sábado, 10 de junho de 2017

Festival de Cinema de Caxambu de 1956/ O festival com cinco "Cs": Caxambu, Cinema, Churrasco, Consagração, Camaradagem



E no ano de 1956 aconteceu. Caxambu foi escolhida para sediar a 5a Semana do Cinema Brasileiro,  organizada pelo departamento de Turismo e Propaganda, e bem dito no Jornal Vida Doméstica, o festival com cinco "Cs": Caxambu, Cinema, Churrasco, Consagração e Camaradagem e.. Chique, acrescentaríamos. A idéia da cidade sediar o evento nasceu de uma sugestão dada ao vivo, na Radio Nacional, por Adolfo Cruz, radialista e crítico de cinema, no programa especializado "Cinelândia Matinal". Ele foi também o responsável pela programação feita em parceria com a prefeitura de Caxambu e os hotéis. Todos com um objetivo: promover o cinema nacional e claro, a bela  hidrópolis Caxambu.
Uma maratona de eventos
Dia 20 de Abril, sexta feira
Recepção no Rancho das Acácias

O programa foi intenso. Diversas solenidades foram organizadas: Na sexta feira dia 20 de abril , às 18 horas chegou a Caxambu o ônibus trazendo a constelação de astros e estrelas do cinema nacional, além de representantes do Rádio, mais os repórteres de vários jornais de peso da época. A recepção? No Rancho das Acácias, uma espécie de boate, hoje chamaríamos de discoteca, localizado debaixo de um grande arvoredo, indo em direção à rodovia "Federal", para São Lourenço, lugar este "malafamadésimo" na minha infância. O prédio não existe mais e era considerado "um lugar da perdição", por meu pai. Lugar da perdição ou não foi onde oferecido o coquetel de boas vindas àquele povo todo, pelo proprietário Mario Julio dos Santos. A chave da cidade foi entregue pelo prefeito municipal Paulo Levenhagem Melo à  atriz Gilda de Abreu , e como no carnaval, quando a chave é entregue ao Rei Momo, os astros e estrelas agora tinham passe livre para se divertirem e proporcionar diversão à cidade. Na constelação também veio Jece Valadão, protagonista de "Rio 40 Graus", Maria Rubia, estrela não só do cinema como do teatro, Catalano, ator que fez parte do elenco de "Genival é de Morte", o galã  Anselmo Duarte, a "pop star" da época Marlene, atriz e cantora da Radio NacionalWilson Grey, Adelaide Chiozzo, Vicente Celestino, Gilda Abreu, Margot Morel.

Parece que a chegada dos artistas foi mesmo "triunfal" e estavam presentes "todas as garotas disponíveis de Caxambu", comentou um jornal (1). Imaginem! Escreveu o Jornal da Noite: "O foguetório comeu solto. Músicas bem escolhidas e variados salgadinhos juntamente com bebidas bem geladas aguardavam os artistas nacionais, componentes da primeira caravana, que daí a poucos minutos tudo devorou sob as vistas do prefeito Paulo Melo e do seu povo bom e hospitaleiro." O resto da tarde e noite foi o tempo de todos se acomodarem nos luxuosos hotéis da cidade, continuarem a tomar os seus drinks e se preparem para a "dura" jornada no fim de semana.

Dia 21 de Abril, sábado


Para quem não acordou cedo e  perdeu a visita às 9:00 horas, na Escola Agrícola Wenceslau Brás, o antigo Patronato; sim, sim, aquele prédio ali hoje abandonado estava no programa de visitas dos astros, foi direto para o Parque das Águas de Caxambu. Às 10:00 horas, realizariam algumas competições, digamos, "curiosas" para o evento, mas não menos divertidas: Uma corrida de sacos animou a manhã  dos artistas que não se fizeram de rogados. Muitos caíram na água, nas competicoes de 50 metros.  Na foto 1, um panorama geral da piscina, na n°2 Marlene, n° 3 Margot Morel, n° 4, Adeleide Chiozzo e Lurdes Maya em desabalada correria à beira da piscina.

Às 16 horas do sabadão, aconteceu o rodeio e Tourada na Exposição Agro-Pecuária, localizada no espaço à esquerda de quem vai em direção à Baependi. Tomaram parte da atração os mais renomados peões da região e... Os artistas! Mara Rubia corajosa apeou no cavalo (foto ao alto). A atriz conquistou de fato a simpatia do povo caxambuense e foi muito ovacionada. Pudera. Qual dos atores tiveram a coragem de subir num cavalo nesse dia? Nenhum. Do Anselmo Duarte ouviu-se: "Eu heim!"


A programação continuou às 20:30 horas no Teatro do C.R.A.C, sim, sim, naquele prédio central onde hoje é um supermercado. A peça  apresentada "Os Transviados" de Amaral Gurgel, foi encenada pelos artistas amadores do Corpo Cênico, com  presença da atriz caxambuense e conhecida na cidade como "Mericana", (foto 1 a primeira à esquerda, seguida da atriz Adelaide Chiotto, no chic casaco de pele). No intervalo entre os atos, as estrelas e artistas presentes  também subiram ao palco (fotos 1 e 3 Mara Rubia, Agnes Fontoura e Adelaide Chiozzo), e foram aclamados pelo público. Ah, digo a vocês, Caxambu teve diversão e arte.
Estámos falando de cinema, ou? Pois adiante. A programação seguiu. Às 23 horas aconteceu o show dos artistas na Boate do Cassino Gloria, com a presença de todo o estrelato, e Adelaide Chiozzo no seu acordeom e Carlos Matos na Guitarra.

Dia 22 de Abril, domingo
Todos queriam morder a carne de Mara Rubia


Haja fôlego! Acorda gente! No domingo, às 10 horas da matina, não sabemos se todos compareceram, mas teve missa cantada na Igreja Matriz Nossa Senhora dos Remédios, celebrada pelo reverendo Padre Joel Pinheiro Borges. E para aqueles que perderam a missa e levantaram às 12 horas, o programa era ir comer churrasco no Bairro Jardim Belvedere, oferecido pelo casal José Vieira Machado. Mara Rubia foi novamente a estrela do espetáculo e pareceu  muito divertida, e em outra cena, dois queriam tirar um naco carne da atriz... (1). Já Jece Valadão  provou a carne em outro "espeto" e gostou. Ninguém protestou que a cerveja foi servida em... Copinhos descartáveis de plástico.

E quem sobreviveu ao churrasco, pinga, cerveja e outras bebidas ainda mais fortes, foi participar da Seção de Gala no Cinema de Caxambu às 20:30 horas, com, claro, a presença dos astros e estrelas ao vivo. Na seção em "avant première": "Lenora dos Sete Mares".  

E para aqueles que não dormiram no escuro do cinema de cansaço, tiveram que ter fôlego para a última programação do dia: O Baile, na Boate do Hotel Glória, que teve início oficialmente às 22 horas. Caxambu estava em alvoroço. Na penúltima grande noite brilharam outros como Rodolfo Mayer, sua esposa Lourdes Mayer e Marlene protagonistas do filme "Leonora dos Sete Mares".

Ébrio

Antes do show da noite começar, ecom um público ainda  sóbrio, houve leilão beneficente em prol do orfanato da cidade e Mara Rubia e Avany foram convidadas para arrecadarem o dinheiro. E elas fizeram valer de todos os "recursos femininos" para a nobre causa. Um beijo de Mara Rubia custou 6 mil cruzeiros ao Caruso.

Às 23 horas aconteceu o show dos artistas. Alguns deles se deixaram esperar e só começariam a chegar, por volta da meia noite.  Na porta do Cassino, acotovelavam-se aqueles que não conseguiram reservar uma mesa, e mesmo pagando a entrada, tiveram que ficar em pé, na frente da boate, para não perder o espetáculo. Ébrios com certeza já estavam todos, quando o baile terminou, às 4 da manha. E foi Vicente Celestino que elevou sua voz para cantar... "O ébrio", provocando entusiásticos aplausos do público. Adelaide Chiozzo   atacou no cordeom e seu marido Carlos Matos na guitarra, fizeram e aconteceram, improvisara e... Arrasaram.  Marlene cantou e sambou, versos foram recitados, cenas de peças foram encenadas. Foi um "show" à parte. O festival era de cinema, mas os artistas não se fizeram de rogados e apresentarem suas versatibilidades ao vivo.

Uma constelação de astros estrelas ao alcance das mãos




Os organizadores ficaram muito satisfeitos com o andamento e organização do evento e fizeram um balanço positivo, principalmente da participação dos caxambuenses. Ao contrário da cidade de Petrópolis que ignorou por completo o evento, o de Caxambu foi um sucesso total de público. Não por menos. Houveram  sessões de cinema ao ar livre, patrocinado pela Embaixada dos Estados Unidos (sic) e os artistas eram para serem, não somente vistos, mas tocados. Nas fotos, Agnes Fontoura, no colo do vaqueiro e Mara Rubia, num segundo antes de ser beijada, e Catalano, sendo mimado pelas funcionarias do balneário.

Os gafanhotos

Os caçadores de autógrafos não deram sossego aos astros e foi o termômetro da aceitação popular. Assim definiu o Jornal das Moças: "Os caçadores de autógrafos surgiram como praga de gafanhotos. Para colher assinaturas utilizavam-se de livros, cédulas, cartões, caixinhas de fósforos de propaganda, etc." Ainda bem que a praga de gafanhotos atacou os artistas. Se não fosse assim eles não seriam artistas e não estariam lá para divulgar os seus trabalhos. Ossos do ofício. Mas os astros e estrelas deixaram-se cativar pela recepitividade do povo caxambuense. Quem iria não deixar de gostar de Adelaide Chiozzo, que subiu num caminhão e deu um show de acordeom, em praça pública, assim, assim de improviso? Ah, ela também visitou o orfanato da cidade e lá também o seu acordeom pode ser ouvido. Não foi o máximo? Vejam no filme Adelaide Chiozzo e seu acordeom, bem como o gala Anselmo Duarte no filme "Aviso aos navegantes", produzido na fábrica de sonhos brasileira, a Atlantida.

Dia 23 de Abril, segunda feira

Ainda na segunda a programação do Festival de Cinema continuou com a chegada de outros artistas, agora com o elenco do "Lenora dos Sete Mares", para a última seção de cinema.

E às 11:00 horas da manhã,  ou da noite para muitos que vararam até a madrugada na festa,  partiu parte da caravana de artistas rumo ao Rio de Janeiro. Uns foram de ônibus, outros de avião, pois muitos dos artistas tinham ainda compromissos com as temporadas de teatro.

Às 14:00 horas  houve Matinê! E às 20:30 horas, com os olhos ainda semi-abertos o público pode comparecer  à última Seção de Gala, no Cinema de Caxambu, com "avant premiere" do filme "Fuzileiro do Amor", com Mazzaropi. Ele estava ausente no festival, mas veio a bela atriz Margot Morel, a considerada rainha do mambo havaiano. Ela paralisou  os fuzileiros. Não percam o vídeo abaixo!


Às 22:00 horas o "grande finale", o Baile de despedida, na boate Cassino Glória. A última apresentação ficou por conta de Mara RubiaMarleneDelfinoWilson ViannaLourdes e Rodolfo Mayer, este último atendendo a pedidos da platéia, fez uma pequena encenação de improviso de "As Mãos s de Eurídice". O público veio abaixo.

Crítica: Os desocupados da Cinelandia

Até aquela data, 1956, foram organizadas 5 versões da "Semana do Cinema Brasileiro", em diferentes cidades. Foram elas: Belo HorizonteBahiaVitóriaQuitandinha, em Petrópolis e... Caxambu. Quem protestou e criticou o festival foi o Sindicado dos Artistas, porque eles queriam ter o monopólio de organizar festivais. Elas foram publicadas no Mundo Ilustrado:

"O Sr Adolfo Cruz, periquito da Radio Nacional, levou 40 contos do prefeito de Caxambu para realizar um festival de cinema de Caxambu, um festival de cinema de asfalto, ou seja, de desocupados da Cinelândia". E continuava: "O único elemento sério do "bando" era o humorista Leon Eliachar, que, mesmo convidado oficial e não se calou a respeito do ridículo que foram os dois dias de baderna. O prefeito de Caxambu que era o explorador do jogo do Cassino arranjou essa "marmelada" como atração turística." Ai!

Balanço final

Sem nenhum incidente grave ou escândalo o 5° Festival de Cinema de Caxambu ia encerrando sua programação, noticiava a Revista da Semana. Até o tempo ajudou e puderam tomar sorvete a 10° graus de uma sorveteria, cujo o dono era um holandês, e que fazia, segundo eles, os melhores sorvetes, melhores que a lanchonete Bob de Copacabana.
Na despedida final  da cidade, o ônibus que levava a constelação artistas de volta ao Rio, percorreu a cidade, e os caxambuenses puderam despedir de seus ídolos. E para fechar este texto, tomo emprestado os comentários da Revista da Semana:

"E assim transcorreram os quatro dias da 5a Semaninha do Cinema Brasileiro, sem complexos, sem desavenças, com alguns pára-quedistas (que não eram jornalistas nem pertenciam a qualquer atividade do cinema), sem nenhum contratempo. Nem sequer, houve as anunciadas mesas-redondas para discutir os problemas da indústria, e onde nada se aproveita. A turma foi para se divertir. E fazer propaganda do cinema brasileiro. Foi melhor a propaganda do Festival que a de muitos filmes nacionais..."
E foi.

Filmes:
Fuzileiro do amor, com o ator Mazarropi, Wilson Grey, Carlos Duval Grijó Sobrinho, Pedro dias, Margot Morel, sob a direção de Eurides Ramos e producao de Alipio Ramos,  para Cinelandia Filmes
Leonora dos Sete Mares, dirigido por Carlos Hugo Christiensen, com Arturo De Cordove, Rodolfo Mayer, susana Freyre, Henriette Morinnau, Heloisa Helena, Adriana Reis, Anilza Leoni, Luiz Otero, Arnando Montel, Osvaldo Louzada, Lobenca, Claudiano Filho, Jardim Filho, produzido pelo "Artistas Associados".  
Fonte: 
(1) Jornal da Noite
Jornal do Brasil, 1950-1959
Jornal das Moças 
Revista da Semana,
Revista do Radio
Fotos:
(3) Alberto Ferreira, in Revista da Semana, RJ

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