segunda-feira, 27 de junho de 2016

José Fernandes Ayres de Lima, meu bisavô era um tropeiro



E sentem novamente que lá vem história! Paciência, gente! Hoje vamos contar a história do velho José Fernandes Ayres, o Trancador-pai, que deu origem ao nome do Bairro Trançador, situado na barra do Morro de Caxambu. Esta parte da história  esta sendo resgatada em entrevistas sensacionais de Maria das Graças Pereira, a Graça, em visita  ao primo Sylvio Ayres de Lima, neto de José Fernandes, filho de Anna Ayres de Lima, a tia/ avó Lica e José Eugenio de Souza, em São  José dos Campos. Uma verdadeira jóia de documentação agora de posse do Blog de nossas Famílias, Ayres/Freitas/Pereira. Publicaremos tudo, mas tudo mesmo. Com vocês a história de nossos antepassados...

Os caminhos do sertão 

Vamos então lá para as Minas Gerais no século 18...
Pois Minas desempenhou papéu importantíssimo no abastecimento de gêneros alimentícios para as áreas urbanas nos tempos do Brasil Colônia. Os produtos viajavam de longe. Um dos impulsionadores deste fato foi a chegada da família real ao Brasil, fugida da invasão de Napoleão Bonaparte, que causou enorme impacto, transformando a economia da então Capitania de Minas.

A população cresceu e a demanda por gêneros alimentícios  para os centros urbanos, como Vila Rica, hoje Ouro Preto e o Rio de Janeiro dinamizou o comércio.
Em 1802  passaram pelo Registro oficial da Mantiqueira, para se ter uma idéia, 716 porcos rumo à capital. Três anos depois, com a transferencia da corte portuguesa, em 1811 os números foram de 1.632. Entre 1818 e 1891 os porcos exportados já eram 30 mil, uma considerada soma. No mesmo percurso da Estrada Real passavam os produtos que o povo necessitava: aguardente de cana, rapadura, café, arroz, feijão, farinha de mandioca, milho, trigo, azeite de mamona, cera, sabão, estribos e selas, chicotes, chapéus de lã, algodão em rama e tecido além de outros animais, como galinhas, carneiros, patos. E também doces como a marmelada e o famoso queijo mineiro já viajavam Brasil afora.

De fato a transferencia da Corte portuguesa para o Rio acabou impulsionando a economia mineira compensando o declínio da atividade mineradora. Como os historiadores costumam escrever, Minas não entrou em crise, simplesmente houve uma diversificação econômica.
Os alimentos produzidos em Minas cruzaram fronteiras, chegando a São Paulo e ao interior do Rio de Janeiro. E com a expansão cafeeira no Vale do Paraíba fluminense houve uma verdadeira integração dos três Estados, com a ajuda dos trilhos de ferro.

Trilhas, tropeiros, Trançador  e as "traias"

Rancho Grande (dos Tropeiros) quadro de Benedito Calixto
de 1921, Santos, São  Paulo
Neste tempo de transformações existiu um grupo  particular para a produção e comercialização de alimentos: os tropeiros. O nome derivado de "tropa", aplicado aos próprios donos dos animais, quase sempre fazendeiros e criadores que formavam um grupo de peões, cada um com sua especialidade: os tocadores, tangedores, o madrinheiro, menino que seguia à frente do dianteiro, na mula, montando uma égua mansa, e guiando a tropa ao som de cincerros nela pendurados, que também era encarregado de preparar o café e a comida, feijão de tropeiro, pirão de mandioca, carne de porco, carne seca, toucinho, farinha de milho. A caravana podia se arrastar, dias, semanas até meses seguidos sob a poeira, sol e chuva. Em suas horas de descanso, eram trocadas as informações que adquiriam no caminho, transformando-se em preciosos interlocutores, transportadores de informações de lá pra de cá e de cá pra lá.

"Mais do que simplesmente transportar mercadorias, as tropas criam toda uma cadeia de negócios mantida por redes familiares. O que inclui a mercadoria fundamental para o funcionamento daquela economia: os escravos. As mesmas tropas que levavam das Minas para o Rio os gêneros de subsistência subiam de volta a serra transportando negros escravos.

O tropeiro é um elemento de transição e ligação entre o universo rural, ligado à produção, e o urbano, base do comércio. A um só tempo proprietário de terras, produtor rural, comerciante de alimentos e traficante de escravos, ele logo se torna importante figura política na região. A abertura de novos caminhos ligando Minas ao Rio, entre 1810 e 1820, atende às suas demandas. É o caso das estradas do Comércio e da Polícia, construídas quase simultaneamente, e da estrada do Picú, hoje Itamonte, financiada pelos próprios fazendeiros de Campanha, Baependi e Pouso Alegre, que abreviou em cinco dias o caminho das tropas para a Corte, no Rio de Janeiro. Na arena política, os tropeiros conquistam cargos de deputado e senador, levando sua agenda para o centro das discussões governamentais e impulsionando de vez as relações econômicas entre os estados do Sudeste."*

Estas transformações foram sentidas em toda a Província e o mercado consumidor interno foi a chave para o sucesso para o desenvolvimento do país.

O Trançador  e as "traias"   

Indumentária de um tropeiro, não faltando
 os laços,relhos e bolsas de couro
Quem não ouviu falar em "traias"? Traia para nós em Minas são bagagens de viagens. Pois a palavra vem de lá, "tralha". Todo tropeiro tinha sua "traia", ou suas "traias", aqui abreviado dito como em Minas, isto é, laços, rédeas, trançados para domar os animais, utensílios de cozinha que eram transportados consigo durante as viagens.

Em torno dessa grande economia, surgiram as novas profissões: o peão domador, o ferrador, o toureiro, o rancheiro e o aveitar, um veterinário primitivo e... O trançador .

E foi na profissão de artesão para essa "economia tropeira" que nosso bisavô, e também Tropeiro, José Fernandes Ayres fez o seu nome.

Na fralda do Morro Caxambu, na propriedade em que vivia, tinha sua casa, na beira da estrada mesmo. Próximo ao terreno o lugar se tornou um acampamento rústico, onde as tropas faziam o seu "pouso", um ponto de passagem e parada, vindos de Conceição do Rio Verde em direção à Baependi. Era  um pedaço descampado de terra onde acampavam ciganos, índios, brancos e negros, escravos e libertos, gente de toda raça e dolência...



Maria de Lurdes de Deus, bisneta de José Fernandes Ayres, o Trançador-pai,
fotografada por Maria das Graças Pereira indicando
 onde localizava as terras pertencentes ao seu bisavô, ao pé do morro,
onde hoje é o Bairro do Trançador, Caxambu
É, era bem ali no alto, onde é hoje o Bairro Trançador  que José Fernandes morava e que adquiriu esse nome por ser ele o artesão de peças de couro, laços, relhos que trançava com maestria, vendidos aos tropeiros que circulavam em toda a Província de Minas.  Seu filho José Ayres de Lima, casado com a minha avó Gervásia Ayres de Lima, o meu avo, não somente herdou do pai a habilidade de trançar relhos, mas também o apelido de Zé Trançador.

Em visitas a um neto de José Fernandes de Lima, Sylvio Aires de Lima, relata para o Blog da Família Ayres suas memórias e conta...



Levavam bois nas classes noturnas

Mas o tropeirismo estava com dias contados. Com a chegada dos trilhos de ferro em 1884, e a inauguração do trecho Minas-Rio, tudo que era transportado por terra, a pé, no lombo dos burros, e os próprios bois, perderam o seu lugar e agora a carga ia de trem e depois em caminhões.

E o "O Baependiano noticiava em abril de 1883:

É o dia 12 deste mês em que pela vez primeira o carro do progresso transpos as mais do nosso município, e o cavalo dinâmico que come o carvão, vomita chamas e devora o espaço, depois de haver saciado a sede nas águas do Atlantico, pisou ofegante o solo baependiano, em seu caminhar delirante, para o Far West brasileiro, à procura dos tesouros minerais e vegetais, que naquela misteriosa região só esperam a mão do homem para colhe-los."

Na década de 1930 o tropeirismo viveu os seus derradeiros dias. Por causa de sua importância para a história econômica do Brasil, os Tropeiros ganharam o seu dia, dia 26 de outubro.



O poeta   bem descreveu em "Soledade de Minas":

Em outros tempos as máquinas de ferro
Cruzavam seus chifres e queimavam os cascos
Na agulha grossa dos dormentes.
As caldeiras ferviam nas locomotivas
E o vapor tecia sonhos de guerra
no peito dos soldados.
As cidades ferroviárias estavam no apogeu.
Levavam bois nas classes noturnas,
Esparramavam óleo no joelho dos vagões,
E faziam o ofício de mulheres-cortesãs,
Fiando suéteres para a História Industrial.
Havia cabelos esvoaçantes, náuseas,
E na dobra do morro o olhar da lua
Comia a cauda agitada dos trens.
Havia pasmo das crianças 
Perante a violencia das invenções inglesas
Nas gargantas úmidas de Minas*. 
Ao vivo e a cores

E para aqueles que querem ver ao vivo como era o trabalho de nossos antepassados, de como a profissão de Trançador era exercida, façam uma visita.


Agradecimentos:
O Blog da Família Ayres agradece a aqueles que possibilitaram o contato com os demais membros da Família Ayres de Lima em São José dos Campos que ouviram e responderam! as perguntas de nossa pesquisadora, Maria das Graças Pereira e ao seu marido Vanderlei de Moura Silveira, que muitas vezes serviu de arquivo, memorizando o conteúdo das conversas, bem como de motorista da entrevistadora.

Foto: Vidal Araujo, montado em sua mula na Festa de Tropeiro em Tropeirismo e a formação  do Brasil
Poesia: Eustaquio Gorgonne
Fonte:
Alexandre Mendes Cunha é professor do Departamento de Economia e pesquisador do Cedeplar, ambos na UFMG. Autor da tese de doutorado em História “Minas Gerais, da capitania à província: elites políticas e a administração da fazenda em um espaço em transformação” (UFF, 2007).
O Baependiano
Video: Gravado na residencia de Sylvio Aires de Lima, em São  José dos Campos, por Maria das Graças Pereira em junho de 2016.

domingo, 19 de junho de 2016

Marcos Pereira Gomes Nogueira, o Monsenhor

" O pugilo de homens recém-chegados e os que foram encontrados na terra do ouro, e que juntos constituiam a crença  baependiana, estavam talhados mais para pastores e agricultores do que para mineiros. Enamorados da espessura das nossas florestas sul mineiras, e da belleza dos nossos campos, os quaes se desdobram desde o Cajurú até as vastas campinas do Angahy, Favacho, Campo-Lindo, e muito além, dedicaram-se logo à lavoura e à criação; e foram os fructos destes trabalhos de matto e de campo, os elementos das primeiras fortunas deste Sul de Minas - de que foi Baependy o primeiro núcleo".*

E hoje o Blog da Família Ayres vai noticiar sobre o Monsenhor Marcos Pereira Gomes Nogueira, assim como já noticiamos aqui outro religioso, o Reverendo José  Eduardo Honorato da Silveira que batizou nossos bisavós lá na Capelinha do Piracicaba. Ele fez parte da história da cidade de Baependi, mas também fez parte da história da Família Ayres/Rodrigues de Freitas nas celebrações de batizados e casamentos. Vamos lá.

Monsenhor Marcos  nasceu em 18 de junho de 1847, numa chácara de propriedade de seu tio, Manuel Constantino Pereira Guimarães, no lugar denominado "Lava-pés", na periferia da então Vila de Santa Maria de Baependi. Filho de João  Constatino Pereira Guimarães, imigrante português procedente da região do Minho, região que já descrevemos neste blog de onde vieram muitos imigrantes Portugueses  que povoaram Minas Gerais, imigrantes estes como nossos antepassados que assinavam e assinam "Lima". Sua mãe  Ana Engracia Nogueira Meireles era filha de um bisneto de Capitão-Mor Tomé Rodrigues Nogueira do Ó, um dos primeiros moradores da localidade e considerado o fundador da cidade de Baependi. Foi ele que edificou no chamado "Engenho" a primeira capela de Nossa Senhora de Montserrat, ha dois quilômetros da povoação, uma construção rústica, onde se encontrava a imagem de devoção da família. Mais tarde suas filhas Maria Nogueira do Prado e seu marido João  Gomes Lemos fizeram a doação do terreno à Freguesia de Santa Maria de Baependi, onde hoje esta edificada a Igreja Matriz.

Marcos viveu no tempo em que a cidade se emancipou politicamente em 1855 e que mais tarde foi elevada à categoria de cidade com nome de Baependi. O jovem seminarista foi testemunha do seu crescimento econômico e cultural.  No  ano de 1862 presenciou o douramento do altar-Mor da igreja, com o generoso donativo de Nha Chica, quando ela recebeu a herança de seu irmão, Theotonio Pereira do Amaral, falecido em 1861.

Sem nunca ter vivido num seminário, mesmo assim o jovem vigário recebeu seu credenciamento para atuar como padre em 25 de outubro de 1865, quando da visita pastoral do D. Antonio Ferreira Viçoso, o bispo de Mariana à paróquia de Baependi. Sua formação teológica foi ministrada pelo então vigário Joaquim Gomes do Carmo.


Ainda neste mesmo ano iniciaria Nha Chica a construção da capela dedicada à Senhora da Conceição. Como seminarista presenciou a cerimonia do lançamento da pedra fundamental da Igreja Santa Isabel, em Caxambu, naquela época ainda pertencente à Baependi, cerimonia esta com a presença de Sua Alteza Real, a jovem Princesa Isabel, que em 1888 assinaria a lei que libertaria os escravos dos grilhões da escravidão.

Entre folhas de gravatá, fumo e bananeira

Em 1870 ele inicia seus trabalhos como padre, servindo à comunidade. Por quase meio século foi o impulsionador das obras de restauração  da Igreja Matriz. Era conhecido  por ser "um sacerdote zeloso e de inteligência cultivada, aliada a uma grande vontade". Conhecedor das regras  de arquitetura foi ele quem desenhou e planejou as reformas na Igreja Matriz. No seu conceito estético incluía os ornados em madeira de cedro inspirados na flora brasileira, como cacho de Gravatá, da família das bromélias, onde pende o lustre da cúpula e o portal de entrada ornado com folhas de fumo. Para não esquecer, a região produzia tabaco de excelente qualidade. O tabaco de  Baependi era  era encontrado nas melhores charutarias da corte, no Rio de Janeiro.
Ainda, a  decoração da Igreja Matriz incluía folhas de bananeira e uva e o estilo barroco da igreja  teve um toque de originalidade, criado pelas próprias mãos do Monsenhor, que fazia os moldes para as esculturas. A sua obra foi levada a frente graças as esmolas que angariava, tanto da população pobre, mas também dos ricos. 

O Baependiano
Mas Monsenhor Marcos não era somente um pároco que cuidada da formação espiritual de suas ovelhas, mas ele também se imiscuía na política, como todo o clero, além de constar na lista como eleitor de 1881, apoiou o candidato a deputado da Província de Minas Gerais. No mesmo ano encaminhou um ofício atravez do vereador Mattos para realização de consertos na ponte sobre o rio São  Pedro e liberação de verba para  reparos na Capela de Santo Antonio do Piracicaba, publicada no jornal "O Baependiano" na edição de 23 de abril de 1879. 

Monsenhor Marcos abençoou  em nossa família:

A lista de nossos antepassados que Monsenhor Marcos assistiu como pároco é grande e aqui nomearei somente alguns e dentre eles:

Em 25 de dezembro de 1881 ele batizou na Igreja Matriz de Baependi juntamente com sua irmã Prisciliana Elisa Nogueira,  Maria José de Lima, a vó Mariquinha, e em 1898 foi ele quem celebrou também seu casamento, na ainda Capela Nossa Senhora dos Remédios, em Caxambu. 

Em 23 de outubro de 1881 assinou o batistério de Gervásia Maria, a vó Gervásia e em 30 de janeiro de 1897 abençoou o seu casamento com José Ayres de Lima-Trancador-filho.

Em 13 de novembro de 1882 celebrou o pomposo casamento de Prisciliana Isidodra do Espírito Santo com viuvo Antonio José Pereira, realizado em um  altar privado, na casa de seu pai, José Florencio Bernardes, na fazenda do Bairro do Chapeu em Baependi e que foi notícia no jornal "O Baependiano". Prisciliana era filha de Thereza Ribeiro de Lima, e neta de João o José de Lima e Silva, o mais antigo ancestral da Familia Ayres/ Freitas.

Em 17 de janeiro 1886 na  ainda Capela Nossa Senhora dos Remédios, em Caxambu, batizou a tia-avó Izabel Aires de Lima filha de José Fernandes Ayres, Trançador -Pai.

Em 11 de junho de 1903, na Igreja Matriz em uma se suas últimas atuações na família, fez o casamento de Ana de Souza Lima, a tia-avó Lica, com José Eugenio de Souza.

Monsenhor e Nha Chica

Monsenhor Marcos manteve uma grande relação de amizade e respeito por Nha Chica, que o escolheu para ser seu primeiro testamenteiro. Em em 14 julho de 1985 assina o seu atestado de óbito, (foto). Na descrição ela foi sepultada 3 dias depois, no dia 18 na Igreja Nossa Senhora da Conceição para qual havia dedicado toda a sua vida.
Assim escreveu:

Aos quatorze de junho de mil oitocentos e noventa e cinco, pelas 5 horas da tarde, com todos os Sacramentos, faleceu nesta cidade D. Francisca de Paula de Jesus, solteira, de oitenta e dois anos de idade; no dia dezesseie do mesmo mez foi solenemente encomendada, acompanhada da Matriz a Capela de N.S. da Conceição pelas irmandades do S. Smo Sacramento, NS. da Boa Morte , das Mercez e do Rosário; e no dia dezoito do mesmo me foi parcialmente encomendada e sepultada no recinto da nave da mesma igreja de NS. da Conceição. Para constar faço este assento que assino: Revdo Marcos Pereira Gomes Nogueira.



Atestado de óbito de Nha Chica, assinado 
por Mons. Marcos Pereira Gomes Nogueira

Acidente de percurso

Em 1906 Mons. Marcos teve que ausentar temporariamente de Baependi para assumir o bispado de Pouso Alegre, durante a ausencia  de D. João Batista Correia Nery, que fora a Roma, em visita ao Papa Pio X. Tragicamente no seu regresso a Baependi foi vítima de um acidente, sendo arrastado pela locomotiva do trem de ferro. Após o ocorrido ele se recolheu a Casa de Misericórdia, hoje Hospital Cônego Monte Raso, como capelão e lá faleceu, 10 anos após o acidente, em seu modesto quarto, com o rosário entre os dedos, vítima de uma parada cardíaca, no dia 7 de fevereiro de 1916. Foi sepultado na Capela da Paixão, à esquerda do altar-mor da Igreja Matriz.

Atestado de óbito do Monsenhor Marcos Pereira Gomes Nogueira
Foto: Maria das Graças Pereira da Silveira
Sepultura do Monsenhor, na Igreja Matriz de Baependi

Em tempo: Quando eu já havia fechado e publicado este post, recebo a notícia que a nossa repórter investigativa estava NO LOCAL dos acontecimentos históricos e nos enviou atravez desta maravilhosa máquina-computador-celular a foto documental para o nosso texto. Mais uma da Graça.

Texto baseado no texto do Blog Bem-aventurada Nhá-Chica do Pe. Jean Poul, da Diocese de Campanha.
Fontes: Blog: *Carmo da Cachoeira.net, citação; Genealogia Paulistana



quarta-feira, 15 de junho de 2016

Maria das Graças Pereira Silveira, a Normalista



 O relógio ja deu hora
o jardim vai começar
com florzinhas e aurora
 porque vamos estudar 

Maria das Graças no colo de
sua querida mãe, Geralda
Estas eram as estrofes que a futura Normalista Maria das Graças Pereira da Silveira ouvia antes de iniciar as aulas, nos primeiros anos de sua infância. Mas se para outras crianças a musiquinha era o começo das aulas, para ela alí começava o tormento e significava que ela teria que ser separada da mãe e...  tinha vontade de chorar. Aqui o destino colocaria elementos em sua personalidade, que mais tarde chegaria a influenciar sua carreira ...

E como aqui no Blog da Familia Ayres/Rodrigues Freitas vocês vão ficar sabendo, não somente das histórias pessoais, mas também um pouco de história, vamos tentar entender como e porque  cargas d`água Maria das Graças resolveu ser Normalista.

Senta que lá vem história

O que era uma "normalista"? Ora, eram as moçoilas que cursavam o Curso Normal, também conhecido como Magistério de 1° grau ou Pedagógico, uma habilitação para trabalhar nas séries iniciais do ensino fundamental. O professor poderia então complementar por mais um ano o chamado  o Quarto Normal, em uma área específica, o que o habilitaria a dar aulas até a 7a série, hoje atual 8° ano.

As escolas Normais surgiram no Brasil pela Lei Provincial de 1835. A idéia era "normatização" das práticas educativas, formação de instrução  profissional de novos mestres e melhor preparar pessoas para o exercício do magistério.
Após a Proclamação  da República, em 1889, o ensino passou a ser extendido às mulheres, proporcionando assim a possibilidade de se profissionalizarem. E o que mais queriam as mães é que sua filhas se fizessem o "Normal". Não eram professoras, eram Normalistas, a única profissão aceita para as mulheres. É, e a profissão dava "status" e era garantia para um bom casamento. O curso chamado: "espera marido".  Isso era nos anos de 1920, quando o professor passa a ter necessidade de habilitação para atuar nas escolas.



E como tudo é produto do seu tempo, a educação não fez outra coisa que espelhar as necessidades da sociedade brasileira. No governo Vargas (1938-45) o Brasil se desenvolvia cultural e industrialmente, exigindo mais qualificação aos recém-ingressos no trabalho. Escrever e ler vai deixando de ser luxo e passa a ser uma necessidade. Em 1942-46, foram realizadas reformas na educação, com a preocupação com o Ensino Primário e com as Escolas Normais, estas voltadas para a formação de professores do ensino básico. Não vou "salivar" mais e quem quiser se aprofundar no tema, aqui um video que conta a história das Escolas Normais desde sua génese, vale a pena visitar.


A difícil separação

Mas voltando à Graça... escrever biografias, ou na proposta dos textos do Blog da Família Ayres, Freitas Rodrigues e outros ramos, é escrever sobre vidas vividas, passadas, futuras. Assim vamos construindo os nossos traumas, desconstruindo-os na idade adulta, contando e recontando as histórias.

 Maria das Graças, primeira à esquerda em uniforme
 da Escolinha da Virgo Potens               
Nem sempre as lembranças deste passado são aquelas melhores recordações de infância. Relativizados hoje os fatos que marcaram as histórias pessoais, mas que foram acontecimentos muitas das vezes dolorosos, muito dolorosos e que  marcaram nossas personalidades. 

Graça estudou na Virgo Potens, escola que iniciava a alfabetização das criancas, uma instituição católica, situada na rua Dr. Viotti, 118, rumo a Estação Rodoviária/Ferroviária, em Caxambu.  Mas quem disse que a menina Graça gostava de ir a escola? Com a perda do pai antes de  ter nascido, ela era, literalmente, agarrada à barra da saia da mãe. O processo de separação, pelo menos para a ir à escola, foi traumático e ela chegou a fugir várias vezes da escolinha.  Todo os dias era aquele berreiro, bastava ver as freiras com aqueles chapéus enormes de andorinha na cabeça. Nada contra a bondosa irmã Vivencia (foto), mas a falta que a mãe fazia era maior. Tamanho foi o trauma, a choradeira, as fugas, que a família arrumou um lugar para  sua tia Nita trabalhar lá, e assim fazer companhia a ela no jardim...

O menino Jesus das moedinhas

Uma das poucas e boas lembranças desta pequena instituição de ensino era a capelinha ao lado, onde o menino Jesus balançava a cabeça ao receber uma moedinha. Ela adorava ver o menino Jesus balançar a cabeça, mas que pena, ela tinha poucas moedinhas...

Irma Vicencia e suas pupilas
Ao sair da escola primária continuou sua carreira de estudante, no Grupo Padre Correia de Almeida ainda em Caxambu. Com ajuda financeira alcançou a 5a serie e foi para o colégio das outras freiras , denominado na época Colégio Normal Santa Terezinha da ordem das Irmãs Vicentinas,  sediado em Pouso Alegre.  Um fato ficou marcado: No primeiro ano o colégio pegou fogo, por um curto circuito no velho sistema elétrico e assim arrumaram outro lugar, um hotel, o Hotel Jardim, onde as aulas continuaram a serem ministradas.

Com a bolsa de estudos do próprio colégio continuou estudando, até  no ano de  falecimento de sua  mãe. Era o último ano da série. Perdeu a mãe, perdeu o ano, perdeu a bolsa...  Mas como Graça  era a  caçula, a "queridinha das irmãs " gozava de maior "status", e sendo assim, elas  arrumaram um jeito para financiar a escola, pois elas mesmas nunca tiveram a chance de ir além do primário. Os estudos continuaram a ser patrocinados, agora por um amigo da família ,e assim ela se formou "Normalista".

O saber não  ocupa lugar

Maria das Graças, recebendo o anel de Normalista
Este era o lema da Família Freitas, governada por uma legião de  mulheres, que não pouparam tempo, paciência e dinheiro para enviar a irmã caçula à escola. Ao concluir o curso recebeu um convite das freiras para lecionar no Colégio, nas classes do Primário. Mas com a cabeça em outro lugar, Graça não esquentou cadeira lá. Sua carreira foi curta, pelo menos no colégio onde ela se formara, mas teve tempo de ser a minha mestra no 3° ano Primário. Minha mãe confiava à Maria das Graças a sua filha, que era conduzida pela mão todos os dias até o Colégio.


Se não  vai ela, vou eu

Ainda em Caxambu foi trabalhar com educação de adulto na antiga Escola Agrícola Wenceslau Bras, posteriormente Funabem. Deu aulas ainda no  bairro Trançador, na escola  Elisa de Andrade dois anos e meio lecionando nas turmas de 1a série.  Em 70, casou e foi para São o José dos Campos, São  Paulo, assim como muitos outros membros de sua, nossa família. Em São José, trabalhou na firma Xerox do Brasil. Com a gravidez do primeiro filho, acabou dedicando à vida doméstica  trabalhando vez por outra como estagiaria na área de... Educação.

Mas  um dia o destino empurrou-a de novo para as salas de aula. Em 1988, houve um concurso para o cargo de professor  área de 1° grau, na prefeitura da cidade, e em solidariedade para com uma amiga, se inscreveu no concurso para que as duas pudessem estudar juntas. Resultado: a amiga não passou, mas ela sim. O seu destino era ser mesmo professora. Não esquecendo os mandamentos de infância repetido pelas irmãs mais velhas, "Estudar não ocupa lugar", deu continuidade a sua formação profissional e foi fazer pedagogia, pós graduação. Ela gostava mesmo era de trabalhar com os menores. Isso porque ela não queria dar aulas!
Acreditam os psicólogos que algum fato marcante no passado possa influenciar nossas escolhas  no  futuro, e talvez  por isso, a conduziu à carreira como educadora para os pequenos, uma forma de trabalhar aquele passado lá começo, no Jardim da velha Virgo Potens, quando era deixada sozinha com a irmã Vivencia...

Barco à vela e dinheiro, muito dinheiro

E vocês pensaram que ela ficou rica? Como professora? Imaginem! Uma de suas últimas empreitadas como professora foi uma excursão, no cofre do Banco Central, com os alunos e as mães dos alunos. Foi contar a história do dinheiro.  A visita marcada com grande antecedência precisou de autorização de Brasília. Nunca tinham visto tanto dinheiro e ouro na vida.  Ah, mas a criatividade para exercer a profissão foi cultivada desde muitos tempos, tempos de Normalista no colégio das freiras, quando ela ensinava a criançada a fazer barquinho de madeira com velinha de pano e tudo...

Pré primário no Colégio Normal Santa Terezinha  com a professora Salete Machado




Fotos: Arquivo pessoal de Maria das Graças  Pereira da Silveira
Fonte: Wikipedia,
           Trajetória de professoras normalistas na década de 50 no PR. Rosana Nadal de Arruda Moura.

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Caxambu, o maior potencial hidromineral do planeta



Este parque e estas águas fazem parte da história das 
Famílias Ayres e 
A todos os nossos antepassados e descendentes as nossas melhores
 lembranças deste planeta água.
Preservar é preciso.

terça-feira, 24 de maio de 2016

João de Deus, 40 anos dedicados às águas milagrosas


Carteira de trabalho de João  de Deus de 1927
A primeira surpresa que um documento nos trouxe: Na carteira de trabalho o nome do pai de João  de Deus "Manoel Fernandes". Ha muito o sobrenome "Fernandes" tinha desaparecido dos sobrenomes registrados da família e ao depararmos com a carteira de trabalho de nosso biografado, emoção pura: Ele de fato existiu! Assim como o nome do pai, José Fernandes Ayres, o Trançador-pai, às vezes nos registros assinado "Silva" e que também que desapareceu dos registros. Era comum ao gosto dos que faziam as anotações tanto eclesiais, cartórios ou escrivães escrever o que lhes era ditado , não raro com vocábulos diferentes. Mas não importa. Hoje vamos recuperar a história pessoal de João  de Deus.

Monsenhor José  João de Deus



Não, não,  o nosso João não  era religioso nem Monsenhor! José João de Deus (?-1946) foi o primeiro pároco da cidade de Caxambu empossado em 1 de janeiro de 1906, fundador da Santa de Caridade São  Vicente de Paulo, a Santa Casa, em 1926  e foi quem inspirou o pai a dar o nome ao batizado. Então José João de Deus batizou João de Deus. Bom lembrar que o Monsenhor celebrou ainda nas famílias Ayres e Rodrigues Freitas outros batismos, casamentos e assinou certidão  de óbito  de outros nossos familiares.

Os pais e os pais adotivos

Bem, o nosso João de Deus era filho de Manoel Fernandes de Lima e Elisa/Candida de Jesus, nascido em 8 de março de 1902 e batizado em 5 de abril pelos padrinhos Bonifácio José da Silva e... Thereza Constestina Soler, aqui a primeira esposa de Salvador Soler, que depois de viúvo, casou-se novamente com Mercedes Lima/Soler, filha de Gervásia Maria Ayres e José Ayres de Lima, o Trançador-filho.

João ficou órfão de pai e mãe muito cedo. Primeiro falece sua mãe em conseqüência de uma lesão cardíaca, e dois anos mais tarde perde também o seu pai, que faleceu em 25 de abril de 1908, às 5 horas da tarde, provavelmente doente a dias, pois chegou a ser "confessado e encomendado" por Monsenhor José João de Deus.

Na data  em que seus pais faleceram ele e suas irmãs eram ainda muito pequenos. Maria Elisa (1897-?), com 9 anos, João  de Deus (1902-1991) com 4 e Sebastiana de Lima (1904-1957) com 2 anos.  A solução foi a solidariedade da Família Ramiro de Freitas e da tia Mariquinha  que acabou acolhendo o pequeno João. O fato é que João  cresceu na família do "onde come um, come... 12, ele era o número 12°. O destino de suas duas outras irmãs ainda esta para ser pesquisado.

Piadinhas ácidas

Então descobri quem foi o autor das "piadinhas ácidas". Em conversas com tia Célia, a nossa biblioteca familiar, fazendo pesquisas sobre a vó Mariquinha e sua família, relatou ela que sempre via o tio Ramiro passar na rua com tábuas provenientes do engarrafamento, que a Empresa doava para os funcionários para serem utilizadas como lenha e que o passante contava de quando em vez umas "piadinhas ácidas".  Na verdade a tia acreditava que o passante fosse o tio Ramiro até descobrirmos que era João  de Deus, o sobrinho adotado por vó Mariquinha. Ah, o quão ácidas  eram as piadinhas eu não cheguei a perguntar...

Os avós e bisavós

Os seus bisavós pelo lado paterno, João  José de Lima e Silva e Joanna Thereza de Lima, achados num documento inédito, abaixo, vieram procedentes da cidade de Pouso Alto, onde foram cadastrados no sensu de 1839. De lá eles  se mudaram para a região do Chapeo em Baependi. Sua avó Maria de Souza Lima, que casaria com José Fernandes Ayres, Trancador pai, até esta data não havia nascido.



Em ambos os lados dos antepassados de João  de Deus, segundo relatou Maria Lourdes de Deus, sua filha, eram escravos. Sua avó Elisa era descendente de escravos, pelo lado paterno, nasceu em 1861, quando a escravidão ainda não havia sido abolida. Nesta data também ela não poderia ter sido beneficiada pela pelo lei do Ventre livre do ano de 1871.

Águas Virtuosas

Mas antes prosseguir com a biografia de João de Deus, vamos contar um pouco sobre a cidade e do lugar onde ele trabalhou por mais de 40 anos...

No ano de 1903  Caxambu foi elevada à categoria de cidade de vila, separando-se de Baependi da qual sua administração estava ligada e em 1915 adquiriu seu "status" de cidade. Muitas mudanças ocorreram na cidade, que agora deixava de ser chamada de "Águas Virtuosas", para adquirir sua verdadeira identidade como Estancia de Águas Minerais: Caxambu. Seu nome já havia corrido mundo e ficou mais conhecida pela visita da Princesa Isabel ao local em 1868. Mas muito  antes de ser famosa, antes das águas serem engarrafadas para serem exportadas em caixas de madeira para todo o Brasil, o local onde é hoje  o Parque das Águas era pura lama, um pântano...  

Morféticos, dispépticos, reumáticos, loucos

Todos queriam banhar-se nas "águas milagrosas". O lugar era originalmente um  poço e lá se chegava através de um a picada na mata, onde foram colocados paus no qual se podiam apoiar e colher água, sem se afundar na lama. No local também acudiam os morféticos, dispépticos, reumáticos, papudos, cancerosos, cegos, loucos, loucos! que  se limitavam a beber da água milagrosa; a maior parte banhavam na lama seus membros cobertos de chagas. Com o tempo  morféticos se tornaram numerosos e começaram a afugentar os outros enfermos e em 1840 o juiz municipal ordenou a retirada  dos pobres coitados enxotando-os como  elementos perniciosos acampados na borda do Morro. 
Contam que os lázaros abandonaram o acampamento e  jogaram praga  condenando o lugar. E para afugentar-los definitivamente, atearam fogo nas choupanas, umas 40, e assim o acampamento foi purificado pelas chamas. Tal o trauma causado pelo incidente que somente em 1844 o local voltou a ser procurado. Contraditoriamente eles, os leprosos, contribuiriam para a propagação da qualidade das águas que curaram suas feridas. Agora todos queriam experimentar também o "milagre" e assim ascendeu a curiosidade atraindo doentes na esperança da cura também para seus males. Nasceram as "Águas Milagrosas".


A exploração comercial das águas porém foi iniciada em 1886 com contrato feito entre o governo da Província e particulares. Na época foram feitas várias obras para a captação das águas, bem como melhoramento da infra-estrutura para atender os "aquáticos", isto é a aqueles que faziam suas estações de água, na ainda pertencente à Baependi. De concessão em concessão, em 1904 a exploração e administração denominada Empresa das Águas volta para o Governo estadual.

O casório

João de Deus foi um dos seus trabalhadores e  teve a carteira de trabalho assinada em 10 de março  de 1927 no cargo de "operário", aos 25 anos de idade, ainda solteiro nesta data, com um salário de cinco mil oitocentos e seis cruzeiros. Mas não demorou muito o casamento aconteceu. Em 28 de julho, na agora Igreja Nossa Senhora dos Remédios,  ele se casa com Zilda Morais, tendo como testemunhas do enlace Antonio Bartholomeu Gonçalves e Joaquim Ferreira Leite, casado  com Etelvina Rodrigues Freitas (1898-?), a filha de Maria José de Lima, a Mariquinha.

Certidão de Casamento de João  de Deus e Zilda Moraes
Normalmente os casamentos eram  celebrados nos fins de semanas, mas  a cerimonia que se realizaria às pressas, foi um pedido de seu pai Guilherme, que também era funcionário da Empresa das Águas. Ele estava muito doente e solicitou adiantar a data, apressando o dia do casamento. Monsenhor José João de Deus, o mesmo pároco que fez o seu batismo e que lhe emprestou o nome, teve que acordar no dia muito cedo. A cerimonia foi feita às  às 6:30 numa fria da manhã de uma quarta feira  do mês de  julho de 1927. E quando na rua da Torrefação de Café, o cheiro do grão torrado subiu ao ar e os noivos ainda comiam bolo com os padrinhos de casamento, receberam a notícia de que seu pai havia falecido... Dona Filomena, a sogra, agora viúva foi morar com a nova família.


Da esquerda para direita ao alto: José João, Ana e Julio, abaixo da 
esquerda para direita: Maria de Lurdes, Francisco, Lucília.
Os romeiros 

E passado um ano de seu casamento nasce a 9 de julho de 1928, primeira filha, Maria Elisa, batizada po por Ramiro Rodrigues,  marido de vó Mariquinha em cuja casa ele foi criado. Em 10 de maio de 1930 nasce Alice, em 7 de fevereiro de 1932, José. Depois vieram José João de Deus, (1932-?), Joaquim de Lima,  (?-?) Francisco de Lima, (?-?) Ana de Lima/Morais, (?-?) Manoel de Lima, (?-?) Lucília de Lima, (?-?) Julio de Lima, (?-?) Maria de Lourdes de Deus, (1942-).

A família costumava fazer peregrinações à Aparecida do Norte, no mês de dezembro, quando das comemorações do aniversário da cidade e levar suas preces à nossa Senhora de Aparecida, a santa, cuja imagem apareceu na rede de pescadores no rio Paraíba do Sul, no ano de 1717. Neste dia os lambe-lambe tinham muito trabalho registrando para a eternidade os romeiros e suas famílias naquelas máquinas antigas. Obrigatória era a Basílica Velha, construída no ano de 1888 como paisagem de fundo.

No dia da foto, faltou o pai, João de Deus, pois a família não podia ir toda. É que na época todos tinham suas "a criações", isto é, porcos, galinhas. E como os romeiros saiam sábado e só voltavam na segunda à noite de trem, alguém tinha que ficar para cuidar deles. "Os bichos tinham que cumê ", relatou a filha Lurdes. Então o pai neste ano não saiu na foto e ficou para tratar da... Bicharada.

João  ficou viúvo  em 1947, quando Zilda  faleceu aos 60 anos de um derrame. Mas a solidão não  durou muito tempo  e depois de pouco tempo "ja estava firme"; e como na modernidade, permaneceram morando em casas separadas.


João trabalhou na Empresa das Águas por 30 anos, mas continuou lá ainda por mais 10 anos depois de aposentado. Muitos milhões de garrafas passaram pelo crivo de seus olhos. Ele controlava a máquina que colava os rótulos nas garrafas de diferentes tamanhos. Na baixa temporada ajudava os jardineiros a embelezar o Parque.  Ao todo 40 anos dedicados ao trabalho. João  faleceu em idade avançada, aos 89 anos de problemas cardíacos.
Assim foi.


Fonte: Henrique Monat, Caxambu
IBGE: Caxambu, Engenheiro Virgílio Correia Filho, 1940

Agradecimentos  muito especiais à Maria de Lurdes de Deus, filha de João  de Deus, que nos forneceu preciosas informações para a reconstrução da história da família, bem como os seus "tesouros", fotos e documentos guardados durante décadas que agora serão publicados aqui no Blog da Família Ayres.

sábado, 14 de maio de 2016

O mistério do Quincas e Zé Gaguinho

Anotações de Maria das Graças, 2016 
Ou os difíceis caminhos da pesquisa histórica.

E por caminhos tortuosos da pesquisa das árvores genealógicas...
Infectada pelo vírus Maria das Graças Pereira colocou-se a caminho com uma detetive dos tais personagens perdidos; pesquisa que desde que iniciamos é agora não nos deixa mais dormir direito. Das primeiras averiguações  locais da procedência  dos antepassados da Família Rodrigues de Freitas/ Ayres, nos vimos em um emaranhado de nomes e datas. Como juntar tudo e virar informação confiável? Quem era quem, onde e como? Dificill, muito difícil. Era assim: Na infância tratávamos as pessoas pelos apelidos e hoje sequer poderíamos imaginar ou associar as pessoas à membros das famílias atuais. As sombras do passado estavam muito longínquas quando descobrimos a... Lurdes. Não somente ela esta ajudando a juntar os cacos, literais cacos de informações para montarmos a nossa, a vossa árvore genealógica, em princípio os ramos da Graça , os Rodrigues de Freitas e a minha, os Ayres. 

Em princípio,  as pesquisas não despertam a todos igualmente os mesmos interesses que nos animam, Graca e eu a fazer a pesquisa de nossos antepassados. Portanto dissemos uma para outra: O que nos importa é que nos dá muito prazer o jogo da descoberta, das novas descobertas. Na verdade estamos contando as historias de nossos antepassados, mas também a história do Brasil, dos séculos passados, onde existiu escravidão, dor, alegrias, gente rica, pobre, remediada. Das nossas famílias tem de tudo um pouco. Nossos antepassados viveram um curto período de prosperidade, quando o Brasil ainda era colonial de portugal e o regime escravista era que reinava. La  neste passado que "pregresso" esta a origem de nossas famílias, lá em Pouso Alto, quando Joao José de Lima e Silva casou-se com Joana Thereza e vieram de mudança para o Chapeu, cultivar tabaco, milho e arroz em terras Baependianas. Resgatando as histórias, estamos regatando uma parte de nossas vidas. Ufa!
E se não bastasse a curiosidade, serramos os nervos de alguns de nossos primos, primas, tias sobreviventes ainda neste século 21: Tia Célia e a prima Lurdes, que pacientemente ouvem as nossas perguntas, associam as pessoas nos ajudando a costurar esta imensa colcha de retalhos. A elas a partir de agora dedicamos os nossos "posts".

Zé Gaguinho

Ficamos sabendo que um de nossos antepassados trabalhou como cozinheiro do Palace, ou era mesmo do Hotel Marques, como estava no Jornal da Camara de Caxambu, fazendo uma homenagem a ele, dando até nome de rua e lembrando que seus antepassados deram o nome ao bairro Trancador. Ora, mas não era do "nosso" Trancador que eles falavam? Homenagearam um personagem do qual nós    desconhecíamos? Que grau de parententesco teve ele com a original Família Ayres, do qual possuíamos todas as certidões possíveis para comprovar que do "nosso" lado estaria o "nosso" avo e bisavô Trancador, pai e filho? Longas foram as conversas telefonicas  com a Lurdes, que a CIA provavelmente gravou entre o Brasil e Alemanha. Quem sabe escutaram que a frase "Peraí que vou desligar as panelas" poderia ser um código secreto, ou "Agora to lavando a cozinha". Aí me levanta a Lurdes o nome "Zé Gaguinho". O serviço secreto provalmente estaria de ouvidos em pé. Seria um "codinome"? Não, Zé Gaguinho existiu, confirmado por uma outra informante: Celia Lima, a nossa biblioteca familiar, que do alto de seus quase um século continua lúcida, ativa, crítica, ácida. Sem elas não poderíamos nunca juntar os pedaços  rasgados da nossa história familiar...

E no "message" do Facebook a conversa ia pararela... Meus Deus, achávamos que estavamos ficando loucas, a Graca e eu. Nem dormir direito a gente conseguia, e nem me fala nas plantas que não foram aguadas de lá e de cá, tamanha a euforia e esquecer as pobrezinhas lá secando... Ah, e falando do Quincas.

Rodela do Quincas

Tudo isso porque a Graca se lembrava da história da... "Rodela do Quincas" em Aparecida do Norte, quando a família ia fazer suas preces a Santa achada no rio. Quem era mesmo o Quincas? Que teria ele haver com a família? Era primo? Inventado ou não? Estamos ainda nos perguntando.

Aguardem o desenlace das histórias...
Maria das Graças  Pereira da Silveira
Solange Ayres



sexta-feira, 13 de maio de 2016

Samuel Ayres de Lima, o sobrevivente. De volta à África

Samuel Ayres de Lima, na cerimonia de entrega da medalha
conferidas pela ONU  pela participação do Brasil na missão
 Congo,  Africa, em 4 de junho 19622.
O sobrevivente

 
Monsenhor José Joao de Deus
Samuel Ayres de Lima, nascido a 5 de maio de 1918, filho de José Ayres de Lima, Trancador-filho e Gervásia Maria da Conceição.
Contava ele numa de nossas conversas telefônicas, que tinha nascido muito fraco, raquítico mesmo e por isso sua mãe, não acreditava que iria sobreviver... Não sem razão, vó Gervásia perdeu 6 filhos em 16 vezes que ficou grávida. José, em 1900, de "mal do umbigo", Joaquim, em 1901, do "mal dos recém nascidos", Anna, em 1902, de pneumonia dupla, Maria, em 1905, igualmente falecida de pneumonia dupla e Stella, batizada como Esther, em 1921, de disenteria. Então não havia razões  mesmo para que vó Gervásia acreditasse que Samuel, o filho caçula sobrevisse. Mas sobreviveu!  Esperaram quase um ano para fazer o seu batizado, que foi realizado  em 7  de março de 1919, na Igreja Nossa Senhora dos Remédios, em Caxambu. Foram padrinhos Juscelino Vieira Machado e Maria Vieira Machado, abençoado pelo Monsenhor José João de Deus.




Pelo lado paterno Samuel era neto de 1° grau de José Fernandes Ayres (1835-1897)  ,Trançador-pai e Maria de Souza Lima (1841-1906) e bisneto de João José de Souza Lima (1798-1875) e Joana Thereza Ribeiro de Lima (1806-1860) e constaram do sensu de 1839 (vide abaixo) da cidade de Pouso Alto e que por volta de 1850,  se mudaram para o Chapeo, hoje bairro da cidade de Baependi. Até a esta data a avó de Samuel, Maria de Souza Lima  ainda não  havia nascido.


Alguns registros apontam que a família tinha como vizinhos de porteira a família de  João  Ferreira Simões, (1835-1919), futuro proprietário das escravas Justinianna Maria da Conceição (1843-1914) a Nana como era conhecida e Sabina Maria da Conceição (1865-?), respectivamente bisavó e avó  pelo lado  materno de Samuel e assim as famílias ficaram eternamente entrelaçadas...

Seus ascendentes e descendentes



De lapidador a sargento

Samuel saiu muito cedo para a vida. Sua carreira no mundo do trabalho iniciou aos 14 anos, partindo de Caxambu em ao direção Rio de Janeiro, onde começou a trabalhar  no laboratório de propriedade de um conterrâneo de Cruzília, ligados à família dos Juca Leite. Depois foi trabalhar numa fábrica de lapidação de pedras preciosas. Aos domingos ainda "pegada uma escada colocava nas costas e ia fazer biscates como eletricista", contou a nossa biblioteca familiar, Célia de Lima. Eletricidade era o seu robby e talvez por isso acabou mais tarde se especializando em mecânica de avião. Ele ainda Morava em Cascadura, quando se inscreveu na aeronáutica,  iniciando posteriormente sua carreira militar na Força Aérea Brasileira.

De volta para a África

Samuel Ayres de Lima em contato com a população local no Congo,
 na Missão  de Paz da ONU,
Organização das Nações Unidas, em 1962
E ironias do destino Samuel, ele, neto e bisneto de escravas volta ao continente de origem de seus ancestrais, à África, em missão de paz no Congo, bem próximo de onde partiam os navios negreiros em direção ao Brasil.
Entre os séculos XVI até meados do século XIX vieram cerca de 4 milhões de homens, mulheres e crianças  para o Brasil. A contabilidade não fecha. Os registros foram queimados para que evitassem que eles pudessem pedir indenização posterior. Foram muito mais. Os comerciantes portugueses de escravos vendiam suas "mercadorias" no Brasil. O transporte  era feito nos porões dos navios em condições desumanas. Os que sobreviveram eram vendidos e iam trabalhar nas fazendas de açúcar ou nas minas. As mulheres eram  empregadas no trabalho doméstico. Não sabemos ao certo como a nossa bisavó /trisavó Justinianna chegou ao Brasil. Ela continua sendo a mais antiga ancestral da Família Ayres pelo lado materno de vó Gervásia, nascida por volta de  1843 entre o Brasil e a África.

Mas o que mesmo aconteceu no Congo?

Em 1870 os europeus iniciaram acorrida para lotear a África. Se não bastasse ter tomado os seus filhos como escravos, agora estavam atras dos territórios e suas riquezas minerais.  Muitos interesses estavam em jogo. Enquanto os portugueses achavam que a foz do Rio Congo era uma área para comércio de escravos que lhes pertencia, a Bélgica defendia o seu fim. Assim criaram um estado independente  e Leopoldo II, da Bélgica como monarca. Ah os reis... 

Com  2a Guerra Mundial, houve um aumento da necessidade de produção de minerais  e la estava o Congo de novo com suas minas.  As bombas de Iroshima  e Nagasaki foram feitas com urânio do Congo! Sua posição estratégica, no centro da África, acirrou ainda mais o interresse e as disputas das potências econômicas pelos seus territórios.

Enquanto isso, a população sofria sob o regime autocrático e paternalista. O sistema educacional organizado pela colónia não abria perspectivas  para os jovens, nem formava lideranças políticas para ao futuro. As lutas pela independência chacoalhavam a Africa. A vizinha Argélia  rompeu seus laços com a França  em 1954, traumaticamente.  O Congo Belga seria o próximo a fazer o mesmo.

Nas vésperas da independência os postos chaves ainda eram  ocupados por belgas. Patrice Lumumba, líder nacionalista congolês, havia dito  em 1957 que: "Quando tivermos suficientes doutores, engenheiros, técnicos, geólogos, administradores e magistrados, aí sim, poderemos pedir nossa independência". A colônia entregou o país  aos congoleses,  no dia 30 de junho de 1960, um país de 14 milhões de habitantes, mais de 200 tribos diferentes, sem unidade nacional, sem experiência administrativa. Resultado: caos. Em poucas semanas de independência a estrutura administrativa do Congo desapareceu, deixando o país sem autoridade. Mais uma vez, agora a ONU clamou por uma intervenção, a intervenção  para a paz e assim foi Samuel Ayres de Lima parar no Congo.

A missão possível

A Força Aérea Brasileira enviou para a República do Congo entre 1960 e 1964  um contingente de 69 oficiais, 110 suboficiais, sargentos e cabos, que tinham o quartel general na cidade de Leopoldville, atual Kinshasa. Eles se destacaram na operacao e manutenção das aeronaves C-47, realizando milhares de horas de voo em condições extremamente difíceis.

Os pilotos brasileiros e consequente oficiais, como o sargento-mecânico Ayres, (foto, primeiro à esquerda) foram alocados no 1° Esquadrão, tendo comandante o Tenente Coronel Indiano (foto).  A babel era grande. O trabalho conjunto com oficiais de vários países como Canada, Sri Lanka, Dinamarca, Irlanda, Noruega, Argentina, Egito, Grécia só para citar alguns,  falando diversas línguas necessitou que os oficiais brasileiros aprendessem o inglês e francês e com certeza para Samuel uma experiência única. Me lembro que do nosso último encontro ele arranhava algumas palavras em inglês.

A missão transportava na maioria material logístico, em apoio das unidades militares, mas também tomavam parte na evacuação da população branca, no transporte de mantimentos para os refugiados e missões de reconhecimento aéreo, com eventual lançamento de folhetins. As tropas permaneceram uma média 8 meses no Congo. Samuel estava no 3° contingente que permaneceu no Congo de Janeiro a setembro de 1962.

Guerra e paz

Residencia dos italianos assassinados por
congoleses, registrado em  20/07/ 1961
As operações eram cercadas de risco e algumas verdadeiras missões de guerra. Uma operação de paz definida pela ONU para ser vitoriosa, não pode representar ameaça para as partes envolvidas, nem ser percebida como tal. Ha de ser exercida com imparcialidade, sem que seus participantes sejam vistos como partes no conflito e isto sem o uso da força de armas. Difícil tarefa. As operações tinham o papel de contribuem para diluir tensões políticas e foi empregada em diversas situações. Mas essa "imparcialidade" nem sempre foi entendida pelas partes conflitantes e assim os soldados da paz eram confundidos com inimigos como aconteceu com 13 militares italianos, que foram mortos na cidade de Kindu pelos congoleses, em novembro de 1961, pouco antes da chegada de Samuel. Os soldados ainda encontraram marcas do massacre nesta casa...


Entre a vida e a vida
O dramático resgate

Sargento Oficial Ayres em seu elemento
Congo, África, 1962
A operação mais dramática e arriscada vivida pelos aviadores brasileiros, foi a evacuação de um grupo de religiosos, feito por helicópteros. Cenas cinematográficas: Pane em um dos helicópteros de resgate. Os nativos congeles iam se aproximando do local, enquanto dos mecânicos tentavam sanar os problemas técnicos. No último minuto outro helicóptero consegue descer e resgatar a tripulação e os civis  que imediatamente alça voo. Segundos depois o helicóptero em pane foi destruído e queimado pelos congoleses. O "triller" durou apenas 15 minutos, 15 longos minutos entre a vida e a vida.

As "boas"... piscinas



Nem tudo era guerra. Nas horas de folga Samuel pode fazer registros da paisagem no clube local. Na década de 60 o vocabulário para as "belas formas" soava diferente e Samuel, fazendo uso da gíria do seu tempo lascou: "Aqui no Congo também tem "Boas"!!! "...  Piscinas ele quis dizer.

Querida Carmem. Toda Roma jamais me proporcionara tanta felicidade  como o momento de poder abraçar a todos

Não preciso tecer mais comentários. Com esta frase, escrita no verso do cartão postal acima enviado de Roma, em 14 de agosto de 1962 termina  sua missão. Samuel Ayres de Lima se despede de Roma. 

O pé de chumbo no Projeto Rondom

De volta ao Brasil a vida seguiu. Após cumpridos o tempo de trabalho, Samuel ia em direção à sua aposendentadoria e... Mas vocês acham que o tio Samuel se aposentou? Que nada! Ele era daqueles que amava o que fazia. Trabalhou de 30 anos no posto de Sargento Oficial  servindo a  FAB como coordenador dos mecânicos de avião e mais 20 anos no  Projeto Rondon, em função administrativa, na Base Aérea de Irere, em Natal. Conhecido por  "pé de chumbo" por sua  honestidade, correção, aliás uma característica dos filhos de Gervásia Maria e José Ayres, chegava ser mesmo um "chato", contou a tia Célia. 

Operacao Zero

E para quem não sabe, o nome Projeto Rondon foi dado em homenagem ao Marechal Candido Mariano da Silva Rondon, bandeirante do século XX que fazia expedições pelo sertão do país, estendendo linhas telegráficas. O projeto foi criado em 11 de julho de 1967 durante a ditadura militar, e tinha como lema "integrar para não entregar", expressando o ideário desenvolvimentista, articulado à doutrina de segurança nacional. Promovia atividades de extensão universitária levando estudantes voluntários às comunidades carentes e isoladas do interior do pais, do norte e nordeste, onde participavam de atividades de caráter assistencial, organizadas pelo Governo e levando a juventude universitária a conhecer de perto a realidade brasileira. 
Entre 1967 até 1989, quando foi extinto o projeto envolveu mais de 370 mil estudantes e professores de todas as regiões do pais. A ideia surgiu em 1966, na Escola de Comando e Estado Maior do Exército, durante a realização de um trabalho de sociologia intitulado "O militar e a sociedade brasileira". A primeira operação do Projeto Rondon, foi  denominada "Operação Zero", teve inicio em 11 de julho de 1967, quando trinta estudantes e dois professores partiram do Rio de janeiro para Rondônia a bordo de uma aeronave C 47, cedida pelo antigo Ministério do Interior, daquele mesmo modelo usado na participação do Brasil na operação de paz da ONU e que com certeza Samuel conhecia cada parafuso da aeronave. A equipe permanecia na área 28 dias, realizando trabalhos de levantamento, pesquisa e assistência médica. No ano seguinte, o projeto contou com a participação de 648 estudantes e foi expandindo para outras áreas.

Em 1970 o Projeto Rondon foi organizado como órgão autônomo da administração e em 1975, transformado em Fundação Projeto Rondon.  As atividades inicialmente desenvolvias apenas durante férias escolares, evoluíram com a criação do campos avançado, dos centro de atuação permanentes e de operações regionais especiais. O projeto passou por novas orientações ao longo dos anos e hoje esta orientado pelos princípios da democracia e responsabilidade social, agora sob a coordenação do Ministério da Defesa trabalhando emparceira com os ministérios da educação, desenvolvimento social, saúde, meio ambiente e continua com o apoio imprescindível das Forças  Armadas no suporte logístico e segurança, necessários às operações.

Voltemos à Samuel. Nos últimos anos de sua definitiva aposentadoria vivia uma vida pacata cercado por  seus familiares, Carmen, a tia Carmem sua esposa,  seu filho Alexandre, sua nora Sandra e seus dois netos, Maria e Alexandro. Ainda do alto de seus 95 anos cumpria a rotina de buscar pão cedinho na padaria. 

Hoje é um dia bom para descansar...

Internado em conseqüência de uma forte crise renal, recebia visitas diárias de seus ente queridos. Alexandre seu filho caçula fazia uma de suas visitas diárias, quando no dia ele lhe disse pensativo  olhando para o céu:  "Hoje é um bom dia para descansar... "
Samuel  Ayres de Lima faleceu de uma parada cardíaca, poucas horas depois da visita, em conseqüência da falência múltipla dos órgãos, no Rio de Janeiro, aos 95 anos.

Fonte: 
A Foça  Aérea Brasileira no Congo (sem autoria)
IBGE
Wikipédia
Fotos: Agradecimentos à neta Maria Ayres pelo envio do arquivo pessoal de fotos de Samuel Ayres de Lima para o Blog da Família Ayres.