segunda-feira, 25 de maio de 2015

O Baependiano



O periódico O Baependiano circulou na região  do Sul de Minas de 15 de julho de 1877 a 17 de novembro de 1889. Elele foi e é fonte de informação para reconstrução dos fatos históricos que fazem parte da Família Ayres. 

O periódico continha anúncios de toda a sorte, dava notícias do tempo, conselhos espirituais, preços  das mercadorias vendidas na Corte do Rio de Janeiro, escravos fugidos, quem nasceu e quem morreu. E na Gazetilha era anunciado o que acontecia na sociedade baependiana e redondezas como casamentos, batizados e festas religiosas.

Nos seus 8 primeiros anos a sede do jornal esteve localizada na cidade de Baependi, mas em 31 de abril de 1884, mudou-se para a cidade de Caxambu. Embora em seu edital reafirmasse  não "desposar a causa de nenhum partido", o seu proprietário e editor, Amaro Carlos Nogueira, que era amigo de José Florencio Bernardes, e membro do partido Liberal, elegeu-se deputado provincial mais de uma vez, juntamente com outros colaboradores do jornal. O Amaro Carlos Nogueira era proprietário de terra e escravos, além de possuir uma escola noturna o chamado "Liceu" com 40 alunos, dirigida por ele, Dr Antonio Tristão  Nogueira e Dona Thomasia Maria de Jesus a professora que ministrava aulas para meninas. Ele por vezes, afirmou em seu jornal fazer parte da "nobre classe" -  os proprietários e lavradores. 
O jornal se proclamava uma folha "Científica, Literária e Noticiosa", além de acreditar ser responsável não apenas pela informação, mas pela condução da opinião pública tendo por missão "doutrinar o povo sobre o que lhe importa saber" e vangloriava-se por ser "um dos principais diretores de opinião na parte mais... "adiantada do Império". Ou seja, o jornal conferia a si próprio o papel de guiar as idéias da população do Sul de Minas, mas mais importante, se considerava o porta voz de um grupo bem definido, a elite fazendeira e lavradora da região.  Os Liberais do O Bapendiano, por serem eles também proprietários de escravos, defendiam a emancipação gradual da escravidão, pois temiam que uma medida tão radical provocaria graves consequências sociais, pois para eles as coisas não poderiam ser mudadas assim de uma noite para o dia.

Aceita-se e tolera-se

Anúncio do Jornal O Baependiano
Inaceitável e intolerável, hoje diríamos, mas na edição de 30 de maio de 1880, a mentalidade era outra e aqui seguem os argumentos  contraditórios sobre o regime escravista:

"Não! Protestamos com as indignações  de nossa  alma:  não ha brasileiro que não deplore a triste herança da escravidão que nos legaram nossos maiores e que vai deseje ver terminar essa instituição odiosa, jamais essas estigmatisada por quantos adjetivos e imagens forte a eloquência tribunícia do Sr. Joaquim Nabuco. Aceita-se, ou melhor, tolera-se o facto porque é o facto; mas não se admite o direito, porque este é o bem da verdade eterna."

E o texto vai além justificando o injustificável:

"Aqui viria a propósito comparar a condição do escravo do Brasil com a de seu igual outrora nos Estados Unidos, ou com a do escravo moderno na Europa, mísero proletário." "... E sua condição tem o escravo melhorado cada vez mais de condição, tanto porque hoje não ha mais onde recruta-lo como principalmente porque o progresso da instrução vale continuamente melhorando a fundo já de sim bom de nosso povo." 

Da família

Então o argumento válido para o senhor  Amaro Carlos Nogueira, era  também válido para José Florencio Bernardes,  que costumava colaborar com o jornal, casado com Thereza Ribeiro de Lima.   (Ela era a minha tia-bisavó, filha de João José de Lima, meu trisavô) . Para eles o escravo não estava... "assim em situação tão ruim se comparado aos Estados Unidos e a Europa". 

"Acrescentaríamos que d`entre os senhores, uns, e  esse formam a maioria,  consideram o escravo, como pessoa da família, pensam-no, si não com amor, com humanidade, principalmente nas moléstias, quando em geral são objecto de mais desvelos que as pessoas da classe pobre, que o liberto pertenceria amanha"... " E esses menos humanos, ou polidos, não deixam contudo de zelar do escravo, ao menos é duro dize-lo, como mercadoria, como outro objeto de sua propriedade. 

E fazia a  comparação absurda com o proletariado europeu, que "a debater-se nas ancias da fome e das privações, no meio da industria alienada". No pensamento dele era melhor ser escravo que livre proletário, pois proletário passava fome, escravo não, ora vejam!

A partir do ano de 1888, o jornal deixa de circular regularmente, alegando o proprietáro por motivos de saúde. Em sua última edição, em novembro de 1889, anunciou a queda o Império sob o título de "Revolução"

"Para quem escreve estas linhas, o ano de 1888 foi verdadeiramente bissexto, pelo calendário e pela sorte que lhe trouxe, o que terá acontecido a muitos de seus leitores, que, de comum com ele, tiveram a sorte de que lhes fez a lei notável, que, para ser coberta só de bênçãos, e não também de algumas maldições, como infelizmente foi, bastava que os legisladores, ao confecciona-la tivessem mais em vista a observância da fé pública, e, sem demora, a acompanhassem das providências que ela reclamava. Assim não aconteceu, e foi má a sorte da nobre classe, a que pertence o escritor por seu nascimento e pelos melhores de suas modestas posses e também faz parte a maioria dos leitores desta folha. 
O que a todos nos reserva o novo ano?...”

O Baependiano, 21 de abril de 1889.

Nota: O jornal "O Baependiano" fonte de informação para a reconstrução da biografia dos familiares da Família Ayres.

José Florencio Bernardes, o homem dos raios


A conquista e colonização do Brasil foi resultado de um longo processo de expansão  espacial de famílias. Uma das principais famílias  que participaram a formação da Capitania de Sao Vicente, depois denominada Sao Paulo, foi a família Leme. Os Lemes são originários de Flandes, hoje Bélgica, sendo o primeiro membro desta família o Martin Lem (foto), comerciante de Bruges por volta do ano de 1400.

E o que os Lemes teriam haver com a nossa família? Bem, muitas dessas famílias se misturam ao longo da história, como foi o caso dos Lemes e dos Limas, que ainda não eram os "Ayres". Então vamos reconstruir a história das famílias que fazem parte da história do nosso Brasil...

A família dos Lemes era interessada no comércio com Portugal, isso os motivou a imigrar para o Brasil. Passaram pela Ilha da  Madeira  em meados do século 15;  posteriormente foram os pioneiros na colonização de Sao Paulo no século 16. A família já gostava da proximidade do poder e tinha boas relações  com o reino de Portugal. Chegando ao Brasil foram morar em Santos e São   Paulo, organizando expedições de exploração juntamente com seus familiares, agregados e escravos ocupando terras, fundando ocupações. O tronco da família dos Lemes ainda hoje possue ramificações no Estado de São Paulo.

E foi de Guaratinguetá, província de São Paulo que partiu um membro  família dos Lemes rumo as Minas Gerais. A povoação que hoje tem sua data oficial de fundação de 1651, da chegada de Domingos Leme, representante do donatário D. Diogo Faro,   foi o primeiro centro abastecedor do território mineiro. Sua economia era voltada para o comercio de "beira de estrada" de fundamental  importância para o ciclo do ouro feito ao longo da Estrada Real, que ligava Minas ao mar.

E a caminho estava, no caminho ficou. O  avô de José Florencio Bernardes, Domingos Lemes Bernardes (1767-1838) seguindo para Minas, passou por Alagoa, hoje município de Aiuruoca, que ficava num ramal alternativo à Estrada Real, e por lá ficou, tomando a mão  de Ursula Francelina de Castilho (1791-?) em 29 de outubro de 1811 em casamento, onde tiveram 13 filhos: (Anna Francelina, Carolino, Ursula, Maria Clementina, Emerenciana, Candida, Balbina, Antonio, Silvéria, Carlota, Carolina, Domingos, Salviano). Os pais de Domingos Lemes Bernardes já moravam por aquelas bandas. O pai dele Domingos Lemes de Brito (foi padrinho de batismo de Francisco na Capela do Rosário, de Aiuruoca em 19 de dezembro de 1777, comprovando sua residencia na região.

Os Lemes e os Limas

E de casamento em casamento o neto dos Lemes, José Florencio Bernardes (?-?),  casou-se com Thereza Ribeiro de Lima (1837-?), filha de Joao José de Lima e Silva (1798-1875) na Igreja Matriz de Baependi em 22 de julho de 1855, tendo como padrinho  Francisco Bernardino de Faria (1823-?) marido da já aqui biografada  Virgolina Balbina de Lima (1833-?). Virgolina que também batizou a sua filha Priscilliana Isidora do Espírito Santo (1864 -?), assim como também   foi madrinha d a então escrava Sabina Maria da Conceição (1866 -?), mãe de Gervásia Maria da Conceição (1881-1971).

José Florencio Bernardes nasceu em data desconhecida até agora; ele era filho de José Ferreira Gomes e Anna Francelina de Castilho (1800-1889), que era filha de Domingos Lemes Bernardes tinha ocupação de "lavrador", vide nota no "O Baependiano", ou fazendeiro, e possuia um plantel contabilizado até agora de 18 escravos, o que poderia ser considerado "médio" para um fazendeiro em Minas Gerais, segundo a classificação do historiador Douglas Lybbi, aliás meu professor na cadeira "Escravismo no Brasil" da UFMG nos anos de1980.

Da união com Thereza Ribeiro de Lima nasceram 7 filhos:

1) José (1854-?),
2) José Bernardes (1860-?),
Certidão de casamento de José Florencio Bernardes e Prisciliana Isidora
do Espírito Santo, no Jornal "O Baependiano", 1886.
3) Prisciliana Isidora do Espírito Santo (1864-?),
4) Recém nascido sem nome (1870-1870)
5) Maria Florencia (1867-?)
6) Bernardes (1875-1875),
7) Maria Alexandrina (?-?)

O 8° filho de José Florencio Bernardes, foi batizado com o mesmo nome de seu pai, José Florencio Bernardes Junior (?-?), era filho "natural" dele com Maria Eugenia de Lima (?-?), isto é, nasceu fora do casamento com Thereza Ribeiro de Lima, e mesmo assim parecia "integrado" à família, já que o seu casamento foi realizado no altar privado na fazenda de seu pai no Chapeo e com direito à nota no Jornal "O Baependiano", como consta ao lado.

Deu na imprensa

O Bapendiano
6 de Agosto de 1886

José Florencio Bernardes era amigo de Amaro Carlos Nogueira, que editava o Jornal "O Baependiano" e eleito deputado pelo Partido Liberal da Província por várias vezes. Os Liberais, por também serem proprietários de terra e escravos, defendiam uma lenta e gradual emancipação da escravidão, pois temiam consequências sociais graves se as coisas fossem feitas às pressas.

Esta posição com certeza era também compartilhada  por Florencio Bernardes. Fazendo parte dos 0,15 % dos cidadãos eleitores que puderam comprovar 100 mil Reis de renda, era ativo na política baependiana  sendo por várias vezes escolhido para compor câmara de votação como jurado em assuntos jurídicos e administrativos de Baependi, além colaborar com jornal contando os seus reais "causos". Para vocês, no original publicado no Jornal "O Baependiano".


"Digam agora os sabios da escriptura
Que segredo foi esse da natura"

O Baependiano
20 de fevereiro de 1883
E dois anos depois, na edição de 18 de janeiro de 1885 num dramático texto relata o seguinte:

Faisca eleetrica- No logar denominado Chapéo, da freguesia da cidade, deu-se em 10 do corrente o seguinte e lamentável acontecimento, que nos é communicado por nosso amigo o Sr. José Florencio Bernardes:
Tendo Jesuino, morador daquelle logar, chegado da roca às 6 horas da tarde, como estivesse molhado, dirgio-se para a casinha, onde estava sua mulher com 5 filhos menores, 1 filha casada e seu marido e 2 pessoas de fora, e ali sentou-se perto do fogo para enxugar a roupa, chegando-se a ele duas filhas. Nesta ocasião caio no esteio da casinha um raio que matou o infeliz Jesuíno, produzindo-lhe fortes queimaduras de um lado. 
O Bohemio,
Baependi, 6 de marco de 1883
As duas meninas que se achavam ao pé dele ficaram também queimadas, principalmente uma, e as demais pessoas que se achavam na casa perderam os sentidos com o choque, mas a exceção disto nada soffreram. A casinha que era de palha, queimou-se. O infeliz deixa na pobreza a viuva e os filhinhos menores.

E mais raios!

Parece que os fenômenos naturais causavam susto e curiosidade e mais uma vez José Florencio Bernardes é notícia, não mais no jornal "O Baependiano, mas no "O Bohemio", também de Baependi, junto com o anúncio de uma encenação  teatral.Veja à nota à direita

O Bapendiano,
31 de maio de 1881
Com o passar dos anos a   vida de Florencio Bernardes veio a sofrer grandes transformações. Parece que ele estava mais ativo na cidade de Baependi que na sua fazenda no Chapeo, pois era frequentemente chamado para participar da câmara de jurados sendo elogiado até no Jornal como  "um dos mais ativos eleitores". Por duas vezes aparece na coluna "Gazetilha" que dava entre outras notícias o que acontecia na sociedade bependiana, como mostra a nota ao lado: Sua filha D. Presciliana Isidora do Espírito Santo casa-se com Antonio Cassiano Pereira.

Em janeiro de 1886 por motivos de doença  é anunciado sua substituição  da lista de votantes e  em agosto do mesmo ano coloca sua fazenda à venda. 

Vende-se

O que o levou a colocar toda a sua propriedade à venda? Estaria José Florencio Bernardes doente? Não podemos saber. Somente no ano de 1871 faleceram 3 de seus escravos, que não posso dizer se crianças ou adultos, em 1879, Adao, totalizando 4, uma perda grande, ja que os escravos não poderiam mais serem comercializados. O certo é que o anuncio ao lado não esconde o desespero dos fazendeiros, que ja não podiam contar com a mão de obra escrava, para tocar seu trabalho e tentavam se livrar de suas posses, custasse o que custasse: "recebe-se qualquer quantia; para o mais da-se praso." José Florencio estava vendendo tudo, terras, casa, moinho, monjolo e... Toda a mobília da casa! E ainda quase 100 reses! Os negócios iam mau, muito mau para a economia da região...
O Bapendiano,
6 de agosto de 1886

Henrique Monat, em seu livro "Caxambu", publicado em 1894, dedica um capítulo à Baependi, e como cronista, descreve com vivacidade a cidade e através de suas impressões podemos entender  a real situação econômica da região.

Baependi

Causa agradavel impressão  a vista da cidade, quase toda sobre uma collina, com suas casas cercadas de vegetação   sempre abundante: o aspecto é risonho e constrasta com o isolamento arido das casas de Caxambu.

Ao penetrar-se, porém, na cidade, triste decepção! são ladeiras cheias de buracos, outrora calcadas     por lages, de que existem ainda restos; casas velhas, de aspecto lugubre, pobre, algumas a esboroarem-se, a procurarem um centro de gravidade, muitas com o reboco cahido, deixando ver o adobro , a taipa, o arcabouço que as sustentam. 

A`s janelas uma ou outra cabeça aparece, attrahida pelo tropel dos cavallos.
As ruas sao desertas; apenas ás portas das vendas pauperrimas encontra-se uns indivíduos de aspecto miseravel;

Baependy, hoje em decadencia, floresceu até uns vinte annos passados; o tabaco fez-lhe a reputação  de municio opulento, e na história o imperio os grandes principios democraticos ali encontraram defensores heroicos.

Foi berço de homens illustres nas scencias e na politica.  Hoje, nao tem tabaco para dous cigarros, e vive de recordações ; a ver crescer a fama de Caxambú, como uma mãe velha e exhausta ve, cheia de orgulho e de esperancas, elevar-se o filho que a amamentou.

As charutarias do Rio expõem rolos e cigarros que de Baependy só tem os dizeres o rotulo; e a infeliz cidade nem energia tem mais para protestar contra o papel gratuito de testa de ferro. 
A lei de 13 de Maio foi o golpe de misericordia dado a sua lavoura, já decadente.

E termina o texto: Baependy é uma cidade em decadência, disse eu.

Na cerimonia de batismo de sua netinha Auta, em 1887, filha de José Florencio Bernardes Junior, realizado na Capelinha do Piracicaba, ele não estava presente, mas apresentou procuração atravez de seu próprio pai, José Ferreira Gomes (1791-?). Dos últimos registros históricos da vida de José Florencio Bernardes, consta o casamento de Camilo Ferreira Junior (1858-?), filho de Sabina, ainda seu escravo, no ano de 1888, três meses da proclamacao da Lei Aurea, e o casamento de Efigenia, sua ex escrava em 26 de outubro de 1889.

José Florencio Bernardes faleceu em data até agora desconhecida e deixou uma geração filhos, netos:

José Bernardes (1854-?)
José Bernardes (1860-?)

Prisciliana Isidora do Espírito Santo (1864-?), filha casada com Antonio Cassiano José Pereira:

1) Zulmira Cassiano Pereira (1884-?)
2) Alexandre Pereira (1886-?)
3) Pedro Pereira (1887-?)
4) Alfredo Pereira (1892 -?)
5) Casimiro Pereira (1896- ?)
6) Vital Pereira (1899-?)

Maria Florencio Bernardes (1867-?)

Bernardes  (1875-1875)

Maria Alexandrina de Jesus (?-?), filha casada com João  Martiniano de Gusmão

1) Juvenal de Gusmão  (1886-?)
2) Gloria de Gusmão (1890-?)
3) Palmira de Gusmão  (1897-?)
4) Delmira de Gusmão  (1898-?)

José Florencio Bernardes Junior (?-?), filho casado com Maria Francisca/Francelina/ de Castilho

1) Antonia Bernardes (1887-?)
2) Alda Florencio Bernardes (1887-?)
3) José Bernardes Junior (1888-?)
4) Reinaldo Florencio Bernardes (1891-?)
5) Vinaldo Bernardes Junior (1892-?)
6) Alda Bernardes (1894-?) cujos padrinhos de batismo foram: Bernardino Lopes de Faria e Elvira Ferreira Simoes, esposa de Joao Ferreira Simões.
7) Cicomoda Bernardes (1899-?)
8) Amancio Florencio Bernardes (1900-?)

Todos batizados foram realizados na Capela de Santo Antonio do Piracicaba, Baependi, Minas Gerais, Brasil.

Parentesco:
José Florencio Bernardes é parente da Família Ayres por afinidade.  Sua esposa, Thereza Ribeiro de Lima, foi tia-avó por parte de mãe (irmã da mãe) de  José Ayres de Lima, o José Trançador    casado com Gervásia Maria da Conceição, a minha avó.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

José Eduardo Honorado da Silveira, o cônego

 Missa celebrada na Igreja Matriz de Aiuruoca
nos anos de 1940
"Homem branco, solteiro, natural da Vila de Aiuruoca, idade de 25 anos". Assim foi descrito José Eduardo Honorato da Silveira citado num documento como testemunha de uma dispensa matrimonial, em 1853.
Mas quem ele para estar aqui no Blog da Família Ayres?
Nesta data José Eduardo Honorato ainda era "pároco" e não  cônego e atuava na paróquia na Comarca do Rio das Mortes, onde se encontrava, Aiuruoca e Baependi, fazendo batizados, celebrando missas, pregando a palavra de Deus e... Foi ele aos 39 anos de idade quem batizou e poz santos óleos em Sabina Maria da Conceição, a filha de Justiniana, na Capela de Santo Antonio do Piracicaba.

Batismo de Sabina Mari da Conceição

"Como hei de votar para salvar a minha alma?"*

Como Cônego, atuou na região de Aiuruoca servindo as ermidas, ou capelas.  E mais, analisando um arquivo descobri depois que publiquei este texto, que os párocos, além tratar das almas, também tinham a tarefa importante na Província. Por uma lei 601 promulgada em 16 de setembro de 1850, dando a tarefa aos párocos de registrar terras, descrevendo sua localização, limites, datas e seus proprietários. Imaginem que força política tinha a Igreja?

Então sua carreira política estava predestinada. Como pregador e servo de Deus não foi suficiente fez também carreira como político no período do Brasil Imperial (1834-1889), aos 31 anos de idade candidatando-se e sendo eleito para 3 mandados, sendo o mais votado para o cargo de vereador para os períodos legislativos de 1857 a 1860, reeleito como o segundo mais votado, para o pleito de 1861 a 1865 e eleito como primeiro vereador mais votado, na sua última participação como político para o período de 1869 a 1873.

A citação acima* foi retirada do Jornal  "O Correio Paulistano" de 1876, num artigo de Christiano Benedicto Ottoni, num texto sobre a candidatura do  Jesuíta José Eduardo Honorato. O jornal de tendencia liberal era contra formação de um partido político católico, criticando o avanço da igreja sobre o Estado laico, assim como no Jornal "O Apostolo" de 1881.  Claro que a Igreja se metia na política. Através de seus padres candidatos era uma forma de pregar valores cristãos e influenciar nos vários níveis da sociedade.

Eram os homens "bons"?

Os critérios para assumir o cargo de vereador em uma Câmara municipal em tempos  de Brasil colonial eram extritos: Havia necessidade de provar que era "homem bom", ou seja, ser português, ter boa instrução e prestígio entre os habitantes. Com estes "dotes" com certeza não foi problema para um pastor que conhece suas ovelhas, e seus eleitores os proprietários de terras. Dos 463 registros na região de Aiuruoca, cujos muitos deles ele pessoalmente as assinou. Então se  candidatar a um posto de vereador na Câmara de Aiuruoca era fácil.

Os homens "bons", eram em geral, aqueles grandes proprietários rurais e membros da pequena nobreza portuguesa, que recebiam as chamadas "Sesmarias", isto é terras para serem cultivadas nas Colonias em troca de povoá-las e as fazer produzir.
A "pureza" de seu sangue tinha de ser reconhecida por várias gerações, sem a presença de servos, escravos ou condenados pela inquisição. Estrangeiros, não católicos e trabalhadores braçais não podiam exercer a vereança e nem ser pobre!

Só para os ricos

O voto era censitário, isto é, votava somente quem tinha dinheiro e restrito aos grupos ricos e dominantes da sociedade e claro para os eclesiais, como José Eduardo Honorato.  O voto do coração talvez ele tenha conquistado dos seus fiéis pobres, das mulheres e dos escravos como Justiniana e Sabina, mas eles não constavam na lista de votação. Não eram considerados "cidadãos" suficiente para decidir sobre os rumos da política, que afinal, quem decidia era o rei.

A função da Câmara eleita abrangia as esferas legislativa, executiva e judiciária, como por exemplo, a administração e aplicação dos recursos nas obras necessárias para as comunidades vizinhas e também a aplicação da lei e organizando a polícia local. O vereador mais votado presidia a Câmara, exercendo assim a função de que hoje seria o nosso prefeito. Somente as localidades com status de vila poderiam ter uma Câmara Municipal e eleger os seus vereadores, o que aconteceu com Aiuruoca em 14 de agosto de 1834 elevada à categoria de "Vila de Airuoca".

Igreja Matriz de Aiuruoca
Ativo na restauração da Igreja Matriz de Nossa Senhora a Conceição de Aiuruoca no seu último ano de mandato, em 1872, José Eduardo Honorado redigiu um documento solicitando  à Câmara o envio de uma representação à Assembléia Provincial, requerendo uma cota de quatro contos para a construção das torres e o frontispício da Matriz. (foto)

Eram os índios melhores que os negros?

Atestado de óbito de José
Eduardo Honorato 
Mesmo que a ordem dos Jesuítas a qual ele pertencia se opos várias vezes à escravidão indígena, o Cônego José Eduardo Honorato manteve em  seus serviços duas escravas negras Adriana e Leopoldina, uma contradição, libertas quando ele estava no leito de morte, atacado pela febre tifóide. Faça o que digo, mas não o que eu faço.
Eram os índios melhores que os negros? Esta pergunta ele não pode mais responder.

José Eduardo Honorato da Silveira faleceu no dia 18 de janeiro de 1885, aos 59 anos de idade, sem deixar testamento.
Sua alma foi encomendada com missa de corpo presente na Igreja Matriz e celebrada com a presença das Irmandades da Freguesia de Aiuruoca.

Ao lado, a nota de falecimento publicado no Jornal O Baependiano de feveriro de 1885.


domingo, 29 de março de 2015

João José de Lima e Silva o senhor dos escravos

Escravos na colheida de café em Sao Paulo
A reconstrução da vida de João José de Lima e Silva (1798-1875) não foi e não esta sendo tarefa fácil. Ele é o ancestral mais antigo da Família Ayres. Desde o início de minhas pesquisas e até agora, não encontrei maiores informações sobre seus pais e nem de sua procedência.  Mas em função de minhas últimas pesquisas (14/06/2015), quase 3 meses da publicação de sua biografia, tenho agora que reescrever sua história pessoal.

João  José de Lima e Silva foi visto em... Pouso Alto! Ele constou no Sensu da Província de 1839 no Quarteirão 2, Fogo 17  aos 42 anos, casado com Joana Teresa (1807-1860), 32 e já pai de 3 crianças: Virgolina  de sobrenome Balbina de Lima, 6 anos, que ha muito já suspeitava de seu parentesco com a Família Ayres e agora confirmado,  José, de sobrenome  de Lima e Silva de 4 e Teresa  de sobrenome Ribeiro de Lima de 2 anos de idade. Todos brancos e livres. Ele na época possuía 5 escravos: Adão, 31, Vicente, 28, Benedito  26, solteiros, Celestina, 38, viúva e José, de 10 anos. A profissão "agrícola"" e sabia ler e escrever. Pelas contas ele nasceu no ano de 1798 e até o ano de 1839 ele morava em Pouso Alto, mas sabemos que ele se mudou para o Chapeo possívelmente nos anos de  1850.

Sensu de 1839, cedido pelo Arquivo Público Mineiro

As informações compiladas das certidões comprovam que ele foi possuidor de um número superior a 20 escravos, 15 a mais que possuía em Pouso Alto e que para a época seria considerada pelos historiadores como "média", como na maioria dos proprietários da Comarca do Rio das Mortes, denominação  territorial do Brasil Colonial, onde se encontrava Baependi. Para poder comparar, uma grande propriedade teria cerca de 50 cativos. O número de escravos pode ser ainda mais elevado e poderá ser alterado à medida que a minha pesquisa avance. 

Pois bem, os registros históricos constam que ele se mudou da freguesia de Pouso Alto para a localidade do Chapeu, hoje município de Baependi, anterior ao ano de 1853, onde nasceu seu filho Rufino, pois ha um registro de 1851 do batizado de Felippe, filho de Florinda, sua escrava. A partir daí temos registros de casamentos de seus filhos e batismos de seus netos, assim como também registros de nascimento e casamento de seus escravos e ex escravos indicando que ele morou lá e lá criou sua família.

A história nas cinzas

Por uma divisão de paróquias, os registros não estão todos reunidos nos cartórios de registro em Baependi, e sim em Aiuruoca, Campanha e em outras localidades, daí a dificuldade de reunir as preciosas informações para completar a nossa pesquisa.  Os registros civis antes da proclamação da Republica, em 1888, eram feitos pela igreja, bem como o seu arquivamento. Em 1855 a catástrofe: A Igreja Matriz de Pouso Alto foi incendiada e com ela viraram cinzas valiosos documentos  que poderiam ajudar a reconstruir a vida dos nossos antepassados.

Senta que lá vem história

Fazenda Engenho, Baependi
Bem, para situar o nosso tataravó na história temos que ir no tempo mais atras, em meados dos anos de 1750, quando foram encontrados veios auríferos nos lugares de nominados "Engenho", (foto ao Lado a antiga Fazenda do Engenho) e "Lavrinhas". A notícia se espalhou e provocou um afluxo de imigrantes de várias partes das províncias que se instalaram na região.

Baependi desenvolveu-se às margens da primeira grande via de comunicação regular do Brasil, hoje a "Estrada Real", que ligava Minas ao mar, isto é, ao porto da pequena Paraty, de onde o ouro era exportado, ou contrabandeado para a Europa, como queiram denominar.

Logo logo as esperanças de encontrar ouro em grande quantidade se desvaneceram e os imigrantes se fixaram pelos seus arredores. Do sonho de enriquecimento sobrou a realidade. A mineração foi substituída pela agricultura e a região foi se destacando  na produção de tabaco, milho, feijão, assim como a criação de gado. 

Do "Engenho" ergueram uma pequena Capela à margem direita do Rio Baependi, para o atual lugar da Igreja Matriz. O povoado se constituiu mais tarde com nome de Santa Maria de Baependi, depois Baependi, que na língua Tupi "mba`eapiny" que significaria "rio do monstro marinho", referente ao rio Baependi, que corta a cidade.

E assim neste  tempo histórico viveram os nossos antepassados.
No livro de Henrique Monat, um dos mais importantes cronistas  da época em visita à Caxambu, e descreve a situação política e econômica da região, e as dificuldades vividas pelos produtores de tabaco frente as conseqüências da abolição da escravatura.

"Baependy, hoje em decadencia, floresceu até uns vinte annos passados; o tabaco fez-lhe a reputação de municipio opulento, e na historia do imperio os grandes principios democraticos ali encontraram defensores heroicos. Foi berço de homens illustres nas sciencias e na politica. Hoje, não tem tabaco para dous cigarros, e vive de recordações, a ver crescer a fama de Caxambú, como  uma mãe velha e exausta vê, cheia de orgulho e esperanças, elevar-se o filho que amamentou.

As charutarias do Rio se expoem rolos e cigarros que de Baependy só tem os dizeres do rótulo; e infeliz cidade nem energia tem mais para protestar o papel gratuito de testa de ferro.
A lei de 13 de maio foi o golpe de misericórdia dado a sua lavoura, já decacente." 

João e Joana

João José de Lima e Silva casou-se em data e local desconhecido até agora com Joana Thereza Ribeiro e tiveram nove filhos e um adotado.
São  eles:

Virgolina Balbina de Lima, (1833-?), casada em 13 de setembro de 1849 com Francisco Bernardino /Lopes de Faria (1823-?)

Rufino de Lima (1854-?), casou-se em 26 de julho de 1875 com Rita Carolina de Castro (?-?)

Ignacia Ribeiro de Lima ( -?), casou-se em julho de 1861 com Candido José Ferreira (?-?).

Maria Ribeiro de Lima/Souza Lima (?- Falecida antes de 1902), casou-se em 1868 com José Fernandes Ayres da Silva , o José Trançãodor-pai (1835-1897)

Thereza Ribeiro de Lima/Jesus (1837-?), casou-se em 22 de julho de 1855 com José Florencio Bernardes (?-?).

Ignacio José de Lima e Silva (1835-?), casou-se em 12 de agosto de 1860 com Fraujina Honorina de Jesus (?-?). (avô  de Pedro Francisco de Lima que se casaria om Lina Amelia Lima, originando, mais à frente o Ramo dos Lima/Loide) 

João José de Lima (?-?), casou-se em 23 de agosto de 1863 com Theodora Constancia de Vasconcelos (?-?).

Francisco Theododo de Lima (?-?), casou-se em 23 de fevereiro de 1870 com Maria Gabriela Alves/Ribeiro (1855-?). 

José de Lima e Silva, exposto (?-?)/Adotado.

Casamentos e casamentos

Não posso afirmar ao certo se os casamentos foram "arrajanos", como era comum na época. Mas fazendo uma análise dos casamentos de seus filhos e filhas as coisas ficam mesmo  muito interessantes. Vamos por partes. O seu João concedeu a mão de sua filha Ignacia Ribeiro de Lima em casamento a Candido José Ferreira, possuidor de um número "médio" de escravos, até agora contabilizado de 20 a 30 nos meus registros.

Já Maria Ribeiro de Lima, casou-se com Fernando Ayres de Lima e Silva (também apelidado de Trançador, como seu filho), que segundo a tia Célia tinha propriedades que se extendiam desde onde hoje se situa o Bairro Trançador, na cidade de Caxambu, até as divisas com a cidade de Conceição do Rio Verde; propriedades estas perdidas em questões jurídicas com a família Carneiro, que as reivindicou para si. Detalhes ainda a pesquisar.

A filha Thereza Ribeiro de Lima casou-se com José Florencio Bernardes, cujos bisavós vieram de Guaratinguetá, Província de São Paulo e que por sua vez também era possuidor de cerca 20 a 30 escravos.

E por fim Theodoro Francisco de Lima que desposou Maria Gabriela Alves, filha do, lembram?, Gabriel Alvares Ribeiro, aquele rico homem que doou o sino para a Capelinha do Santo Antonio do Piracicaba e dono das terras na região do povoado de Piracicaba.

Concluímos então que as famílias não eram nem pobres e nem remediados. Elas faziam parte de um grupo de senhores de escravos que tinham o seu status social como produtores de bens e riquezas, além de possuírem terras. Mas ironias da historia, parece que as famílias de seus descendentes cresceram na medida oposta à economia da região, baseada na mão de obra escrava. A decadência aconteceu vinte e cinco anos antes da visita de Henrique Monat em 1890. O derradeiro golpe, repetindo,  e por bem, foi a abolição da escravidão.

Dando nome aos seres humanos

Quero e faço questão de nomear os escravos de João José de Lima e Silva,  que mesmo sem sobrenomes nos registros fique para a nossa lembrança. Aqueles que proporcionaram o enriquecimento e o crescimento de sua família, por ordem cronológica dos acontecimentos relacionados entre os anos de 1851 até o ano de 1890:

Em 31 de agosto de 1851, foi batizado Felippe, filho de Florinda, sendo os padrinhos João  e Genoveva, todos de sua escravaria.

Em 13 de julho de 1854 foi batizada Florinda, filha de Rita , sua escrava por Marcelino também pertencente a sua escravaria.

Em 2 dias do mes julho de 1857 foi batizada Maxima Roza de Jesus , filha de Roza.

Em 3 de setembro de 1858 foi batizado Camilo , filho de Justina, na verdade Justiniana, pertencente a ele até a esta data.

Em maio de 1859 foi batizada Anna, filha de Benedita.

Em 25 de abril de 1860 foi batizada Sebastianna, filha de Roza, sendo padrinho Jeronimo, também seu escravo.

Em 4 de setembro de 1862 foi batizado Nicolau, filho de Virginia, que era de propriedade conjunta com José Florencio Bernardes, que casou com a sua filha  e Virgolina Balbina de Lima, avó torta de Gervásia Maria da Conceição, a vó Gervásia.

Em 13 de novembro de 1863 foi batizado Firmino, filho de Ritta.

Em  29 de maio de 1866 foi batizado Florencio , filho de Florinda.

Foi padrinho de Marcelino, escravo do mesmo e Brigida, escrava forra, isto é liberta.

Em 25 de maio de 1874 foi enterrado Francisco no Cemitério de Piracicaba.

Em  janeiro de 1875 faleceu Francisco.

Em 19 de agosto de 1875 faleceu Ritta, filha de Benedita, escrava liberta.

Em 10 de novembro de 1889 casou-se Damásia, escrava do finado.

Em 25 de janeiro de 1890, faleceu Benedito Manoel de Lima de 70 ex escravo, natural de Pouso Alto, vitima de uma úlcera cancerosa no Hospital de Baependi. (Ele consta no sensu acima) 

Em 17 de maio 1890  casou-se Mateus de Lima e Silva, seu ex escravo.

Os Lima, os Ayres

Alguns de nós trazemos ainda o "Lima" no sobrenome e de fato, veio lá do nosso tataravô. Já o "Ayres" veio do lado de sua filha Maria Ribeiro de Lima que se casou com José Fernandes Ayres e foi mãe de José Ayres de Lima, o Trançador, que se casou com Gervásia Maria da Conceição, a vó Gervásia, originando a Família Ayres de Lima.

João José de Lima e Silva não viveu para ver a libertação de seus escravos. Faleceu no Chapeu, ou Lagoinha do Chapeu como o local era chamado, (vide certidão abaixo)  em 31 de janeiro de 1875, já viúvo ha 15 anos de Joanna Thereza Ribeiro, falecida em 26 de maio de 1860,  e foi enterrado no Cemitério de Santo Antonio do Piracicaba, ao lado da Capela de Santo Antonio do Piracicaba, hoje bairro de Baependi.
Assim foi.


Grau de parentesco: 

João José de Lima e Silva foi o avô de José Ayres de Lima, o Trançador-filho, e este casado com Gervásia Maria da Conceição, a vó Gervásia, esta bisneta de João José de Lima e Silva, portanto, um casamento consangüíneo na família (leia o texto para melhor compreender as relações de parentesco na Família Ayres).

Solange Ayres
Kreuzau, 29 de março de 2015, Alemanha

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Joaquim Roque, o jardineiro e suas estórias fantásticas

Milharal plantado por Joaquim Roque
no pomar de vó Gervásia.
Seu Joaquim Roque fez parte do universo de nossa família, tanto na roça, onde moravam Justiniana e Sabina, que ele chegou a conhecer e conviver, quanto na cidade, quando nos meses de novembro, dezembro vinha cuidar da horta da vó Gervásia, administrada pelo tio Silvio, capinando, plantando milho e confeccionando cercas de bambus intransponíveis, uma verdadeira obra de arte, da qual Janice Drumont e eu presenciamos.
Com vocês Janice e suas, nossas lembranças:

Conta! Conta, seu Joaquim! 

Margaridas sendo plantadas, beirando a cerca da casa do eletricista Luiz (também chamado "porsuavêz", fato a ser esclarecido em outra história). Crianças rodeando aquele velhinho negro, papai noel antítese do tradicional, muito negro, rosto marcado pela varíola, estatura mínima, mãos ultra calejadas. Ele focado no serviço, a gente criança, a infernizar a vida dele, rei da paciência, pedagogo prático. Conta! conta! seu Joaquim... e ele: não sei não, depois vocês vão ficar com medo.... conta seu Joaquim , conta!!!!!

E ele: Antes de vir pra cá, trabalhei numa fazenda. Mas era uma fazenda enorme, muito velha. O dono, que era viúvo e também velho, toda noite me mandava fazer uma fogueira no patio e dizia que era pra espantar coisa ruim. E era eu quem também buscava a lenha. E toda vez que ia buscar, passava longe da capoeira porque já tinha visto uns barulhos esquisitos que sempre vinham de la. Não sabia se era saci, mas coisa boa que não era... Aí teve um dia que enquanto catava a lenha, ouvi uns gritos tão altos que parecia alma penada morrida no fogo. Sai correndo e voltei sem a lenha. E o patrão ficou zangado, foi dormir preocupado e ainda me disse. Se acontecer alguma coisa a culpa é sua. Fiquei com medo mas tinha que ir dormir, então fui.

La pelas tantas, a noite já ia alta, começou o barulho no corredor. Um barulho de chinelos que arrastavam ( e ele fazia o som: "shiac shiac"), que iam e vinham pelo corredor afora. Na casa não tinha mais ninguém, só eu e nhô Lau e nhô Lau, nunca vi de chinelo... Quando os passos chegaram bem perto da porta do quartinho que eu dormia, o barulho parou... Eu sabia que tinha alguém ali, mas nem por deus que eu ia querer saber quem era. Daí a pouco la ia o chinelinho e voltava. E tornava a parar na minha porta. E foi a noite inteira assim, e eu rezando o "creindeuspai" e fazendo o sinal da cruz (e ele explicava pra gente como era a oração "creio em deus pai, todo poderoso, criador do céu e da terra..." e desenhava no corpo o sinal da cruz).

La pelas tantas, já com o dia quase pra amanhecer, peguei coragem e quando o chinelinho parou na porta, gritei: é o senhor nhô Lau. E nada... ninguém respondeu. Nasceu o sol e ainda custei a sair do quarto de tanto medo que fiquei. Na cozinha encontrei nhô Lau tomando cafe. Perguntei quem estava passeando a noite no corredor e ele me disse: ninguém Joaquim, a falecida que ficou brava com a falta da lenha, que a fogueira que faço todo dia é pra dar a ela um pouco de luz coitada. Ela tinha um monte de pecado então não conseguiu ir para um bom lugar e o capeta que vigia ela, mora la na capoeira. E a historia parava aí...

E a gente: o que o senhor fez seu Joaquim? E ele: Eu minha fia? Eu tô é aqui!!! arrumei correndo minhas trouxas e vim parar aqui. E não passo mais por la de jeito nenhum. Vocês que ficam aí embrenhando no mato, nas beiras do Bengo, que tomem cuidado... que tem muita coisa por ai que a gente nem sabe o que é.
KKKKKK Imagina o medão da meninada!!!!!!!

"Conto Caxambuense ou a História do jardineiro Joaquim Roque (filho de escravos) para arquivo da família Ayres Solange Ayres"

Este texto foi escrito por Janice Drumont, vizinha de frente da casa da vó Gervásia, na antiga Rua Magalhães Pinto, a qual ela chamava de "vó Juruva", e que a considerava como vó "por ser minha vó antes mesmo de eu saber falar".
À nossa infância... 

Foto: Meu padrinho Jorge, que sempre vinha me visitar no mês de janeiro, data do meu aniversário, 1965.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Lei do Ventre Livre


A Princesa Imperial Regente, em nome de S. M. o Imperador e Sr. D. Pedro II, faz saber a todos os cidadãos do Império que a Assembléia Geral decretou e ela sancionou a lei seguinte:


Art. 1.º - Os filhos de mulher escrava que nascerem no Império desde a data desta lei serão considerados de condição livre.


§ 1.º - Os ditos filhos menores ficarão em poder o sob a autoridade dos senhores de suas mães, os quais terão a obrigação de criá-los e tratá-los até a idade de oito anos completos. Chegando o filho da escrava a esta idade, o senhor da mãe terá opção, ou de receber do Estado a indenização de 600$000, ou de utilizar-se dos serviços do menor até a idade de 21 anos completos. No primeiro caso, o Govêrno receberá o menor e lhe dará destino,em conformidade da presente lei.


§ 6.º - Cessa a prestação dos serviços dos filhos das escravas antes do prazo marcado no § 1°. se por sentença do juízo criminal reconhecer-se que os senhores das mães os maltratam, infligindo-lhes castigos excessivos.


Art. 2.º - O govêrno poderá entregar a associações, por êle autorizadas, os filhos das escravas, nascidos desde a data desta lei, que sejam cedidos ou abandonados pelos senhores delas, ou tirados do poder dêstes em virtude do Art. 1.º- § 6º.


§ 1.º - As ditas associações terão direito aos serviços gratuitos dos menores até a idade de 21 anos completos, e poderão alugar êsses serviços, mas serão obrigadas:


1.º A criar e tratar os mesmos menores;


2.º A constituir para cada um dêles um pecúlio, consistente na quota que para êste fim fôr reservada nos respectivos estatutos;-


3.º A procurar-lhes, findo o tempo de serviço, apropriada colocação.


§ 2.º - A disposição dêste artigo é aplicável às Casas dos Expostos, e às pessoas a quem os juízes de órfãos encarregarem da educação dos ditos menores, na falta de associações ou estabelecimentos criados para tal fim.


§ 4.º - Fica salvo ao Govêrno o direito de mandar recolher os referidos menores aos estabelecimentos públicos, transferindo-se neste caso para o Estado as obrigações que o § 1.º impõe às associações autorizadas.


Art. 3.º - Serão anualmente libertados em cada província do Império tantos escravos quantos corresponderem à quota anualmente disponível do fundo destinado para a emancipação...


Art. 4.º - É permitido ao escravo a formação de um pecúlio com o que lhe provier de doações, legados e heranças, e com o que, por consentimento do senhor, obtiver do seu trabalho e economias. O govêrno providenciará nos regulamentos sôbre a colocação e segurança do mesmo pecúlio.


§ 1.º - Por morte do escravo, a metade do seu pecúlio pertencerá ao cônjuge sobrevivente, se o houver, e a outra metade se transmitirá aos seus herdeiros, na forma da lei civil. Na falta de herdeiros o pecúlio será adjudicado ao fundo de emancipação, de que trata o art. 3.º..


§ 4.º - O escravo que pertencer a condôminos e fôr libertado por um dêstes, terá direito a sua alforria indenizando os outros senhores da quota do valor que lhes pertencer. Esta indenização poderá ser paga com serviços prestados por prazo não maior de sete anos...


§ 7.º - Em qualquer caso de alienação ou transmissão de escravos, é proibido, sob pena de nulidade, separar os cônjuges e os filhos menores de doze anos do pai ou da mãe.


§ 8.º - Se a divisão de bens entre herdeiros ou sócios não comportar a reunião de uma família, e nenhum dêles preferir conservá-lo sob seu domínio, mediante reposição da quota, ou parte dos outros interessados, será a mesma família vendida e o seu produto rateado...


Art. 6.º - Serão declarados libertos:


§ 1.º - Os escravos pertencentes à nação, dando-lhes o govêrno a ocupação que julgar conveniente.


§ 2.º - Os escravos dados em usufruto à Coroa.


§ 3.º - Os escravos das heranças vagas.


§ 4.º - Os escravos abandonados por seus senhores. Se êstes os abandonarem por inválidos, serão obrigados a alimentá-los, salvo o caso de penúria, sendo os alimentos taxados pelo juiz de órfãos.


§ 5.º - Em geral, os escravos libertados em virtude desta lei ficam durante 5 anos sob a inspeção do govêrno. Êles são obrigados a contratar seus serviços sob pena de serem constrangidos, se viverem vadios, a trabalhar nos estabelecimentos públicos. Cessará, porém, o constrangimento do trabalho, sempre que o liberto exigir contrato de serviço.


Art. 8.º - O Govèrno mandará proceder à matrícula especial de todos os escravos existentes do Império, com declaração do nome, sexo, estado, aptidão para o trabalho e filiação de cada um, se fôr conhecida.


§ 1.º - O prazo em que deve começar e encerrar-se a matrícula será anunciado com a maior antecedência possível por meio de editais repetidos, nos quais será inserta a disposição do parágrafo seguinte.


§ 2.º - Os escravos que, por culpa ou omissão dos interessados não forem dados à matrícula, até um ano depois do encerramento desta, serão por êste fato considerados libertos.


§ 4.º - Serão também matriculados em livro distinto os filhos da mulher escrava, que por esta lei ficam livres. Incorrerão os senhores omissos, por negligência, na multa de 100$000 a 200$000, repetidas tantas vêzes quantos forem os indivíduos omitidos, e por fraude nas penas do ari. 179 do código criminal.


§ 5.º - Os párocos serão obrigados a ter livros especiais para o registro do nascimento e óbitos dos filhos de escravas, nascidos desde a data desta lei. Cada omissão sujeitará os párocos à multa de 100$000.


Art. 9.º - O Govêrno em seus regulamentos poderá impor multas até 100$000 e penas de prisão simples até um mês.


Art. 10º - Ficam revogadas as disposições em contrário. Manda, portanto, a tôdas as autoridades a quem o conhecimento e execução da referida lei pertencer, que a cumpram e façam cumprir e guardar tão inteiramente como nela se contém. O Secretário de Estado de Negócios da Agricultura, Comércio e Obras Públicas a faça imprimir, publicar e correr.


Dada no Palácio do Rio de Janeiro, aos 28 de setembro de 1871, 50.º da Independência e do Império


Princesa Imperial Regente

Sabina Maria da Conceição

Foto: Amauri Soares Moreira, Capela de Santo
Antonio do Piracicaba, 2013.
Em 1° de marco, na Capela de Piracicaba, no fim do tempo das águas, num dia de céu azul anil em 1865, já passados  6 meses, de seu nascimento o reverendo José Eduardo Honorato da Silveira batizou e poz os santos óleos em Sabina, vinda ao mundo em 30 de setembro de 1864, filha natural  de Justiniana Maria da Conceição, escrava de João Ferreira Simões.
Os padrinhos foram os irmãos  José Ignacio de Lima e Silva e aqui biografada Virgolina Balbina de Lima , a madrinha de todos e todas, descoberta em julho de 2015 que era fora filha de João José de Lima e Silva.

Sabina como consta na certidão era filha "natural", isto é, o pai não era conhecido e se as teorias de tia Célia estiverem certas, Justiniana engravidou-se do feitor da fazenda, até agora desconhecido.


Infelizmente não podemos virar a ampuleta do tempo e recompor os fatos, então somos obrigados a nos ater às informações fornecidas pelos registros de batismo, casamento e óbito e pelas preciosas informações fornecidas oralmente por Célia Araujo de Lima, a filha caçula de Gervásia.

O certo contava mais tarde sua filha Gervásia da Conceição, que Sabina sua mãe cresceu uma moça muito bonita. Ela era uma típica mistura  de sangue de português com africano, como grande parte da população brasileira também originada deste caldeirão cultural da miscigenação forçada ou não das raças. Sendo assim Sabina foi desejada  por muitos e aconteceu a primeira gravidez aos 17 anos.

Todos filhos dela foram registrados como "naturais", como dito, ou o pai nao era conhecido, ou a mãe não era casada. Diante das pesquisas e fatos confrontados com a nossa maior biblioteca familiar, Célia Ayres, a tia Célia, chegamos a conclusão que Gervásia Maria da Conceição foi fruto da união de Sabina com Bernardino Lopes de Faria, casado com Eliza Ferreira Simões, filha de Joao  Ferreira Simões e era quem comandava o plantel de escravos do sogro.
E seus avós por parte de pai, por tortos caminhos, eram então Virgolina Balbina de Lima e Francisco Bernardino de Faria.

Ouvia-se falar na família Ayres anos mais tarde, que o nascimento dos filhos de Sabina, foram considerados na família dos Lopes de Faria como um "acidente de percurso" e claro, ninguém queria falar mais no assunto. O fato é que Gervásia foi batizada, se os indícios estão certos, pelo seu próprio pai, Bernardino Lopes de Faria. E não por acaso seu outro irmão foi batizado com o sobrenome de Josino Lopes de Faria.

Filhos de Sabina com Bernardino Lopes de Faria (suposição)
Josino Lopes de Faria(1883-?),
Eduardo Lopes dos Santos (1884-?),
Luiz, apelidado de Nego (?-?)
Manoel (Lopes de Faria?) (1887-?)

O home do saco




Sabina viveu uma segunda união com José Luiz de Castro, conhecido como... "Ze do Saco" já em Caxambu, onde é hoje o bairro "Caxambu Velho".  O apelido incomum é confirmado na certidão de casamento, vide ao lado, de José Ribeiro e Rita Candida, ele como testemunha, sacramentado pelo Monsenhor José João de Deus. Até hoje não  sabemos porquê ele se chamava assim.

Relatos do tio Samuel por telefone ha dois anos passados, me contava que Sabina, ajudada por Gervásia,  ia de tempos em tempos buscar no matadouro municipal, localizado no hoje bairro Santa Rita, em Caxambu, banha de porco para preparar a comida. Mas antes a banha tinha que ser aquecida e líquida colocada em latas para conservar e  posteriormente ser consumida. Nesse dia era dia de trabalho no Caxambu Velho. 

Os filhos de Sabina Maria da Conceição e José Luiz de Castro:
José de Castro (1896-?),
Maria de Castro(?-?),
João de Castro ( 1898-?),
Alzira de Castro (1904-?),

Os filhos de  pais não conhecidos

Sabina Maria/ Diório (1900-?),
Joaquim da Conceição ( 1901),
Antonio da Conceição (1903-?)

As Sabinas

Sabina foi mãe de Sabina que se casou com João Diório, originando o ramo da Família Diório, mas esta já é outra história e esta ainda para ser escrita.

Sabina ainda  teve dois irmãos e uma irmã:
Camilo Ferreira Junior, (1858-?) batizado por José Florencio Bernardes e Thereza de Lima Ribeiro Bernardes.
Salviano (1861-?) batizado por João José de Lima e Ignacia Ribeiro de Lima (respectivos tio e tia de primeiro grau de José Ayres de Lima, o Trançador).
Salviana Maria da Conceição, (?-?).

Sabina Maria da Conceição faleceu em data desconhecida até agora.

1a Nota:
Consta na certidão de batismo (foto)  que sua mãe Justiniana era escrava de "Joaquim" Ferreira Simões e na certidão de seu irmão Salviano, "João" Ferreira Simões.  Se eles João, ou Joaquim eram as mesmas pessoas ainda não consegui identificar. O certo é que não encontrei em nenhuma certidão posterior o nome de "Joaquim", somente "João".

2a Nota: Nomes e datas faltantes poderão ser acrescidos e ou alterados no decorrer da pesquisa.

Camilo Ferreira Junior, o escravo

Igreja Matriz de Baependi
Um dia o pequeno escravo, ao receber a tarefa de retirar o pó do oratório da casa da fazenda, pode chegar perto do nicho situado no canto da sala, onde ficava a imagem de Jesus cruxificado. Advertido por sua mãe, sempre baixava os olhos toda vez que passava em frente a ele. Muitos anos mais tarde, ao adentrar a igreja Matriz, no dia do seu casamento, voltou à lembrança o pequeno oratório, lugar sagrado da casa, onde fora batizado. Neste dia impressionou-o a imensidão da igreja, o cheiro de insenso, a penumbra, as cores azuis dos nichos onde se encontravam os Santos, o brilho do ouro. E diante das gigantes dimensões das imagens se sentiu novamente pequeno.




Camilo, filho "natural" de Justina, escrava de João José de Lima ,foi batizado pelo Vigário Joaquim Gomes do Carmo,em 13 de setembro de  1858, no oratório do Chapeu, também denominado Lagoinha do Chapéu, hoje bairro de Baependi, por José Florencio Bernardes e Thereza Ribeiro de Lima. E como era comum naquela época os escravos adotarem nomes de seus respectivos senhores, foi denominado "Camilo Ferreira Junior" de João Ferreira Simões, que era dono de sua mãe.

Um detalhe da certidão que me passou despercebido: O nome de sua mãe Justiniana foi escrito erroneamente como "Justina" que era escrava, até a data de 1858, de João José de Lima, que viria a ser o avô de José Ayres de Lima, o Trançador por parte de mãe. Em alguma data, entre 1858 e 1861, data de nascimento de seu irmão Salviano, sua mãe Justiniana aos 17 anos mudou de proprietário e foi ser propriedade de João Ferreira Simões.

Não posso dizer ao certo se por compra ou doação, Camilo foi parar nas mãos de seu padrinho José Florencio Bernardes como escravo. O certo era que, uma forma dos senhores de escravos utilizavam para burlarem as leis de 15 de setembro de 1869 e a Lei do Ventre Livre de 1871, que proibiam os menores escravizados de serem separados das famílias, bem como a compra e o tráfego, era a adoção "por apadrinhamento", pois assim os menores permaneciam "em família". Este fato se confirma quando analisamos a certidão de nascimento de Camilo (foto acima) que teve seu status de "escravo" de José Florencio Bernardes até seu casamento em fevereiro de 1888.

Se Camilo foi separado de Justiniana, também não posso aqui afirmar de forma definitiva, mas o interessante é que os lugares em que viveram as famílias de José Florencio Bernardes, João José de Lima, João Ferreira Simões, Virgolina Balbina de Lima eram sempre citados nas certidões como: Chapeu, Lagoinha do Chapeu, Oratório do Chapeu, Fazenda São Pedro, hoje município de Baependi, indicando que as famílias residiam próximas umas as outras, ou moravam na mesma casa ou conjunto de casas  com seus escravos Justiniana Maria da Conceição, a Nana , sua mãe e sua irmã Sabina Maria da Conceição.  

Senta que lá vem história!

No Brasil Colonial o batismo tinha duas funções a social, a entrada do pagão no seio da Igreja Católica e outra mais profana: interessava aos senhores de escravos o registro dos inocentes, com o nome do proprietário, o que lhe garantia a posse efetiva dos mesmos.

As crianças sem pai conhecido, segundo historiadores, eram mais comuns serem separadas de suas mães se comparados com as crianças pertencentes a um núcleo familiar negro. A prática era a separação em idade improdutiva, isto é, ainda muito pequenos. Pesquisando vários documentos, tento aqui reconstruir a história de nosso personagem Camilo, que de alguma forma  ficou sob custódia da família de seus padrinhos e servindo a eles como escravo. 

É bom lembrar que escravos eram valiosos no Mercado da cidade de  Mariana no período de 1858 a 1887, pois sob pressão da Inglaterra, o Brasil no poderia mais importar negros da África e uma alternativa para os senhores era a reprodução do seu próprio plantel. Então as crias eram "benvindas" no sentido negativo da palavra para os pequenos.

Pois na localidade do Chapeu o nosso Camilinho participava de atividades simples na fazenda. A medida que crescia também crescia a carga de suas tarefas. Quando muito pequeno acompanhava sua mãe na capina de ervas daninhas, semeadura do milho, cuidava dos animais domésticos. No campo, ajudava a descaroçar algodão, descascar mandioca, fabricar cestos e cordas. Também trazia e levava recados bem como pode ter trabalhado como pagem, arreava cavalos, lavava os pés das pessoas da casa e mesmo escovava as roupas e engraxava os sapatos de seus donos.


Camilo teve a infelicidade de nascer antes da proclamação da Lei do Ventre Livre de 1871, conhecida por Lei do Rio Branco, e antes da Lei Áurea, portanto ele nasceu e permaneceu escravo até o seu casamento como consta no registro (foto ao lado), três meses antes da abolição da escravidão. Ao completar 30 anos num sábado de fevereiro de 1888 tomou a mão de Ana de Jesus em casamento, na Igreja Matriz de Baependi. Foram testemunhas Francisco Ignácio de Lima, filho de João José de Lima e Silva, o avô de José Ayres de Lima, o Trancador, e João José da Natividade. Em 13 de maio de 1888 a princeza Izabel assinava a Lei Áurea libertando os escravos de seus grilhões e senhores, mas não de suas árduas vidas. Camilo faleceu em data até agora desconhecida.

Solange Ayres, Kreuzau, Janeiro de 2015.