domingo, 15 de novembro de 2020

À minha vó Vitória



 
E foram os tempos em que ouvia falar de vó Vitória. Sim, uma avó que nunca cheguei a conhecer. Vó Vitória faleceu antes do meu nascimento, em 1958 e foi enterrada em Baependi...


Maria Vitória da Conceição
nasceu em 30 de maio de 1898, batizada em 19 de junho na Igreja Matriz de Baependi. Seu padrinho foi o avô, Antônio  Martins de Brito e a protetora Nossa Senhora da Aparecida.  Casou-se muito cedo, como era costume naquela época, aos 17 anos com Sebastião Gomes Francisco da Luz de 25 anos, em 26 de julho de 1915. O casamento foi realizado às 13 horas, tendo como testemunhas José Rodrigues Prudente Filho e José Antônio de Castro.

Mas resgatar a biografia de minha avó me custou tempo. Sem material iconográfico, as pessoas não se "materializam". Dei sorte. Minha prima de primeiro grau, Rosangela Rosa, filha de tia Josina, tinha em seus arquivos uma única foto de vó Vitória. Aí resolvi revolver o seu passado...

Assim a Gazeta do Rio publica numa quinta feira de 25 de abril de 1822 a notícia que V.A.R, isso é, Vossa Altera Real, chega na província e lhe enviaram os comprimentos e o literal "beija mão", em nome da Câmara de vereadores, do clero e povo da Villa de Santa Maria de Baependi. Assim ficamos sabendo que o tataravô de vó Maria Vitória Martins Lopes/Gomes circulava na política baependiana.

Nem por isso a família teve melhor posição social ou alguma vantagem econômica. Eles viviam do que produziam na terra. Por relatos de minha mãe, soube que o que era produzido na propriedade da família, naquela época chamada Fazenda Santa Rosa, ia no lombo de cavalos para ser vendido no mercado de Baependi nos anos 40 e 50. O caminho era subindo e descendo a serra.

E Baependi, que produziu homens ilustres nos tempos do Brasil colonial, que ocuparam a alta tribuna política da província das Minas Gerais e na corte, não foi poupado da decadência política e econômica. No seu glorioso passado, Baependi exportava fumo que era vendido nas tabacarias do Rio de Janeiro. 

Não pude apurar se os antepassados de vó Vitória e sua, nossa família tiveram algum brilho. Sabemos que eles eram pessoas simples, que viviam do seu trabalho. Eram descendentes dos primeiros habitantes da região que vieram de Portugal, para tentar a sorte na promissora colônia. Eles possuíam algum cabedal, isto é, dinheiro, outros possuíam títulos militares - capitão, tenente, alferes - que os consagravam como autoridades locais e ainda obtinham títulos para ocupar terras. Com o crescimento das famílias e as divisões de terras por heranças, as propriedades ficaram menores e os seus habitantes continuaram a se dedicar à agricultura de subsistência. 

A desejo de minha mãe percorremos no ano de 1975, o caminho que seus antepassados fizeram para chegar à cidade. No sentido inverso caminhamos serra acima e abaixo, passando pela Toca do Urubu, em direção à Lavrinha e o Gamarra. Na matula, feita de véspera, deliciosas coxinhas de galinha. Visitamos  parentes, chupamos aos montes laranjas no pé e, mesmo num verão escaldante, tivemos que tomar muito café quente, daqueles de queimar a língua, como era comum nas casas mineiras, em cada casa que visitamos. E foram muitas...

Eu fui o que tu és, tu serás oque eu sou

Esse era o escrito na porta do cemitério de Baependi, que se localiza (ainda) no centro da cidade. Nele foi enterrado minha avó Vitória, falecida em 30 de outubro de 1958, de adinâmica circulatória, decorrente de uma operação de um câncer no intestino. Henrique Monat já descrevia o histórico cemitério:

"O matto cresceu cobrindo tudo; para ler as inscripções de algumas sepulturas tive de afastar terra, pedras, tijolos velhos, que cobriam as lapides; pelo chão viam-se ossos espalhados, pedaços de esquifes, restos de roupas, que envolveram cadáveres. Por onde que se passe, os pés vão quebrando pedaços de craneo de fêmures, ossos inteiros: não há um canto em que se não encontres restos humanos a rolar pelo chão."

Ainda, "... encontrei o (jazigo) de Felício Germano de Oliveira Mafra, o grande benfeitor de Caxambu, coberto por duas pedras de S. Thomé. Só dous monumentos de mármore atraem a attenção  do visitante: são a sepultura de Martinho Campos, vulto político eminente durante o segundo império representante da província, que o viu nascer, durante quase meio século, e a do Dr. Caetano Furquim de Almeida, que, grato pelos nove anos que Caxambu o fez viver, dizia em seu testamento, quiz ser enterrado em Baependy, por não haver cemitério mais perto."

Na visita ao seu túmulo na década de 70, me lembrei do desejo de minha mãe de ser sepultada no lugar onde sua mãe também estava. Para minha supresa o cemitério estava desativado e quase no mesmo estado em que se encontrava, quando Henrique Monat o viu há quase cem anos. Pensando, hoje, talvez seus restos mortais estejam também misturados e enterrados junto com dos políticos proeminentes. Quem sabe?

Foto:
Arquivo privado de Rosangela Rosa, Maria Vitória da Conceição e meu tio Tibério.
Fonte:
Monat, Henrique, em Caxambu, 1894
Agradecimentos:
Julio Jeha

quinta-feira, 1 de outubro de 2020

50 anos de casados, 50 anos de muitas vivências e convivências/ Graça e Vander comemoram suas bodas de ouro!


Nesses 50 anos de cumplicidade e lutas, muita coisa aconteceu na nossa vida. Dos acontecimentos, a mudança de cidade pequena para a cidade grande foi o diferencial pra manter essa convivência a forma que queríamos, ou seja, uma vida nossa, com os nossos valores e com as coisas que nós acreditávamos.
Viermal os filhos, Rodrigo, Thais e Tiago e hoje tem os netos, Gael e Marina e ainda o cachorro Wiske e a tartaruga Bebé! Tem o pé de manga, o fogão a lenha, o parquinho e o canto dos passarinhos. Aqui no "meu canto meu lado" a gente vive feliz com o que conquistamos!
Aqui a gente sempre acolheu quem quis passar por nossa vida e continuaremos esperando quem quiser aparecer.
Aguardem...
Ah... só lembrar, não pensa que é fácil tantos anos de convivência, viu? Tem que ter muita paciência e tem também que "soltar os cachorros" de vez enquanto! Kkk.

Fotos: 
Arquivo privado de Graca Pereira Silveria
Texto: 
Por Graça Pereira Silveira

quinta-feira, 10 de setembro de 2020

Do passado para o presente/ Vivos em nossas memórias



Duas fotos retocadas de meus avós José Ayres de Lima, o Trançador-filho e minha avó, Gervásia Maria da Conceição/Ayres. Os olhos de minha avó eram castanhos, mas os olhos do meu avô conferem com a descrição, verdes escuros.

Foto: 
Arquivo da Família Ayres.
Programa do MyHeritage de reconstrução de fotos.

terça-feira, 7 de julho de 2020

Casa da familia Arnaut desde 1900


Caxambu, 1917. Podemos identificar a Igreja Matriz, que ainda tinha suas duas entradas, o Casarão da Família Guedes, o prédio antigo do Colégio, o hotel Caxambu, e... imaginem que a casa da família Arnaut já esta lá. Preservem esta relíquia! Ela faz parte da história da cidade.


segunda-feira, 11 de maio de 2020

De volta ao passado/ João José de Lima e Joanna (Pereira) Ribeira



Hoje achei mais um documento comprovando que meu tataravô João José de Lima e Silva já poderia ter se mudado com a família para o Chapeo, Baependi, no ano de 1844. Os nomes não exatamente escritos. Na época quem fazia os assentos paroquiais, no caso o pároco local, acrescentava ou subtraía nomes e letras como entendia, ou não entendia, mas estou convencida de que eram as mesmas pessoas que moraram no Quarteirão 2, Fogo 17, constadas no sensu de Pouso Alto no ano de 1839. 

O documento acima trata-se do batismo de Manoel, filho de Fortunado Ferreira de Carvalho e Maria Antonia da Silva. No batismo consta o nome dos padrinhos assim escritos: João José de Lima e Joanna "Pereira" Ribeira. Os nomes corretos seriam João José de Lima e Silva e Joana Theresa Ribeiro de Lima.

Censo de Pouso Alto do ano de 1839
Foto:
Família Search
Censo do Cedeplar /Belo Horizonte, MG

sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

O Morro, ah morro!


"Minhas accusações  não deveriam pesar sobre esta localidade, porque combatem vícios nossos, que se podem apontar no Rio, como em São Paulo ou na Bahia; nem por isso julguei dever omitir-os. Critico, por exemplo o modo barbaro por que se tem destruído a vegetação em Caxambu..." (Henrique Monat)

A paisagem acima é uma relíquia e pertence a Coleção Principe D. Pedro de Orleans e Bragança, uma  gravura de  Nicolau Facchinetti (1824-1900) de 80 cm x 60 cm, datada de 1877. O pintor italiano chegou ao Brasil em 1849, fixou-se no Rio de Janeiro e se especializou em pintura de paisagens, consagrando-se como mais um dos mais importantes artistas de sua geração. Sua obra é um importante registo da paisagem agrária do Brasil do século 19. Viajou  para estudar as características das regiões serranas do Rio de Janeiro, subindo a serra da Mantiqueira em direção a Caxambu e São  Thomé das Letras por volta de 1877. Há uma impressionante gravura dele das montanhas de São Thomé das Letras. Seus grandes admiradores foram os membros da família real, a imperatriz Maria Teresa Cristina, a princesa Isabel e o Duque de Saxe.

Bárbara devastação 

Morro de Caxambu, Henrique Monat
Na descrição de vários viajantes que passaram pelo vale, sempre se destacava o morro em forma de cone. Vinte anos depois da gravura de Facchinetti, esteve de visita Henrique Monat, quem mais detalhou suas encostas e arredores de forma crítica,  no capitulo de seu livro Caxambu, publicado em 1894. Ele descreve a paisagem do ponto de vista de quem chega  na estação de trem e se depara com o morro isolado, tendo um bosque em sua fralda. O vale, na suas primeiras impressões, lhe pareceu abandonado, deserto, coberto por uma vegetação rasteira e uma camada de florzinhas roxas. Na várzea, um bambual transversalmente, onde é hoje o Parque das Águas. No entanto, aquele vale descrito não era sombra do que havia ali décadas antes. Por volta dos anos de 1890, quando de sua visita, a mata quase impenetrável que existia já tinha caído a golpes de machado. Nem um vestígio das araucárias, dos pinheiros e cedros, segundo ele, gigantescos que ali cresceram por séculos. Para ele, houve uma "devastação bárbara". E as poucas árvores que sobreviveram estavam sendo, impiedosamente, postas abaixo. A foto abaixo não o deixa mentir...

Morro de Caxambu, 1868
Caxambu, uma das primeiras cidades do Brasil a ter um planejamento urbano

A urbanização  da povoação de Caxambu teve inicio em 1872, quando Fulgêncio de Castro faz o  seu traçado. Caxambu foi uma das primeiras cidades brasileiras a ter seu planejamento urbano. Era o "progresso" chegando  e, com ele, as encostas dos vales foram sendo cortadas, aplainadas, e a planície aterrada, para a construção de ruas e casas. A sua bela cobertura vegetal desapareceu para sempre.


Nos tempos modernos, a mata original foi acrescida de eucaliptos. Era para "drenar" o terreno. eucaliptos eram sinônimos de "ar puro", "limpeza". Hoje vemos que a arborização do Parque das Águas de Caxambu e seu entorno se torna mais importante do que nunca. O morro é área de recarga das águas que deram a vida ao povoado. Portanto, plantem! Não queimem nem deixem queimar. O patrimônio já foi muito devastado.




Fonte:
MONAT, Henrique, in Caxambu, 1894.
NICOLAU Facchinetti. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa23040/facchinetti>. Acesso em: 29 de Set. 2019. Verbete da Enciclopédia.
ISBN: 978-85-7979-060-7
Gravura: Museu Imperial de Petrópolis.

Fotos: 
MONAT, Henrique, in Caxambu, 1894.
Agradecimentos:
A Vanessa Meines, por ter nos enviado a gravura de Facchinette.
Arquivo Histórico do Exercito (AHEX), Divisão de História e acesso a Informação (DHAI), na pessoa do Major Ferreira Junior, que prontamente dispôs vários mapas para o nosso Blog.
A Julio Jeha, sempre.

quinta-feira, 26 de setembro de 2019

Ramiro Rodrigues Freitas/ De Portugal a Caxambu/ Uma aventura


Partir é mais do que partir
Partir é 
partir
sem se saber
que se sabe
mais do que partir
partir é 
um corte
que corta tao fundo
que nunca se sabe 
o seu cessar
partir é sempre
mais do que partir*


Em recentes pesquisas de outros membros da família do Ramo dos Freitas e pra lá, tivemos sucesso e confirmação, por meios de documentos, de fatos contados oralmente. Se trata-se de Ramiro Rodrigues, o meu tio-avô Ramiro, casado com Maria Ayres de Lima, a minha tia-avó Mariquinha,  avós de Graça Pereira Silveira. Mariquinha era parteira de profissão, filha de José Fernandes Ayres, conhecido em Caxambu, por Trançador. Pois vamos lá!

Ramiro Rodrigues (sentado de chapéu) e sua família
Por que ficar? Por que partir? Por que?

Fatores históricos e econômicos conjugaram-se para que Ramiro deixasse Portugal. Em meados do século XIX mudanças demográficas ocorreram no país, provocando o aumento da taxa de natalidade e, e por conseguinte, gerando um excesso de mão-de-obra, principalmente no campo. O resultado foi o empobrecimento dos pequenos proprietários rurais. A esperança era a ex-colônia Brasil.

Por outro lado, o Brasil acabara de promulgar a Lei do Ventre Livre, de 1871, e a Lei Áurea, em 1888. Com os escravos libertos, quem iria tocar as lavouras? Os fazendeiros, então, foram procurar alternativas de mão de obra para suas plantações. Assim, o governo estimulou a imigração como forma de resolver a falta de braços, bem como o "branqueamento" de sua população. Cerca de 5 milhões de imigrantes entraram no Brasil de 1884 a 1963, a metade entre 1889 e 1913. No período de 1891 e 1900 foram 202.429 milhões de portugueses. A maioria dirigiu-se para São Paulo, Minas Gerais, Paraná, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Rio de Janeiro. Os principais portos de entrada eram Rio de Janeiro, Salvador e Santos.

Os navios gêmeos


Ramiro Rodrigues, o penúltimo da lista à esquerda dos destinados a cidade do Rio de Janeiro
Vista do Porto Lamarão de Recife, Pernambuco.
O navio em que Ramiro viajou pertencia à empresa navegação Chargeurs Réunis, fundada em 1872. Em 16 de outubro daquele ano partia o primeiro navio do porto de Havre, na França, com 450 passageiros, em direção ao Rio de Janeiro e a Buenos Aires. O governo francês tinha objetivos comerciais com o Brasil e, para atender os que viajavam em direção à América do Sul, foram construídos cinco navios gêmeos da série: "Ville": Rosário, San NicolasMontevideoBuenos Aires e Pernambuco (foto acima). Os navios faziam a rota quinzenalmente entre Havre, na França, com escala em Lisboa, e Pernambuco, Bahia, Rio de Janeiro e Santos.

O navio Ville de San Nicolas fez sua viagem inaugural em novembro de 1881 e em 16 de fevereiro de 1889 partiu do Brasil em direção ao porto de Havre carregando 120 volumes de mercadorias diversas para participar da Exposição Brasileira Preparatória da Universal de Paris, a ser inaugurada no dia 10 de maio. Os produtores de fumo do Brasil queriam ganhar mercado internacional.

Havre, Lisboa, Recife, Salvador, Rio de Janeiro... 

Em 17 de junho de 1889, embarcou Ramiro no porto de Lisboa no navio de 1.668 toneladas, comandado pelo piloto francês A. Voisin. Os navios faziam a rota quinzenalmente entre Havre, França, com escala em Lisboa, Portugal, Pernambuco, Bahia, Rio de Janeiro e Santos. Era a última vez que ele veria Portugal. 

Dos 56 passageiros que embarcaram em Havre, um era angolano e dois italianos. Os que embarcaram em Lisboa eram portugueses com diferentes idades. Na lista de passageiros constam 36 do sexo masculino, sendo 11 crianças, a maioria delas acompanhada dos pais, com exceção de Ramiro; 17 do sexo feminino, sendo três meninas. Uma família vinha da Ilha das Flores, pertencente ao arquipélago de Açores. Dentre as profissões declaradas, eram "jornaleiros", isto é, diaristas e "menagerie", traduzido como pessoas que trabalhavam com animais, ou pastores. Todos com certeza venderam o que tinham para comprar um bilhete e transpor o oceano em busca de uma nova vida no Brasil. 

E Ramiro? Passageiro de primeira classe? Terceira? Como eram anunciados nos bilhetes? Porque quem viajava na primeira pagou de Portugal, 450 francos, e  os que viajaram de terceira, 80 francos. Ramiro não pagou nada. Ele teria embarcado clandestino indo trabalhar na cozinha como descascador de batatas. Assim era contado na família. Devia ser para pagar a passagem. A primeira vez que viu terras brasileiras foi quando o navio ancorou no lamarão do Porto de Recife, Pernambuco (foto) no dia 7 de julho.

Descida de passageiros em cestos, no porto de Recife, Pernambuco
A travessia do Atlântico era quase uma aventura, mas também descer do navio (foto). Os passageiros eram descidos em cestos para os barcos que os levavam até a terra firme. Os atrasos nas viagens eram comuns. No dia 2 de maio o navio encontrava-se em alto mar, na latitude de 35° N. quando enfrentou fortes correntes com velocidade de 75 milhas por hora, que fizeram o navio desvia-se de seu curso, conforme o comandante A. Voisin relatou para para o Jornal de Recife. Não só os passageiros, mas também as 130 caixas da Miranda Souza, contendo azeite batatas, conhaqueo, couros, conservas, chocolate, calcados, chapéus, livros, caixa de música, porcelana, perfumaria e vinhos devem ter chacoalhado bastante durante a viagem... 

A chegada

Porto do Rio de Janeiro, 1889
Em 14 de julho, chega o Ville de San Nicolas ao porto do Rio de Janeiro. Era domingo de céu azul em pleno inverno brasileiro, quando as temperaturas amenas variavam de 19,2° e 24° segundo o  Imperial Observatório do Morro do Castelo. Como ele chegou a Caxambu? Não sabemos. Pela tradição oral da família, ele teria sido "adotado" por uma família de libaneses, tanto que sabia cozinhar pratos típicos da cozinha árabe. Por outro lado, sabemos também que a comunidade portuguesa no Brasil era solidária e que Ramiro tinha boas relações com uma importante figura pública de Caxambu, Costa Guedes, o bem-sucedido comerciante português à frente da Casa Guedes. Tanto temos certeza do fato, que Costa Guedes foi seu padrinho de casamento, celebrado em 19 de novembro de 1898, bem como cedeu sua residência para que o enlace civil fosse realizado. Suas duas filhas menores, Leonor e Maria Guedes, foram testemunhas do casamento. Sabemos também que Ramiro trabalhou como jardineiro no Parque das Águas, muito provavelmente com o artista Chico Cascateiro. Foi ele apadrinhado pelo Sr. Costa Guedes? Perguntas. 

Ramiro Rodrigues em sua horta, na Rua Magalhaes Pinto, Caxambu.
Ramiro Rodrigues nascido às três horas da manhã   do dia 7 de julho de 1877 em Santa Maria dos Sepilhos, Concelho de Amarante, Portugal, filho de Joaquim Rodrigues e Maria de Jesus, profissão "jornaleiros", aqui, diaristas, seguiu em parte a profissão de seus pais: lavrador. Ele passou a assinar no Brasil o sobrenome "de Freitas". Ainda não achamos registros comprovando que seus familiares tivessem esse sobrenome.
Ele embarcou cheio de esperanças, assim como milhares de imigrantes, a procura de uma vida melhor. O que encontrou foi uma vida de duro trabalho. Casou-se aos 23 anos com Maria Ayres de Lima e, nove meses depois já era pai de Etelvina. Ao todo, o casal teve 11 filhos, cinco dos quais não chegaram à vida adulta. Izabel (1901-1903) faleceu em consequência de queimaduras aos três anos; Joaquim (1911-1913) faleceu aos dois anos de gripe intestinal; Laura (1913-1915) aos dois anos de pneumonia; José (1916-1921), de Laringite estridulosa aos 4 anos, Haroldo (1922-1923) com um ano, de meningite. Sobrevieram Etelvina Rodrigues (1898-?), Maria Izabel (1906-?), Geralda Rodrigues (1908-?), Romeu Rodrigues (1918-?), Edwiges Rodrigues (1918-?) e Agnelo Rodrigues (1920-?).

Até hoje nos perguntamos como pode ele empreender uma viagem tão longa sozinho. Sua idade, supreendentemente, confirmada no documento (foto numero 27)  com 12 anos de idade. Sempre nos perguntamos como seus pais o deixaram embarcar numa aventura marítima até o Brasil. Mas essa pergunta ficará sem resposta. Ramiro faleceu na Casa de Caridade São Vicente de Paula de Caxambu em consequência de insuficiência cardíaca, tendo seu atestado assinado pelo Dr Paiva em 29 de agosto de 1949.

O paquete Ville de San Nicolas? Foi vendido em 1901 para a Argentina e passou a se chamar Neuquén, nome da província argentina que faz fronteira com o Chile. Assim foi a história.

Fotos:
Cais do Ramos
Foto: Gilberto Ferrez
Fonte:
Poema: Amâncio de Souza Dantas 
Novo Milenio: Roda de Outro e Prata- Navios: O 'Ville de Pernambuco'
Diário de Minas 1889
The ShipsLis
SCOTT Ana Silvia Volpi in As duas faces da imigração portuguesa para o Brasil (décadas de 1820-1930) Saragoza, 2001.
RIBEIRO Gladys Sabina in Viagens e histórias de imigrantes portugueses na cidade do Rio de Janeiro na Primeira República: A trajetctoria de Florindo Gomes Bolsinha.

Agradecimentos:
Julio Jeha

terça-feira, 24 de setembro de 2019

Victor, o escravo que gostava de tocar viola




E num primeiro abril naquele ano de 1883... Victor foi dado como fugido da fazenda de propriedade de Antonio Severino Nogueira, na localidade de São Gonzalo de Sapucahy e "havia motivos para crer que ele seguiu para Baependy".

Fuja, Victor fuja!



Em 1° de fevereiro de 1884, novamente a notícia de sua fuga. O fato significou que foi capturado e devolvido ao seu senhor. Ah, o escravo Victor, agora com 24 anos, cabelos grenhos e pouca barba, pés grandes que gostava de lidar com animaes e tocar viola...

Fuja, Victor, fuja!

Fonte:
O Baependiano

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Izabel de Lima, a caxambuense batizada pela realeza / Diga-me por quem foste batizado e direi o status de tua família


Museu da Independência queimado, memória apagada. Que documentos estariam guardados esperando os historiadores para nos revelar novas ligações da princesa Isabel e sua família com a cidade de Caxambu? Como tudo virou cinzas, só podemos supor que cartas escritas e recordações da povoação estivessem entre os bens devorados pelo fogo. Fizemos aqui um esforço para contar a historia. Recordar para não esquecer. Vamos lá.

Um escarafuncha daqui, outro dali e, assim, os pesquisadores vão achando as coisas... Izabel de Lima filha legítima de Francisco  José de Lima e Severina Izabel de Lima apadrinhada pela... realeza.

Na verdade, as pesquisas sobre a batizada pela princesa Izabel, Izabel de Lima, foram iniciadas já há alguns anos. As certidões foram encontradas por mim e arquivadas para posteriores pesquisas, pois o sobrenome Lima pertence também à Família Ayres. Mais à frente, tinha encontrado a irmã de Izabel, Castorina de Lima, casada com José da Rocha Brochado, que eram avós de Magali Brochado, minha vizinha. Fiz contato com ela, no inicio de 2017, e veio a confirmação: os nomes eram de seus avós. Devido a outras prioridades de pesquisa, o material foi colocado "na geladeira" até que... Antônio Claret me alertou sobre Isabel, a apadrinhada pelos membros da família real. As informações estavam todas lá, só faltava reuní-las, associá-las aos fatos históricos e as biografias individuais. Então...


conde d`Eu e dona Izabel, princesa regente, condessa d`Eu, assinaram uma procuração para serem padrinhos da filha de Francisco, representados pelo Reverendo João Pires de Amorim e por dona Ritta Maria de Jesus. O assento foi feito no livro de batizados de Baependi, em 30 de novembro de 1868. João Pires de Amorim não era um anônimo, e sim o coadjutor do pároco, monsenhor Luiz Pereira Gonçalves de Araujo na cerimônia do dia 22 de novembro, no lançamento da pedra fundamental da igreja Santa Isabel da Hungria, na povoação. Então estava tudo ligado.

Izabel de Lima nasceu em 10 de outubro de 1868, próximo à estada da família real em Caxambu. Na ocasião, sua alteza real fez o uso das águas e, na história contada, se curou de sua infertilidade e deu a luz ao príncipe regente dom Pedro de Alcantara. A partir dessa data, a fama de Caxambu, a estância das  "Aguas Virtuosas", ganhou mundo.

Embora o batismo tenha sido realizado e assentado na igreja matriz de  Baependi, a família Lima residia em Caxambu. Até então, as obras da capela Nossa Senhora dos Remédios não estavam concluídas, o que aconteceu por volta de 1871/72.

Diga-me por quem fostes batizado e eu te direi o status de tua família 

Mas quem era Izabel para ter padrinhos tão ilustres? Perguntamos primeiro quem eram os seus pais. Bem, eles eram de família que tinha boas relações sociais em Baependi e, oportunamente, conseguiram, através de um bom "contato", uma procuração para que o conde d`Eu e a princesa regente apadrinhassem sua filha. Era muito comum o apadrinhamento de crianças por pessoas de elevado status social. Acontecia com os mais ricos, remediados, os pobres e os escravos. Francisco José de Lima era ativo na política, o que significava que ele tinha algum "cabedal", ou status social, pois  fora cadastrado como eleitor em Baependi, sob o número 111, no ano de 1884. Ele votava e elegia políticos. Em 1871, Francisco José tinha uma propriedade na povoação de Caxambu, que foi edificada no ano de 1870, e pertenceu a Cloriana Pereira Meires (Meireles?), e que foi passada à frente, em 1871, comprovando que ele já morava em Caxambu nessa data. Muito curiosamente, todos os seus filhos, sem exceção, foram apadrinhados por gente, ou da política, ou de visibilidade social.

E como toda história puxa outra, vamos contar sobre os irmãos de Izabel. Todos eles nasceram em Caxambu e foram batizados na capela Nossa Senhora dos Remédios.  Foram eles:

Jeronimo



O primogênito Jeronimo nasceu nas Águas Virtuosas de Caxambu, em 23 de dezembro de 1870, e foi batizado, em 16 de janeiro de 1871 por outra figura proeminente da época, o conselheiro Jeronymo José Teixeira Junior e sua esposa Maria Henriqueta Carneiro Leão Teixeira (fotos acima), representados por America Brasilina Nogueira de Almeida. A criança recebeu o nome de seu padrinho, Jeronymo José Teixeira Junior, que era filho do comendador Jeronymo Teixeira. O padrinho nasceu no Rio de Janeiro, em 25 de outubro de 1830, bacharelou-se em direito pela Faculdade de São Paulo, casando-se, em 24 de dezembro de 1853, com Maria Henriqueta Carneiro Leão, nascida em Ouro Preto. Exerceu o ofício de promotor, em Niterói por dois anos, deixando o cargo para servir à diretoria da Estrada de Ferro Dom Pedro II. Foi deputado na Assembléia Provincial e deputado geral pelo Rio de Janeiro em diversas legislaturas. No ano em que batizou Jeronimo, era representante do Rio de Janeiro na Assembléia Geral. Dirigiu, por pouco tempo em 1870, a pasta da Agricultura e, em 1873, foi eleito senador do Império. Fez parte da comissão que apresentou o projeto da Lei do Ventre Livre. Dentre os cargos que ocupou, foi diretor do Banco do Brasil. Era fidalgo e cavaleiro da Casa Imperial, conselheiro da Ordem da Rosa e comendador da Ordem de Cristo, tendo recebido o título de visconde do Cruzeiro em 13 de junho de 1888. Publicou diversos trabalhos, entres eles "O Saneamento  da cidade do Rio de Janeiro". Faleceu em Roma, Itália, em 26 de dezembro de 1892. Jeronimo era também comerciante e capitalista. Enfim, o homem tinha não só nome na política, como também era dono de uma considerável fortuna.

A história continua. Aso 14 anos, Jeronymo teve seu destino publicado no jornal O Baependiano. Ele estudava no colégio do Sr. Pilar, em Baependi, e recebia uma pequena "pensão" de seu padrinho, agora Senador Jeronimo Teixeira Junior, com a qual eram financiado os seus estudos. O menino Jeronimo foi acometido de um "reumatismo no coração", vindo a falecer, em 10 de março  de 1885, sendo sepultado em Baependi. Parece que o menino caiu doente e sofreu por 11 dias. Os alunos do Colégio Nogueira, ao qual pertencia  o proprietário do jornal, agora sediado em Caxambu, carregaram o caixão de sua casa até o outeiro da Capela Nossa Senhora dos Remédios. Como Caxambu ainda não tinha cemitério, Jeronimo foi sepultado, em 11 de março, em Baependi.

Os outros filhos:

Oscar, nascido em 1873, apadrinhado pelos filhos de Jeronimo José Teixeira: Pedro José Netto Teixeira  e Maria  Henriqueta Teixeira 

Orminda, nascida em 1879, apadrinhada pelo comendador Antonio Theodoro Fortes Bustamante e dona Marianna Eliza de Meireles 

Albertina, batizada em 1882 por João Carlos Vieira Ferraz, vereador na Câmara de Baependi, e Maria Ferraz, fundadores do Palace Hotel.

Elvira, batizada em 1884 por Francisco José da Silva Simões, subdelegado de polícia da povoação de Rio Verde, e sua esposa Gabriela Candida Simões, proprietários de terras em Conceição do Rio Verde.

OscarII, batizado em 1886 por procuração a José Hilário Figueira, "da Corte", por Francisco de Castro dos Santos Monteiro, deputado da província eleito para vários mandados, e Adelina Costa Guedes, filha mais velha de José da Costa Guedes, proprietário da Casa Guedes .

Castorina, nascida, em 1889, teve como padrinho Vicente de Seixas Batista, ativo na política e  membro da junta de conselheiros para a administração da paroquia de Baependi, e dona Maria Silvania Nogueira.

Assim, os batistérios comprovam que a família de Izabel era gente que tinha boas relações com a aristocracia sul mineira. Eles pertenciam a uma rede de relações sociais que envolviam a nobreza, os ricos e os que circulavam em torno dos ricos. Era sociedade que reunia famílias de grandes fortunas, terras, escravos, lavouras e poder. Caxambu, através da fama de suas águas, passou a atrair o baronato, deputados e senadores da Província que frequentavam suas fontes, e assim as relações sociais se entrelaçaram. Ufa, tudo para contar quem foram os padrinhos dessas crianças.

O pai Francisco

Mas acredito que na história, José Francisco, o pai de Izabel, era peixe pequeno e nadava em águas rasas da política de Baependi/Caxambu. De qualquer forma, foi ele quem, em 1881, arrematou as obras para a iluminação pública da povoação das "Aguas Virtuosas de Caxambu". Ainda em 1885,  participou da iniciativa da construção do Asilo Nossa Senhora dos Remédios, juntamente com outras figuras proeminentes da povoação, como Costa Guedes. Do asilo, não sabemos onde foi edificado, nem se o projeto teve continuidade. Na ocasião, o capitão João Carlos ofereceu um terreno para a sua construção. É um tema ainda a ser pesquisado.

De Izabel, a batizada, nenhuma pista mais foi encontrada, nem de seu casamento, nem de seu falecimento, tampouco de seu irmão Oscar. Mas de Albertina, sim, era conhecida por Magali Brochado como "sá Berta". Ha ainda alguns descendentes e que ainda moram na cidade.

A ligação com a família Ayres

Josino Ayres, filho de José Ayres de Lima-Trançador filho e Gervásia Ayres de Lima) foi casado com Benedita Brochado (bisneta de Francisco de Lima, pai de Izabel)
Izabel era então tia de Benedita Brochado, conhecida por Tita.

Os filhos:
Lazara de Lima Brochado/Ayres
Ozéas Brochado/Ayres
Guaraci Brochado/Ayres

Os limites das pesquisas

Até agora, foram feitas pesquisas documentais sobre Izabel e alguns de seus irmãos e irmãs e nada foi encontrado. Eles não foram encontrados nos registros paroquiais, nem nas entrevistas com os familiares de quarta geração. Seus nomes não são conhecidos ou associados a outros parentes. Eis os nossos limites.

Fotos:
Museu Imperial de Petrópolis
Fonte:
Family Search
Mauro Luiz Senra Fernandes - web site.
MARTINS, Maria Fernanda, In O Círculo dos grandes: Um estudo sobre a política, elites e redes no segundo reinado a partir da trajetória do visconde do Cruzeiro (1854-1889)
Instituto Histórico e Geografico brasileiro.
GENOVEZ, Patricia Falco - Os Barões e os Trilhos. A Estrada de Ferro União Mineira e os Laços de Sangue na Zona da Mata de Minas Gerais.
Projeto Compartilhar
Agradecimentos:
Julio Jeha

domingo, 16 de setembro de 2018

Uma visita muito especial ao Parque das Águas de Caxambu

foto 1 Carlos Fernando Delphin, foto 2 Graça Pereira Silveira e Carlos Fernando Delphim, foto 3, aspecto do Parque das Águas, foto 4: da esquerda para direita: Antonio Hoyuela, Maria Antonia Barreto, Carlos Fernando, Magnus Luderer, Vander Silveira, Graça   Pereira Silveira.
Com a ajuda de Graça Pereira Silveira e de Cristiani Magalhães, pesquisadora e interessada nas obras de Francisco da Silva Reis conhecido como Chico Cascateiro, criou-se a iniciativa de trazer dois arquitetos e urbanistas para um encontro muito especial no Parque das Águas de Caxambu.

As visitas chegaram

E foi em 24 de agosto que as visitas chegaram. Elas vieram a convite dos amantes do parque para coletar informações e contribuir com ideias para o projeto de um geoparque. Além disso, discutiu-se a possibilidade de o Parque das Águas se tornar parte do acervo da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura - Unesco.

Temos o prazer de apresentar esses dois arquitetos e urbanistas que deram parte do seu tempo para uma visita à cidade: Antonio Hoyela Jayo e Carlos Fernando Moura Delphim. Antonio é especialista em planejamento urbano e territorial, consultor da Unesco e do Instituto Patrimônio Histórico Nacional – Iphan. Carlos Fernando é pioneiro na defesa dos jardins históricos no Brasil e também trabalhou no Iphan.* 

Mas mais que tudo, eles são cidadãos amantes de Caxambu. Os pais de Carlos Fernando se conheceram quando se hospedaram no Hotel Lopes, onde sua mãe tocava piano. Se casaram e, numa das idas e vindas à cidade, constataram que sua mãe estava grávida. Foi o "made in Caxambu". (foto)

Durante a visita, Antonio e Carlos Fernando compareceram à 8° Audiência Pública em 24 de agosto, na Câmara Municipal de Caxambu, para discutir a grave situação em que se encontra o Parque das Águas.

Tudo é possível 

A visita não teria sido possível sem a ajuda de várias pessoas engajadas no evento como Maria Antonia Muniz Barreto, da Ampara, os proprietários do Hotel Bragança além de cidadãos que cotizaram para o custeio das despesas. A todos aqueles que trabalhavam para realização do evento, os nossos agradecimentos. A visita poderá trazer frutos para a conservação e preservação do nosso Parque. 

Fonte:
(*) Escavador
Fotos:
Graça Pereira Silveira
arquivo privado de Carlos Fernando Delphim
Agradecimentos:
Julio Jeha

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

Fantasmas na Funabem / "Mamãe, gente existe? Mamãe, tenho tanto medo de gente!"



-Deve ser aqui mesmo. Veja no mapa, Julião!
-Ah, veja você  Sebastião!
É melhor o João ver..."

E com estas falas, abre-se a cena da peça, Pluft, o fantasminha, de Maria Clara Machado (1921-2001), encenada pela primeira vez em Caxambu no... Teatro da Escola Wenceslau Brás, conhecida por Funabem, no ano de 1977. O prólogo se passa à frente das cortina, como se vê na foto, quando os 3 marinheiros, bebados e cantando, abrem a cena.

O diretor era José Dantas Filho, que também fazia o papel do Pirata-Perna-de-Pau, terror da criançada, quando entrava em cena. O cenário quase surreal foi concebido por Carlos Figueiredo pintado por ele e José Dantas Filho. José Pereira Dantas fazia o suporte técnico, coordenando a confecção do cenário, que ele montava e desmontava. Foi ele quem abriu dois buraquinhos nos olhos do Capitão Bonança (foto abaixo), para acompanhar as cenas escondido. Os olhos se moviam... Mágico!

A trupe era composta por Lucimere Ferreira (mae fantasta) ; Tania Pertele (Pflut, o fantasminha) ; José Dantas Filho (Perna de Pau); Gina Pertele (Maribel) e Matilde (tio Gerúndio).  Solange Ayres, Flavia SalumCarlos Figueiredo faziam os piratas Sebastião, Julião e João.

Derramando o mar todo pelos olhos

Ao alto à esquerda, Gina Pertele, como Maribel; José Pereira Dantas, cenógrafo; Nilta, fantasma; José Pereira Dantas Filho, o Pirata Perna de Pau; Matilde, como tio Gerúndio; Lucimeri Ferreira (sentada) a mãe; Monica, como fantasma; abaixo, da esquerda para a direita (marinheiros) Flavia Salum, como João; Henrique Lahmas; Solange Ayres, como Sebastião; Carlos Figueiredo, como Julião; Tania Pertele, como Pflut/ Ao Alto os três marinheiros: Flavia Salun, Carlos Figueiredo e Solange Ayres
A peça foi encenada pela primeira vez pelo grupo O Tablado no Rio de Janeiro, em dezembro de 1955 e se tornou um clássico da literatura infantil. A história conta o rapto da Menina Maribel pelo Pirata Perna-de-Pau. Ele esconde a menina num sótão de uma casa abandonada, onde vivia uma família de fantasmas. A trama principal é o pirata tentando achar o tesouro escondido do Capitão  Bonança, avo de Maribel. 

A poesia do texto se concentra na amizade da Menina Maribel com o Fantasminha Pflut. Uma das cenas mais poéticas se dá  quando Pflut se surpreende com as lágrimas derramadas por Maribel com medo do pirata. "Que lindo, que lindo, que lindo... Mamãe, mamãe, acode! A menina esta derramando o mar todo pelos olhos". A mãe explica que gente é diferente de fantasma, e Pflut diz que também queria chorar e a mãe retruca sem dó: "Fantasma não chora, Pflut, senão derrete".
Tudo isso aconteceu no Teatro da antiga Funabem há... 41 anos. Uau, o tempo passa.


Nem com todo o mar derramado de lágrimas poderíamos imaginar o abandono que a antiga escola poderia sofrer. Revitalizar aquele espaço é reconstruir sua história, ou muitas histórias. A despeito de toda a simpatia que o Pflut nos causa, que os fantasmas que talvez ocupem aquela antiga escola sejam espantados, e que o espaço volte a ser ocupado por muitas trupes de teatro.
Fotos:
Arquivo privado de Solange Ayres.
Fotografias: Lucinha Baião
Cartaz confeccionado por Carlos Figueiredo
Agradecimentos: 
Julio Jeha

domingo, 26 de agosto de 2018

100 anos da fundação do templo presbiteriano no Chapeo/ Baependi /Homens de terno escuro vendendo livros pretos

Templo Evangelico do Chapeo, Baependi
E o tempo passou, os escravos foram libertos, causando grandes mudanças na política e na economia da região do Sul de Minas. O caro tabaco, vendido na corte do Rio de Janeiro, já tinha perdido sua pujança, e os fazendeiros reclamavam a falta de braços para tocarem suas lavouras. Embora o comércio de produtos, por meio de tropas e tropeiros entre as fazendas do Sul de Minas, Rio e São Paulo, ainda florescesse, a economia não era mais a mesma.  Nem as crenças religiosas. Muitas mudanças estariam ainda por vir. As comunidades vivenciavam a transição do século, a passagem da sociedade escravista para a de cidadãos livres. Quais motivos os moradores teriam para trocar de religião?

Os primórdios dos luteranos no Brasil

E lá vamos nós contar um pouco mais de história.  Com o acordo comercial entre Brasil e Inglaterra que "abriu seus portos às nações amigas", chegaram aqui protestantes americanos, suecos, franceses, alemães e suíços, de tradição luterana. A primeira capela dos luteranos foi inaugurada no Rio de Janeiro,  em 1816.

O artigo 5° da Constituição Política do Império, de 1824, rezava:

"A Religião  Cathólica Apostólica romana continuara a ser a Religião do Império. Todas as outras Religiões serão permitidas com seu culto domestico, ou particular, em casas para isso destinadas, sem fórma alguma exterior de templo".

Com o Brasil independente, e a separação de Estado e Igreja  tendo ocorrido em 1890, por um decreto republicano, a Igreja Católica agora iria enfrentar a concorrência de outras tendências religiosas, como o positivismo e o espiritismo. No mesmo período, houve necessidade de atrair imigrantes europeus para substituir a mão de obra escrava, e , com eles veio sua religião. Os movimentos culturais que abalavam a Europa chegavam ao Brasil, influenciando os intelectuais, políticos e os... sacerdotes e fiéis .

A expansão da comunidade presbiteriana no Sul de Minas se deu ao longo da Estrada Real. Fulgêncio Batista descreve o penoso trajeto que faziam  aqueles que pretendiam chegar a Caxambu em 1873, passando pelo arraial de Pouso Alto, pelo Sengó no lombo de animais. A partir de 1880, o acesso ao Sul de Minas foi facilitado pela ligação das povoações por dos trilhos. O trem chegou à vizinha Soledade de Minas em 14 de junho de 1884. A viagem seguia daí em cavalos e carroças até Caxambu, que só teve só teve trem em 1891, quando a Viação Férrea Sapucaí chegou à povoação. Com a ferrovia os pastores presbiterianos alcançaram o Sul de Minas.

Uma Igreja no Chapeo

No final do século XIX, no início de 1908, foram iniciados os trabalhos da comunidade evangélica no Chapeo, hoje bairro de Baependi. Sim, sim, na pequena comunidade do Chapeo, situada num dos caminhos alternativos da Estrada Real. Outras crenças vieram ocupar o espaço espiritual de seus habitantes, tendo como referencia espiritual Erasmo Braga, que esteve na comunidade. 

Erasmo Braga (1877-1932) (foto de 1901) iniciou os estudos de teologia aos 16 anos, tornando-se pastor e professor. Foi líder presbiteriano e, com grande esforço, ativou a cooperação entre as igrejas evangélicas do Brasil na década de 1910, nas área de literatura, educação cristã e teológica. Para ele, os evangélicos deveriam se unir e vincular sua fé às mudanças sociais do país. Erasmo se destacou como um dos maiores líderes evangélicos de seu tempo. 

Bibiano José Ferreira, um dos fundadores do Templo Presbiteriano no Chapeo, e os primeiros cultos religiosos/ Homens de terno escuro vendendo livros pretos


Foram tempos difíceis, pois dos seus primórdios até o estabelecimento definitivo dos trabalhos dos eclesiais na região, os cultos se davam em residências particulares para evitarem que fossem... apedrejados. Em 1901, escrevia o Jornal Diário de Minas, foi muito elogiado o ato do governo suspendendo a proibição dos cultos públicos das congregações protestantes em... Portugal. Até que os ecos das práticas religiosas chegassem ao interior das Minas Gerais, os cultos protestantes eram realizados quase às escondidas.

Assim,  Bibiano José Ferreira recebeu a visita do Pastor Àlvaro Reis em sua casa no Chapeo, em agosto do ano de 1908, onde foi realizado um pequeno culto com sua mulher e seus quatro filhos.

Uma pergunta foi respondida: como Bibiano, batizado na igreja Católica, se converteu ao protestantismo? Loide Lima Loesch nos esclarece: - Bibiano frequentava as missas na Capela do Piracicaba, quando num dos sermões, o padre solicitou que os fiéis "evitassem os homens de terno escuro, vendendo livros de capas pretas".  Segundo ele, "Era coisa do diabo". E como tudo que é proibido desperta a curiosidade, Bibiano foi conhecer pessoalmente os  tais vendedores e assim tomou contato com os primeiros pastores presbiterianos, que também vendiam livros, como mascates, pelo sul de Minas.

A Igreja Presbiteriana do Chapeo ganhava adeptos e também os seus primeiros diáconos. Foram eles Marciano Martins de CastroAdolfo Martins e o próprio Bibiano José Ferreira. Já no início dos trabalhos, em 1906, eles contavam com 85 membros, num total de 6.500 fiéis em todo o Brasil.  Uma vitória para a comunidade presbiteriana, cercada pelos católicos da região da Capela de Santo Antônio do Piracicaba e da Igreja Matriz Nossa Senhora de Mont Serrat de Baependi. Podemos então dizer que uma das primeiras células presbiterianas na região surgiu no Chapeo, posteriormente, foram se expandindo até PiracicabaSengó, município de Pouso Alto e, no ano de 1916, chegaram  a Caxambu.

Em 1913, noticía o jornal O Puritano que Bibiano doara um terreno para a construção de um salão para os Cultos e de um  o cemitério, no Chapeo. Assim, Bibiano José Ferreira, o neto de um dos mais antigos ancestrais da Família Ayres/Lima Loerch, o senhor de escravos João José de Lima e Silva Joana Tereza Ribeiro, escreveu a história, ajudando fundamentar o trabalho dos protestantes na região.

O templo presbiteriano do Chapeo completa 100 anos em setembro de 2018. A comunidade só tem a comemorar.

Fotos:
Arquivo privado da Família de LoideLima/Losch
Fonte:
DIAS, Carlos Alberto -  A FÉ NO CAMINHO DAS ÁGUAS: UMA ABORDAGEM HISTÓRICA DO PRIMEIRO CENTENARIO DA IPS CAXAMBU - MG, Universidade presbiteriana Mackenzie - Escola Superior de Teologia, 2010.
Anuário  de Minas Gerais para o ano de 1890
School of Theology
Site da Igreja Presbiteriana de Caxambu
Igreja Presbiteriana de Pinheiro
PARANHOS, Paulo, Ruim Mais vai / O desenvolvimento da estrada de ferro no sul de Minas Gerais e a chagada do trem a Caxambu.
MATOS, Alderi Sousa, BREVE HISTÓRIA DO PROTESTANTISMO NO BRASIL.
Wikipedia.
Agradecimentos: 
À Loide Lima Loesch pelas informações que ajudaram a compor este texto e também ao meu antigo colega de escola, Carlos Alberto Dias, da Igreja Presbiteriana de Caxambu, por receber a pesquisadora Graça Pereira Silveira  em sua residência em Caxambu, em abril de 2018, e fornecer preciosas informações e rico material iconográfico, que compõem vários textos deste blog. Agradecimentos também  a Julio Jeha.


quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Nonata Ribeiro Guedes e o mal do século


"Após meses de padecimentos, faleceu hotem, em Caxambu, D. Anna Nonata Ribeiro Guedes, filha de distinta família mineira e virtuosa esposa do Sr. José Maria Costa Guedes, noticiava o jornal O País, do Rio de Janeiro.

Importante figura na história da cidade de Caxambu, Anna Nonata Ribeiro de Carvalho nasceu no dia 3 de agosto de 1856, em Sant'Anna do Capivari, filha de  José Ribeiro de Carvalho e Silva e Marianna Ribeiro de Carvalho. Seu pai foi comerciante em Sant'Ana do Capivari, hoje município de Pouso alto, e proprietário de uma grande rede comercial de distribuição de produtos no sul de Minas Gerais.

Anna Nonata foi a caçula de cinco filhos do casal: Maria Leopoldina de Carvalho, (1894-?); Mariana Ribeiro de Carvalho Filha (1851-1917); Adelina Angela de Carvalho (1853-?); Manoel Ribeiro de Carvalho (1854-?); Ana Nonata Ribeiro de Carvalho (1856-1896).

Nonato, Nonata

O que era para ser um acontecimento feliz no domingo, 3 de agosto, na família dos Ribeiro de Carvalho, se transformou numa grande dor. Marianna, a mãe de Nonata, morreu no parto, inesperadamente, aos 28 anos de idade "sem sacramentos". Na certidão de óbito escrito  consta que "faleceu de encomodos de parto", um choque para todos.

As complicações de parto eram uma das maiores causa-mortis no século passado. Tradicionalmente, os partos e seus cuidados eram deixados às parteiras, mas quando surgiam complicações que exigissem uma intervenção cirúrgica, a ação das parteiras estava longe de ser suficiente.  Profissionais da medicina? Muito raros nos sertões das Minas.  Sendo assim, parir era um ato de alto risco. Os casos mais complicados resultavam na morte da mãe e os recém-nascido.

Morrer no ou em conseqüência dele não era raro. Sua mãe se foi, mas Nonata sobreviveu. O seu nome está associado ao substantivo masculino Nonato, saído do ventre por operação cirúrgica. Outra definição para Nonata é "aquela que ainda estava sendo gerada no ventre da mãe". A criança viveu e cresceu sem mãe.

Marianna ribeiro de Carvalho foi sepultada no interior da Matriz de Santana do Capivari, como era costume na época, em 3 de agosto de 1856. Sua alma foi encomendada pelo Reverendo vigário José Esaú dos Santos. Assim viveu e cresceu Nonata, sem mãe.

Um pai português

Marianna Ribeiro de Carvalho (ao alto à esquerda), irmã de Anna Nonata Ribeiro Guedes
(abaixo à direita); José Ribeiro de Carvalho e Silva (direita abaixo à esquerda)

Seus pais, José Ribeiro de Marianna, se casaram, em 1848, na cidade de Sant'ana do Capivari, e da união nasceram Maria Ribeiro de Carvalho, Mariana Ribeiro de Carvalho, (foto ao alto, à esquerda) Adelina Ângela  de Carvalho, Manoel Ribeiro de Carvalho e Ana Nonata Ribeiro de Carvalho. (foto abaixo à direita)

José Ribeiro era ainda adolescente na cidade do Porto, Portugal, quando foi convocado de Viseu, na cidade do Porto, Portugal, a cooperar com a gerência de negócios de uma importante firma inglesa. A contragosto da família, tomou um navio em direção ao Brasil, em 1843, e aportou no Rio de Janeiro, em busca de maior oportunidades, escrevia o Jornal do Vale do Paraíba do Sul. Ele não gostou do clima da capital e, em 1843, se mudou para Pouso Alto. O clima de montanha o agradou mais, pois se assemelhava ao de sua terra natal e lá sentou bases para o seu negócio. Em 1846, fundou sua casa comercial, em Sant'Ana do Capivari, abrindo filiais no Rio de Janeiro e... em Caxambu.

Ele fez grande fortuna, e como muitos dos comerciantes da época, era benemérito de suas cidades. Fez grandes donativos ao Asilo Visiense da Infância Desvalida, a Câmara Municipal de Viseu, a Santa Casa de Misericórdia de Viseu, em Portugal. No Brasil as doações foram para a Beneficência Portuguesa do Rio de Janeiro, o Governo Imperial, durante a Guerra do Paraguai, a Câmara Municipal de Pouso Alto, a Matriz de Capivari, o Seminário de Mariana. Fez contribuições trimestrais aos párocos de Capivari até sua morte, causada por uma lesão da aorta aos 81 anos.  Ainda hoje é lembrado na cidade.

Destino: Caxambu

E qual seria a ligação de Anna Nonata Ribeiro de Carvalho com a cidade de Caxambu? Ela foi casada com José Maria Costa Guedes, o fundador da Casa Guedes. O pai mandara chamar três portugueses para se casarem com suas filhas: Maria Ribeiro, Mariana e Ana Nonata. No caso de Nonata o casamento não foi tão "arranjado" como o de suas irmãs.  José Maria Costa Guedes era   ajudante de seu pai, de quem se tornou braço direito. Assim teve  a oportunidade de se aproximar de Nonata.

Reynaldo Guedes contou ao jornalista Mauricio Ferreira uma conversa que teria ocorrido entre José Ribeiro e José Maria.

José Ribeiro: - É verdade você quer nos deixar?José Maria: - Efetivamente, vou regressar ao Rio de Janeiro.
José Ribeiro: - Posso saber a razão que o leva a tomar esta atitude?
José Maria: - Eu gosto de sua filha Ana e sou correspondido, mas não me vejo à altura de pretênde-la.
José Ribeiro: - José Maria, você fica e casa com a minha Ana. Você a merece e ela merece você, que é um rapaz digno, honesto, inteligente e muito trabalhador.

O enlace aconteceu no ano de 1874, em Capivari, e eles vieram morar, em Caxambu. O agora marido estaria à frente dos negócios do sogro na cidade. O casal teve 10 filhos. José Maria e Ana consideraram educação como fundamental e os mandaram para internatos Minas afora.

A prole consistia de:
Adelina Guedes (1877-?)
Maria da Conceição Guedes (1878-?)
José Guedes (1879-?)
José Reynaldo Guedes (1883-?)
João Guedes (1884-?)
Leonor Guedes (1885-?)
Alfredo Guedes (1887-?)
Regina Guedes ( )
Sofia Guedes ( )
Laura Guedes ( )

O mal do século


Nonata faleceu antes de seu marido, Costa Guedes, no dia 27 de abril de 1915, de uma doença grave, muito comum na época, a tuberculose. No Brasil muitos escritores do período romântico sofriam de tuberculose e faleceram em decorrência da doença. Esse grupo de poetas ficou conhecida como a "geração do mal-do-século, isto é, da tuberculose.
O pároco José João de Deus ministrou os últimos sacramentos a Anna Nonata, que foi sepultada no jazigo da família Guedes, no Cemitério Municipal de Caxambu. Seu obituário foi publicado nos jornais do Rio de Janeiro, Gazeta de Notícias, Jornal do Brasil e O País.
Foto:
Arquivo privado da Família Costa Guedes
Fonte:
Familia Search
Jornal Vale do Paraíba e Sul de Minas, 2000
Agradecimentos: 
A Izabela Jamal Guedes, bisneta de Ana Nonata Guedes pelo apoio e fornecimento das informações que deram origem a vários textos deste Blog.
Agradecimentos a Julio Jeha.