domingo, 16 de janeiro de 2022

Pedro Fernandes Vianna da Silva/ uma biografia/ Condomínio da Família Ayres parte 3


Pedro Fernandes Vianna da Silva nasceu no Rio de Janeiro, em 1871, filho de Pedro Fernandes da Silva e Rosa Cândida. Formou-se em engenharia civil, ocupou a diretoria de arborização da cidade do Rio. Deixou sua marca em alguns monumentos da cidade,  o maior deles, o Cristo Redentor, cujas obras inspecionou em 1930. Viveu 71 anos três meses e 20 dias.

Por que estamos falando dele no Blog da Família Ayres? É que ele foi casado de segundas núpcias com a nossa vizinha em Caxambu, dona Orminda Guimarães, que povoou o meu, nosso universo infantil. Por um curto tempo, ela residiu  no "Condomínio da Família Ayres", mas deixou lembranças, nas memórias sentimentais das vizinhas Graça Pereira Silveira  e Janice Drumond.


Duas baependienes

Pedro e Claudiana

Pedro casou-se em 26 de setembro de 1897 com primeiras núpcias com Claudiana Teixeira da Motta, e tiveram três filhos: Oscar Motta Vianna da Silva (1900-1998), José Maria Motta da Silva (1906-1990) e Elias de Jesus Vianna (1917-?). Façam uma viagem virtual, e também no tempo, na casa onde morou o casal, é só passar pela Rua Teresina, n° 12. A residência ainda conserva a arquitetura de antanho. O curioso é que seu filho Oscar Motta Vianna da silva (1900-1998) nasceu em... Três Corações, onde Pedro estava domiciliado, quando da data de seu casamento com Claudiana. Uma hipótese é que ele possa ter participado na construção do ramal da estrada de ferro, pois as datas coincidem com a expansão dos trilhos de ferro no Sul de Minas. Assim, teria residido na cidade, antes e após o casamento, até o nascimento de seu filho, como comprovam as certidões ao lado.

Pedro e Orminda

Aos 52 anos, em 1923, ficou viúvo e casou-se  com Orminda Rosa Guimarães (1882-?), que por sua vez era viúva de Fernando Joaquim da Costa Guimarães (1874-?). Orminda era filha de Luiz Fernandes da Costa Guimarães e neta do português Manoel Constantino Pereira Guimarães  que, fez parte da comissão para as festividades da recepção da Princesa Izabel na povoação de Caxambu e Baependi em 1868.

Pedro e Orminda já deviam se conhecer, pois casar com duas baependienses não poderia ser mera coincidência. Orminda, que vinha de um casamento sem filhos, já era mulher madura quando disse sim. A data e local de seu casamento ainda nos é desconhecida, mas foi entre 1923/24 e 1927, quando foram  padrinhos de batismo de Maria Thereza de Almeida Freitas, filha do médico Sizenando de Freitas, em 1927... em Três Corações. Sizenando de Freitas foi responsável pela elaboração da maquete da obra da igreja Matriz de Três Corações. Aqui temos a prova que Pedro manteve seus contatos com a cidade de sua residência, no ano de 1897, data do casamento com a sua primeira esposa, Claudiana. O irmão de Sizenando, Victor Figueira de Freitas (1888-1976) era engenheiro de transportes e também estudou na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, onde Pedro Fernandes lecionou. Ele foi funcionário da Central do Brasil designado para servir em Minas como engenheiro ferroviário, atuando na implantação de ferrovias. Estava aí tudo ligado. Pedro e Orminda também aparecem já como casados num anúncio de obituário de sua irmã de Orminda, de Baependi em 1928. 


Os parentes da primeira esposa de Pedro moravam em Baependi, e a ligação com a cidade era intensa. Não foi à toa que seu filho primogênito, Oscar Vianna, aos 17 anos, foi padrinho de batismo, em 1916, de Noe Motta, que trabalhou na Linha da Barra, entre Soledade de Minas e Barra do Pirai, na Rede Mineira de Viação. Ah, só para saber, Noé Motta foi o autor da fotografia (acima) da estação ferroviária de Baependi em 1926. O caçula, Elias Motta Vianna, casou-se com Noemia do Prado, também de Baependi, em 1926. Eles deviam ter convivido nos mesmos espaços urbanos e não urbanos, mesmo morando no Rio de Janeiro.
A cidade ficando maravilhosa / O novo século

Ao Alto à esquerda, com Heitor Costa e Pedro Fernandes Vianna (centro de óculos),
construção do Cristo; abaixo, quiosque projetado por Pedro Fernandes,
Praça do Meier, RJ; Inauguração da estátua do Cristo, 12 de outubro de 1931.

A proclamação da República, em 1889, proporcionou a formação de um novo centro político administrativo do governo federal. Muitos desafios estavam colocados para os profissionais da engenharia. 
O novo século anunciou um período de desenvolvimento e grandes transformações para a cidade do Rio de Janeiro, não sem consequências. Havia necessidade de saneamento, o que criou condições para a expansão e modernização dos serviços urbanos e demolições, que fizeram desaparecer algumas paisagens históricas da cidade, como o morro de São Bento, e o do Castelo. Foi a construção do "centro republicano, representando a nova ordem política e cultural da cidade".

Políticos, personalidades políticas e suas obras

Pedro Fernandes era o homem certo na hora certa. Ele constou na Revista de Arquitetura do Brasil como engenheiro-paisagista, e em 1908, no Almanak Lammbert como engenheiro. Em 1913, Pedro lecionava como professor na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, no mesmo local onde o seu padrinho do primeiro casamento, o engenheiro e político Brás Carneiro Noronha da Gama, lecionou e onde seu filho Oscar Vianna estudou. Tudo ficava em família. A renomada Escola Politécnica, fundada em 1792, foi a primeira instituição de ensino superior do Brasil, e é a sétima escola de engenharia do mundo. Quem estudava, ou lecionava lá, era realmente de uma elite privilegiada. Pedro ocupava o cargo de arquiteto da Inspetoria de Matas, Jardins, Caça e Pesca do Rio de Janeiro, o que o colocaria junto com tantos outros colegas engenheiros ocupados nas obras de grande impacto para a cidade, como o político e engenheiro Paulo de Frontin. Paulo de Frontin foi presidente do Club de Engenharia e Diretor da Escola Polytécnica, que conecta todos os personagens desta história.

Comemoração do aniversário de Paulo de Frontin no Parque das
Àguas de Caxambu, 1912, com sua família e diversos amigos

A propósito, Paulo de Frontin (1860-1933) era frequentador do Parque das Águas de Caxambu, chegando a comemorar seu aniversário posando em frente a antiga fonte Pedro II, em 17 de setembro de 1911 (foto). Não seria surpresa se Pedro e Claudiana também pudessem ter se encontrado nas alamedas do nosso parque. Afinal, Paulo de Frontin era seu colega de profissão e chefe, quando foi prefeito do Rio de Janeiro de janeiro a julho de 1919. 

Pedro Fernandes Vianna deixou sua marca na cidade, não só na obra do Cristo Redentor, como dois quiosques no Jardim do Méier (foto ao alto), o primeiro de madeira inaugurado no Rio, que foi reproduzido em dois outros lugares da cidade, um na praça Barão de Taquara e outro no Santuário da Igreja da Penha. Sua base era em alvenaria e revestido de pedras e o corpo em madeira. Segundo o Inventário dos Monumentos do Rio de Janeiro, o coreto da praça de Barão da Taquara é conhecido como Praça Seca. Na sua inauguração, em janeiro de 1916, teve direito a banda de música, e presença dos alunos das escolas municipais. Será que foi inspirado nos coretos de Caxambu?

Os arquitetos no centro das atenções/1922, um ano de muita agitação cultural e política


Exposição do Centenário da Independência, 1922, com Epitáfio Pessoa
e arquitetos. Pedro, segundo da direita para a esquerda.


Foto ao alto, fundação do Instituto de
 Engenharia; abaixo à esquerda,
Palmira com Enoch Lima; à direita, 
Palmira e Célia Ayres
Em janeiro de 1921, participou da comissão para elaborar o estatuto do Instituto Brasileiro de Arquitetura, bem como fez parte de sua diretoria (foto à direita) na gestão de Gastão Bahiana. Na foto Gastão (centro), Nereu Sampaio, Archimedes Memória, Pedro Viana da Silva (segundo sentado da direita para a esquerda), Gabriel Fernandes e Edgar Viana. Na sessão inaugural do instituto, vinte sete engenheiros arquitetos assinaram o documento. 
Por anos, Pedro colaborou com revista publicada pela instituição. 

Dois acontecimentos marcaram os eventos do ano de 1922: a semana da Arte Moderna, bem como as comemorações do Centenário da Independência. Pedro então posa com os arquitetos e o presidente Epitácio Pessoa (foto) na Exposição do Centenário. O Rio de Janeiro  se encontrava numa enorme expansão urbana entre 1925 e 1935. Nesse contexto, os profissionais da área de engenharia procuraram se organizar no sentido da valorização da profissão. Em janeiro de 1923, arquitetos e engenheiros fizeram a primeira reunião para fundar o Instituto Brasileiro de Arquitetura, que reuniu Pedro Fernandes Viana (foto ao alto) e... Enoch da Rocha, seu colega arquiteto na prefeitura, que se casou mais tarde com a tia Palmira Ayres de Lima (foto a esquerda, abaixo). Não sabíamos das coincidências até fazermos as pesquisas nos anais dos documentos e, claro, contamos com a nossa biblioteca familiar Célia Ayres, também presente nas fotos. E eu fico pensando, não estaria tudo ligado?



Abertura do túmulo de Estácio de Sá em 15/1/1922
Pedro Fernandes Vianna, terceiro à esquerda, do ponto de vista da corrente

Pedro Fernandes participou não só em obras públicas, mas também nas consequência delas. O desmonte do morro do Castelo, marco geográfico e histórico da cidade, para dar lugar aos pavilhões da Exposição do Centenário da Independência, em 1922, fez com que desaparecessem importantes patrimônios religiosos: o Colégio dos Jesuítas, a igreja de São Sebastião, onde estavam os despojos do fundador da cidade do Rio de Janeiro, Estácio de Sá. Assim, praticamente desalojado, Estácio de Sá teve que se mudar. E quem estava na comissão da organização? Ninguém mais que Pedro Fernandes, que, claro, compareceu à abertura do túmulo, ao lado da a alta cúria eclesiástica. Foi um grande acontecimento cívico-religioso para a cidade. 


Pedro Fernandes Vianna, ao centro; à esquerda Heitor Costa,
na construção do Cristo Redentor do Rio de Janeiro

Já a obra do Cristo teve início em 1926 e concluída em 1931. Mas não pensem que ele foi somente o fiscal da obra. Não, não. Ele participou de todas as etapas, do planejamento à construção do monumento. Pedro Fernandes era de confiança da Igreja Católica e foi  responsável pelos resultados do trabalho, pela certificação de serviços prestados e pelos pagamentos. Pedro Fernandes participou desde  a concepção do projeto do Cristo Redentor. A comissão técnica, que se reuniu em 21 de setembro de 1923, era composta de padres e militares, bem como do engenheiro Heitor da Silva Costa, que designou onde e como seria o monumento. Dentre os locais candidatos a receber o monumento, o morro de Santo Antonio, o morro de Santa Tereza e o Corcovado. O monumento foi totalmente financiado pela Igreja Católica. Foram 5 anos de trabalho, muitos milhões de cruzeiros e um fiscal de obras dedicado ao seu trabalho.

A inauguração se deu com toda a pompa às 18 horas do dia 12 de outubro de 1931. Com absoluta certeza teve o comparecimento do fiscal de obras Pedro Fernandes e sua segunda consorte, a baependiense nossa vizinha dona Orminda Guimarães, agora assinando Vianna. No dia 10 de outubro Pedro Fernandes Vianna e Silva, aos 60 anos de idade, era estampado na revista que contava a história de todo o trabalho da construção do Cristo. Não era para qualquer um sair na revista Cruzeiro.

Pedro Fernandes foi também responsável pelo projeto n° 1420, em 1921,  que abriria o túnel Catumbi, Laranjeira e a abertura a rua Pinheiro de Machado, que só em 1947 foi realizado.

Os filhos com Claudiana

Oscar Motta Vianna da Silva

Da biografia do filho Oscar Motta Vianna da Silva há oque contar. Oscar estudou na Escola Politécnica, onde seu pai lecionava, e se formou também como engenheiro. Estava listado como professor nas turmas suplementares do Externado do renomado Colégio Pedro II, em 1926. Em 1937, estava no quadro funcional da prefeitura como engenheiro Classe II; em 1948, como engenheiro chefe do serviço de hidrômetros. Casou-se duas vezes, uma com Edith Barros /Vianna da Silva e da união nasceram: José Maria Barros Vianna da Silva (1924-1947); Oscar Motta Viana da Silva (?-?). Ao ficar viúvo casou-se com Jandira Costa Neves (1909-1998), com quem teve dois filhos: Pedro Geraldo Costa/Vianna da Silva (?-?) e Luiz da Costa Vianna da Silva (1942-1971).

Oscar, que também gostava de cinema, filmou, numa máquina movida a manivela, as várias etapas da construção do Cristo, e o material documental já foi motivo de exposições no Rio de Janeiro. Oscar esteve presente nos momentos mais importantes da obra de seu pai, fazendo o trabalho de documentação, amador. Contribuiu na direção de vários documentários no Instituto Nacional de Cinema Educativo (1937-1966), abarcando diversos ramos do conhecimento, como física, geografia, literatura teatro, modo de trabalho. Era um projeto do Estado Novo de Getúlio Vargas. Cinema como instrumento pedagógico, uma filosofia iniciada nos anos 1920, liderada por educadores. Em 1951, Motta Viana trabalhou com Humberto Mauro no filme Conjunto Coreográfico Brasileiro, e tudo indica que ele foi para o Mexico, acompanhando o seu filho Pedro Geraldo. 

Elias de Jesus da Silva/Vianna Motta

Já Elias de Jesus da Silva era frequentador de Baependi, e se casou com a baependiense Noêmia do Prado/Vianna da Silva (1919-?) e residia, em Belo Horizonte na data de seu casamento. Em 1945, tentou voltar para a terra de sua mãe, se inscrevendo para uma vaga para auxiliar de escritório promovido pelo Ministério da Agricultura, para a subestação de Enologia em Baependi. Elias faleceu aos 73 anos de infarto do miocárdio, em São Gonçalo, Rio de Janeiro.

José Maria da Motta

José Maria da Motta (1906-1990), nasceu no Rio de Janeiro e casou-se com Hermosina Bastos/Vianna. Faleceu aos 73 anos de arteriosclerose e hipertensão e foi sepultado no cemitério São João Batista, Rio de Janeiro. Era o mais presente no noticiário do jornal O Patriota, do tipógrafo Vieira Manso.

O neto Pedro Geraldo, um astro de cinema

E aqui uma curiosidade, aliás, duas. O filho de Oscar, portanto neto de Pedro Fernandes, Pedro Geraldo Costa Viana da Silva também era dado às artes cinematográficas estrelando um filme no... Mexico, em "Yo Pecador", numa biografia de José Mojica. Estava com 28 anos e ainda cursava engenharia, quando foi convidado para participar de outros 3 filmes no México: Ojos Tapatios, 1961; El pecado de una madre, 1962, Quiero morir en carnaval, 1962. Parece que não somente ele ficou por lá, mas também levou o pai, que faleceu, viuvo de Jandira Costa Neves, no México, em 1998, aos 99 anos de idade. Constava na certidão que ele nasceu em Três Corações (ao alto).

Em 1960, noticiava a revista Manchete, que ele tinha ganho mais fama que dinheiro com o filme Yo Pecador e estaria "lutando para permanecer para parmanecer no México, à espera de novas oportunidades".

Pedro Geraldo, depois de encerrar sua carreira como ator, trabalhou como professor de matemática nos anos 1970, 1975 1980 a 1989 de matemática na escola Secundária Liceu José Maria dos Reyes, ao lado da Hemeroteca Nacional, na cidade do Mexico, e como professor na Escola Benemérita Nacional de Maestros. Uma de suas alunas teve o prazer de ouvi-lo cantar em sala de aula. Uau! A última informação sobre ele (2020),é que estaria radicado na cidade de Tlaxcala, Mexico.

Um enterro cheio de celebridades

O sucesso de seu neto Pedro Geraldo, estrelado nas telas dos cinemas do ano de 1959, não pode ser visto pelo seu avô . Pedro Fernandes Vianna da Silva , que já havia falecido no dia 26 de dezembro de 1942, em sua residência, na rua Esteves Junior, n° 1, no bairro Laranjeiras, Rio de Janeiro (não existe mais) esquina com a rua Conde de Baependi, cidade natal de sua segunda esposa, Orminda. 
A causa mortis foi arteriosclerose generalizada, insuficiência cardíaca. Foi sepultado no cemitério São João Batista, Rio de Janeiro. Seu enterro foi concorrido, tendo a participação de figuras proeminentes da cidade.

Isto tudo porque a gente queria contar a história da nossa vizinha dona Orminda, que foi casada com Pedro Fernandes Viana da Silva, que morava na rua Quintino Bocaiuva, em Caxambu.

Quem quiser faça uma visita virtual à casa onde faleceu Claudiana Teixeira Vianna da Silva, última residência do casal no ano, em 1923. A casa está lá, ainda intacta.
Fonte:
A República Velha- 1889-1930, As principais reformas do Rio de Janeiro na República Velha, in História do Rio de Janeiro, Site Cidade do Rio.
Diário de Notícias 1944, Christo Redemptor: Exposição comemorativa dos 75 anos do monumento ao Cristo Redentor 5 julho 2013
- A Exposição Internacional do Centenário da Independência do Brasil de 1922 no processo de modernização da cidade do Rio de Janeiro, in XII SHCU-Tempos e escalada cidade e do urbanismo, Brasilia, 2014.
- SOARES, Jefferson da Costa Soares, Silva, Gustado da Motta - Dentre a Reforma Rocha Vaz e o Estado Novo: Os professores suplementares do Colégio Pedro II.Souza, Carlos - Roberto de, in Catálogo de Filmes produzidos pelo Instituo Nacional de Cinema Educativo.
- Almanak Lemmert: Administrativo 1891-1940.
- A Brasiliana Fotográfica
- LIMA, Ludmilla de Lema, Schmidt, Selma, in em escritura registrada em cartório, autor do projeto do       Cristo cedeu à Igreja os direitos autorais da obra- O Globo, 31/10/2011.
O Globo - Acervo das famílias reúne documentos, fotos, cartas e até diarios que revelam histórias curiosas. 
Revista da Semana (RJ) 1921-1929
 - Jornal do Brasil (RJ) 1890-1899
- Jornal do Comercio (RJ) 1890-1899
- Diario de Notícias, 1931
- O Pais (RJ) 1890 a 1899
- Correio da Manha, 1959
- Arquitetura no Brasil: Engenharia, construção (RJ) - 1921a 1926
- Prefeitura do Rio de Janeiro - site
- Correio da Manha 1910 -1919
- O Imparcial: Diário Ilustrado do Rio de Janeiro (RJ) - 1912 a 1919
- A Época (RJ) 1912-1919
- Arquivo Nacional. MAPA, Memória da Administração publica Brasileira.- Colegio Pedro II (1889-1930)
*Transcrito do Jornal  O Patriota, que por sua vez foi transcrito da revista católica Mensageiro do Carmelo.
HADER, June. E in A Escola Normal, as professoras primária e a educação feminina no Rio de Janeiro no   século XIX. 
RABELO, Clevio, in Arquitetos na cidade: Espaços profissionais em expansão (1925-1935), 2011
MALI, Carlos Lucas, in A História do IAB- Instituto de Arquitetos do Brasil
Biblioteca Digital da REDARTE, Instituto de Arquitetos do Brasil
Familie Search
Revista Manchete (RJ) 1952-2007)
O Cruzeiro- Internacional 1957-1962
Soares, Jefferson da Costa Soares, Silva, Gustavo da Motta, in Dentre a reforma Rocha Vaz e o Estado Novo: Os professores suplementares do Colégio Pedro II
Linha da Barra (Soledade de Minas/Barra do Piraí-Rede Mineira de Viação). Latuff blog Ferrovias do Brasil ensaios ilustrados.
Fotos:
Diário de Notícias, 2 de abril de 1944
Revista Fon Fon
Augusto Malta (1864-1957) Abertura do túmulo de Estácio de Sá -  Biblioteca Digital Luso-Brasileira 
Cascata: Vera Dias, inventários dos monumento do Rio de Janeiro
Levy, Ruth Nina Vieira Ferreira, in A Exposição do Centenário como marco para a profissão do arquiteto, 2007.
Agradecimentos: 
Julio Jeha, sempre

quarta-feira, 12 de janeiro de 2022

Condomínio da Familia Ayres/ Parte 2/ Dona Orminda, uma mulher nascida no outro século/ Dona Ritinha e a casa e nossas lembranças/Caxambu nos anos 60/ Juntando as pontas das linhas

Trabalhos de crochê de dona Orminda

Para falar de dona Orminda, há que voltar no passado, à nossa infância, na década de 1960, quando vizinho era sinônimo de solidariedade. As lembranças sentimentais são as que mais ficam na nossa memória e, dentre elas, a grande solidariedade de dona Orminda, a nossa vizinha que agradava as crianças com biscoitinhos, e às vezes com dinheirinho para comprar as coisas de que a gente gostava.

Quem mais conviveu com a caridosa e paciente vizinha Orminda, foram Graça Pereira Silveira, que morava duas casas abaixo da dela, em direção a Baependi, e Janice Drumond, moradora do lado oposto da rua, em direção ao centro. Eu era ainda muito pequena, e as lembranças estão associadas aos imensos pés de mamão plantados perto de nossa cerca, cujos frutos caíam quando estavam maduros, e a gente ia pedir para pegar.

Não temos fotos de dona Orminda, mas Janice Drumond a descreve como uma velha senhora de rosto redondo, cabelos branquinhos, lisinhos e pele de pêssego. Ah, da casa também temos recordações. Os móveis, o relógio carrilhão, enorme para nós crianças, que ouvíamos lá de casa, quando dava as horas. A varanda com aquele piso de ladrilhos pretos e brancos, o jardim da frente quadradinho cheio de flores, as dálias. Sim, vem o gosto das frutas na boca e o cheiro de flor de laranjeira nas narinas.

Mas não estaríamos contando as histórias, se não fossem as memórias das duas crianças, na época, Janice Drumond e Graça Pereira Silveira, junto com as fotos dos arquivos da primeira. Janice nos surpreendeu com as relíquias guardadas do seu tempo de infância, quando aprendeu a fazer crochê com dona Orminda (foto ao alto). Mais de 60 anos essas preciosidades ficaram guardadas, e agora então exposta aos nossos olhos. Sim, esses delicados tecidos foram, em parte produzidos pelas mãos da velha senhora e da aprendiz. Os três artefatos à direita eram para colocar em mesa de cabeceira. Como Janice ainda estava aprendendo, usava linha era mais grossa. Quando a aprendiz apresentou desenvoltura, trabalhou com as linhas mais finas. Ela se lembra também da cena, sentada à mesa oval, sobre dois travesseiros para aumentar a altura e Dona Orminda, baixinha, parecia gigante de pé da aluna. Então, juntamos as pontas das linhas e deu um conto.

Nascida em outro século


Orminda Rosa Guimarães nasceu em 1° de outubro de 1882, em Baependi, filha de Luiz Fernandes da Costa Guimarães Júnior, batizada pelo seu avô Manoel Constantino Pereira Guimarães, que fez parte da comissão de recepção da princesa Izabel em Caxambu e Baependi no ano de 1864.

Orminda casou-se em 7 de julho de 1896, muito jovem, como era típico da época, aos 13 anos, três meses antes de completar 14, com Fernando Joaquim da Costa Guimarães (1874-?). Ele também era filho de proeminentes figuras políticas da cidade de Baependi, neto de Antonio Carlos Carneiro Viriato Catão (1803-1858), presidente da província do Espirito Santo, em 1857 e 1858. Ah, sim, todos importantes figuras públicas de Baependi. O casal não gerou descendentes. 

Dois viúvos, duas baependienses/ Nada foi ao acaso

Orminda e Fernando Joaquim  foram, em 1917, padrinhos de batismo de Maria, filha de Fernando Castro Silvas e Clodomira Guimarães da Silva, em Baependi. O fato confirma que ele ainda vivia até esta data. Ela então enviuvou e voltou a se casar, agora com o engenheiro Pedro Fernandes Vianna da Silva (1871-1842), também viúvo da também baependiense, Claudiana Teixera da Motta (1878-1923). 

O enlace aconteceu entes de 1927, pois o casal apadrinhou Maria Thereza, filha do médico Sizenando de Freitas, em Três Corações, nesta data. Pedro Fernando, em seu primeiro casamento com Claudiana, em 1987, estava endereçado, em Três Corações, e parece manteve seus contatos na cidade do tempo que lá residiu, e onde nasceu seu primogênito, Oscar Motta Vianna, por volta de 1899. Também encontrei no obtuário de sua irmã Joaquina Guimarães Caputo, datado de 1928, já como casados.


O casal foi morar no Rio de Janeiro, onde Pedro Fernandes trabalhava como engenheiro da prefeitura. 
Orminda ainda manteve uma residência na rua Cornélio Magalhães, no centro de Baependi, que usavam Emu suas frequentes visitas à cidade, pois os parentes de ambos ainda residiam, em Baependi. E pela proximidade das cidades, temos certeza que eles faziam "esticadas" até a estância  hidromineral mais charmosa do Sul de Minas, Caxambu.

Orminda, com absoluta certeza, participou de um dos mais importantes acontecimentos da história da cidade do Rio de Janeiro: a inauguração da estatua do Cristo Redentor, em 12 de outubro de 1932 (foto acima), pois seu marido foi fiscal das obras.

Nhá Chica

Alguns registros publicados no jornal O Patriota, em 1937, atestam a presença do casal  na cidade. A partir de 1944, Orminda vinha sozinha, já na condição de viúva, quando visitou Baependi em 2 de marco de 1946 e 11 de maio de 1946, quando solicitou a ligação elétrica para um ferro de passar roupa em sua residência, na rua Dr. Cornélio Magalhães. Devota de Nhá Chica, colaborou mais de uma vez para a reconstrução da capela da beata. 

Acreditamos que dona Orminda continuou residindo no Rio de Janeiro, na Rua Esteves Junior, n° 1, no bairro das Laranjeiras, onde faleceu seu marido Pedro Fernandes, em 26 de dezembro de 1942. Por coincidência, a rua tem esquina com a Conde de Baependi, sua cidade natal. No início da década de 1960, mudou-se definitivamente para Caxambu onde veio ocupar o imóvel da rua Quintino Bocaiúva, com sua irmã, dona Ritinha. Depois perdemos o fio da meada. Dona Orminda se mudou da Quintino Bocaiúva e não tivemos mais notícias dela. 

Dona Ritinha, a irmã mais velha de dona Orminda/ uma de nós

Ritinha tinha as crianças alegres como Janice para lhe fazer companhia e brincar de boneca. Todas inocentes no mundo da imaginação infantil. Ritinha era pequenina, do tamanho das crianças, conta Janice.  "Ela de vestidinho, parecia uma de nós brincando de roda com a gente." Depois de tão boas lembranças, conseguimos trazer dona Ritinha para a vida: Rita de Cassia Guimarães nasceu em 5 de novembro de 1881. Ritinha casou-se aos 19 anos com Julio Biajoni, viúvo de Ataliba Augusta da Silva Reis, acometida de uma tuberculose deixando três filhos menores que, com certeza Ritinha ajudou a criar. Foi uma cerimonia na própria casa do noivo, em 1904. Sabemos que ela perdeu um filho recém-nascido em 1909, mas aqui nos falta seguir as pesquisas para fazer sua completa biografia. Ela ficou nas lembranças das crianças Janice Drumond e Graça Pereira Silveira. Ritinha era uma delas, do alto dos seus oitenta e tantos anos na época.

Fotos:
Arquivo privado de Janice Drumond
Revista Fon Fon
Fontes:
O Patriota
Familia Search
Agradecimentos:
Piedosos à Graça, que teve que suportar uma entrevista Brasil x Alemanha às 6 da manhã e sem ter tomado café.
A Janice Drumond, por ter revirado seu arquivo de sentimentos e panos de croche.
A Julio Jeha, sempre

quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

Caxambu, 05 de janeiro de 2001/ Em memória ao meu amigo e poeta Eustaquio Gorgonne



Hoje, por um grande acaso, abro os meus guardados e... uma correspondência de Eustáquio Gorgonne, datada de 5 de janeiro de 2001, exatamente a vinte um anos. Essa é uma publicação inédita, dedicada ao meu grande amigo poeta Eustaquio Gorgonne. Ao cometer o erro de grafia de acrescentar um "n" no "Gorgonne", Eustáquio gostou da idéia. 

Prezada Solange

Recebi sua carta com as notícias de Natal e das densas nevascas. Mas também a agradável supresa de encontrar a tradução de meus poemas em um idioma que tem sido a sua segunda pátria lingüística. Muito mais do que um pedido meu, a iniciativa deste trabalho demonstra seu esforço e coragem necessários para reabri, em outro texto, a impressão original retida do poema. Poucos se aventuraram no prazer de perscrutar a linguagem poética: quem o faz em dois idiomas é compensado em dobro e revive a obra com nova autoria.

Na ausência de uma expressão adequada sua opção em excluir "de tara" me pareceu correta. De origem grega a palavra composta ninfomaníaca teria uma sonoridade fora do constelo dos outros vocábulos (que buscam um olhar mais português em mancebo, sapateiro, macela, meeiro) trazendo um jeito mais erudito de que popular. No verso, a forma arcaica "mulher de tara" foge da adjetivação comum indicada pelo particípio "tarada", talvez nos levando, de fato, as dúvidas e comentários que lhe foram pertinentes. Haveria também a rápida passagem sonora de mancebo (onde se inclui uma vida de amancebado) para rusticidade dos sons "de tara" (onde rege a vida hereditária). Próximos como se apresentam, dividem esta cumplicidade do tempo, que sustenta dois vocábulos.

Por se tratar de um idioma que nada conheço nao poderei opinar sobre alguma dúvida existente na tradução, sendo sua sensibilidade e estudo o responsável para cuidar neste terno das mamangabas de nossa infância e descobrir onde elas dorme na linguagem.

Guardarei com carinho seu trabalho até uma possível publicação.
Suas Cartas são coloridas de novidades e forca criativa.
Abraços 
Eustaquio.

Foto:
Solange Ayres, feita no seu ambiente de trabalho, 1999.

domingo, 19 de dezembro de 2021

O condomínio da Família Ayres/ A memória afetiva da ocupação dos terrenos da antiga rua Quintino Bocaiuva, 113

Dona Dolores e seus filhos: Janice, Jackson e a babá Geralda
na varanda

Sempre ouvi contar na família que, até o terreno da dona Orminda Guimarães/Vianna (1882-?) na antiga rua Quintino Bocaiuva, onde tinha casa na década de 1960/70, pertenceu ao meu avo José Ayres de Lima, (1873-1943) o  Trançador e avó Gervasia Ayres de Lima (1881-1968). E era! Fizemos as diligencias e descobrimos muito mais. Quem, onde e quando. O objetivo era resgatar a história da ocupação dos terrenos e as nossas memórias afetivas. E conseguimos!

Antes, muito antes de 1930

De fato. Antes de 1930 o terreno pertenceu ao meu avô José Ayres de Lima, o Trançador, filho, e sua esposa, minha avó Gervásia Ayres de Lima. Para chegar as informações foi preciso fazer muitas consultas com à nossa biblioteca familiar, Celia Ayres, (veja aqui a biografia completa de Célia Ayres) telefonemas e mais telefonemas entre Brasil e Alemanha para contar a história da ocupação do terreno, abaixo da antiga rua Quintino Bocaiúva, em Caxambu. A minha, nossa tia Célia, sempre ela, com uma memória afiadíssima conta detalhes, fatos e acontecimentos históricos que marcaram a vida naquele pedaço de terra. Vamos lá.

Da direita para esquerda: Edson Ayres 
1a direita, Gervásia Diório; 2a, Marlene
 Diório 3a; ao centro vó Gervásia Ayres,
 à esquerda, desconhecida

 

Tia Célia Ayres confirma que todo o terreno, que ia da rua Quintino Bocaiúva 113, abaixo, até o ribeirão Bengo, pertenceu à família. O pai foi comprando os terrenos e repartindo com os filhos, contou. O pedaço de terra era extenso. Na época era costume os filhos morarem perto de seus pais, e o objetivo foi parcialmente cumprido. José Ayres, o filho mais velho da avó Gervásia, meu pai, construiu uma casa no terreno à esquerda do n°113, e viveu lá com sua primeira família, até a sua primeira esposa falecer. Esta casa foi vendida para seu Virgilio, após o falecimento de sua esposa, Alzira Ayres.

Tio Silvio, que já possuía o seu terreno, doou um pedaço para meu pai, José Ayres, que tinha acabado de ficar viúvo, para construir uma casa, bem abaixo da casa que foi construída pela tia Maria Ayres/ Rodrigues e que ele, Silvio, a adquiriu posteriormente. 

Tio Samuel Ayres de Lima também tinha o seu pedaço na rua debaixo, extensão do terreno, onde é a rua Policarpo Viotti, que foi parte desapropriado para a abertura da avenida Beira Bengo.

Meu pai finalizou a casa no início da década e 1960, e ficamos todos morando no terrenos adquiridos pelos nossos ancestrais. Assim foi formado o que meu primo Edson Rodrigues Ayres denominou de "condomínio da Família Ayres".

Para além das fronteiras, não conhecíamos o proprietário do imóvel ao lado da casa do tio Silvio, até que a tia Célia lembrou: o terreno foi doado pelos meus pais para à minha irmã Silvia Ayres/Diório e seu marido Marco Diório recém-casados. Eles construíram a casa, que na foto ainda suas características originais, como o piso azulejado (foto ao alto), o gradil, o teto alto e o extenso terreno até o Bengo.

Os residentes ao longo dos tempos

Década de 1930

A residência deve ter sido construída por volta de 1934/35 e a família Ayres/Diório morou por algum tempo lá até se mudarem para a casa que construíram, na hoje rua Policarpo Viotti, abaixo da casa da avó Gervásia, no terreno também pertencente ao "condomínio", onde moravam e moram descendentes do senhor Luiz Verruma. A rua Policarpo Viotti não existia, era apenas uma rua sem saída. Tia Célia nos lembra ainda que Marlene Diório, a terceira filha do casal, bem como Gervásia-neta, nasceram lá. Na foto ao lado, os personagens desta história: Edson, abaixo à direita, Gervásia-neta acima à direita, vó Gervásia ao centro e Marlene à esquerda. A foto foi feita na casa de vó Gervásia em data desconhecida.

Eu e minhas dúvidas... liguei novamente para a tia para confirmar. 

-Tia, a senhora tem certeza que eles moraram lá?

E ela, de estalo: - Claro! No dia em que Marlene abriu os olhos para o mundo, a companhia elétrica tinha cortado a luz. 

- Mas como assim? 

- Eles não tinham pagado a conta de luz, e a companhia cortou. Marlene nasceu no escuro. O parto foi feito à luz de velas. 

Depois dessa contundente afirmação, não tive dúvidas. Eles construíram aquela casa. Sim, e a Marlene nasceu praticamente à luz de velas pelas mãos da tia avó Maria Ayres de Lima, conhecida como Mariquinha, a parteira oficial da família (veja a biografia completa da tia-avó Mariquinha). Era um 17 de janeiro de 1936. Esta data é a referencia para montarmos, a digamos, linha do tempo de ocupação da residência no condomínio da Família Ayres. 

Década de 1940, um sonho, vida e morte

A história da ocupação seguiu e quem adquiriu imóvel posteriormente foi meu tio Luiz Ayres. Na verdade a memória da ocupação da casa começou aqui, quando tia Célia me disse que, antes de dona Orminda, o tio Luiz Ayres de Lima tinha adquirido o imóvel. O único filho vivo confirmou o fato, Lais Ayres, bem como o nascimento de seus dois irmãos na casa, Iara e Fernando, já falecidos. Moraram na rua Quintino Bocaiúva por quase 10 anos, disse ele. Depois que o tio Luiz foi acometido por uma tuberculose e precisou realizar um tratamento de saúde, foram obrigados a se mudar para Belo Horizonte. Naquela época, Belo Horizonte era conhecida como cidade do ar puro, pasmem. 

E acreditem, no meio da pesquisa, sonho com o falecido tio Luiz. Ele me recebeu no seu apartamento em Belo Horizonte e eu na pesquisa: -Tio, até quando o senhor morou naquela casa? - Ele, até 1950. Tive que vender e dividir... E eu, porque? Ah, tive muitos casamentos, 11 ao total. Mas onze, como chamou sua primeira esposa? Maria. Sim, a tia Maria, que era chamada por nós de Lili. Acordei.

Mas tia Célia não deixa por menos nos detalhes e lembra novamente um fato que ficou marcado em sua memória. Conhecida na família por Miquita, a sogra do tio Luiz mãe da tia Lili, em visita à família, faleceu de uma sincope cardíaca... naquela casa. Valha-me Deus!

Não sabemos quem  adquiriu a casa após a saída de tio Luiz, mas sabemos a casa não ficou desocupada.

Década de 1950

Dona Dolores com Jackson, 1950,
à esquerda e Janice, 1954 , à direita

Depois... depois... vem a mãe da Janice Drumond, Dona Dolores que alugou a casa no início da década de 1950. Todos os seus filhos nasceram lá: Janice, Jackson e (foto acima). Ficamos na dúvida. Quem era o proprietário da casa?

Década de 1960

Arminda, Dasa, Francisca e Lucimar  
Festa de formatura do Colégio Normal, 1973

Aí foi a vez da Família Rodrigues Pereira, o ramo dos Ayres entrar em cena. A Dasa (foto acima), neta de vó Mariquinha, e que morava duas casas abaixo, ocupou a residência entre 1959 e 1960, com sua família quando nasceu a... Francisca (foto acima), a Francisquinha para nós. Na época o marido, Danilo era jogador em Belo Horizonte e a família alugou a casa por um curto período. Francisca nasceu em dezembro de 1959 e eu, em janeiro de 1960. Como minha mãe teve problemas para me amamentar, a solidária Dasa se fez minha "mãe de leite". Éramos vizinhas de cerca. Minha mãe sempre me dizia: Ah, a Francisquinha é sua irmã de leite". Demorei a entender. 

Ainda na década de 1960

No intervalo em que a família de Janice Drumont se mudou e foi morar no centro da cidade, ocupou a casa Dona Orminda. De fato, eu me lembro dela na varanda da cozinha, nos afazeres domésticos. Cheguei uma entrar na sala e me impressionei com o relógio carrilhão que, quando badalava, era ouvido até lá em casa. Mas quem tem as melhores memórias da moradora é a Janice. A família voltou a morar na rua Quintino Bocaiúva, no meio da década de 1960, na casa recém-construída (foto), em frente à da minha vó Gervásia, que sedia hoje o Centro Espírita. 

"Eu lembro até das cores da casa. Porque a gente brincava muito com a Ana Maria, uma das meninas da casa Verde Alta de frente, onde tinha televisão. Da varanda a gente via a casa de dona Orminda."... A (casa) de Caxambu pode ter sido só de veraneio, onde ela foi viver pós viuvez. A época é a mesma da troca da capital do Rio para Brasília, que calha com a redução da ida de políticos a Caxambu, perda do glamour de época..."

Década de 1970

Não sabemos quando a última moradora de nossas lembranças, dona Orminda, se mudou de lá. Fato é que a casa foi passada para o seu sobrinho, já falecido, e a vida da casa dá seguimento, sendo ocupada pelos seus descendentes.

Então estávamos todos ali, na Quintino Bocaiúva que um dia mudou de nome e passou se chamar Magalhães Pinto.

Fotos:
Arquivo privado de Família Ayres
Arquivo privado de Família Rodrigues/Freitas/Pereira
Arquivo privado de Janice Drumont
Fonte:
História oral resgatada entre os familiares da Família Ayres, Família Rodrigues Freitas.
Agradecimentos:
A Julio Jeha, sempre

domingo, 8 de agosto de 2021

O desabafo/Carta da princesa Izabel ao Conselheiro Francisco de Paula Mayrink/ Assunto: Igreja Santa Isabel da Hungria de Caxambu

Princesa Isabel e o Príncipe Pedro
 

O Blog publica aqui na íntegra a carta da princesa Isabel, endereçada a conselheiro Mayrink sobre as razões de sua mágoa com a construção da Igreja Santa Isabel da Hungria. Teria mesmo Isabel feito a promessa de construir um templo devido sua suposta infertilidade? Na carta não há nenhuma alusão quanto à promessa de construir a igreja, através do uso das águas de Caxambu. 

Boulogne-Sur-Seine, 28 de maio de 1895.

Ilmo. Sr Conselheiro Francisco de Paula Mayrink:


Recebi a missiva do fiel amigo, comunicando-me que resolveu concluir à sua própria custa as obras do templo há tantos anos paradas do "Morro da Cruz", em Caxambu. Foi esse templo, como se sabe, iniciado sob meus auspícios e denominado, na ocasião, pelo povo mineiro, Santa Isabel, não só por honrosa deferência à minha pessoa como por ter coincidido a primeira visita que fiz ao local como o dia consagrado pela Igreja Romana à Santa húngara de quem tenho o nome.

Julgava que nada mais existisse desse templo, pois a última informação que tive foi a de que iam demolir a por há tanto construída, para a edificação de uma casa de caridade. Daí a surpresa que me causou sua carta. Sensibilizou-me a idéia de fazer o amigo os pagamentos das obras em meu nome para dar aos caxambuenses a impressão de quem sou eu quem termina a construção do prédio. Assim procedendo, quer como disse, além de agradar aos locais, prestar-me também a mim, um serviço, evitando que me apodem de perjura os que proclamam ainda, em Caxambu, haver eu feito uma promessa sem a ter cumprido. Não quer que na empresa apareça o seu nome!... Jamais vi igual desprendimento às vaidades do mundo! Confesso que, como meu pai, tenho pelo seu espírito de generosidade e renúncia particular admiração. Não nos esquecemos, p. ex., de quando, sem esperar recompensar, quando já não tínhamos o poder, prestou aos meus um favor que lhe custou dissabores e algumas indiretas represálias por parte do Governo Provisório.

Foi quanto, na tardes de 17 de novembro de 1889, no mesmo dia em que embarcamos para o exílio na canhoneira "Paraíba", fez-nos baldear para o navio "Alagoas" de sua frota, na Ilha Grande, litoral fluminense, por saber do desconforto e insegurança que nos oferecia o barco que, para conduzir-nos à Europa, nos pusera a disposição o novo governo.

Renovo, pois, muito comovida, os meus agradecimentos pela intenção que o levou a pretender fazer os pagamentos da construção da Igreja de Santa Isabel, em meu nome.

Seria, insisto, a generosidade, que lhe é, aliás, peculiar, o móvel único desse ato. Sim, porque não aparecendo no negócio o seu nome, nem sequer o reconhecimento público da obra receberá o senhor. Agradeço-lhe o sacrifício, mas não quero que a Igreja, que se propõe ressuscitar, seja a mesma que imaginei e apadrinhei na juventude. Deve ser outra. A primeira poderia com razão ser considerada obra minha, mas esta não: é sua, legitimamente sua. Faça , pois os pagamentos em seu próprio nome e de-lhe, outro título. Não é por orgulho que o peço, Sr Conselheiro, mas porque jurei não contribuir com mais um ceitil para a construção, desde que, ao chegar em 1873 ao Rio de Janeiro a notícia do desaparecimento misterioso do dinheiro depositado em conta bancária para aquele fim, começaram os adversários do Império atribuir o fato a uma ação desonesta de meu esposo. Responsabilizaram assim tacitamente o Príncipe pela paralização dos trabalhos. As calúnias como sabe, contra ele no setor de negócios, sucediam-se irritantemente, desde o término da Guerra do Paraguai. Visaram talvez com isso encobrir a lembrança do seu heroísmo, já que voltaram de lá - para quem queria ver honestamente os fatos - como um dos principais contribuintes de nossa vitória. Não podendo, para empanar-lhe o brilho, atacá-lo por nenhum outro lado, faziam-no maldosamente por esse. No caso de Caxambu, possuía ele, felizmente recibo da importância (vultosa para a época) que em meu nome entregara para a construção. Reproduziu em 1874, a meu conselho, esse importante documento de defesa em vários jornais, e o senhor mesmo o deve ter visto. Solidária como Príncipe em face aos acontecimentos, resolvi, depois do nascimento do nosso primogênito, não mais interessar por aquele templo. Os amigos de Caxambu, que estavam a par das minhas justas mágoas, bem como os que criam a versão da promessa, escreviam-me sempre, esperando pacientes, anos a fio, que me decidisse a enviar mais dinheiro para o término das obras. Faziam-no não que julgassem impossível conseguir de outro modo o auxílio. Pelo contrário: ser-lhes-ia isso facílimo através das autoridades civis, do clero, de capitalistas generosos, ou ainda do povo por subscrição. Mas não lhes convinha dessa maneira... Convinha-lhes apenas que a Igreja fosse inteiramente obra minha. E isso pelo meu título, e não propriamente pela minha pessoa. Havia também inimigos que rezavam para que eu, magoada, desistisse definitivamente de tudo e a Igreja viesse em consequência a tomar outro nome. Foram estes os vencedores. Ao invés de lhe proporcionar tal prazer, quisera de coração atender aos poucos e verdadeiros amigos. Mas atendendo-os estaria, é obvio, vilipendiando meu marido.

Não se importe, sr. Conselheiro, com esta decisão. A república venceu, e aí mesmo em Caxambu, que é uma ínfima partícula na nação brasileira, encontrará o senhor muita gente ao seu lado, essa mesma cujo interesse e apagar de vez as últimas reminiscências do regime deposto. Muitos, creia, o louvarão por verem que partiu do senhor espontaneamente a resolução de mudar a invocação da igreja. Se, contudo, para defender-se de injúrias, achar ser preciso (o que julgo improvável) publicar esta carta, tem, desde já, para tanto, o meu consentimento. Minha comoção diante da generosidade e modéstia de seu gesto em querer completar as obras em meu nome, gastando em tal empresa somas que poderiam mais tarde fazer grave falta na sua família, proporcionou-me, na fase de recolhimento e tristes em que ainda me encontro, um oportunidade providencial de desafogo, a qual se reflete nesta tão longa missiva. Bem sabe que é contra meus hábitos expandir-me assim. Talvez esteja, pela extensão e o teor da epístola, ferindo igualmente as conveniências da nobreza. Costumo, no entanto, em casos especiais como este os da consciência e do coração.

Sensibilizou-me, repito, sr. Conselheiro a intenção generosa do seu gesto, que me ensejou esta oportunidade inesperada a benfazeja de desopressão.

Com que mágoa evoco as cenas narradas num diário do Rio por Jacques Ourique, ocorridas em 15 de novembro de 89 em casa de Deodoro, quando aquele que, na expectativa ha atual de algum benefício, antes vezes beijara a mão de meu pai, atendia sorridente a massa desordenada e delirante que ali fora homenageá-lo, depredando, alcoolizada talvez, as insígnias da monarquia. É, pois de esperar que, à exceção dos bairristas de Caxambu, que desejam seja eu a executora das obras, o povo brasileiro se alegre com a resolução que julgo dignamente tomar. Creio na alegria do povo pelo antagonismo (sincero ou interessado) que vem (ao que leio) em sua maioria, ultimamente manifestando pelas coisas do Império. Assim, para que a Igreja que o senhor, tão bem intencionado, se propõe terminar, não seja nem possa parecer a mesma que só recordações muito tristes me traz, suplico-lhe diga ao povo a verdade, dando à Igreja ao mesmo tempo outro nome. Sei bem que sente ao ler esta súplica, mas não se preocupe - Caxambu, estancia que tanto ama e pela qual tanto tem feito, nada perderá... Santa Isabel de Hungria tampouco, pois vou iniciar brevemente outro templo sob sua invocação em Serqueux, norte da Franca, para cuja inauguração será convidado. Não morro, esteja certo, sem dar, eu a mesma, a santa de minha devoção de menina o templo que, com tanta fé, ideei em Caxambu. 

Recomendações minha e do Príncipe a D. Clara.
Renovando ainda minha súplica e meus agradecimentos, sou sua como sempre, muito afeiçoada.


(ass.) Isabel, Condessa d`Eu

* Caxambu Grifos meus
Foto: 
Arquivo Museu Imperial de Petrópolis
Fonte:
Lessa, Francisco de Paula Mayrink, in Vida e Obra do Conselheiro Mayrink (Completada por uma Genealogia da Família), Pongetti. 
Agradecimentos:
Pedro Henrique Ribeiro, historiador, colaborador do Blog da Família Ayres.

A construção da Igreja de Santa Isabel da Hungria/desvio de dinheiro e uma princesa indignada

 





Os 126 degraus que nos levam ao alto do morro, onde foi construída a igreja de Santa Isabel de Santa Isabel da Hungria, foram escalados muitas vezes na minha infância e adolescência. Era o calvário, dizia minha mãe, e assim se parecida com aqueles intermináveis degraus, um rito anual que cumpriu por muito tempo nos Sábados de Aleluia, quando ia assistir à missa, às 6 horas da manhã, levando lírios brancos que floresciam no nosso jardim.

A história da construção da igreja Santa Isabel da Hungria se inicia com a visita da princesa Isabel à localidade. Casada em 1864 e até a data de sua visita à povoação, em 1868, Isabel teria tido dificuldades de gerar filhos, e a corte então veio para experimentar um tratamento nas Águas Virtuosas de Caxambu. 

A povoação e já tinha fama de possuir fontes que curavam desde que os leprosos foram expulsos, em 1843, quando um juiz mandou incendiar suas choupanas. Ironicamente,  eles foram os maiores propagadores da fama das "águas virtuosas". Bem, bem, da pobreza para a realeza. Sete anos depois da visita real, em 15 de outubro de 1875, nasce o primogênito, Pedro de Alcântara, resultando a consolidação da promessa: construir um templo em  gratidão e devoção. Assim foi e é contada a história. Verdade? Hum...

Na ocasião foi instalada uma cruz no alto do morro, marcando o local da construção da futura igreja. Caxambu era Vila Nossa Senhora dos Remédios e estava subordinada, administrativamente, à vizinha Baependi. Até aqui, eu desconhecia a existência de uma biografia do neto de Conselheiro Mayrink, Francisco de Paula Mayrink Lessa, o capítulo "Caxambu", contém muitas informações de bastidores da construção do tempo, inclusive uma correspondência entre o Conselheiro e a Sua Alteza real, a princesa Isabel. Mayrink foi o benfeitor que conseguiu terminar o templo quase 26 anos depois de lançada sua pedra fundamental. Mas vamos lá aos acontecimentos.

Cronologia da construção:
A visita de S. A. Real, princesa Izabel
 
A chegada da realeza se deu no dia 17 de novembro de1868, uma terceira-feira. A comitiva ficou hospedada no palacete de Carlos Theodoro Bustamante. Entre os políticos locais que recepcionaram a princesa, estavam Polycarpo Viotti, dr. Paulo Ferreira, o capitão João Carlos .

No dia 22 do mesmo mês, em solenidade na Câmara Municipal de Baependi, foi lavrada a ata do lançamento da pedra fundamental para a edificação da igreja. A pedra foi benzida pelo reverendo monsenhor Luiz Pereira Gonçalves de Araujo, para posteriormente ser colocada pela princesa no local da construção do alicerce da igreja. Na ocasião S. A. Real ouviu pedidos para que removesse o cruzeiro do lugar onde se achava, plantado por Francisco Viotti, em 3 de maio de 1862, o que foi deixado a cargo do engenheiro Christiano Luz. 

A princesa fez um depósito "considerável" de 50:000$000. O gasto, ou o "abono" quantia para construir a igreja, seria superior à da igreja de Petrópolis, onde residia a Família Real. Sim, superior, pois a igreja de Petrópolis era simples em comparação com o plano da igreja em estilo neogótico em moda. Na ocasião de sua estada, abriu subscrição para os voluntários fazerem seus donativos que somaram 4.000$000, assim noticiado em O Baependiano.

Para realização da grande empreitada, foi escolhida uma comissão local composta pelo coronel Justo Maciel, o  vigário Marcos Nogueira, o comentador Mattos, dr. Viotti e o capitão João Carlos. Já havia  uma comissão da qual faziam parte o coronel Francisco Werneck, o conselheiro Ribeiro da Luz e o Visconde de Mesquita. 

Matriz insignificante X Igreja no estilo gótico

Mas qual! Relembrando, do lançamento da pedra fundamental até o início de sua construção arrastaram-se anos. No início do mês de dezembro de 1884, a comissão das obras da igreja deveria se reunir, afim de fazer a marcação exata no "Morro do Cruzeiro", para qual veio o deputado provincial Christiano Luz, um dos membros da comissão. Mas devido ao baixo comparecimento, a reunião foi transferida para o início de janeiro de 1885. No planejamento estava a abertura da  rua que ligaria  a praça da igreja até o alto do morro.

Assim noticiava o Jornal do Comércio, do Rio de Janeiro, em 1885 : "A matriz é insignificante; mas começa a abrir os alicerces para uma linda igreja gótica, Santa Isabel de Hungria, cuja planta vimos, e que depois de concluída ficara um primor de architectura, sendo que era situada em posição muito pitoresca. Era orçada em 130:000$, havendo já levantados 90:000$ aos esforços da Princesa Imperial, que tem pedido esmolas para essa construção. Estamos convencidos de que Caxambu melhorará muito com a edificação dessa igreja; tem visos de paradoxo esta affirmacao nesta época, mas precisa notar que estamos em Minas, província essencialmente católica."

Água X água benta 

Em maio de 1885 eram concluídos o nivelamento do local onde seria edificada a igreja. A construção  estava todo vapor e carroças de pedras já estavam sendo conduzidas ao alto da colina, noticiava O Baependiano e as obras "estavam em grande adiantamento" e que a igreja teria um  jardim de "grandes dimensões" ao redor. E como toda obra é obra, os trabalhos foram paralisados e no ano de 1886, foram retomados, "a custo de perder o que ja tinha sido feito", segundo noticiava o mesmo jornal.

Como não havia separação do Estado e Igreja, as instituições religiosas recebiam dinheiro, muito dinheiro em comparação as outras tantas necessidades das pobres comunidades. Em 1887, foi encaminhado o pedido, e aceito, à Assembleia Provincial, através do deputado Américo de Matos, de consignar uma cota de 6.000$000 para a igreja Santa Izabel. Mattos apelava para o "fervoroso espírito religioso" dos parlamentes, muitos deles religiosos. No mesmo orçamento, a presidência autorizou despender 10$000 para conservação da estrada do Picu, hoje Itamonti, apresentado por Domingos Viotti. Não era muito se compararmos ao orçamento para uma capela sozinha, mas a lista das igrejas que recebiam dinheiro era muito mais longa que as de criação de escolas, manutenção das estradas, abastecimento de água, que ficavam para o segundo plano. A voz de alguns deputados soava baixa, quando citavam que não se esquecessem de dar algumas cotas, principalmente para o abastecimento de água potável. Água potável versus água benta, uma difícil disputa em tempos de Brasil Imperial.

Igreja Nossa Senhora dos Remédios X Igreja Santa Izabel da Hungria, a concorrência

Registro do livro Caxambu de Henrique Monat, 1894.

As obras da apela de Santa Isabel, eram  notícia no Jornal do Comércio, em setembro de 1891. O jornal reportada a construção de outra capela, com invocação da padroeira Nossa Senhora dos Remédios, onde estava construída a capelinha, cujas alfaias eram cuidavas o pelo comerciante e benemérito da povoação Costa Guedes. As duas obras concorreram entre si. No ano de 1886, o orçamento provincial de Minas Gerais previa para a igreja Nossa Senhora dos Remédios  200$000. A discussão era se não seria melhor concentrar os esforços em construir a igreja Santa Isabel, e já que ela era tão boa, cederia  o altar mor para a padroeira, indo ocupar os dois altares laterais. Para a capela Nossa Senhora dos Remédios já havia  15:000$000 acumulados! A proposta, claro, não iria vingar nunca. Uma era a obra do pároco local, outra um desejo de Sua Majestade, a princesa Isabel. Então pelo sim e pelo não, os dois templos foram sendo erguidos.

Além do abono da princesa, uma verba foi liberada pela a câmara  dos deputados. Isso, verba pública para construção de um tempo religioso. Outros donativos engordaram a conta, saídos dos bolsos do sr Mialasky, 10$000 e ajudaram a totalizar 21.000$000.

Parece que a obra teve muitas mãos. Em diferentes ocasiões estiveram na povoação o dr Manoel Valadão Junior, engenheiro residente na Campanha, substituindo dr. Christiano. Noticiava O Baependiano que o  sr Tavares, auxiliar de engenharia, ficou hospedado na povoação por dois meses para trabalhar na obra. Mas as obras não terminavam e já haviam se passados quase duas décadas...

Duas promessas

Entre as cerimonias de lançamento da pedra fundamental e  desejo de construir a igreja passaram-se mais de vinte anos, e sua inauguração, se deu apenas quando a Família Imperial estava no exílio. Depois de as obras se arrastarem por mais de 26 anos foi na administração do conselheiro Mayrink, um banqueiro rico e benemérito da povoação e que teve a concessão de explorar as águas minerais, que o projeto  foi retomado. O concessionário das fontes foi quem levou a diante o projeto, numa segunda promessa, quando quebrou uma perna fraturada ao cair de um cavalo. Se voltasse a cavalgar, prometeu concluir o templo. De acordo com vesões não confirmadas, a lei 398 em 2 setembro de 1904, isentou o bispado de Pouso Alegre do imposto de transmissão da propriedade que deveria pagar, ao legalizar a "doação feita por Francisco de Paula Mayrink de uma Igreja em Caxambu". (1) Nenhuma confirmação foi encontrada em sua biografia.

Ricardo Honorato Pereira de Carvalho, o engenheiro

A igreja Santa Isabel da Hungria,  estilo neogótico, comum na Idade Média foi projetada pelo engenheiro Ricardo Honorato Pereira de Carvalho (1855-1906), um carioca, nascido em Magé, conhecido por Ricardo de Carvalho. Ricardo se mudou para a hidrópolis em 1890 para trabalhar como gerente da Empresa da Águas. Ele era o homem de confiança de conselheiro Mayrink. Além da igreja, foi responsável pelo encanamento de água para o Grande Hotel Palace, hoje Palace Hotel, de Caxambu. Ricardo de Carvalho era empregado público da Secretaria de Agricultura, na diretoria de obra como desenhista. Na década de 1890, trabalhou em Caxambu, na administração do conselheiro Mayrink, sendo candidato a vereador da câmara Municipal de Baependi, em 1884, quando  ocupava o cargo de diretor da Empresa de Águas Minerais de Caxambu. Ele também foi responsável pelo o encanamento para as águas do Grande Hotel, atual Palace Hotel. Em 1896, assinava como gerente da Empresa de Águas de Caxambu. Carvalho foi quem inventou uma máquina de extrair gás carbônico das águas minerais e engarrafá-las com pressão do mesmo gás. A parafernália foi instalada junto a fonte D. Pedro em agosto de 1896.

O engenheiro foi também organizador do livro intitulado Guia do Viajante, sobre Caxambu, em 1899, além de benemérito  da Sociedade Recreativa Club Caxambuense, isso mesmo, o CRAC, aquele clube que tinha uma linda sede no centro da cidade e que depois se transformou em um supermercado. A solenidade foi realizada no dia 4 de dezembro de 1934, em sua  memória. Tudo isso ficamos sabendo pelo Pesquisador Pedro Henrique Rodrigues Ribeiro, que achou o Blog da Família Ayres e nos forneceu as informações.

Nenhum centil! Nenhum centavo!
Desvio de dinheiro/ Isabel indignada se recusa a dar dinheiro para a construção da igreja

Na verdade, o conselheiro Mayrink interveio na tentativa de terminar a obra, quando soube que a construção inacabada e abandonada ia ser posta abaixo. Sim, a obra estava parada ha 26 anos! 

Mayrink viajou em 1894 é o bispado de Mariana e indagou ao presidente da Camara qual o destino que eles queriam dar à construção paralisada. Paulo Seixas pretendia levantar lá um nosocômio. Não se assustem. Nosocômio é sinônimo de hospital. Isso, iam colocar abaixo o templo em construção e edificar em seu lugar um hospital. De fato, foi construído um hospital, mas em 1926, ao lado, a Casa de Caridade Sao Vicente de Paulo, coordenado pelo padre de bronze, João de Deus.

Mayrink se propôs a terminar a obra, e, para isso, adquiriu as terras do entorno do templo, parte do morro de Caxambu. Com o plano de continuar a obra, escreve Mayrink uma carta a princesa Izabel, em 1895, quando a Família Real se encontrava no exílio, em Boulogne-sur-Seine.

Na correspondência, esclareceu a princesa que já no ano de 1873, de volta ao Rio de Janeiro depois de suas viagens pela província, teve conhecimento que o dinheiro depositado para a construção do  templo tinha desaparecido e indignada disse que não despenderia nenhum centavo a mais para as obras.

Assim respondeu Isabel:

Boulogne-sur-Seine, 28 de maio de 1895.

Ilmo. Sr. Conselheiro Francisco de Paula Mayrink:
Recebi a missiva do fiel amigo, comunicando-me que resolveu concluir à sua própria custa as obras do templo há anos paradas do "Morro da Cruz" em Caxambu. Foi esse templo, como se sabe, iniciado sob meus auspícios e denominado na ocasião, pelo povo mineiro Santa Isabel, não só por honrosa deferência à minha pessoa como ter coincidido a primeira visita que fiz ao local com o dia consagrado pela Igreja Romana à Santa húngara de quem tenho o nome.
         Julgara que nada mais existisse desse templo, pois a última informação que tive foi a de que iam demolir a parte há tanto construída, para a edificação de uma casa de caridade. Daí a surpresa que me causou sua carta. Sensibilizou-me a idéia de fazer o amigo os pagamentos das obras em meu nome para dar aos Caxambuenses a impressão que sou eu quem termina a construção do prédio. Assim procedendo, quer como disse, além de agradar aos locais, prestar-me, também a mim, um serviço, evitando que me apodem de perjura os que proclamam ainda, em Caxambu, haver eu feito uma promessa sem a ter cumprido.
            ... Seria, insisto, a generosidade, que lhe é, aliás, peculiar, o movél único desse ato. Sim porque não aparecendo no negócio o seu nome, nem sequer o reconhecimento público da obra, recebera o senhor. Agradeço-lhe o sacrifico, mas não quero que a Igreja, que se propõe ressuscitar, seja a mesma que imaginei e apadrinhei na juventude. Deve ser outra. A primeira poderia com razão ser considerada obra minha, mas esta não: é sua, legitimamente sua. Faça, pois, os pagamentos em seu próprio nome e de-lhe, outro título. Não é por orgulho que o peco, Sr. Conselheiro, mas porque jurei não contribuir com mais um ceitil para a construção, desde que, ao chegar em 1873 ao Rio de Janeiro a notícia do desaparecimento misterioso do dinheiro depositado em conta bancária para aquele fim, começaram os adversários do Império a atribuir o fato a uma ação desonesta do meu esposo. Responsabilizaram assim tacitamente o Principe pela paralização dos trabalhos.
              ... No caso de Caxambu, possui ele felizmente, recibo da importância (vultosa para a época) quem em meu nome entregara para a construção.
                ... Solidaria com o Príncipe em face das acontecimentos, resolvi, depois do nascimento do nosso primogênito, não mais me interessar por aquele templo.

            De partida forçada, reitera o Conde D´Eu numa carta datada de 17 de novembro de 1899, endereçada a Joaquim Delfino Ribeiro da Luz, o desejo do prosseguimento as obras da Igreja. A carta foi escrita dois dias após a Proclamação da República, a bordo do navio Parnaíba que levaria a Família Real para a Europa rumo ao exílio.



Igreja Nossa Senhora da Conceição para Igreja Santa Isabel da Hungria.

Por ter Mayrink adquirido o terreno e o entorno se dispondo a terminar a obra, a igreja teve por alguns anos outro nome: Igreja Nossa Senhora da Conceição. Sim, era um projeto dele em sua propriedade, daí a mudança de nome que não agradou a população. 

Isabel, que não queria ter seu nome associado a um projeto que não pode acabar, passou a responsabilidade a Mayrink, pela decepção de ver o dinheiro doado sumir. Assim templo foi renomeado para Igreja Nossa Senhora da Conceição durante as obras finais. Na época escreveram à princesa enviando um abaixo assinado de cerca de 600 pessoas para que ela consentisse que o nome fosse retornado, Santa Isabel da Hungria. A igreja teve portanto, por um curto período, entre 1885 a 1887 o nome de Igreja Nossa Senhora da Conceição. Mayrink, o benfeitor de fato da igreja, manteve-se discreto e a princesa agora ressurgia como a grande benemérita da obra, embora sua finalização se deu por causa do amigo. 

As obras terminaram em abril de 1897. A igreja foi benta, segundo a mãe de Mayrink Lessa, neto do conselheiro Mayrink, em missa celebrada pelo cónego Amador em 12 de junho de 1897. A igreja, segundo ela estava "cheia e linda". E não duvidamos. Presentes estavam quase toda a família Mayrink, marquesa de Itamaraty e outras pessoas de vulto da comunidade religiosa, política e financeira. Segundo ela, os hotéis ficaram lotados.  A controvérsia da missa realizada ter sido num templo "particular", e que se chamava Nossa Senhora da Conceição e que estava na propriedade de Mayrink, e por isso não constar nos arquivos diocesanos e sim que o templo foi "benzido" em 19 de novembro, assim oficializado sua existência como templo.

Inaugurada a igreja, protestaram dois parlamentares republicanos. Um telegrama recebido da povoação de Caxambu, constava que o conselheiro Mayrink, banqueiro, empresário e político, eleito deputado da província em1889, teria construído a igreja. Na verdade eles alegam que Mayrink se ofereceu para concluir e não que a obra tenha sido toda dele, acusando-o de "apavonar", isto é, se transformar em um pavão e dizer que a igreja teria sido feito seu. Podemos concluir que foi injusta acusação dos parlamentares em dizer que Mayrink queria projeção política ao terminar o templo por sua própria conta. Que a justiça seja feita. Mayrink salvou a igreja da ruína.

Patrimônio histórico / Onde estão os santos?

Enquanto Conselheiro Mayrink esteve em Caxambu, a igreja era, segundo o neto Mayrink Lessa, bem cuidada. Em 1913 o vigário da paroquia fez uma inspeção na capela e constatou que ali faltavam vários ornamentos religiosos da alvenaria, utensílios e muitos santos, assim como seus nichos laterais e púlpitos. Em visita em 1970, Mayrink Lessa confirmou o desolado estado da capela. Do relatório do vigário, só restavam a imagem de madeira de Santa Isabel. Segundo as freiras Irma Delfina e Marcelina,  dos santos primitivos, procedentes da Europa, foram pouco a pouco transferidos sem nenhum controle para igrejas de outras cidades mineiras, consideradas "mais evoluídas". Assim foi contada a história.

Fonte:
A Província de Minas, 1887
Lessa, Francisco de Paula Mayrink, in Vida e obra do Conselheiro Mayirink, 1975, Pongetti.

Agradecimentos:
Pedro Henrique Rodrigues Ribeiro atualmente cursando o 7° período de Direito na Universidade Cândido Mendes. Historiador nas horas vagas, pianista nas horas amargas e pianista nas noites caladas. 

Como sempre, a Júlio Jeha.