sexta-feira, 17 de março de 2017

Caxambu vai à Guerra (e volta) - Celia Ayres de Lima, e suas memórias. O caso Walter

Vou contar o que ouvi


Muito me surpreendeu os relatos de minha tia, a que considero como a biblioteca da família, ao perguntar sobre a Chácara das Uvas,  um outro texto que estou preparando para o Blog e ouço que... Ela foi noiva do Walter Soller, filho de Salvador Soller, proprietário da Cáchara, casado de segundas núpcias com a irmã Mercedes Ayres /Soller.

"Foi a pior coisa que fiz na vida", relatou. "Walter era um rapaz inteligente, mas demasiadamente ciumento". E ai resolvi contar o que ouvi. Na verdade as histórias contatas pela nossa tia são mais que memórias. Elas  fazem parte da história da cidade de Caxambu dos anos 40.

Celia Ayres de Lima, nascia no ano que acontecia a Semana de Arte Moderna. O Brasil vivia turbulências políticas, sociais, econômicas e culturais. Na política, o país ainda era controlado pelas oligarquias cafeeiras e do outro lado da corda o capitalismo puxava o Brasil em direção à industrialização. Mesmo que os abalos sísmicos ainda não chegassem tão fortes à conservadora Caxambu, a cidade vivia as efervescencias da modernidade. No governo de Camilo Soares, em 1912, foram iniciadas reformas paisagísticas no centro da cidade, transformando a Hidrópolis em uma verdadeira jóia.  O Parque das Águas, com as obras de arte de Chico Cascateiro  e os trabalhos de jardinagem de Ramiro Rodrigues Freitas tornavam a cidade ainda mais aprazível para seus habitantes e visitantes. De fato Caxambu esbanjava charme e elegância, uma Estancia Hidromineral em  plena ascensão, impulsionada em parte pela onda de turistas que frequentava a cidade, nas estações de veraneio.
Célia Ayres de Lima, filha de José Ayres de Lima e Trançador -filho e Gervásia Maria da Conceição, batizada pelos padrinhos Argentino Ferreira Murta, Maria da Conceição Machado e abençoada pelo Monsenhor José João de Deus. Portanto Célia era neta de José Fernandes Ayres, o Trançador-pai, aquele que emprestou o seu apelido ao Bairro Trançador da  cidade. Parte de sua juventude foi vivida na Caxambu dos anos 30, 40, quando a sociedade ainda era extremamente conservadora e cheia de tabus.

Ela só pensa em namorar...

Célia estudou no Colégio Normal Santa Terezinha (foto), por decisão da irmã mais velha, Mercedes Soller. Em 1940,  se formou em Normalista, chegando a lecionar por 9 anos, no Grupo Escolar Padre Correia de Almeida. Foi uma das poucas filhas de vó Gervásia que chegou a frequentar uma escola, fato inédito para a Família  Ayres.

Mas ela gostava mesmo era de namorar. Sim, e ainda os rapazes mais bonitos, não os da cidade, e sim "os de fora". A concorrência entre os rapazes que queriam conquistar seu coração era grande. "Muitos rapazes bonitos queriam me namorar", mas o que ela mais gostava era de... Tomar namorado das amigas, relatou pela própria boca.  Vitoria Zamot perdeu o namorado Edmar  Araújo para Célia, seu futuro esposo. Tomava mesmo repetia ela. As amigas pediam chorosas que ela não roubasse os seus namorados e ela nada dizia, só pensava: "- Não sei..." E irônica: "Pois tomei o Waltinho da Enoi e... Paguei".

Caxambu vai à guerra (e volta)

O Brasil estava na guerra. Muitos países foram cerrar fileiras com os Aliados contra o avanço dos nazistas, na Europa. Walter Soller, o futuro noivo de Célia, sob o número 3373, foi um dos 2.947 convocados do Estado de Minas Gerais, dos 25 mil, em todo o Brasil, para o front, na Itália.   A missão teve duração de 8 meses. Durante esse período os correios colocaram-se a disposição para enviar cartas de graça para os pracinhas.  "Não há uma explicação oficial para a origem do termo “pracinha”. Por muito tempo, o ato do alistamento militar foi conhecido como “sentar praça”. O jovem alistado para compor a FEB (Força Expedicionária Brasileira) passou a ser chamado de “pracinha" (1).

Moçoilas voluntárias se dispunham a escrever cartas para os soldados estacionados no front de guerra. Celia foi uma delas. "O meu retrato correu mundo", disse. As correspondências eram uma forma de entretenimento para a tropa. Assim seu endereço era passado para outros soldados que queriam corresponder com a bela Célia. E obtinham respostas! Os assuntos, perguntei, os mais variados. Trivialidades, pois não se podia falar de política, nem exercitar qualquer crítica. As cartas passavam pela censura e as palavras "suspeitas", ou com dupla conotação eram... Tarjadas, isto é, vinham com uma tarja preta em cima. Era a guerra.

Cuidado, ela gosta de dançar!




Em 1945, os soldados voltaram e foram recebidos, na sede da antiga prefeitura da cidade, como heróis (foto). Célia estava lá! E na foto! De costas aí de vestido branco, à direita. Eles chegaram a desfilar pelas ruas da cidade e o povo em coro cantando o hino nacional. Uau! Uma acontecimento que impressionou Célia. Walter então "arrastou asa", gíria da época, para demonstrar seu interesse por ela. "Foi sopa no mel", relata. E tudo aconteceu muito rápido e logo-logo eles noivaram oficialmente.

Bem, ai vieram os argumentos contra. "Cuidado, ela gosta de dançar e de festa". Não passou muito tempo as diferenças começaram. "Ele muito ciumento, não largava do pé", confessa. O fato foi incomodando a livre pensante Célia. E no verão de 1946... 

Com desculpa de comprar roupa para o enxoval de seu casamento, fez a mala e foi para o Rio de Janeiro, ficando hospedada na casa da irmã Palmira (foto), que tinha pedido o desquite do marido e morava com o seu companheiro, o famoso arquiteto Enok, na Esplanada do Castelo. Lá ela já tinha intenções de rever um jovem que conheceu na estação de verão anterior, Ricardo Mauro Junior...

Pixação a carvão e cartas apócrifas

Bem, voltando das pequenas férias, e "com a alma cheia do Ricardo", ela desfez o noivado com o Walter, que não concordou absolutamente de ser posto para escanteio. Aí começou o inferno. Ao receber a notícia que o noivado tinha terminado,  Walter prometeu "Virar Cícero (filósofo e orador grego 3/01/106 AC-7/12/43 DC) nos bares e nas ruas da cidade para difama-la". E o fez. Confessa: "Ele foi um destranque na minha vida". Walter passou a desmoraliza-la publicamente, mandar bilhetes, cartas apócrifas para diversas pessoas, um verdadeiro "stalker", como o classificaríamos hoje. Até o prefeito da cidade recebeu um desses bilhetes difamatórios, tendo Célia que comparecer na prefeitura com seu irmão Samuel Ayres de Lima (leia aqui sua biografia), para se explicar. O bilhete, relatava que Célia, "teria marcado encontro com ele, em frente ao Patronato" (zona escura da cidade).

Explicando, namorar nos escuros da cidade jogava a jovem na lama da imoralidade. Havia outras que eram mais, digamos, "liberais" para época, Alicia Curi, Laurita Rafite, Ligia Cobra, citadas por ela, e que tinham "fama" na cidade. Bem, dizer aqui que a "fama", ou a "má fama", não pode ser comparada com os dias de hoje. As ações não passavam de uns beijos ou abraços em público e elas já eram taxadas de outra coisa, que "moça direita".

Desquite, uma doença contagiosa


Walter de tão possesso que estava com a perda, chegou a escrever para a diretora do Grupo Escolar Padre Correia da Almeida, Regina Andrade, onde Célia trabalhava, pedindo sua demissão. Os argumentos: Célia teria uma irmã desquitada (Palmira na foto) que iria participar de uma cerimonia de casamento (católico). Por esse motivo Célia devia ser demitida do cargo de professora "para a bem da moral". Desquite na época era mais que um desquite, era uma doença contagiosa, uma peste de ratos.

Vocês pensam que o tormento parou aí. Ele chegou a pixar muro na cidade com palavras obscenas. Naquela época não havia os tais sprays, então servia mesmo o carvão. O local escolhido não poderia ser pior, ou melhor, depende para quem: entre o Palace Hotel e o Cassino Glória. Havia ali um caminho escuro chamado de "Corredor Polonês", um beco de passagem que foi utilizada por ele para expor a sua ex-noiva à cidade. Logo descoberta as tais "carvoadas" no muro, foram as amigas e ela para apagar as obscenidades. Ô carvão difícil de sair da parede.

E se não bastasse o stress, Ricardo Mauro termina o namoro, sem razão, assim de uma hora para outra. E eles tinham intenção de se casarem... Célia estava de coração partido. Muitos anos depois, já casada e com filhos, o encontrou ocasionalmente saindo de uma loja, na rua Senhor dos Passos, no Rio de janeiro. Resolveram tomar um café juntos e passar em revù aqueles tempos. Conversaram muito. Aí ele contou toda história. Walter escreveu para seu pais uma carta com "coisas muito desabonadoras de sua moral". A família então fez pressão para que ele terminasse o namoro e a mãe concluiu: "A moça não serve para casar". Ele sentiu muito, mas teve que por fim ao relacionamento. Assim, aquele romance teve outro destino. Célia conclui na conversa: "Ja foi (o Walter) dar conta do que fez".

"Não pensa que eu sou moça  do Rio"

Esta era a expressão de defesa de Célia quando conhecia um rapaz. Ela queria dizer: "Não avance o sinal". A idéia errônea era que as "moças  da capital" eram mais "liberais" que as do interior. Mas ela confessa, os rapazes naquela época sabiam respeitar as moças  que "queriam ser respeitadas". Assim Celia conheceu Edmar Araújo, dentista da Aeronáutica, que trabalhava no Campo dos Afonsos.  O namorado, "roubado" da amiga Vitória Zamot, lembram? Pois eles se casaram no civil, exatamente na antiga casa de meu pai, José Ayres,  na Rua Quintino Bocaiúva, hoje Avenida Magalhães Pinto, que na época vivia suas primeiras núpcias com Alzira dos Santos, antes de ficar viúvo. Vejam no Google. "A casa era grande", disse, em comparação a casa velha ao lado de vó Gervásia,  por isso a cerimonia civil foi realizada lá, sendo os padrinhos os irmãos Silvio Ayres de Lima e José Ayres, meu pai. Depois a família seguiu de trem para o Rio de Janeiro, onde celebraram o casamento religioso, na Igreja Sagrado Coração, na Glória, (foto). Da união nasceram, Angela Lima Araújo e Celso Lima Araújo.

Ah, o Walter

O golpe de Estado, de 10 de novembro de 1937, e o período do Estado Novo, provocaram a suspensão das atividades da Assembléia de Minas e das demais câmaras legislativas do país por 10 anos. A câmara de Caxambu realizou sua última reunião, em 15 de outubro de 1937, retomando os seus trabalhos, em 8 de dezembro de 1947.Walter Soller como vereador eleito de Caxambu, tomou posse juntamente com Emundo Pereira DantasAbelardo de Sá Guedes, dentre outros.


E como o tempo é o melhor remédio para as decepções amorosas do passado, os "roubos" de Célia e "arroubos" de Walter foram se misturar à vida e comandar outros destinos. Assim é na juventude. O jornal O Patriota, em de 10 de julho de 1948, noticia o seu casamento com Marina Ribeiro Maciel. Outro amor tinha curado o coração partido de Walter.
Em 15 de setembro de 1981, o Plenário da câmara de Caxambu recebeu o nome de Walter Soller, pois foi o vereador que mais tempo a presidiu. Fim da história.

Fonte:
Jornal O Patriota 1927-1951
Gazeta do Povo. Blog: Os pracinhas vão  a 2a Guerra
Conversas telefônicas Brasil-Alemanha, em 21 de outubro de 2016.
Fotos:
Arquivo privado de Célia Ayres de Lima/Araujo
Camara Municipal de Caxambu
Fotos Antigas de Caxambu

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