssima Trindade (1762-1835), entre anos de 1821 a 1825, percorrendo os caminhos da Estrada Real.

Nos fins de julho de 1824, em sua 4a visita, Dom Frei visita a Capela de Santo Antonio do Piracicaba, cuja abrangência pertenciam "500 almas". No Censu da época só se considerava a população livre e sendo assim, os escravos não eram considerados... "cidadãos", que passaram somente a serem contatos após o senso de 1872.

Padres com chapéus nas cabeças e o escandaloso batismo em gamelas 

Dom Frei relatou não somente o estado de conservação das igrejas, mas também os problemas da organização administrativa, comportamento político e moral de deviam ser observados pelos párocos e suas ovelhas. O rol das queixas e observações era longo: desorganização administrativa dos cartórios eclesiásticos e livros de assentamento em geral, templos  em ruínas ou inacabados, e a ignorância  da doutrina, em grande parte praticada pelo próprio clero, matrimônios  ilícitos, ruína de costumes, além dos desentendimentos entre vários clérigos. 

Nas paróquias percorridas, fazia observações e recomendações  que tinham quase o mesmo sentido: o da observância e cumprimento dos preceitos católicos, nem sempre praticados, nem pelos párocos, nem pelos seus fiéis.

Em sua visita, Dom Frei chegou a  Baependi no dia 01 de agosto de 1825 e não  gostou do comportamento de seus fiéis e logo proibiu os sacerdotes do uso de "roupas profanas  e a celebração de sacramentos sem vestes próprias":

"... e muito mais ao da Sagrada Eucaristia, as mulheres que se atreverem a aparecer com vestidos indecentes, impróprios de matronas cristãs, e que só podem competir a gentias brutas, ou vis e ridículas comediantes, com tivemos a desgraça  de observar e com maior vigor nos transportamos à mais exempar e pública repreensão. Calem-se as mulheres do templo e nele entrem com as cabeças   cobertas".

E continuava:

"Estranhamos muito aos pais-de-família a relaxação em que se têm entranhado, consentindo tão abominável excesso de traje em suas mulheres e filhas criadas no seio do cristianismo, e lhes encarregamos muito as consciências e responsabilidade na presença do Supremo Pastor dos Pastores, entanto que gememos na oração a ver se alcançamos a reforma de tão graves abusos."

E em Pouso Alto se exaltou com a notícia que sacerdotes acompanhavam os defuntos "sem vestes talares e com chapéus nas cabeças!!!" isto é, vestimentas que usam os sacerdotes em cerimonias religiosas, dando-lhes representatividade. Escandaloso achou de que na Capela de Santa Luzia, na freguesia de São  Gonçalo, por falta de pia batismal de pedra, os batismos eram realizados em gamelas... 

E repetia incansavelmente em: "E com igual ardor ordenamos aos pais-de-família sejam cuidadosos em que seus escravos venham aos templos ouvir missa nos domingos e dias santos, ao menos uma vez a cada mes aprender a doutrina do seu reverendo pároco." 

Nem tudo estava ruim. A freguesia de Aiuruoca, em sua perspectiva, era "exemplar". Mas acredito que 50 anos mais tarde a mesma freguesia não iria receber boas notas: O pároco local, José Eduardo Honorato da Silveira (1826-1885), que batizou Sabina Maria da Conceição, mãe de Gervásia Maria da Conceição, a vó Gervásia, virou político local, candidatando-se para vários períodos legislativos na Freguesia de Aiuruoca. Ele não era exceção quanto aos sacerdotes exercerem atividades completamente diferentes que cuidar de suas ovelhas. Muitos eram possuidores de terras e exerciam atividade agrícola, bem como de mineração, como relata o Frei, sobre a Freguesia de Nossa Senhora do Pilar de Congonhas, em Sabará:

"O pároco existente é o padre Antônio Fernandes Taveira e os sacerdotes que ajudam são o padre, mestre de gramática latina, Joaquim Machado Pinheiro, de 63 anos, o padre Joaquim Barbosa Ferreira, de 73 anos, o padre Joaquim Albino Pereira, de 34 anos, o padre Antônio de Freitas, de 50 anos, na sua fazenda de engenho e de grande mineração."

A Capela de Piracicaba

Falemos primeiro da cidade de Baependi a qual ela era ligada. A Freguesia de Baependi, que recebeu o alvará régio em 2 de agosto de 1752, ficava a 55 léguas de Mariana, portanto a 264 km, do bispado situado na cidade hoje Mariana a qual era filiada e 64 léguas, 307 km da Corte do Rio de Janeiro e continha 7.560 "almas", segundo o mapa de 1819. Toda a Freguesia continha 1.896 fogos, termo usado como fogões, metonímia de casas, lares.
A capela de Santo Antonio de Piracicaba foi erigida "por provisão  de 22 de fevereiro de 1770", assim consta no livro "Instituições  Canônicas  do Bispado de Mariana", do qual Baependi pertencia.

Até o ano de 1838, pertenciam à Baependi as capelas filiais de Santo Antonio de Piracicaba, hoje situada no município de Baependi, São   José do Favacho, pertencendo hoje ao município de Cruzília, e Conceição do Rio Verde, município do mesmo nome. Todas as tres capelas mencionadas, segundo o Dom Frei, estavam em bom estado de conservação e ornados com toalhas de linho, uma exigência dele para as capelas, cujas toalhas de algodão em outra ocasião, foram por ordem dele retiradas. 

Porta lateral da Capela que da acesso
direto ao Cemitério  Santo Antonio do Piracicaba

Mas voltemos para a nossa Capela... Assim foi mencionada a Capela de Santo Antonio do Piracicaba no documento original:

Ermida de Santo Antonio do Piracicaba.

Confessionário em cor
roxa, cor cidata duas
vezes no texto.
É esta capela dedicada a Santo Antonio com sua capela-mor forrada por cima, com o presbitério também assoalhado de tábuas, com seu arco cruzeiro perfeito de madeira e grades divisórias, com seu altar de comprimento de 9 palmos e 3 de largura, fora a banqueta, tudo em branco, ornado com frontais, um de branco e encarnado, outro de roxo e verde, com três degraus para o trono, onde esta a imagem de Santo Antônio, padroeiro, de 3 palmos de alto e perfeita, com um altar colateral onde estão duas imagens: uma de Santana, outra da Conceição, e em ambos estes altares as imagens de Cristo Crucificado, e são perfeitas e as alfaias são as seguintes: duas pedras de ara sãs e forradas, uma casula com os seus pertences de damasco e outra de cambraia roxa e verde, duas alvas novas com seus amictos e cordões, seis toalhas de altar de linho com renda e mais duas para a Comunhão, um cálice com patena de prata, dourado por dentro, um missal e um ritual já velhos, porém ainda em bom uso, um caixão na sacristia para guardar as alfaias e ornamentos da igreja. A pia batismal é de madeira, está na esquerda, à entrada da igreja, e os vasos dos santos óleos são de chumbo, e está toda a igreja para campar, assim como o seu adro por cercar.

A Capelinha do Piracicaba recebeu "boas notas" de conservação e estava "nos conformes" se comparadas com outras capelas das Minas Gerais, como o caso da Paróquia da cidade vizinha, Pouso Alto:

"A igreja matriz acha-se muito arruinada, sem forro e com 3 altares de madeira e muito pobres, o que não corresponde à riqueza dos fazendeiros, e no mes de março do ano de 1825 caiu a torre com um temporal  e obra de tres a quadro bracas de uma parede e duas bracas de frontispicio de baixo a acima, e mostra a continuar a destruição ."


A nossa visita


Quase 200 anos depois, mais precisamente  187 anos, no ano 2012, visitamos a Capela do Piracicaba. O Frei da Santíssima Trindade iria se exaltar se visse a situação da capelinha nos nossos dias...
Se fossemos dar o nosso "parecer", diríamos que nada mais encontramos que uma capela em reformas. Tudo que era antigo no interior da capela, que lembraria o templo visto por Dom Frei em 1825, como por exemplo a escada que levava ao coro, estava deposta do lado de fora. O altar era novo e horroroso construído de alvenaria, e o Santo Antonio padroeiro, ausente. Segundo nos informou a senhora que tinha a chave da capela, o pároco levou-o para ser restaurado. Havia um substituto sobre a mesa... Não era o autentico...

Um oratório, provavelmente tão  antigo como a capelinha, estava depositado  pelo lado de fora da capela (foto). Quem ordenou as "obras" não  tinha exato sentido de memória e nem de restauração. O confessionário estava no repartimento atras da capela e era só desolação. Na minha documentação  preferi deixar  a penumbra falar que fotografar o altar de alvenaria. O passado se foi.




E o cemitério...

os mortos 
estão na Via Lacta.
esquecidos do apocalipse
esquecidos dos oráculos

o tempo não  pode regurgilá-los,
não  ha juízo nas bússulas
nem Estrada Real*
Vista do Cemitério ao  fundo a Capela
Santo Antonio do Piracicaba

Fontes: Visitas Pastorais de Dom Frei José da Santíssima Trindade (1821-1825)
Fotos: Solange Ayres
Poesia: Eustaquio Gorgonne
A visita: Feita por Fatima Ayres, Rosaria Aires e Solange Ayres em 2012.

domingo, 14 de fevereiro de 2016

Janice Drumnond, a vizinha de frente e suas memórias

Janice Drummond
Nasci aí, na primeira curva da rua Quintino Bocaiuva, 160, hoje Av. Magalhaes Pinto, (vejam no Google). Mais tarde mudei para o centro de Caxambu, vizinha da nata social, os Almeida, Dona Ruth e dr. Acássio e o cheiro permanente de pasteis de nata. Quando cheirava era só descer duas casas e tinha pastel de nata na certa. A Zaida na esquina, trazia roupas lindas do Rio pra vender na loja e aproveitava pra copiar as de tricô e tecer iguaizinhas pra mim. E a casa onde nasci virou a casa da vó Orminda e da dona Ritinha. 
Praga pega
Aos 5 anos, a construção da nossa pequena casa por meu pai, me levou de volta ao poeirão da rua Quintino Bocaiuva n° 96 (façam uma visita atreva do google à casa em Caxambu) e ao grupo dos mesmos vizinhos, numa época em que vizinho era sinônimo de família, de amigo intimo com o qual se podia contar. A rua poeirenta me ensinou que rogar praga, pega. Brincando de pegador, como sempre eu e a Beth, às vezes a Tereza da Ivone e Alcides, o pó não me deixou ver uma bicicleta e fui atropelada. Não machuquei, mas lembro que pensei: esse miserável há de cair da mesma forma que me derrubou. Dito e feito, a bicicleta bateu numa pedra, em frente a casa onde nasci e o condutor se estatelou. Também não machucou, mas foi a primeira vez que entendi que as palavras tem vida e que podem moldar a vida.
Vó Juruvá
Quase em frente de casa vivia a vó Juruvá. Velha, bem velha, de nome Gervásia, cujo "erre" eu ainda nem conseguia pronunciar, acabou batizada por mim com este nome, que quando eu dizia, todo mundo sabia de quem eu falava. Juruvá pra mim significava ser velho, ter muitas rugas e ter o mesmo tanto de rugas que de poder. Era brava, não gostava que a criançada perturbasse, que atrapalhasse as tarefas domesticas, mas com ar sempre disciplinar, fazia muita vista grossa pra aprontação da meninada.
Era uma casa amarela (veja no google) com uma pequena varanda, onde a gente não tinha carta branca pra circular no espaço interno, nem mesmo pra chamar no potão, mas nem precisava. Tinha um quintal enorme que varava o quarteirão. Entrava-se pela rua de cima e saia-se pela rua de baixo, paralela, e ai nos fundos, a casa das amigas quase irmãs, eleitas irmãs, já que eu não as tinha: A Beth (de idéias mirabolantes de resultantes sempre discutíveis, sempre contando com meu apoio, mesmo sendo mais nova. Verdadeiro ídolo de maturidade pra quem mal das fraldas havia saído) e sua irmã Solange, mais nova que eu, pequena demais pra sofrer as conseqüências, mas participante ativa das “artes”.
O portão de entrada da casa,  era seguido por uma cerca alta de bambu, provavelmente feita com maestria pelo seu Joaquim Roque. Este, remanescente ainda da escravatura,  passava o dia plantar, a cortar, igualar as ripas de taquara e estaquear a cerca perfeita, enquanto distribuía historias de época que nos enchiam de medo e questionamentos. Eram contos de fantasmas que assombravam fazendas, de entidades folclóricas escondidas em capoeiras, e devo agradecer a ele o estimulo a imaginação e as memórias vivas que me fazem relatar com propriedade tudo o que vivemos.
Seguindo a cerca, aí sim, encontrávamos o portão certo onde chamar. Havia este acordo tácito, nunca redigido ou discutido mas que todos conheciam e respeitavam. Não adiantava bater na porta da frente, esta nunca se abria. Mas gritar vó Juruvá deste portão lateral, era verdadeiro “abre-te Sésamo”. Lá vinha ela, encarquilhada, escorando no seu bastão, pra mim a visão de uma mão no cajado e outra apoiando as costas, a voz seca a perguntar: "O que voce quer". Atrás dela a visão do paraíso. O quintal de fora a fora, com as frutas, na dependência da estação. No outono os cítricos, as laranjas de todas as qualidades espalhadas, podendo colher a vontade e algumas proibições que me soavam como a maça do paraíso. A laranja Bahia não, nem pensar em chegar perto... Mas vez por outra eram colhidas e a gente recebia delas em casa, como presente à minha mãe. A laranja lima, essa nem pensar... Era a que ficava mais perto da varanda de trás, perto da cozinha, a única que ela mesma gostava. Mas era tanta laranja que só mesmo a proibição nos fazia rodear vez por outra as proibidas, ideia da Beth pra atormentar a pobre. No verão vinham as jabuticabas. Uns quatro a cinco pés carregados, pra chupar em volta do galho, limpar o galho pra poder sentar nele e continuar a festa sentado pra não se cansar. Dois pés de jabuticaba rainha, enormes, do tamanho dos olhos da gente e também proibidas. O jeito era ficar namorando, medindo crescimento, esperando a liberação. Quando este dia chegava, a festa era total.
Laranjas de umbigo
Nunca me esqueci da baita surra que tomei, dia em que aprendi o significado da palavra “cantada”. Minha mãe precisando falar com a avó Juruva e eu de intrometida aproveitando a deixa pra praticar oportunismo, dizendo eu também vou, quero ver a vó, eu vou junto, até ser levada.  Era questão de atravessar a rua em passo obliquo. De pé no portão correto, o do quintal, mamãe chamando a vó Juruva e eu na expectativa do portão se abrir pra “cantar” umas laranjas Bahia, proibidas pra nós, mas podendo ser, talvez, obtidas pelo respaldo da presença da mãe. Ledo engano. Minha mãe desfiando o que foi la dizer e eu atrás das costas dela só cobiçando as laranjas. Eu toda voltada pro pé de laranja Bahia logo ali no meio do terreiro.  Ousei a primeira vez: vó, to com vontade de chupar as laranjas de umbigo. E ela: "Ainda não estão no ponto, estão azedas". Um pouco de espera e la vou eu de novo: vó não tem problema estarem azedas, é pra fazer laranjada. E ela: "Quando estiverem prontas te dou". Mais espera. Vó, me dá só uma... E ela: "Não, vocês tem todas as outras pra chupar". Minha mãe vermelha de vergonha e raiva pedindo pra não insistir. E eu, sem noção: vó, uma só, com cara de quem nunca viu uma laranja na vida, tipo eu nunca chupei uma laranja destas e vou morrer se não me derem, vou morrer com a boca cheia de formiga. E a vó, já sem graça, cedeu e disse:  você pode apanhar 4 (um bambu bifurcado deixava as danadas ao alcance). Fiquei radiante e já ia entrando portão adentro e fui suspensa pela orelha.  Voltei pra casa sem as laranjas, tomei uma surra e ate hoje ouço a mamãe dizendo:  "A gente não fica cantando ninguém pra ganhar nada". E assim a lição ficou bem aprendida. Deixa as laranjas pra la. 
Por sua vez...
Preferível colher marmelo na casa do Luiz eletricista, que o Douglas ajudava a apanhar. Não tem gosto de nada o tal do marmelo tirado do pé, mas pelo menos se entende de onde sai a tal da vara de marmelo, famosa para as crianças da época, considerada o tipo de surra das mais doídas. Alias, segundo o Luiz, marmelo é ruim, mas o abacate , “por sua vez” (termo que ele enfiava em todas as falas) era gostoso e na casa dele tinha, logo na divisa de terreno dele com o nosso, servindo ás duas casas com as frutas que o Fabeco em pessoa colhia pra nos dar. E do lado de ca da cerca, na minha casa, o abacateiro tinha um galho frondoso, dando pra horta, onde o Joaquim Roque fez uma plantação de milho, separada do jardim. Ele amarrou no abacateiro um balanço de corda interminável, que levava a criançada da varanda da casa do Luiz e passava a cerca entre a horta e jardim na minha casa. Verdadeira viagem pela vizinhança em gangorra. La até a varanda do Luiz, onde a Conceição ajudava a costurar as roupas da bonecas, invadia a plantação de milho e atingia um ponto acima das margaridas do jardim passando por cima da cerca. A gente ia e voltava como se não houvesse divisa, a gangorra vencendo facilmente as cercas e ninguém se incomodava. Os adultos, independente de parentesco, vigiavam, zelavam e disciplinavam.
Eu e a Beth, aproveitávamos. Minha mãe sempre ocupada e fora, (já que Arminda não desviava o olho da gente, era dona de casa e estava por perto o tempo todo evitando traquinagem. Solange sempre na barra da saia dela). Descíamos o guarda roupa da minha mãe, casacos, sapatos de salto e assim paramentadas íamos pro balanço imaginando sabe-se la o que, talvez viagens a Paris.
Melhor que Paris

Quintal da vó Gervásia, com Elizabeth e Solange Ayres, 1965
Mas o quintal da vó Juruva era o mundo, muito melhor que Paris. Quebrando a direita no meio do quintal, rumávamos pra casa da Arminda, (foto) casa das netas legitimas, a Beth e a Solange. O pai delas bravo, José Ayres, filho da vó Juruvá. Mas quem sabia o que era legítimo? Era todo mundo neto. E eu nunca pensei que não fosse. Curiosamente, a mesma cerca de bambus do seu Joaquim rodeava a casa delas. Coincidentemente, a porta da frente dava pra rua de baixo e a gente nunca entrava por la, sempre pelo portão lateral que dava na varanda dos fundos. Ai sim, na beira da cerca muitas dálias, a entrada super receptiva. E em frente a porta principal, ao invés de jardim uma plantação de milho. E a gente vigiando o milho, olhando se o cabelo dele já estava vermelho,  porque sabia que ia ter milho cozido quando pronto, ia ter curau e pamonha e a gente ia ajudar a debulhar os que ficavam duros pra dar pras galinhas, ia fazer monte de coisas com os sabugos, bonecos, carrinhos, cavalinhos de sabugo e alguns gravetos, mas o mais importante: aguardar a colheita pra detonar os pés secos brincando de escolinha. Ali reproduzíamos a sala de aula, com os alunos competentes e incompetentes, cada qual um pé de milho seco com nome, os mesmos nomes dos colegas de classe da Beth. E coitados dos considerados incompetentes, vítimas das reguadas disciplinares, no nosso sistema de ensino. A Beth era sempre a professora e eu e Solange os alunos. Solange meio “café com leite“ na brincadeira,  mas atuando como era de se esperar, sentadinha obedecendo a Beth.... e ai da gente se não obedecia em poucos dias da repetição da brincadeira, não tinha um milho seco de pé. Ficava fácil pro seu Joaquim roçar.
Arlindo, o charreteiro, Geraldo careta, Catuia e outras figuras

No fundo do quintal (frente da casa da Beth) outro portão dando na rua de baixo, de frente pra uma casa urbana sim, mas com ar de fazenda, com paiol, curral, vacas e cavalos. O Arlindo charreteiro, vizinho que ocupava um quartinho na casa do seu Virgilio, o da esquerda da vó Juruva, tratava ai o cavalo da charrete e ai a gente via como banhar e escovar um cavalo, como paramentá-lo para o oficio e prepará-lo pra carregar turistas na porta do parque, função menos nobre do que a de  dar carona pra gente chegar a escola, pra não ter que fazer a caminhada no inverno, todo embrulhado em cachecol, sofrendo com os 6 graus de temperatura, a neblina e a geada que cobriam os gramados pelo caminho.

As Mudinhas, foto Nia de Souza
Arlindo sentado no estribo, eu refestelada folgada no banco, o toque toque da ferradura no paralepipedo das ruas, só na insistência pra que me entregasse os arreios, porque alem da carona, divertido mesmo era controlar o cavalo. As vezes ele permitia, outras vezes não. A volta sempre animada, correr a distancia enorme do muro do Crac, com medo do Geraldo careta, coitado, sofria de bócio, e as caretas banguelas eram assustadoras mesmo sendo apenas sorrisos. Com sorte, não trombava com Catuia que era o terror da criançada, com sorte ganhava-se balas no Anízio e no Zé Caetano, e com mais sorte ainda, as Mudinhas apareceriam na parte da tarde pra uma seção esquadrão da moda. O ócio da gente, oficina do capeta, e as mudinhas nossas bonecas vivas. Miúdas, mudas, enfezadas (uma mais que a outra), sempre com uma varinha na mão pra fazer correr a criançada impertinente, mas com a Beth pareciam hipnotizadas. Pegávamos roupas velhas, bolsas, sapatos, rouge, pó de arroz e la iam as mudinhas super fashion com nosso trato. E o povo perguntava... Quem fez isso com as mudinhas? Elas cada dia com um tipo de decoração, era só passar pela nossa mão.
Brincando de roda com vó Ritinha

Infância rica e criativa. Se quisesse ver lindas pinturas, e até brinquedos inventados, era só andar mais um pouquinho, passar o portão da vó Juruva e bater na casa da Zezé Petterle.  O barranquinho em frente da casa era apoio pra gente subir em bicicleta. Ainda guarda cicatrizes no joelho. Se quisesse aprender crochê, tricô, bordado, era só ir pra próxima casa. Tinha ali a vó Orminda que ensinava de tudo e ainda de brinde, dava pra brincar com a vó Ritinha que, centenária e esclerosada, adorava brincar de roda e de boneca. Pra gente, esclerose não era doença, vó Ritinha era lucro, mais uma pra brincadeira. Se quiséssemos ver gente pintando, desenhando e tocando acordeon, era só rumar ao campo do Crac, na frente a casa da Ivone e suas prendadas filhas. Perigo não tinha, cumpadre Lazinho, gordo e cheio de varizes tinha a alfaiataria logo ao lado e dava noticia de tudo, já que vivia sentado ai na porta. Não achasse ninguém, tinha o Marruco filho do Lazinho, sempre com o cordão escorrendo do nariz, mas bom de brincadeira, mais tarde virou marceneiro. Do lado dele a casa dos parentes do padre, esta intocável, mas servia pra bater palmas, sair correndo e esconder pra ver as pessoas misteriosas que quase não se apresentavam em publico. 
As divorciadas

Descendo a Quintino bocaiúva, tinha a casa do Luiz Carlos, hoje pediatra,  mas na época menino minguado, cheio de irmãs e irmãos. Não eram de brincar muito, mas era a única casa no começo da década de 60 que tinha televisão. Era ruim, só funcionava as vezes, mas era tudo o que a gente sabia de modernidade. Em frente do Luiz carlos, a casa da Americana, mulher emancipada, sozinha, separada do marido, motivo de falação da mulherada da cidade, cabelos ruivos tingidos, maquiada, dona do próprio nariz, local meio que interditado a filhas de mães bem casadas, cujo divórcio seria impensável na época. 
Eram duas divorciadas na cidade toda, contadas dedo: A americana, e a Mariazinha ex mulher do Walace, esta sim bem justificada, culpa do marido a separação: bebida...
E mesmo assim apenas  digerida pelas mulheres, jamais aceita, ainda bem que vivia do outro lado da cidade, em cima do posto Texaco do ex.  Assim não oferecia muito risco a convivência. Chiquerrima, mentalidade dos EUA, viajava e trazia roupas americanas lindas, casacos de pele até. Estes eram cobiçados pra se enfrentar o footing em frente ao cinema, programa de final de semana dos casais. Eu diria meio footing já que os ricos iam ate a metade e voltavam e os pobres faziam a outra metade, só que do outro lado da praça, em frente a radio

As mulheres toleravam Mariazinha pela vaidade, mas ficava o estigma: divorciada, vivendo em pecado frente a Igreja Católica, coisa muito séria pra uma época que até passar em frente a igreja protestante era heresia. Por sorte a Americana vanguardista era vizinha e... Fornecedora de fotonovelas, coisa tão proibida quanto revistinha de sacanagem, já que estimulava a libido, mesmo que fossem só historias de amor. A Beth era freguesa absoluta, mas eu a guardiã. Ai dela se Arminda descobrisse! Eu sabia ler desde os 4 anos, mas o interessante ali nem era ler e sim ver as fotos... Foto de beijo, ai que pecado. Mas sábado era hora de confessar e ficava tudo resolvido. Era confessar ou não tinha comunhão no domingo. 
Os "anjinhos" do mes de maio
Coroação no mes de maio. Janice Drummond colocando a palma.

E era preciso comungar porque todo ano tem mês de maio e criança comportada, em maio, virava anjo, verdadeira competição de quem tinha a veste mais bonita, quem tinha a asa mais possante e em especial... Quem seria a festeira? Disso dependia a fartura do cartucho, motivo maior da coroação. Era também o festeiro quem escolhia a função de honra, por palma, por coroa, jogar flores do cestinho ou participar do quadro vivo. Ser anjo na fila era de pouca importância, mas pouco também  nos importava a hierarquia,  já que o cartucho de doces, no final, era igual pra todo mundo. Um frio danado, e a gente de anjo por cima e pijama por baixo, dali da igreja, pra cama direto. Se a festeira era a Maria boleira, a criançada já sabia: o cartucho seria dos bons. E dependendo do festeiro, eram balas amarradinhas, 4 a 5 só. Então nem valia o sacrifício, mas a gente ia, com medo do próximo festeiro não chamar. 

E tinha que fazer bonito porque a Lourdes Silva estava sempre observando, pra escolher quem ia participar de teatro, de concurso de rainha. Eita concurso difícil, a gente tendo que correr a cidade pra vender voto, já sabendo que seria no máximo princesa. A Dayse Marques, era dona de hotel e só os parentes já compravam votos suficientes. Não tinha hipocrisia, a gente sabia que a Dalvinha Marques, filha da Dayse, sempre ia ganhar,mas nem ligava porque ser princesa sempre rendia um perfume Avon com cartão da Lourdes Silva. Tenho o cartão ate hoje e a Lourdes Silva já se foi... 

Sempre fiquei em quarto lugar. Tinha a rainha, a vice rainha e, só me contaram depois que eram só 4 princesas, portanto eu sempre em ultimo lugar. Votos vendidos, iam D Almerinda diretora da escola, com mamãe e Valderez suas auxiliares para a biblioteca (moveis todos coloniais belíssimos) para a apuração. Até contarem o ultimo voto, era permitido ainda comprar votos e injetar dinheiro na campanha. Não era justo com os participantes, mas cumpria a motivação: a renda pra cantina da escola.
Guardei na memória uma conversa entre minha mãe e a Almerinda na hora da apuração. Mamãe falava a ela que tinha acabado de receber e se entregasse o salário eu seria a rainha, mas que ela não podia fazer isso, mas que estava dividida e de coração partido. Fez bem a mamãe em não entregar seu salário à causa, já que para mim não fazia a menor diferença. No concurso o que interessava era a andação por todo canto da cidade pra venda de voto e uma vez cumprida a missão, a cabeça já estava na nova festa e o papel a ser representado ai: Dama renascentista a dançar minueto, escolher o par pra quadrilha,(os meninos lindos, mas o meu escolhido era sempre o Vitinho,(foto) irmão da Marisa dona da loja de esquina em frente ao posto de saúde, não me pergunte porque). Dividir com a Monique Magalhães os papeis de irmãs más e deixar o de gata borralheira pra a menina  Ana Maria, da família Caminha, que era menor e tinha cara de boazinha.

Vitinho à esquerda e Janice Drummond na quadrilha
Fazendo sabão de cinza
Aventura boa era ir a chácara Santa Terezinha, local lindo com capela e até a Santa em tamanho natural. Totalmente inexpressiva na paisagem depois que construíram o trevo, a chácara era uma viagem a roça, a menos de 1 km de casa, com goiaba a vontade pra comer do pé. Às vezes o peso era grande quando alguma mãe resolvia fazer doce. Era nessa temporada que os tachos no terreiro da vó Juruvá comiam lenha. O doce explodindo e respingando e a criançada em volta esperando pra comer quente a raspa. Diferente de quando o tacho fervia o sabão de cinza. Não podia ficar perto, levava soda. Vó Juruva corria com a gente. Mas uma vez pronto e resfriado um lençol enorme era estendido no chão e em cada ponta uma criança, aprendendo a enrolar sabão. Sá Maria com a grande pá na mexeção e agente esperando a enrolação. Não era tarefa, era pura diversão.
Quisesse mais aventura, era so seguir o poeirão da rua em direção a Baependi. Chegava-se numa pontezinha onde corria o o resto do Bengo. Lindo no parque, bonitinho nos fundos da vó Juruvá e neste ponto já puro esgoto, o que em nada reduzia o encantamento.

O Matadouro, o outro lado da cidade

O Matadouro Municipal de Caxambu
Atravessando a ponte chegava-se ao Matadouro (foto) e à ultima escola da jurisdição. Que pena daqueles alunos, gente já do núcleo menos abastado, era o começo do bairro Santa Rita, que na época nem sonhava em existir. A escola limpinha, muitos cartazes de alimentos nas paredes da cantina. Acho que ai comecei a pensar em igualdade de classes, coisa que mais tarde me levou a assistente social. Tínhamos funcionários, empregados de todo tipo, mas eram mesmo que agregados, vivam com as famílias, casavam e criavam junto a nós seus filhos, e uma babá não era apenas uma serviçal, era substituta de mãe. Não havia essa divisão empregado patrão. Lembro de cada uma que tive e com elas ainda convivo. Minha mãe inspetora de ensino, dizia a diretora desta escola que abolisse a musica na merenda porque não condizia com a realidade. A letra da musica falava de pão com queijo, manteiga e leite, merenda gostosa que a todos faz bem. E minha mãe reclamando que aquelas crianças só víamos itens da letra da musica em foto. E era verdade.
Aos domingos ir à missa, depois ir ao parque andar de barco com Dona Elza Gallo. Levar o copinho dobrável e a garrafinha pra trazer água na volta. Levar o limão e um pouquinho de açúcar, pra ver a limonada espumar na água gasosa. Era chic ter a própria garrafinha, toda elaborada em palha e com alcinha, mas necessária não era, porque tínhamos um aguadero. Ele passava, recolhia o garrafão e depois trazia cheio. Era água gasosa pra semana toda. Geladeira não tinha, muito menos coca cola. Mas tinha o velho do burrinho, montado com uma sapateira de cada lado, transportando as garrafinhas de garapa. Isso sim era festa, melhor só quando ia para a fábrica de doces, goiabada na caixinha de madeira, balas de doce de leite, na Mariazinha, na rua João pinheiro. Aí, entre o goiabal, vivi um tremor de terra, pra entender direito o que significa um terremoto.
 O segredo no muro

Emocionante era o plantão das 14 hs. Horário em que passava o padeirinho, de bicicleta, com o cesto enorme a frente, fazendo as entregas. De pão ninguém queria saber, mas era bonitinho o moço e a Beth tinha por ele uma apaixonite e eu de cupincha, fazia que tava brincando com a Beth, aguardava o principe dela passar, entregava e trazia os bilhetinhos. Acho que vem daí a minha fama de cupido. (Um desses bilhetinhos foi colocado entre os tijolos da frente da casa quando esta foi reformada e até hoje esta lá, esta debaixo das pedras de Sao Thomé)*
Veio o golpe de 64, a gente ouvia os adultos contando de um grande cerco das tropas em Jacareí. O que a gente escutava assemelhava a guerra, ficávamos esperando saber das baixas, das explosões e bombas... Mas a única notícia que veio foi de um pé quebrado nas tropas, na cidade de Jacareí. As notícias vinham pela rádio, todo mundo ouvindo o locutor, um negro grandão e analfabeto, irmão de uma das minhas babás, que entrecortava as notícias com publicidade. Aprendi aí a conjugar o verbo adaptar. O locutor gritava, compre os azulejos tal, os que melhor “dapitam” em sua parede... E minha mãe torcia o nariz.
Vó "Juruva", Gervásia, com suas netas, Angela Araujo,
Elizabeth Ayres e sua nora Armindo Maria Ayres
Tempo, tempo, tempo...

Era uma vida de ir vivendo o tempo de cada coisa, tempo de ir a quermesse, tempo de visitar o Asilo, tempo de ir a Capela Santa Isabel, tempo de subir o Morro que nem Cristo tinha. Mas dava pra ver que seria imponente, as partes estavam chegando do Rio de Janeiro, a cabeça guardada num quartinho da Ação Católica. O Morro não tinha nada além da linda vista, mas a gente via muita emoção, parava pra rezar na cruz de Suzana, historia mais macabra que as do seu Joaquim.
Muito a fazer, figos pra roubar, dono já avisado que seria roubado, mas a distancia o protegia, a Chácara das Rosas que a gente invadia ficava longe, na estrada do Caxambu Velho. Dava trabalho, era difícil e demorado fugir até lá,  e tinha muita fruta mais perto.
À toa que a gente nunca ficava. Se nada tivesse a fazer, ficávamos aguardando que um carro de boi passasse, em que direção. Se fosse de casa ao centro, subíamos e descíamos no Bosque, já pra lá da Estação. Entravamos no portão de saída do Parque, atravessávamos o Parque todo e saiamos pela portaria principal. Depois, muita perna até chegar em casa. Se fosse para o outro lado era chance de ir ao Matadouro e comer umas goiabas na chácara Santa Terezinha, goiaba era o motivo, mas rezar pra Santa na capelinha a justificativa.
Se algum adulto tinha algum serviço, dava pra ir com ele ao campo de aviação, lá era fartura o leite de cabra. Não tinha avião, mas o cuidador ordenhava a cabra como ninguém.
Vida boa, debaixo dos olho azuis de Sá Maria e do cajado da vó Juruvá, a gente solto no mundo, que aquele era o mundo da gente, um mundo de milhares de universos, todos felizes

* Nota minha

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Álbum de família: Gervásia com Gervásia

Assim foi a cena em um dia frio de maio de 1967, em Caxambu. Gervásia toma a bisneta Gervásia nos braços, hoje Williamson, filha de Edson Aires  Rodrigues e Edilma Nilda Cunha. 

Para recordar, a casa é na antiga Rua Magalhães Pinto, 113 em Caxambu. Á direita tinha uma poltrona, onde minha vó costumava sentar nas manhãs  frias de inverno para "esquentar sol". No alto a roseira bem cuidada pelo tio Silvio, que floria lindas rosas amarelas.


Foto: Edilma Nilda Cunha, 1967