terça-feira, 16 de agosto de 2016

Chico Cascateiro , um documentário


Com texto de Eustaquio Gorgonne e pesquisa de Manoel da Mata Machado, aqui um excelente documentário ilustrando a vida do português Francisco da Silva Reis, o Chico Cascateiro, que com absoluta certeza trabalhou com o também português Ramiro Rodrigues de Freitas, casado com Maria José de Lima/Ayres, a parteira Mariquinha. Ramiro foi chefe do serviço de Jardinagem do Parque das Águas de Caxambu, quando Chico Cascateiro lá trabalhou no início dos anos de 1920. Com casamento de Ramiro e Maria originou o Ramo dos Rodrigues de Freitas/Pereira. Para conhecer mais, cliquem nos links em azul.



quarta-feira, 10 de agosto de 2016

E por falar em pai, por Graça Pereira Silveira





E por falar em PAI, vai aqui alguns 'momentos' que tenho certeza nossos filhos Rodrigo Silveira, Thaís Silveira e Thiago Silveira vão adorar.
Ainda bem que tive 'dedo bom' para escolher o pai deles, pois o Vander sempre foi e é até hoje, um pai maravilhoso. Aproveito para dizer aos pais que quanto mais simplicidade nas coisas mais boas recordações elas deixarão. Aproveitem bastante com seus filhos porque num instante, eles já não caberão mais num parapeito de janela; não precisarão mais que você segure a bicicleta ; não caberão mais nos seus ombros; seus braços serão fracos para segurá-los; não acharão tão legal o churrasquinho no tijolo e enfim você com certeza também não caberá mais na piscininha deles.














quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Ruth de Lima Patricio, a enfermeira do Hospital Matarazzo


Ruth de Lima Patricio, em sua residência no Bairro do Trancador, em Caxambu
Fotografada por Graça Pereira da Silveira, 2016
Contar a história de Ruth Lima Patricio é contar a história de muitas vidas. Em maio de 2016 Ruth recebeu em sua casa, em Caxambu, Maria das Graças Pereira  Silveira, nossa enviada especial para realizar as entrevistas que tem nos dado muita alegria. Assim Ruth compartilhou conosco sua história pessoal, muito pessoal.

Os antepassados de Ruth, seus avós, bisavós, tataravós...

Os mais antigos ancestrais conhecidos até agora da Familia Ayres de Lima/Rodrigues de Freitas são seus tataravós,  João José de Lima e Silva  (1798-1875) e Joana Thereza Ribeiro (1807-1860), encontrados no Sensu da cidade de Pouco Alto, feito pela Província de Minas Gerais, no ano de 1838. Este documento nos foi enviado por cortesia pelo Arquivo Público Mineiro. Lá podemos ver os filhos do casal, Virgolina Balbina de Lima (1833-?), José Ignacio de Lima (1835-?), Thereza Ribeiro de Lima (1837-?) e quatro escravos: Adão, Vicente, Benedicto, Salustiana, José. No registro ainda não constavam, Rufino de Lima (1853-?) José de Lima (?-?), adotado e... Maria Ribeiro de Sousa Lima (1841-1903), sua bisavó que ainda não havia nascido até esta data. (foto)



Seus bisavós maternos de eram José Fernandes de Lima, (1835-1897) o Trançador-pai  e Maria Ribeiro de Souza Lima (1841-1903) e que foram pais de:

1- Emiliana de Lima (1861-1910), 
2- Manoel José de Lima (1866-1908), seu avo, Sebastiana de Lima (1869-1911),
3- Josephina Ayres de Lima (1869-?)
4- José Ayres de Lima, o Trançador-filho (1873-1843), que se casou com a vó Gervásia Maria da Conceição (1876-?),
5- Cecílio José de Lima (1876-1914),
6- Maria Ayres da Silva, a Mariinha (1879-?),
7- Maria José de Lima, a Mariquinha (1882-1946),
8- Roza Ayres de Lima (1882-1895),
9- Anna Ayres de Lima, a Lica (1883-?), 
10- Izabel Ayres de Lima (1885-?).

Seus avós pelo lado materno, Manoel José de Lima (1866-1908) casou-se com Elisa  Candida de Jesus (1861-1906) e tiveram 3 filhos: São eles:

1- Maria Elisa Lima (1897-1938),
2- João de Deus (1902-1991),
3-Sebastiana de Lima (1904-1957).

Portanto Ruth é bisneta de José Fernandes Ayres, o Trançador-pai, ou velho, como eles o chamavam na época, que deu nome ao Bairro Trançador, na cidade de Caxambu. O lado paterno de Ruth Lima Patricio não foi por nós ainda pesquisado.

A mãe de Ruth: 14, 41, 13, os números do seu destino

Maria Elisa Ayres Lima, (1897-1938)
Estes parecem o números coincidentes, mas eles governaram a vida de sua mãe  Maria Elisa de Lima  como se fossem os números do seu destino. Ela e casou muito jovem com José Pedro Patrício, aos 14 anos de idade e até 41 anos de idade, trouxe  ao mundo 13 filhos. 

A história de sua mãe  tem um grande paralelo com a vida dos avós Manoel, aqui biografado e Elisa que faleceram muito jovens deixando 3 filhos pequenos: a mãe Maria Elisa Lima, o tio João de Deus,  também biografado  e  a tia Sebastiana de Lima.

A família se mudou de Caxambu, quando a primeira filha, a Julieta ainda era pequena. O pai, exercia profissão de pedreiro e foi trabalhar em outras cidades levando os filhos junto.  Assim eles nasceram em diferentes lugares como Campanha, Itanhandu, Itajubá, Campos do Jordão. São  eles:

1-  Julieta  Lima Patricio (1913-1995),
2-  Rui de Lima Patrício (?-?),
3-  Rubens de Lima Patricio (?-?),
4- Rupércio Patricio (?-?),
5- Fernando Patricio (?-?),
6- Maria José de Lima (?-?),
7- Edith Lima Patrício (?-?)
8- Ruth de Lima Patrício (1935-).
Os outros 5 quatro irmãos não temos registros.

No dia de natal do ano de 1938, sua mãe deixa a terra prematuramente. Um fulminante ataque de coração. Fotografada para a eternidade não em vida, mas em morte como era costume da época, sua filha guardou registro como uma relíquia. É a lembrança da mãe querida. Nesse dia não teve presente, nem árvore de natal que consolasse a pequena Ruth, que tinha apenas 3 anos de idade, e nem os outros 12 irmãos.

Um dia ali, outro acolá

Por determinação do Juizado de Menores, as crianças foram levadas para serem  criadas em diferentes abrigos infantis. Ruth foi parar na cidade de Pindamonhangaba, e posteriormente,   enviada para o Abrigo da Divina Providencia, sob a direção de Dona Severina, na Rua da Mooca, 113, em São Paulo (façam uma visita virtual), juntamente com Rui. Disse ela que Dona Severina era severa, mas tinha bom coração. Ao completar 10 anos teve autorização para se mudarem para a casa de sua irmã  Julieta, que na época tinha 25 anos de idade. Julieta praticamente abrigou outros irmãos, além dos "de criação". Assim era. Feliz das duas irmãs Ruth e Julieta que conseguiram permanecer unidas e foram para São  Paulo e encontraram um lugar para trabalhar  no Hospital Matarazzo. E... Senta que lá vem história!

Hospital Matarazzo: Saúde dos ricos para os pobres

Cartaz chamando para a quermesse para
arrecadar fundos para  o Hospital

A história do Hospital Matarazzo tem início em 1878, quando da chegada das levas de imigrantes italianos ao Brasil. Os Matarazzos foram um dos que fizeram fortuna como as família dos Pignatari, Gamba, Falchi. Unidos criaram associações para dar apoio aos italianos e suas famílias que no Brasil labutaram com a esperança de uma vida nova. Os mais ricos se engajaram para melhorar as condições de saúde dos mais necessitados e assim fundaram a Società Italiana di Beneficente.

Eles tinham por filosofia construir um hospital de qualidade e voltado para o atendimento dos imigrantes italianos e seus descendentes com o lema: "Que o dinheiro dos ricos se reverta para a saúde dos pobres". O Conde Francisco Matarazzo foi um dos quem mais se engajou  no projeto, que no futuro iria se tornar um grande  complexo hospitalar da cidade de São Paulo e do país.  Não somente ele, mas também sua esposa, a Condessa Filomena se empenhou no projeto e pessoalmente na construção da maternidade que levou o seu nome.

Em 1881, a Society adquiriu um terreno para a construção do prédio, no Bairro Bexiga, onde residia a população menos favorecida da cidade, os imigrantes e os negros. Em 1904, foi inaugurada o prédio nomeado de Humberto I.  E não podemos negar que foi um grande acontecimento para a cidade de São  Paulo, devido ao números de Fords Bigode estacionados em frente ao prédio (foto).  A comunidade de italianos era muito unida e empreendedora e continuaram organizando festas beneficentes para arrecadar fundos, além de receberem contribuições em dinheiro. Sendo assim o hospital se transformou num complexo hospitalar ao longo do século XX com novas alas e serviços, tornando-se assim referencia no atendimento à saúde dos paulistanos.

Inauguração do Hospital Matarazzo em 1904



Ruth Lima Patrício, enfermeira auxiliar na festa de
 Natal dos funcionários do Hospital Matarazzo, São  Paul0


Melhor da America Latina!

Na década de 70, o hospital foi considerado um excelente espaço de formação de novos profissionais da saúde. A maternidade era vista como a melhor da América Latina! Destaca-se que entre os seus funcionários, uma parteira oficial dos Matarazzos, que, a partir de então passou a fazer ali os partos dos filhos, sobrinhos netos do Conde Francisco. O hospital tinha mais fama que o Hospital das Clínicas, sendo o primeiro a abrigar um banco de sangue do Estado.

E neste hospital cheio de histórias encontramos as duas irmãs: Ruth e Julieta. Julieta começou a trabalhar, em 1951, como copeira e Ruth, em 1957, nos serviços gerais,  pois não havia como hoje, divisão de trabalho. Elas começaram do nada, conta. Na ausência de algum funcionário ela ajudava onde era necessário.  Sendo  assim as Irmãs que administravam o hospital, iam selecionando as candidatas de acordo com o seu "talento" para os diversos serviços. Ruth foi trabalhar como enfermeira-auxiliar, na maternidade trocando fraudas dos recém-nascidos, dando mamadeiras... Ela conta que também trabalhou poucos dias como enfermeira substituta, na casa de Maria Pia Matarazzo, (foto abaixo) a filha do Conde...


O clima de trabalho era bom e elas tinham boas colegas. Elas moraram em diversos lugares, na 9 de Julho, na Rua Santo Antonio, no Bairro Bela Vista, em quartos alugados, pois assim como hoje os aluguéis na capital paulista eram muito caros. Para aqueles que quiserem fazer uma curta viagem à Sao Paulo, a Rua Santo Antonio, no Bairro Bela Vista, 20 minutos a pé do serviço de Ruth, não precisa comprar passagem é só clicar aqui: Rua Santo Antonio. Uma única casa lembra ainda a década de 50, quando essas elas passaram a caminho do hospital.

São   Paulo acorda

Mas mesmo depois de tanta história é quase impossível acreditar que, em 1993, as atividades hospitalares tenham sido encerradas. A administração dependia de doações e também das contingências político-econômicas e foi impossível sobreviver as crises. Abandonado serviu de... estacionamento. De vez enquanto do local ouvia-se suspiros de vida e eventos eram realizados como por exemplo a Casa Cor.

Mais surpreendente ainda é que os descendes dos Matarazzos não conseguiram dar continuidade a grande obra de seus antepassados. O mais proeminente deles, várias vezes eleito pelo Partido dos Trabalhadores  como vereador, deputado estadual, federal, senador pelo Estado de São o Paulo, Eduardo Matarazzo Suplicy, bisneto do Conde de Matarazzo não conseguiu evitar que o hospital entrasse  em falência financeira, e pior ainda, a sua quase total demolição.

Mas  um dia os  cidadãos paulistanos acordaram de um pesadelo e ocuparam o prédio do hospital  para salvá-lo das garras dos empresários, que queriam transformar o complexo histórico em shopping center. Felizmente e infelizmente. Agora tombado pelo Patrimônio Histórico, e assim com um novo ser, parido em sua maternidade, será transformado em espaço cultural, felizmente. Infelizmente, porque se fechou um hospital. A  foto do patriarca, que ainda continuou pendurada na parede do hospital, foi testemunha do descaso com o seu legado. O que diria hoje o velho Matarazzo sobre tudo isso?

Memoria? Ou a falta dela?

São Paulo a terra do trabalho, mas quem celebra são os patrões.  Eles são sempre homenageados, sempre. A Francisco Matarazzo foi dado nome a avenida, no bairro Água Branca e na Praça Sousa Aranha ha uma estatua de bronze dele. E para os que ajudaram a construir seu império? Nenhuma lembrança. Outros nomes de homens públicos, políticos estão espalhados pelas ruas das cidades em monumentos ou bustos. Ah sim! Lembraram dos trabalhadores. A via Leste, denominada "Rodovia dos Trabalhadores" foi inaugurada, em 1982, e...  rebatizada como Ayrton Sena, após o seu falecimento, em 1994. Houve promessas de construir um Museu do Trabalhador, mas até hoje não saiu do papel. Então com licença senhores estamos aqui recuperando as histórias pessoais dos quem bravamente contribuíram para o crescimento de São  Paulo e do Brasil.

De volta às origens, de volta ao Bairro Trançador

Rupercio de Lima Patrício com
 filhos José Paulo e Izaura
Julieta contava sempre que tinha família em Caxambu. Ruth não tinha a mínima idéia onde era.  Um dia, trabalhado como diarista, um senhor indicou-a "um lugarzinho para descansar". Era a cidade de Caxambu. Em 1974, resolveram empreender uma visita à cidade e procurar um tio que supunham ainda estar vivo. Elas se hospedaram na antiga pensão Nha Chica e saíram a sua procura.  E encontraram! O tio João de Deus, aqui já biografado, funcionário do Parque das Águas, lembra? Que felicidade. Separados  ha quase meio século pelo destino, agora se reencontraram no Bairro Trançador, local onde dos seus antepassados fundaram suas famílias e viveram.

E felizes pelo reencontro, voltaram para São  Paulo, quando tiveram notícia que vizinho ao tio havia uma casa à venda. Logo as economias foram mobilizadas para a compra do imóvel.

O destino as colocou de volta à cidade dos seus, pais, avós e bisavós. No ano 1987, já aposentadas, Julieta com 27 anos, Ruth com 30 anos de trabalho, vieram definitivamente de mudança para Caxambu. Ruth quando adolescente foi morar com Julieta, agora Julieta veio morar com ela. Rupércio, falecido, ainda temos um registro. Ele visitou a irmã  e deixou uma foto de recordação justamente como seus filhos José Paulo e Izaura.

No ano 1980, morou na casa também o Rubens junto com as irmãs, voltando posteriormente para São Paulo. Ruth e Julieta, que casou-se em idade avançada,  permaneceram sem descendentes. Julieta faleceu, em 1995, aos 81 anos, de problemas cardíacos. Ruth ficou para nos contar a sua, a nossa história.

Julieta Ayres de Lima, Hospital Matarazzo,
primeira à esquerda e suas colegas de trabalho.
Agradecimentos:

Agradecimentos especiais pelo emrenho de Maria das Graças Pereira Silveira e seu marido Vander  Silveira, pelo trabalho de resgate de memória de nossa família atravéz da história oral, bem como Maria de Lurdes de Deus, Neusa Santos, que nos ajudaram a trazer novos fatos à luz da história. Para os nossos antepassados, para os nossos filhos, netos, bisnetos...

Fonte:
Rodrigues, Jaime. O museu inexistente, 2011
Fotos:
Do arquivo pessoal de Ruth Lupércio de Lima.

domingo, 31 de julho de 2016

Ramiro Rodrigues Freitas, o jardineiro do Parque das Águas


O parque tem qualquer coisa de paradisíaco. É obra da mão do homem. Mas parece antes obra de Jehovah portentoso, assim escrevia o Jornal "O Patriota", em 1916 sobre o Parque da cidade de Caxambu.

Medicina entre flores

O centro da cidade de Caxambu é hoje coberto de cimento e asfalto. A poesia dos  casarões foi substituída por horrendos arranha-céus. Mas, com sorte e um olhar atento, esse passado ainda pode ser visto em algumas poucas casas, hotéis, sobreviventes da sanha da especulação imobiliária. 

Porém, não foi sempre assim. Caxambu era muito diferente e chegou a ser chamada de "medicina entre flores", se referindo às suas águas que curavam, fontes circundadas por um jardim paradisíaco. Este paraíso abrigava dois jardins : o jardim real, de muitas flores, alamedas bucólicas, árvores centenárias, o outro o jardim  modelado em argamassa.

O velho  Francisco da Silva Reis, o Chico Cascateiro

Francisco José da Silva Reis, em Passa Quatro (1)
Dois portugueses e um destino singular:   Francisco da Silva Reis, conhecido como Chico Cascateiro e  Ramiro Rodrigues de Freitas. Ambos chegaram ao Brasil clandestinamente vindos de Portugal e tiveram participação ativa no paisagismo do Parque das Águas. Um como estucador e o outro como jardineiro. Eles não ganharam fortunas, nem escreveram seus nomes em livros de paisagistas importantes, mas estão intimamente ligados à história da cidade de Caxambu.

Vamos por partes. Francisco da Silva Reis, português, era artesão de profissão. Ao chegar no Sul de Minas já havia executado obras na cidade do Rio de Janeiro, como coretos e grutas. De estatura mediana, magro, claro, trajava calça de algodão, paletó e chapéu de feltro com abas caídas. Quando realizou suas obras na cidade de Cristina, era já um homem de relativa idade, e, segundo quem o conheceu, um... "rosto cadavérico". Ele tinha um hábito incomum, de ir passear na mata, certamente buscando inspiração para os modelos de sua criação. Numa feliz constatação observando bem os únicos registros  fotográficos, ambos feitos quando realizavam o seu trabalho  muito se assemelham: Chico Cascateiro na cidade de Passa Quatro. ambos de chapéu de abas largas na cabeça. Um com o balde de cimento e o outro com um regador nas mãos. (fotos)

O jovem  Ramiro Rodrigues de Freitas

Em contrapartida, o seu compatriota Ramiro Rodrigues de Freitas era ainda um adolescente quando aportou em terras mineiras. Segundo contam na família Ayres, ele veio clandestino num navio, com apenas 13 anos e foi criado  por uma família de turcos, história contada pelos membros da Família Freitas. A história tem grande possibilidade de ser verdadeira, pois Ramiro era um conhecedor da culinária oriental. O quibe era uma especialidade que ele fazia muito bem, uma tradição que foi passada para os filhos e netos.

Ramiro Rodrigues, em sua horta privada, na Rua Quintino Bocaiúva
Os jardins esquecidos

"Que linda está ficando a nossa praça 16 de setembro?
Já passaram por ali à noite?
Vale a pena. É um encanto."



Em 1912, no governo de Camilo Soares, foram iniciadas as reformas do jardim público na Praça 16 de setembro, no centro da Cidade.  O desenho original adaptado para o pequeno jardim era de Francisco da Silva Reis. As obras foram concluídas em 1918 (foto) e consumiram 7 anos de trabalho.  Só as testemunhas dos cartões postais da "Casa Levy" nos levam a este passado... Silva Reis, era considerado um simples "pedreiro" e nunca foi tratado como paisagista,  ou mesmo um artista talentoso, não tendo sido sequer mencionado na inauguração das obras, por aqueles que o empregaram para a realizar o trabalho. Houve, porém, uma inesperada citação do artista, escrita por Guilherme Nogueira de Andrade, secretário do então prefeito Camilo Soares, no Jornal de Caxambu de setembro de 1918.

E o que, óra, vaé pelo Parque, onde o primoroso artista se acha em via de concluir a série de maravilhas que, lá erige?
Alli, o espasso é mais amplo e nelle, a pujança de seu genio imitador desenvolveu expansivamente e em maior escala! 
Os grupos de assentos toscos, emitação de madeira, em diversos pontos, a graciosa choupana como abrigo da bomba de excuamento de águas pluviaes, e para maior realce a elegante e soberba cascata e respectivo lago, fazendo-se em ponto culminante para o enlevo, agreste, de veranistas que, em mages todos grupos, posem para as classicas e provebiaes photografia, dos que aqui passam as temporadas em pela villegiatura.
Em todos esses maravilhosos trabalhos de pura imitação da natureza e fina arte, ficará perpetuado o nome de Francisco da Silva Reis, o inimitável e prodigioso Cascateiro.

O jardim de flores

Falemos então agora de flores. Os olhares de quem visitava Caxambu em 1919 não deixavam de expressar o seu deslumbramento com o Parque e com a cidade: "graciosas casas, vivendas pintadas de delicadas cores, lindíssimo jardim, artisticamente delineando a bella cascata, lindos caramanchões e outros embelezamentos de graça encantadora". Assim descrevia o Jornal da Cidade de Caxambu, comentando os encantos da "hidrópolis".

Ainda, "O parque das Águas, com seus jardins maravilhosamente floridos, os pavilhões das fontes construídos sob o apuro da arte e o estabelecimento hydroterapico". Ou "O poético jardim do Parque, cortado graciosamente pelo ribeirão  Bengo (este revestido à cimento armado, com gradis e pontes ligando suas margens) se ostenta tudo como que orgulhoso de suas luxuriantes belezas!"

Muitos elogios, mas nenhuma palavra sobre os que dedicaram seu trabalho e suas vidas para embelezar e manter o que todos elogiavam.

O jardim de argamassa

Por muito tempo a obra de Cascateiro ficou incógnita, até que os fotógrafos descobriam-na como motivo para suas fotos. Ao procurar assento nos bancos de argamassa, os médicos, militares e madames não viam  os cipós contorcidos que emolduravam suas colunas e borboletas da noite ainda dormiam o seu sono entre as frestas de bambu em argamassa do caramanchão.

Informava o jornal  O Patriota de 1916: "Os seus jardins, os seus núcleos de arvoredos projetando sombras, os seus bancos, gothicos, aqui  ali esparsos... a original e bella cascata, tudo alli, denota esforço e prodigalidade superior parte de Empreza".

Ah, esforços e prodigalidade superior da "Empresa" escreveu o jornal, e não dos que neles trabalharam.

Em 1928 a revista mensal Caxambu, que tinha o objetivo de "fazer a propaganda das riquezas naturais da bella cidade que lhe emprestou o nome, reproduziu em suas páginas fotos de veranistas e grupos de veranistas, tendo como fundo bancos feitos pelo paisagista"*,


Não temos dúvidas de que Ramiro conheceu e  trabalhou  com Chico Cascateiro. No período em que Cascateiro  erigiu sua obra no Parque e na cidade, Ramiro era jardineiro lá empregado na "Empresa", chegando a ser o chefe da jardinagem. Aposentado, continuou dedicado ao que sempre fazia bem, trabalhar com a terra. Ele era requisitado para cuidar de outros jardins na cidade. Dentre eles, o jardim dos antigos proprietários do Hotel Glória. No quintal de sua residência, na antiga Rua Quintino Bacaiúva, tinham uma horta muito bem sortida, cuidada com a mesma dedicação que recebeu os jardins e as flores do Parque das Águas.

Os jardineiros lembrados

Das inúmeras publicações catalogadas e citadas no texto "Jardins esquecidos" pelo autor Eustaquio Gorgonne entre os anos de 1924 e 1977,  para  o Projeto "Chico Cascateiro" realizado em conjunto com Manoel da Mata Machado, nenhuma delas cita as obras de Chico Cascateiro, escrevem; publicações estas de autores ou que residiam em Caxambu, ou que nela fizeram inúmeras estações de água. E esta afirmação é por mim confirmada, pois em todos os locais onde procurei material iconográfico para ilustrar este texto achei somente uma dama, que  posou sentada no alto da Cascatinha (foto) no centro do Jardim de Caxambu em 1906.

E imaginem se as obras de cimento e argamassa, que hoje ainda podem ser vistas no Parque das Águas de Caxambu e em muitas outras cidades brasileiras foram esquecidas, o que dizer das efêmeras flores que cresciam no parque, cultivadas pelas mãos de vô Ramiro?

O Chico Cascateiro conseguiu deixar sua assinatura gravada em cimento, no banco da Cascatinha. Mas, como iria Ramiro de Freitas assinar o nome em uma flor ou gravar o nome em árvores? 

De Francisco da Silva Reis, o Chico Cascateiro não temos notícias de sua vida privada, nem  de quando ele deixou o Brasil, mas podemos falar de  Ramiro  Rodrigues de Freitas que deixou muitos  descendentes. Ele foi casado com Maria José de Lima Ayres, a tia-avó Mariquinha, filha de José Fernandes Ayres, o Trançador-pai  e foi pai de 12 filhos ainda criando e mais 2 crianças na casa solidária de vó Mariquinha, na rua Quintino Bocaiúva, onde o lema era: onde come 12, come 13, 14... 

Perguntas de um  trabalhador que lê 

Quem construiu a Tebas de sete portas?
Nos livros estão os nomes de reis:
Arrastaram eles os blocos de pedra?
E a Babilonia várias vezes destruída
Quem a reconstruiu tantas vezes?
Em que casas da Lima dourada moravam os construtores?
Para onde foram os pedreiros, na noite em que a Muralha da China ficou pronta?
A grande Roma esta cheia de arcos do triunfo:
Quem os ergueu?
Sobre quem triunfaram os Césares?
O jovem Alexandre conquistou a Índia.
Sozinho?
César bateu os gauleses.
Não   levava sequer um cozinheiro?
Frederico II venceu a Guerra dos Sete Anos.
Quem venceu além dele?
Cada página uma vitória.
Quem cozinhava o banquete?
Tantas histórias.
Tantas questões.*

E depois de tanto "trabalho", entrevistas, visitas, bolos e cafés, o casal descansa na obra de Chico Cascateiro, no Parque das Águas de Caxambu.

Maria das Graças Pereira e Vander Pereira sentados no Jardim do Éden
de Chico Cascateiro. A eles os nossos agradecimentos.

Fonte: 
Jardins Esquecidos (A arte em argamassa na obra de Francisco da Silva Reis), 2004. Eustaquio Gorgonne de Oliveira.
(1) Foto do mesmo texto
Poema: Berthold Brecht*
Jornal:
O Patriota, Revisa de Caxambu,
Almanak Lemmert,
Revista Brasileira de Geografia, 1940,
Correção ortográfica: Angela Rabelo.

sexta-feira, 22 de julho de 2016

A triste sina de Josephine Ayres de Lima


Araticum, Annona crassiflora, fruta nativa do cerrado mineiro
Para reconstruir esta pequena biografia de Josephina  contamos com fragmentos de lembranças de nossa "biblioteca familiar viva": Celia Ayres de Lima, filha de José Ayres de Lima, o Trançador-filho, com Gervásia Ayres de Lima, e o recém descoberto  Sylvio Aires de Lima, pertencente ao "tronco dos Ayres",  filho de Anna Ayres de Lima conhecida como Lica, e neto de José Fernandes Ayres, o Trancador-pai. Sem falar em todo o trabalho de pesquisa de campo que foi realizado por outro membro da Familia Ayres/Freitas/ Pereria, Maria das Graças Pereira da Silveira, que hoje mora em Sao José dos Campos, e que, por destino e uma felicíssima coincidência, mora  próximo ao Sylvio e seus descendentes. Foram horas de café com bolo de fubá e prosa, muita prosa... De fato uma força-tarefa que não foi realizada sozinha, tendo como seu escudeiro Vanderlei Silveira, o Vander, marido, motorista, "arquivo em áudio vivo" ... Assim estamos podendo contar e recontar as histórias. A eles os nossos sinceros agradecimentos.

Pois bem, vamos então a... Josephina.



Josephina Ayres de Lima nasceu em 31 de marco de 1869 e foi batizada no dia 18 de abril, na cidade de Baependi, pelo Reverendo João  José Rodrigues. O curioso é que o batizado não foi realizado na igreja, mas na casa  de seus padrinhos, que eram  ao mesmo tempo os anfitriões, o Comendador José Pedro Américo de Mattos e Dona Maria Adriana de Mello e Mattos.  O lugar tinha força  simbólica. A casa denominada "Palacete"  foi onde a Princesa Isabel e sua comitiva ficaram hospedados na sua estada em Baependi em 1868. Imaginem o que significava para o povo daquela época!

Josephina foi a terceira filha do casal José Fernandes Ayres de Lima-Trançador pai e Maria Ribeiro de Souza Lima. Antes dela nasceu Emiliana de Lima (1861-1910), Manoel José de Souza Lima (1866-1908), Sebastiana Lima (1869-1911). Depois dela vieram José Ayres de Lima o Zé Trancador-filho, (1873-1943),  Maria de Lima, a Mariinha (1876-?), Cecílio Jose de Souza (1876-?), Maria Ayres de Lima, (1876-?), Maria José de Lima, a Mariquinha (1881-1946), Roza Ayres  de Lima (1882-1895), Anna Ayres de Lima  a Lica (1885-?) e Izabel Ayres de Lima (1885-?).

Os seus avós pelo lado materno eram João José de Lima e Silva e Joanna Thereza, que foram encontrados no Sensu da cidade de Pouso Alto, no ano de 1839, como consta abaixo. A mãe de Josephina, Maria Ribeiro de Souza Lima nesta época ainda não era nascida.


Fico aqui pensando e analisando, que relações teria o seu pai, José Fernandes Ayres -Trancador pai, com toda essa gente? Muitos de seus filhos foram batizados por... "gente importante", como por exemplo o filho Manoel, que foi batizado pelo  Manoel de Seixas Batista, aquele que compôs a comissão de recepção da Princesa Izabel. Ele constava nas listas de votação da época, isto é, era cidadão  eleitor. E, naquela época, para ser eleitor o cidadão tinha que ter dinheiro e posição social. Já a outra filha  Maria da Conceição, a Mariinha, teve como testemunha de casamento um "Alferes", o Antonio José de Castilho.

Dançando com a Princesa

O padrinho  de Josephina, José Pedro Américo de Mattos era uma pessoa pública e deputado da Província.  Ele assinou, junto com outras tantas personalidades, o documento que lançou a pedra fundamental para a construção da Igreja Santa Isabel da Ungria, na presença da Princesa Izabel, em sua visita à Caxambu, no ano de 1868.

José Pedro era muito rico e benquisto na cidade, mas, por ser mulato, não gostava de frequentar as festas sociais, em razão da discriminação. Especialmente em bailes, notava ele a resistência de algumas damas da sociedade ao convidá-las para dançar. Estávamos então em pleno tempo da escravidão, e o que se podia esperar dessa sociedade  senão o desdém a alguém "de cor"?  

Mas, a história conta que, como anfitrião do casal imperial, ele não pode se recusar em participar do baile em homenagem à princesa, no palácio imperial da cidade de Baependi. Assim permaneceu ele alheio  e distraído, quando a orquestra iniciou a primeira valsa... O Conde d`Eu tomou a princesa pela mão e levou-a ostensivamente, pelo salão, até em frente ao seu anfitrião, e ofereceu-a como par. Pelo sorriso que ela lançou em direção a ele ficou impossível recusar o convite, e então rodaram  sozinhos no salão ao som da valsa.  Depois da atitude do casal imperial, o comendador recebeu todas as atenções das outras damas, que queriam então te-lo como par. E ele respondeu: "Não, minha senhora, muito obrigado. Queira desculpar-me, mas quem dançou com a Princesa não pode dançar com outra mulher". Bem feito!

Ah, então voltemos à gata borralheira Josephina... Aos 26 anos foi mãe solteira  de José de Souza Lima,  nascido em 25 de julho de 1896 e batizado em 3 de agosto, na Capela Nossa Senhora dos Remédios, em Caxambu,  como "filho natural", que significava que ele não tinha pai conhecido, ou sua mãe não era oficialmente casada. Assim o estigma de "mãe solteira" devia ficar o máximo possível dentro da família e talvez por essa a razão da escolha dos padrinhos da criança. Eles  eram  dois irmãos de Josephina: Cecílio Jose de Souza e Maria José de Lima, a vó Mariquinha. Se hoje a questão de ser "mãe solteira" é absorvida sem grandes problemas pela sociedade, naquela época devia sido um choque para a família.

Certidão de nascimento de José Ayres de Lima, filho de Josephina, 1896.
E aos 31 anos ela foi mãe novamente de Maria, batizada Maria Josephina de Lima na Capela Nossa Senhora dos Remédios, em Caxambu, sendo os padrinhos: Venceslau Apolinário de Miranda e a cunhada Salviana Maria da Conceição (que era irmã  de Sabina Maria da Conceição) e esposa de seu irmão Cecílio Ayres de Lima, ele que ja tinha sido padrinho anteriormente de seu filho João .

Certidão de nascimento de Maria Ayres de Lima, filha de Josephina, 1901.
Ela morava no bairro Trançador, em terras doadas pela sua madrinha com seus dois filhos, João  e Maria. Mas um dia o destino veio bater por duas vezes à sua porta. Em 17 de novembro de 1918 faleceu de gripe sua filha Maria, aos 16 anos.

Certidão de óbito da filha de Josephina, Maria  Josephina de Lima

Josephina continuou morando na casa no alto do bairro com seu filho até que...

Os perigosos caminhos do Sertão

A história resgatada através de Sylvio Aires de Lima conta que o filho de Josephina também iniciou sua carreira profissional como "tropeiro" acompanhando o seu tio e padrinho Cecílio pelos caminhos de Minas, uma profissão não sem riscos e perigos.

Era conhecido que os chefes de tropeiros, para aumentar os seus lucros, evitavam os caminhos oficiais, onde eram cobrados impostos, pedágios, taxas de suas mercadorias. Os caminhos paralelos não indicavam que a honestidade reinava entre eles. Os tropeiros não só levavam mercadorias, mas também contrabandeavam ouro em pó, nos cabos de relhos, nas selas ou escondidos entre suas "tralhas". Não era de se esperar que as tropas passassem por esses caminhos incólumes.


"Nos idos de 1.700, o temor entre os comerciantes que transitavam pela Estrada Real era tão grande - diante das notícias de perigo e incertezas do roteiro - que muitos já deixavam prontos os seus testamentos antes de cada viagem. Cruzar a rota do ouro e dos diamantes era uma verdadeira aventura no século XVIII. Homicídios, roubos e contrabandos eram frequentes. Embora as ações dos salteadores e bandoleiros, na maioria das vezes reprimidas, nem sempre as autoridades tiveram sucesso.

O palco da violência não se limitou às estradas, alcançando também os sertões e as serras. E em menor escala as vilas. Uma forma usada pelos senhores para se protegerem era a companhia de negros, sempre armados e cachorros. A maior parte dos ataques acontecia à noite. Ninguém era poupado, fosse mulher, criança ou idoso." (1)

As quadrinhas de Minas na época do ouro eram bem organizadas. Nos caminhos da serra da Mantiqueira atuou uma delas 3 anos, chefiada pelo chamado "Montanha". O grupo tinha a estratégia de matar os policiais para roubar as fardas que eram usados como disfarces de verdadeiros soldados para roubar os tropeiros. Foi desmantelada em 1786 pelo militar Tiradentes.

Outra quadrinha denominada "Mão de Luva", atuava entre o Rio de Janeiro e Minas Gerais. Recebeu este nome pois o chefe usava luva. Eram contrabandistas, considerados perigosos pelas autoridades. Comercializavam  ouro, e estavam prontos para matar quem os atacassem. O grupo foi desarticulado pelas tropas do governo de Minas.

A quadrinha dos "Vira-Saia" tinha como fama seus integrantes serem extremamente perversos. As tropas do governo tiveram dificuldade de desarticular o bando que "teriam um pacto com o diabo". O bando se desfez no início do século 19 e acredita-se que tenham migrado para Bahia.

O grupo do "Sete Orelhas" era chefiado por Januário Garcia Leal, que foi assim apelidado, por portar um colar  com sete orelhas humanas, arrancadas dos homens que mataram seu irmão. A quadrinha aterrorizou Minas Gerais, no final do século 18 e não era tão organizada como as demais, mas usava as mesmas formas perversas de matar. Os seus integrantes se dispersaram pelo sertão afora sem que pudessem mais serem avistados.

Perigo de ser assaltado nas estradas era real e quase dois séculos depois não era menor. E foi o que aconteceu. Numa dessas jornadas ao acompanhar  uma boiada para a cidade de Cruzeiro, a tropa foi assaltada e João  o filho de Josephina foi morto. Conta Sylvio que ele foi morto juntamente com o seu tio e padrinho, Cecílio que o introduziu na vida de tropeiro. Infelizmente não temos  ainda data nem certidões para comprovar o fato, mas estamos ainda nas pesquisas.

Josephina  acometida de uma severa depressão, após a perda do filho, se refugiou em  sua casa e lá faleceu sozinha (em data desconhecida até agora), pois se recusava ter uma companhia.

E Sylvio Aires de Lima conta a sua versão da história... 



E continuando...



E o araticum ficou na lembrança

A nossa biblioteca familiar Celia Ayres de Lima, a filha caçula de Gervásia e José Trançador, lembra com carinho da tia que sempre que a visitava. Ela sentava na escada da varanda de  sua casa,  na Rua Quintino Bocaiúva, e abria um embornal cheias de frutas de araticum que presenteava à sobrinha. Assim foi.

Fonte:  

Jornal "O Patriota".
Gravura:Uniforme dos soldados da Cavalaria, 1730, Aquarela, Walter Rodrigues.
Ouro e Minas, 300 anos de história.

terça-feira, 12 de julho de 2016

Bairro Trançador é notícia em 1937!



A cada dia uma novidade. O bairro do Trançador já existia em 1937! Achamos os registro oficiais. Matamos a cobra e mostramos o pau e a cobra!

O Bairro Trançador foi por duas vezes citado  no jornal O Patriota que era publicado na cidade de Baependi, mas noticiava sobre toda a regiao Sul Mineira de propriedade de  José Vieira Manso e  tendo como  seu redator  Mario Lara. 

Este documento confirma portanto que José Fernandes Ayres, o Trançador-pai deixou seu nome gravado bem antes do ano de 1937, pois José Ayres de Lima, o Trançador-filho já tinha se mudado de lá, e morava na Rua Quintino Bocaiúva 113. 

Com esta publicação do Jornal O Patriota, ano XX, n° 939, de 7 de março de 1937, portando ha quase 79 anos, se torna histórico para a Familia Ayres/Freitas/Pereira, pois foi  pela primeira vez que o nome "Bairro do Trançador" aparece oficialmente impresso. E mais! Deram notícias sobre ele.

"Acha-se em progresso esta linda estancia hidro-mineral. Seu operoso profeito - dr. Fábio Vieira Marques tem feitos grandes esforços junto ao Governo de Minas para conseguir o desenvolvimento da hidrópolis, promovendo e executando necessários serviços, dentre os quis, quase a terminar, o calçamento e arborização da avenidas Camilo Soares, a construção do Mercado Municipal, (foto abaixo) prédio para isolamento, etc..."
Trabalhadores posando na construção do Mercado de Caxambu
E continua...

"Os caxambuenses se congratulam como esforçado jovem prefeito, pelos relevantes serviços prestados à sua terra. Que s.s. não se esqueça, também, de continuar com o encanamento do precioso líquido, que é a água potável, ate os bairros Vila Pacheco, Bairro do Trançador e Vila Enout, pois o povo espera e confia mui operoso dr. prefeito que, em breve resolvera esse grave problema para os humildes e modestos trabalhadores desses bairros".

Ah, então as reclamações por melhorias no Bairro não são novas...

Fonte:
 Jornal O Patriota, 7 de agosto de 1937.

segunda-feira, 27 de junho de 2016

José Fernandes Ayres de Lima, meu bisavô era um tropeiro



E sentem novamente que lá vem história! Paciência, gente! Hoje vamos contar a história do velho José Fernandes Ayres, o Trancador-pai, que deu origem ao nome do Bairro Trançador, situado na barra do Morro de Caxambu. Esta parte da história  esta sendo resgatada em entrevistas sensacionais de Maria das Graças Pereira, a Graça, em visita  ao primo Sylvio Ayres de Lima, neto de José Fernandes, filho de Anna Ayres de Lima, a tia/ avó Lica e José Eugenio de Souza, em São  José dos Campos. Uma verdadeira jóia de documentação agora de posse do Blog de nossas Famílias, Ayres/Freitas/Pereira. Publicaremos tudo, mas tudo mesmo. Com vocês a história de nossos antepassados...

Os caminhos do sertão 

Vamos então lá para as Minas Gerais no século 18...
Pois Minas desempenhou papéu importantíssimo no abastecimento de gêneros alimentícios para as áreas urbanas nos tempos do Brasil Colônia. Os produtos viajavam de longe. Um dos impulsionadores deste fato foi a chegada da família real ao Brasil, fugida da invasão de Napoleão Bonaparte, que causou enorme impacto, transformando a economia da então Capitania de Minas.

A população cresceu e a demanda por gêneros alimentícios  para os centros urbanos, como Vila Rica, hoje Ouro Preto e o Rio de Janeiro dinamizou o comércio.
Em 1802  passaram pelo Registro oficial da Mantiqueira, para se ter uma idéia, 716 porcos rumo à capital. Três anos depois, com a transferencia da corte portuguesa, em 1811 os números foram de 1.632. Entre 1818 e 1891 os porcos exportados já eram 30 mil, uma considerada soma. No mesmo percurso da Estrada Real passavam os produtos que o povo necessitava: aguardente de cana, rapadura, café, arroz, feijão, farinha de mandioca, milho, trigo, azeite de mamona, cera, sabão, estribos e selas, chicotes, chapéus de lã, algodão em rama e tecido além de outros animais, como galinhas, carneiros, patos. E também doces como a marmelada e o famoso queijo mineiro já viajavam Brasil afora.

De fato a transferencia da Corte portuguesa para o Rio acabou impulsionando a economia mineira compensando o declínio da atividade mineradora. Como os historiadores costumam escrever, Minas não entrou em crise, simplesmente houve uma diversificação econômica.
Os alimentos produzidos em Minas cruzaram fronteiras, chegando a São Paulo e ao interior do Rio de Janeiro. E com a expansão cafeeira no Vale do Paraíba fluminense houve uma verdadeira integração dos três Estados, com a ajuda dos trilhos de ferro.

Trilhas, tropeiros, Trançador  e as "traias"

Rancho Grande (dos Tropeiros) quadro de Benedito Calixto
de 1921, Santos, São  Paulo
Neste tempo de transformações existiu um grupo  particular para a produção e comercialização de alimentos: os tropeiros. O nome derivado de "tropa", aplicado aos próprios donos dos animais, quase sempre fazendeiros e criadores que formavam um grupo de peões, cada um com sua especialidade: os tocadores, tangedores, o madrinheiro, menino que seguia à frente do dianteiro, na mula, montando uma égua mansa, e guiando a tropa ao som de cincerros nela pendurados, que também era encarregado de preparar o café e a comida, feijão de tropeiro, pirão de mandioca, carne de porco, carne seca, toucinho, farinha de milho. A caravana podia se arrastar, dias, semanas até meses seguidos sob a poeira, sol e chuva. Em suas horas de descanso, eram trocadas as informações que adquiriam no caminho, transformando-se em preciosos interlocutores, transportadores de informações de lá pra de cá e de cá pra lá.

"Mais do que simplesmente transportar mercadorias, as tropas criam toda uma cadeia de negócios mantida por redes familiares. O que inclui a mercadoria fundamental para o funcionamento daquela economia: os escravos. As mesmas tropas que levavam das Minas para o Rio os gêneros de subsistência subiam de volta a serra transportando negros escravos.

O tropeiro é um elemento de transição e ligação entre o universo rural, ligado à produção, e o urbano, base do comércio. A um só tempo proprietário de terras, produtor rural, comerciante de alimentos e traficante de escravos, ele logo se torna importante figura política na região. A abertura de novos caminhos ligando Minas ao Rio, entre 1810 e 1820, atende às suas demandas. É o caso das estradas do Comércio e da Polícia, construídas quase simultaneamente, e da estrada do Picú, hoje Itamonte, financiada pelos próprios fazendeiros de Campanha, Baependi e Pouso Alegre, que abreviou em cinco dias o caminho das tropas para a Corte, no Rio de Janeiro. Na arena política, os tropeiros conquistam cargos de deputado e senador, levando sua agenda para o centro das discussões governamentais e impulsionando de vez as relações econômicas entre os estados do Sudeste."*

Estas transformações foram sentidas em toda a Província e o mercado consumidor interno foi a chave para o sucesso para o desenvolvimento do país.

O Trançador  e as "traias"   

Indumentária de um tropeiro, não faltando
 os laços,relhos e bolsas de couro
Quem não ouviu falar em "traias"? Traia para nós em Minas são bagagens de viagens. Pois a palavra vem de lá, "tralha". Todo tropeiro tinha sua "traia", ou suas "traias", aqui abreviado dito como em Minas, isto é, laços, rédeas, trançados para domar os animais, utensílios de cozinha que eram transportados consigo durante as viagens.

Em torno dessa grande economia, surgiram as novas profissões: o peão domador, o ferrador, o toureiro, o rancheiro e o aveitar, um veterinário primitivo e... O trançador .

E foi na profissão de artesão para essa "economia tropeira" que nosso bisavô, e também Tropeiro, José Fernandes Ayres fez o seu nome.

Na fralda do Morro Caxambu, na propriedade em que vivia, tinha sua casa, na beira da estrada mesmo. Próximo ao terreno o lugar se tornou um acampamento rústico, onde as tropas faziam o seu "pouso", um ponto de passagem e parada, vindos de Conceição do Rio Verde em direção à Baependi. Era  um pedaço descampado de terra onde acampavam ciganos, índios, brancos e negros, escravos e libertos, gente de toda raça e dolência...



Maria de Lurdes de Deus, bisneta de José Fernandes Ayres, o Trançador-pai,
fotografada por Maria das Graças Pereira indicando
 onde localizava as terras pertencentes ao seu bisavô, ao pé do morro,
onde hoje é o Bairro do Trançador, Caxambu
É, era bem ali no alto, onde é hoje o Bairro Trançador  que José Fernandes morava e que adquiriu esse nome por ser ele o artesão de peças de couro, laços, relhos que trançava com maestria, vendidos aos tropeiros que circulavam em toda a Província de Minas.  Seu filho José Ayres de Lima, casado com a minha avó Gervásia Ayres de Lima, o meu avo, não somente herdou do pai a habilidade de trançar relhos, mas também o apelido de Zé Trançador.

Em visitas a um neto de José Fernandes de Lima, Sylvio Aires de Lima, relata para o Blog da Família Ayres suas memórias e conta...



Levavam bois nas classes noturnas

Mas o tropeirismo estava com dias contados. Com a chegada dos trilhos de ferro em 1884, e a inauguração do trecho Minas-Rio, tudo que era transportado por terra, a pé, no lombo dos burros, e os próprios bois, perderam o seu lugar e agora a carga ia de trem e depois em caminhões.

E o "O Baependiano noticiava em abril de 1883:

É o dia 12 deste mês em que pela vez primeira o carro do progresso transpos as mais do nosso município, e o cavalo dinâmico que come o carvão, vomita chamas e devora o espaço, depois de haver saciado a sede nas águas do Atlantico, pisou ofegante o solo baependiano, em seu caminhar delirante, para o Far West brasileiro, à procura dos tesouros minerais e vegetais, que naquela misteriosa região só esperam a mão do homem para colhe-los."

Na década de 1930 o tropeirismo viveu os seus derradeiros dias. Por causa de sua importância para a história econômica do Brasil, os Tropeiros ganharam o seu dia, dia 26 de outubro.



O poeta   bem descreveu em "Soledade de Minas":

Em outros tempos as máquinas de ferro
Cruzavam seus chifres e queimavam os cascos
Na agulha grossa dos dormentes.
As caldeiras ferviam nas locomotivas
E o vapor tecia sonhos de guerra
no peito dos soldados.
As cidades ferroviárias estavam no apogeu.
Levavam bois nas classes noturnas,
Esparramavam óleo no joelho dos vagões,
E faziam o ofício de mulheres-cortesãs,
Fiando suéteres para a História Industrial.
Havia cabelos esvoaçantes, náuseas,
E na dobra do morro o olhar da lua
Comia a cauda agitada dos trens.
Havia pasmo das crianças 
Perante a violencia das invenções inglesas
Nas gargantas úmidas de Minas*. 
Ao vivo e a cores

E para aqueles que querem ver ao vivo como era o trabalho de nossos antepassados, de como a profissão de Trançador era exercida, façam uma visita.


Agradecimentos:
O Blog da Família Ayres agradece a aqueles que possibilitaram o contato com os demais membros da Família Ayres de Lima em São José dos Campos que ouviram e responderam! as perguntas de nossa pesquisadora, Maria das Graças Pereira e ao seu marido Vanderlei de Moura Silveira, que muitas vezes serviu de arquivo, memorizando o conteúdo das conversas, bem como de motorista da entrevistadora.

Foto: Vidal Araujo, montado em sua mula na Festa de Tropeiro em Tropeirismo e a formação  do Brasil
Poesia: Eustaquio Gorgonne
Fonte:
Alexandre Mendes Cunha é professor do Departamento de Economia e pesquisador do Cedeplar, ambos na UFMG. Autor da tese de doutorado em História “Minas Gerais, da capitania à província: elites políticas e a administração da fazenda em um espaço em transformação” (UFF, 2007).
O Baependiano
Video: Gravado na residencia de Sylvio Aires de Lima, em São  José dos Campos, por Maria das Graças Pereira em junho de 2016.