Eu desminto. Contar é muito, muito dificultoso. Não pelos anos que já se passaram,mas pela astúcia que tem certas coisas passadas. Guimarães Rosa, Grande Sertão-Veredas
terça-feira, 24 de maio de 2022
A história musical da cidade de Caxambu/ Corporação Nossa Senhora Aparecida
domingo, 22 de maio de 2022
O seu Joaquim Roque que vive em mim ha onze mil quilômetros de distancia
quinta-feira, 31 de março de 2022
Colegio Normal Santa Terezinha/ Uma história/ Educação para a vida
Na noite de 9 de março de 1960, uma quarta-feira, as internas do Colégio Santa Terezinha foram arrancadas do seu sono e, de camisolas, obrigadas a fugir das chamas que atingiam o prédio.
O fogo devorou toda a estrutura do prédio e o trabalho de 30 anos das Irmãs da Providência-Gap. Várias vezes ampliado, restaurado, remodelado, o colégio recebera, no início do ano letivo de 1960, 360 alunas, 68 delas internas, entre filhas de caxambuenses e de famílias das cidades da região como Cruzília, São Vicente de Minas, Bocaina de Minas, Seritinga, Minduri e outras tantas.
Mas antes de começar a narrar a história do colégio, não posso deixar de citar Antônio Claret, um verdadeiro "rato de arquivo", que nos ajudou a encontrar o "Histórico da Escola Normal Santa Teresinha-Caxambu". Como? Bem, só ele sabe. Seu bom relacionamento com as Irmãs da Providência de Itajubá, onde sua irmã estudou e serviu, Claret desencavou um documento datilografado que nenhum de nós haveria de conhecer.
Tampouco poderíamos recuperar parte da história do colégio sem consultar a nossa biblioteca familiar Célia Ayres de Lima/Araújo. Para a minha surpresa ela, a tia Célia, estudou lá dos 7 anos até os 17 anos. A irmã mais velha, Mercedes/Ayres/Soler, a colocou no grupo escolar, mas só cursou dois meses, sendo então enviada para o colégio das freiras para se tornar normalista. Normalista era chique, disse tia Célia nas nossas conversas telefônicas Brasil-Alemanha em 23 de junho de 2020. Lembrou-se de suas professoras, as irmãs Amélia, Stanislau, Josephina e Rita, assim como da madre superiora irmã Marcel. Por tia Célia, ficamos sabendo que o prédio já existia, quando da instalação do colégio.
Em 1° de fevereiro de 1928, as irmãs Radegunda, Albertina e Catarina, invocando as bênçãos do padre Moye, fundador da Congregação da Providência de Gap, Franca, abrem as portas do colégio para a comunidade de Caxambu, sob a coordenação da madre superiora Maria Rosa de Lima.
Martinho Moye foi um sacerdote francês que, em 14 de janeiro de 1762, funda a escola Vigy, para levar as crianças o conhecimento religioso às crianças. À frente do trabalho estava Margarite Lacomte , a primeira semente da Congregação das Irmãs da Providencia.
Elas chegaram ao Brasil em 1904 e se instalaram em Carmo do Rio Claro, sul de Minas Gerais. A separação entre Igreja e Estado na Franca significou o fim do ensino religioso e por religiosos nas escolas públicas. As congregações religiosas foram proibidas de atuar em hospitais e instituições legais. A alternativa foi a expansão da ordem para a América Latina.
Em 1907 abriram um convento em Itajubá, que permanece até hoje como sede da congregação. Elas foram convidadas a iniciar os trabalhos em Caxambu pelo monsenhor João de Deus, que na época estava às voltas com a construção do Hospital São Vicente de Paulo, a Santa Casa.
Diário de uma escola
Segundo documento encontrado por Claret, o colégio progride lentamente, devido à falta de local. O prédio da pracinha (foto), ocupado pela congregação, tinha portas que davam para a rua, o que sugere ter sido um estabelecimento comercial.Várias irmãs dirigiram o colégio. Foram elas:
1930-1933, irmã Auxence
1933-1939, irmã Marcel
1939-1940, irmã Chère Soeur du Sauveur
1940-1944, irmã Marcel
1940-1944, irmã das Dores
1946 -1952, irmã Blandine
1952-1955 , irmã Marcel
1955-1960, irmã São Paulo
1960- Maria Lucia Paim
Já no seu início, o colégio recebeu subvenções conforme a lei 173, assinada pelo prefeito Mario Artur Alves Milward em 1929. O valor da subvenção anual era de 10:000$000, mais a isenção de todos os impostos e taxas municipais. Também foi concedido à instituição o aluguel do prédio, em forma de subvenção, num esforço para que o trabalho educacional tivesse sucesso.
O prédio sofreu várias intervençõesa partir de 1936, quando a congregação adquiriu o terreno. As reformas terminaram em 1942, com o aumento do número de salas de aula e o dormitório das internas.
Em 11 de marco de 1937, o então governador interventor Benedito Valadares assinaria um decreto reconhecendo o colégio como estabelecimento de formação de docentes do ensino primário. Estava oficializado agora como parte da educação governamental. Em 7 de fevereiro, Alcides Lins, interventor federal, assina a autorização para que o colégio formasse também professores para o ensino secundário. O trabalho para que o colégio fosse reconhecido como instituição oficial do Estado foi levado adiante pelos políticos locais, pelas famílias influentes e pelo bispo de Campanha, diocese à qual a instituição estava subordinada.
A primeira turma de normalistas de Caxambu
| O Patriota, 1937 |
O colégio, situado praticamente no centro da cidade, era motivo de visitas de muitos políticos que prometiam e prometiam. Juscelino Kubistchek fez a sua visita em 28 de maio de 1951, e como sempre prometeu...
"Visitou ainda o Governador Kubistchek a 'Escola Normal Santa Terezinha', onde futuramente talvez sejam instaladas as repartições estaduais em Caxambu, e a Escola Reunida de Caxambu Velho. Segundo prometeu S. Excia, serão construídas, pelo Estado, mais duas Escolas Reunidas em Caxambu" (O Patriota). Ah, talvez, já escrevia o repórter, talvez...
Mas eram as incansáveis irmãs quem estavam à frente das obras. Em 1955 empreenderam a construção da clausura e de um galpão para as alunas. Quatro anos depois, a Congregação consegue comprar um terreno de cinco alqueires no bairro Bosque, onde mantinham um serviço de lavanderia, horta e pomar. Esta chácara cheguei a visitar como atividade da classe, e fizemos um piquenique lá. Na época estavam construindo um pequeno lago para criação de peixes. Fomos advertidas para não "chegar perto" das margens. Era o medo da gente cair e se afogar. Tudo tão limpo e arrumadinho...
Era a madrugada do fatídico 9 de março de 1960, três dias após o início do ano letivo e do retorno das internas. Era também o dia da visita de Jânio Quadros à cidade, em campanha eleitoral para o pleito de 3 de outubro. A foto acima, segundo cartão postal da cidade, é o ultimo registro do prédio antes de ser incendiado. Segundo meu pai, José Ayres, eletricista, ele já teria advertido as irmãs para a troca da fiação na lavanderia, mas as providências chegaram tarde.
O corre-corre na madrugada foi grande, e, felizmente, não houve mortes. Como o prédio não estava no seguro, houve perda total. Tudo que se pode recuperar ficou depositado na rua, como algumas peças do museu da escola, 120 carteiras escolares e... o Zé Maria. Quem se lembra dele? Sim, o esqueleto que a gente chamava de Zé Maria foi salvo das labaredas, ficando exposto na pracinha ao lado da Casa Guedes. Ele foi testemunha da calamidade, lembra Graça Pereira Silveira. Uma visão trágica. Ah, pelo menos salvaram o Zé Maria.
Jânio Quadros, então candidato a presidente, visitou os escombros calcinados, acompanhado pelos políticos da UDN de Caxambu, como Acácio Almeida. Ainda havia cheiro forte de fumaça, relata Claret. Jânio prometeu, se fosse eleito, ajudar na reconstrução. Bem, de fato ele foi eleito, mas renunciou em agosto do mesmo ano, e pelo que consta, o colégio não recebeu nenhuma ajuda oficial dos três níveis de governo. Mais um que prometeu...A reconstrução
A reconstrução ficou então na mão de seus benfeitores, dentre eles o dinamarquês e empresário Sorensen, que tinha uma fábrica de laticínios em Cruzília, e cuja filha, Elizabeth, estudava na instituição. Sorensen, eleito presidente da Associação de Pais e Mestres da Escola, toma a frente das obras da reconstrução. Um dos que também fizeram parte dos trabalhos foi o austríaco Rodolfo Weber, mestre de obras na cidade. Conta o neto Rodolfinho Weber, que o avô constatou a solidez da antiga construção. Debaixo do colégio, até hoje estão as vigas de eucaliptos que faziam parte da antiga base de sustentação do prédio.
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| O Patriota, 1937 |
Poderia enumerar muitas e fazer injustiça com outras, mas como estamos no blog da Família Ayres, não podemos deixar de destacar a normalista Graça Pereira Silveira (foto ao lado com seu diploma) minha professora no pré-primário, que me ajudou a construir barquinho à vela e que, mesmo não querendo, não conseguiu escapar do seu destino de professora, indo lecionar na escola municipal de São José dos Campos até se aposentar.
Balbino, Antonio Gilberto. Igreja e a educação família no Sul de Minas (1900-1950): O ultramontanismo e as incursões da modernidade. Itabira, 2018.
Folha Mineira (MG), 1962 a 1963
Jornal O Patriota, 1929-1951
Colégio Sagrado Coral de Jesus, 1907-2015
Agradecimentos muitíssimos especiais a Antonio Claret pelo seu empenho em conseguir documentos e informações que compõem o nosso texto.
sexta-feira, 25 de março de 2022
Tio Vicente, um baependiense desaparecido
Vicente Francisco da Luz, filho de Maria Vitória da Conceição (1898-1958) e Sebastião Gomes Francisco da Luz (1892-1951). Tio Vicente perdeu o contato com a família no final dos anos de 1960. Ele não era casado, nem tinha companheira conhecida. Sabemos somente que ele foi para São Paulo em busca de trabalho e desapareceu.
Desaparecidos
De acordo com a Delegacia de Proteção, da Delegação do Comitê Internacional da Cruz Vermelha, até o final da década de 1990, mais de 200 mil pessoas desaparecem por ano no Brasil, segundo um levantamento feito numa pesquisa da Universidade de Brasília. A subnotificação pode elevar esse número. As razões e circunstâncias dos desaparecimentos são muitas, desde problemas de saúde mental e migração até violência. Não há um cadastro nacional dos desaparecidos para facilitar a procura dos familiares, como um banco de dados com informações de delegacias, hospitais, institutos médicos legais e albergues. O Registro Nacional de Veículos Automotores funciona, e até acham carros roubados no país vizinho, Paraguai, mas e para seres humanos?
Tio Vicente aparecia de vez enquanto e fazia visitas aos seus parentes em Baependi e minha mãe, Arminda Ayres, em Caxambu. Uma das últimas vezes que o vi foi na casa da tia Rosa, em Baependi, no início dos anos de 1970. Ele apresentava algum transtorno mental, via o diabo embaixo da cama, talvez uma esquizofrenia não reconhecida.
Sabíamos que ele morava e trabalhava na cidade de São Paulo, era solteiro e se parecida exatamente como na foto, como eu o conheci, quando desapareceu. Soube pela sobrinha Rosângela Rosa, que ele teria ido para o Paraguai e lá falecera. Hoje resolvi contar sua curta história, sua pequena biografia, uma vida não acabada, uma história de vida não concluída.
Foto:
Arquivo privado da família Ayres
Agradecimentos:
A Julio Jeha, sempre
domingo, 30 de janeiro de 2022
Jorge Drexler - Tudo se transforma/ Nós e nossas histórias
domingo, 16 de janeiro de 2022
Pedro Fernandes Vianna da Silva/ uma biografia/ Condomínio da Família Ayres parte 3
| Comemoração do aniversário de Paulo de Frontin no Parque das Àguas de Caxambu, 1912, com sua família e diversos amigos |
| Exposição do Centenário da Independência, 1922, com Epitáfio Pessoa e arquitetos. Pedro, segundo da direita para a esquerda. |
| Foto ao alto, fundação do Instituto de Engenharia; abaixo à esquerda, Palmira com Enoch Lima; à direita, Palmira e Célia Ayres |
| Abertura do túmulo de Estácio de Sá em 15/1/1922 Pedro Fernandes Vianna, terceiro à esquerda, do ponto de vista da corrente |
| Pedro Fernandes Vianna, ao centro; à esquerda Heitor Costa, na construção do Cristo Redentor do Rio de Janeiro |
Diário de Notícias 1944, Christo Redemptor: Exposição comemorativa dos 75 anos do monumento ao Cristo Redentor 5 julho 2013
quarta-feira, 12 de janeiro de 2022
Condomínio da Familia Ayres/ Parte 2/ Dona Orminda, uma mulher nascida no outro século/ Dona Ritinha e a casa e nossas lembranças/Caxambu nos anos 60/ Juntando as pontas das linhas
| Trabalhos de crochê de dona Orminda |
Orminda Rosa Guimarães nasceu em 1° de outubro de 1882, em Baependi, filha de Luiz Fernandes da Costa Guimarães Júnior, batizada pelo seu avô Manoel Constantino Pereira Guimarães, que fez parte da comissão de recepção da princesa Izabel em Caxambu e Baependi no ano de 1864.
Orminda casou-se em 7 de julho de 1896, muito jovem, como era típico da época, aos 13 anos, três meses antes de completar 14, com Fernando Joaquim da Costa Guimarães (1874-?). Ele também era filho de proeminentes figuras políticas da cidade de Baependi, neto de Antonio Carlos Carneiro Viriato Catão (1803-1858), presidente da província do Espirito Santo, em 1857 e 1858. Ah, sim, todos importantes figuras públicas de Baependi. O casal não gerou descendentes.
Dois viúvos, duas baependienses/ Nada foi ao acaso
Nhá Chica
Alguns registros publicados no jornal O Patriota, em 1937, atestam a presença do casal na cidade. A partir de 1944, Orminda vinha sozinha, já na condição de viúva, quando visitou Baependi em 2 de marco de 1946 e 11 de maio de 1946, quando solicitou a ligação elétrica para um ferro de passar roupa em sua residência, na rua Dr. Cornélio Magalhães. Devota de Nhá Chica, colaborou mais de uma vez para a reconstrução da capela da beata.
Acreditamos que dona Orminda continuou residindo no Rio de Janeiro, na Rua Esteves Junior, n° 1, no bairro das Laranjeiras, onde faleceu seu marido Pedro Fernandes, em 26 de dezembro de 1942. Por coincidência, a rua tem esquina com a Conde de Baependi, sua cidade natal. No início da década de 1960, mudou-se definitivamente para Caxambu onde veio ocupar o imóvel da rua Quintino Bocaiúva, com sua irmã, dona Ritinha. Depois perdemos o fio da meada. Dona Orminda se mudou da Quintino Bocaiúva e não tivemos mais notícias dela.
Dona Ritinha, a irmã mais velha de dona Orminda/ uma de nós
Ritinha tinha as crianças alegres como Janice para lhe fazer companhia e brincar de boneca. Todas inocentes no mundo da imaginação infantil. Ritinha era pequenina, do tamanho das crianças, conta Janice. "Ela de vestidinho, parecia uma de nós brincando de roda com a gente." Depois de tão boas lembranças, conseguimos trazer dona Ritinha para a vida: Rita de Cassia Guimarães nasceu em 5 de novembro de 1881. Ritinha casou-se aos 19 anos com Julio Biajoni, viúvo de Ataliba Augusta da Silva Reis, acometida de uma tuberculose deixando três filhos menores que, com certeza Ritinha ajudou a criar. Foi uma cerimonia na própria casa do noivo, em 1904. Sabemos que ela perdeu um filho recém-nascido em 1909, mas aqui nos falta seguir as pesquisas para fazer sua completa biografia. Ela ficou nas lembranças das crianças Janice Drumond e Graça Pereira Silveira. Ritinha era uma delas, do alto dos seus oitenta e tantos anos na época.

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