terça-feira, 14 de novembro de 2017

Derby Caxambuense/ O Clube de Cavalos de Caxambu



Em 3 de fevereiro 1890 um grupo de caxambuenses e baependianos lança ações para criação da sociedade Derby, isto é, um Clube de Corridas de Cavalo de Caxambu, uma sociedade de apostas de corridas de cavalo, a primeira iniciativa no ramo. Como assim? Em Caxambu? Pois sim, Caxambu em 1890 teve um Derby. Não seria uma iniciativa parecida com nossa "Exposição" de hoje? Mais ou menos. A empreitada era mais direcionada para cavalos de corrida que uma exposição de animais como é hoje. A tentativa de fazer um clube de apostas como o Derby do Rio de Janeiro, em que políticos e barões frequentavam e apostavam, tinha a finalidade também de tirar os aquáticos da monotonia de tomar água e passear. Provavelmente o Barão de Maciel, Costa Guedes e os outros sócios da Companhia Águas de Caxambu e Contendas, cuja sociedade tinha acabado de fechar as contasem fevereiro de 1890, e transferidas suas ações, viu que o ramo de negócios poderia ser uma alternativa para a hidrópolis. Muitas das confabulações em prol da cidade foram feitas no histórico Casarão dos Guedes, marca arquitetônica do município.

Os Derbys

Mas vamos aos Derbys. O primeiro clube de corridas surgiu em 1825, no Rio de Janeiro, e reunia homens da política e do dinheiro, negociantes, quadros da aristocracia, os novos ricos. O "Derby" de Caxambu era homônimo do Derbi Club do Rio de Janeiro, presidido pelo engenheiro Paulo de Frontin, que foi senador, prefeito do antigo Distrito Federal e deputado federal. Um frequentador da povoação (foto 1, na fonte Dom Pedro abaixo), talvez tenha vindo daí a idéia de instalar um clube dessa natureza na cidade.

Os Derby tem origem na vila inglesa Derby, e estavam ligados aos acontecimentos esportivos  na região de Derbyshire nos anos de 1780. O nome esta associado às corridas de cavalo que promovia Edward Smith-Stanley.

O Turfe, assim chamado as corridas de cavalos, era a representação de que o Brasil estava entrando no "mundo civilizado", importando não só a moda e os penteados franceses, mas também as modalidades esportivas. Havia mesmo uma grande afluência de público aos hipódromos na capital,  e os frequentadores eram membros da família real e políticos da aristocracia social. A coisa toda era chic e os eventos eram abertos para o público em geral. Lá os homens apostavam e as mulheres desfilavam. Assim o Rio de Janeiro importava a moda da Europa e Caxambu copiava o Rio, até porque a hidrópolis era povoada nos verões, pelos aquáticos vindos de lá.

Foto 1: Paulo de Frontin em Caxambu, 1922; Foto 2: Paulo de Frontin chegando no Derby do Rio de Janeiro; Foto 3: Jockey, Foto 4: Sociedade do Derby, no Rio de Janeiro.
O Derby Caxambuense

Henrique Monat em seu livro "Caxambu" de 1894 escreve:

Triste impressão quando se contempla da estação aquelle valle; apenas à esquerda, ao longe, se avistam dous prédios amplos, em que parecer haver conforto, alegres, cercados de vegetação abundante; mais perto ve-se um prado, com a bandeira do Derby Caxambuense, elegante, a raia bem tratada, apesar das curvas rápidas.

Em sua primeira diretoria contava com de gente pra lá de importante: Torquato Junqueiro, como presidente, dr. Theofilo Maciel  vice-presidente; primeiro secretario, J. Alves Martins; 2° secretario, Joaquim Lopes; tesoureiro José Maria costa Guedes (foto 1). Havia também um procurador, José Borges, e um fiscal, João Chaves. As obras iriam se iniciar em fevereiro, no lugar chamado "Prado", onde hoje é o campo de futebol do Crac.

Antonio Torquato Fortes Junqueira (foto 2) graduado em direito, promotor público e juiz da comarca de Baependi, eleito deputado federal por Minas Gerais em 1893, assumiu a cadeira na câmara do Rio de Janeiro, permanecendo até 1896. Sua família era possuidora de fazendas onde cultivavam café e dedicavam à criação de cavalos;  Theófilo Maciel era médico, filho de Justo Maciel, criador de cavalos, vereador, presidente da Camara de Vereadores de Baependi e que fora também  eleito prefeito da cidade, cuja administração Caxambu estava subordinada, Costa Guedes (foto 1) comerciante português  e dono da Casa Guedes.

Os empreendedores, não podiam perder as chances de instalar um na povoação, até porque Caxambu estava em ascensão para ser uma das mais frequentadas estancias hidrominerais da época. Eles acreditavam que a hidrópolis podia ganhar dinheiro atraindo mais turistas para a cidade, enchendo os hotéis e ao mesmo tempo quebrando a falta do que fazer dos aquáticos. Tudo por Caxambu!

A iniciativa foi aplaudida pela imprensa, pois Caxambu contava na época com poucas opções de lazer. A povoação seria  um ponto para a exposição de animais, além do que era também de interesse dos fazendeiros da região o aprimoramento a raça dos seus plantéis de cavalos. O dr. Maciel e o Joaquim Lopes e J. Martins, membros da sociedade já tinham adquirido os seus, da linhagem de Lord Byron, Tópe, Wilna e Diva. Os nomes eram imponentes...

O "hipódromo" foi mesmo construído no terreno doado pelo político baependiano, que também tinha fazenda em Caxambu, Antonio Penha, sendo as obras inspecionadas pelo engenheiro Herculano Penna, encarregado da planta e nivelamento do terreno. A localização, o lugar denominado "Prado", segundo ele, era "magnifica".

A aventura equestre durou apenas 6 anos. Em 1° de outubro de 1896, a sociedade declara-se extinta. Acredito que o hipódromo não fosse tão chic, como o do Rio de Janeiro, pois o único bem, uma construção o "edifício do Prado", foi vendido. Na comissão liquidante estavam Dr Polycarpio Viotti, José Maria Guedes e o político e delegado de polícia da povoação, capitão José Ribeiro da Luz Junqueira. O dinheiro arrecadado na liquidação, dois Contos de Reis, foi revertido em beneficio da Capela Nossa Senhora dos Remédios. Nada mais coerente com os princípios de época e das convicções do tesoureiro da instituição, Costa Guedes, tudo pela sua Capela e sua querida Caxambu.

O Derby Caxambuense foi o primeiro empreendimento deste  caráter na povoação, e talvez a semente plantada para a criação do Parque de Exposições José Braulio Junqueira de Andrade, este um dos criadores cavalos e, quem contribuiu para o aperfeiçoamento da raça Mangalarga no Sul de Minas. A história do desenvolvimento do Mangalarga tem origem ha 200 anos, quando os exemplares chamados "Álter" foram trazidos pelos portugueses e, cruzados com cavalos da região do Sul de Minas, originou um animal de porte médio, robusto e dócil. Hoje a raça conta com um plantel de 600 mil exemplares, a maior parte se encontra em Minas Gerais. Ah, mas essa já é outra história.
Foto: 
Jornal Gazeta de Noticias,
Revista Fon-Fon
Foto 2, da Net
Fazenda da Roseta/Arquivo
Arquivo privado da Familia Guedes
Fonte:
Site Crônicas e fotos de São João da Barra
O Baependiano
Gazeta de Notícias
O Pais
O Fluminense
MELLO, Victor Andrade, Possíveis representações sobre o Turfe na sociedade carioca do século XIX
Fundação Getulio Vargas
Agradecimentos:
A Paulo Maciel, Fazenda da Roseta.
A Izabela Jamal Guedes por dispor o acervo fotográfico da família para a ilustração dos nossos textos, bem como também a sua colaboração na recuperação da memória histórica da Família Guedes.
Revisão: 
Paulo Barcala

domingo, 12 de novembro de 2017

A Casa Oriental / Viúva Niman e Filho e a Família Ayres




A Casa Oriental faz parte não somente história da Família Ayres, mas também da história econômica e política da cidade de Caxambu. Em 22 de outubro de 1954, Arminda Maria Ayres fez lá suas compras e, na "Nota de Balcão", estava descrita  a compra de tecidos, seis botões e um carretel de linha, totalizando Cr$111, 30. Muitos anos se passaram e o recibo ficou guardado numa cadernetinha que achei nos pertencentes do meu pai e trouxe comigo para a Alemanha. Hoje, abri aqui a relíquia e... a Casa Oriental estava lá. E assim resolvi a escrever sua história.



Voltarei aqui citar David Nasser jornalista da Revista O Cruzeiro, ele também filho de imigrantes libaneses, que morou, até os 14 anos, em Caxambu. 

Tudo ali era português, a começar da loja dos Guedes e terminar no sonhador que descobrira as fontes de águas mineral, o Venâncio. Depois começaram a emigrar de Baependi os italianos- e Caxambu se encheu dos Viottis. Os sírios, os libaneses, os humildes turcos chegaram depois e o Bechara, o José Calil, o Abdallah, os Sarkis, mascates de uma genialidade itinerante que punha no chinelo a matreirice mineira foram os antecessores do meu pai no lugar.

O fim da escravidão e a mão de obra imigrante

No início da década de 1870 o Sul de Minas contava com uma população de 352.001 habitantes,  72.223 escravos, sendo assim a região com o segundo maior plantel de escravos da província mineira. A grande concentração de escravos tornou-se um problema para os seus proprietários e agricultores  antes, durante e após a libertação dos escravos e o tema era relevante nas discussões políticas feitas nos jornais. Assim o governo incentivou a imigração de estrangeiros, braços para tentar substituir a mão de obra escrava e também para "branquear" o país. Mas os argumentos não se concretizaram em estatísticas, pois os imigrantes não eram em grande número e os núcleos de colônias instalados na região não foram tão grandes. Também a utilização da mão de obra em fazendas particulares não vingou. Na verdade, a imigração para o Sul de Minas não foi tão significativa. De acordo com os relatórios oficiais do governo, assinalados por José Rufino Bezerra Cavalcante, entraram 2.433.167 imigrantes no pais entre os anos de 1891 a 1914. A metade deles foi para São Paulo. Minas recebeu apenas, 104.942 correspondendo a 4,3% do total de estrangeiros. Eles chegaram e foram para as terras compradas pelo governo, formando várias colônias. No inicio os imigrantes dedicaram a agricultura, e foram devagar ocupando o cenário urbano das pequenas povoações.

Do Líbano para Minas

Entre o final do século XIX e primeira metade do século XX chegaram ao Brasil numerosos imigrantes sírios, oriundos da cidade de Iabrud, cidade próxima a fronteira do Líbano, a 80 quilômetros de Damasco. 90% dos imigrantes entre os anos de 1890 e 1930, eram cristãos. 130 de sobrenome Arbex, segundo o Arquivo Nacional, desembarcaram no Porto do Rio de Janeiro. Eram homens, mulheres e crianças. Vieram em família ou jovens sozinhos, esperando fazer vida e fortuna no Brasil. Ha vários registros dos Arbex pelo interior de Minas, Três Corações, Luminárias, Lavras, Carrancas, Juiz de Fora, Cruzília e... Caxambu, na pessoa de Jamile Felipe Arbex/Niman. Pelo desconhecimento de geografia, "muitos dos imigrantes que partiram de Beirute, não estavam certos onde estavam indo, ou onde desembarcariam em definitivo. O fato de se dirigirem à "America", com as oportunidades que ela oferecia,, era tudo que os movia"(1). No assento de batismo de seu filho Nicolau Niman, datado de 26 de outubro de 1912, na cidade de Cruzília, consta que seus pais eram "naturais da Turquia Asiática", os "turcos-árabes", (denominação utilizada pelo Censo), uma simplificação, colocando imigrantes de diferentes regiões como "turcos". De fato, em Caxambu, para nós todos aqueles que não falavam a língua portuguesa eram considerados "turcos".

E Nasser acima nos dá uma pista: os imigrantes eram "mascates, de uma genialidade itinerante", isto é, vendedores ambulantes. O comércio de produtos de porta em porta era encarado como atividade temporária e o caminho natural depois de alguns anos, era a abertura de uma loja no ramo de tecidos, armarinhos. Na sua trajetória, os sírios dedicaram-se, em sua maioria, às atividades urbanas, principalmente, aquelas ligadas ao comércio, como aconteceu na família. Primeiramente os Nimans  foram recebidos pelo Barão de Maciel na  Fazenda da Roseta, e lá trabalharam por curto tempo, juntaram suas economias (foram também mascates?) e abriram um pequeno negócio em Baependi, por volta do ano de 1910. Era uma pequena casa de secos e molhados em Baependi e, mais tarde, no ano de 1919, vieram a se estabelecer em Caxambu.


1- A matriarca Chabuh Calil Jabur Arbex, mãe de Jamilie Felippe Arbex/Niman
2- Adelina Levehagen de Carvalho/Niman, Nicolau Niman e Jamilie, em Ubatuba
3 - Registro da Casa Oriental na coletoria de impostos de Baependi/Cruzília
4- Certidão de nascimento da primogênita Adelia Arbex/Niman
Jamilie Felipe Arbex, a viúva Niman

"Phosporos, calçados, chapéus, sal, velas, conservas, ferragens, louça e vidros, etc, etc.". Os artigos constavam do registro na Coletoria Federal da cidade de Baependi do ano de 1917, e nos diz o que era comercializado no armazém dos Nimans. Fundada em 1919 por Salomão José Niman e Jamilie Felipe Arbex Niman, a Casa Oriental teve o seu alvará de funcionamento em Cruzilia, que se chamada São Sebastião da Encruzilhada e na época pertencia à jurisdição de Baependi. Nos arquivos de Cruzília consta o nascimento do seu primeiro filho, Salomão. Eles tinham o "faro" para o comércio, e Caxambu prometia mais. A família e os negócios se mudaram no momento certo para a hidrópolis. A cidade viveria uma grande reforma urbana no governo de Camilo Soares (1912-1916), que a transformaria numa das mais belas e importantes estâncias de veraneio e veranistas de todo o Brasil.

Jamilie Felipe Arbex chegou solteira, em companhia de parentes e conhecidos da mesma cidade, e logo foi para a igreja para se casar com Salomão.  Não se sabe se eles se conheceram durante a viagem ou já se conheciam antes, pois procediam da mesma cidade, Yabrud. O dito foi que, se  o do casamento não desse certo, podia ser dissolvo, o que era uma bobagem, conta o neto Fernando Niman. Ainda bem que deu certo, retrucou ele. Infelizmente, em 1929, Salomão Niman veio a falecer em consequência de sequelas provocadas por um acidente, causando sua morte prematura. O acidente aconteceu quando foi ferido na cabeça, na escola na Síria. Assim foi contado na família.  

Então Jamilie Felipe Arbex Niman tomou a frente dos negócios junto com o filho mais velho Nicolau Salomão Ninam, que na época tinha 17 anos e não gostava de comércio. Na verdade queria ser carroceiro. Ah, os jovens! A loja  passou então a se chamar Viúva Niman e Filho. 

Jamille era uma mulher bonita, inteligente, independente e sofria com as insistências dos vendedores que a queriam namorá-la. O seu caráter foi moldado pelas dificuldades da vida. Era uma mulher objetiva, sem refinamentos, conta o neto, chegando mesmo a ser rude. Mas o que esperaríamos de uma mulher, no início do século, sozinha a criar seis filhos e ainda à frente dos negócios da família? Os desafios eram enormes e ela não teve outra alternativa que aceitá-los. Jamille veio a aprender o português muito mais tarde, com a professora Amélia Rosa "para ler a bíblia", na época do Mobral, pois até 1950 lia e escrevia só em árabe.

Histórias ou estórias da velha Malaquias / A demolição 

Foto 1: Nicolau Inca, Jorge, Luiz Brandao, José Miguel
Foto 2: Carros de boi para carregar e descarregar material da demolição.
Foto 3: A demolição 
Onde hoje funciona a Casa Oriental existia uma casa antiga com um grande terreno que, segundo contava uma figura folclórica da cidade, a velha Malaquias, ali fora a casa de nascimento de  Luiz Gongaza, o Rei do Baião. Ela era indignada, pois Gonzaga nunca citou o fato em sua biografia. "Ela tinha mil histórias" disse Fernando Niman. A história ou estória agora faz parte da lenda, e não ha provas concretas do fato. Gonzagão, oficialmente, nasceu em Exu, Pernambuco. O certo é que, em 1940, a família comprou o terreno e casa velha, onde a loja havia se instalado. Então o prédio foi demolido, e iniciada a construção da Casa Oriental como é hoje. O projeto arquitetônico foi do suíço Novak e a construção ficou a cargo do austríaco Rodolfo Weber, residente em Caxambu.

A construção

Foto 1: As obras em pleno andamento, foto 2: os operários,
foto 3: A primeira estaca batida e as bênçãos do padre José Leal,
Foto 4: as obras bem adiantadas, foto 5: a Casa Oriental pronta.
A viúva se empolgou com a arquitetura da construção no Hotel Glória Novo e convenceu o filho Nicolau Niman a contratar um arquiteto para o projeto do seu estabelecimento. Com as paredes postas abaixo, chegou o dia do padre José Leal benzer a obra, com a inauguração da primeira estaca batida no dia 7 de outubro, uma quinta feira, às 16:30 horas. Presentes arquiteto Novak, o mestre de obras Rodolfo Weber, seu Amancio, José Rafael, que me tinha alugado parte de sua loja, em frente às obras, para que a Casa Oriental continuasse a funcionar.  Mas, como o mundo estava em guerra, as obras se arrastaram por cinco anos. Faltava tudo, inclusive cimento para a construção. Ao lado prédio da loja, foi construído o Hotel Oriental  que funcionou de 1945 a 1950.

100 anos de história/ De caixa de fósforos, pregos, velas e fumo à bolsas da Prada italiana

Se formos somar, a família e a Casa Oriental passaram pelos mais importantes acontecimentos históricos do Brasil dos últimos 100 anos. A primeira Guerra Mundial de 1914, a crise econômica de 1929, quando da queda da Bolsa de Nova York, a ditadura de Getulio Vargas, na década de 1930/40, a segunda Guerra Mundial de 1945. No auge da economia caxambuense, quando a cidade fervilhava de turistas, a casa chegou a vender produtos da marca Prada italiana! Altas marcas, altos preços! Claro que havia público para os artigos de luxo. Estávamos no auge das estações de veraneio e os cassinos funcionando a todo vapor. Com a proibição do jogo  no Brasil, em 1946, pelo presidente Eurico Gaspar Dutra, os hospedes e clientes bem aquinhoados debandaram. Os artigos de luxo, excluídos do sortimento, e o hotel ao lado da loja não era mais rentável, sendo transformando em residência da família.

Nos anos 1980, com a fabricação de roupas em massa, as costureiras não eram mais requisitadas, nem os tecidos da Casa Oriental, assim tiveram novamente que se adaptar ao bolso dos seus clientes. E pensar no borrador do Armarinho  e na lista das mercadorias exóticas para a modernidade de hoje como talco, tecidos, pregos, lampiões, chapéus, velas, fósforos. Hoje a casa se concentra nos produtos de tradicionais de cama, mesa, banho, confecções e roupas íntimas e conserva ainda o seu caráter de empresa familiar.

Neste histórico estabelecimento minha mãe comprava tecidos para confecção dos uniformes escolares, bem como cobertores, colchas, lençóis e enfeites para a árvore de Natal e... carréteis de linha e botões (foto). O vendedor preferido pela minha mãe era o sempre prestativo e paciente  Onofre Edson dos Santos, quem a gente chamava de Tenório, funcionário "quase" antigo como a casa. Entrou la com 12 anos de idade e saiu vovô, conta Fernando.

Os filhos, como em todas as famílias e gerações tiveram outros planos. Dos filhos de Jamile e Salomão, um se tornou dentista, o Doutor Niman,  outro advogado, Jorge Niman, e foi para o Rio de Janeiro; outro ainda, José Niman, taxista, que permaneceu em Caxambu; Adelia, que se casou e se tornou dona de casa mudando para São Paulo. Mas Cecília Niman, que trabalhou como  professora, não resistiu ao chamado dos negócios, pois estava no sangue. Ela fundou a Casa Vitória, em São Lourenço, também um empreendimento familiar e já assumida pela 3a geração, assim como a Casa Oriental, em Caxambu, que tem à frente Fernando Niman, também na 3a geração.
Desejamos que a Casa Oriental continue servindo aos seus clientes e continue a escrever a história econômica da cidade de Caxambu.
Fotos:
Arquivo privado da Família Ayres
Arquivo privado da Família Niman
Anuncio do Contrato  com a Companhia de Imigração e Colonização Mineira, in O Baependiano, 1889.
Fonte:
Casa Oriental/Face Book
Página da Familia Arbex net
Truzzi, Oswaldo - O lugar certo na época certa: sírios e libaneses no Brasil e nos Estados Unidos- um enfoque comparativo.
Dornelas, Juliana Gomes -  Na America, a esperanca: os imigrantes sirios e libaneses e seus descendentes em Juiz de Fora, Minas Gerais (1890-1940), Juiz de Fora, 2008.
Junior, Paulo de Souza- Ocupação Urbana do Município de Araxá do século XVII ao início do século XXI, Araxá, 2008.
Castilho, Fabio Francisco de Almeida, in A transição da mão de obra no Sul de Minas: o braço imigrante e nacional nos periódicos locais, 2011.
Revisão:
Paulo Barcala
Agradecimentos: 
Agradecimentos muito especiais a Fernando Ninam pelas preciosas informações e as belas fotos do arquivo  pessoal da Família Niman, que ajudaram a escrever este texto.

Façam uma visita virtual: Casa Oriental em Caxambu

domingo, 5 de novembro de 2017

Os históricos bancos do Parque das Águas de Caxambu/Sentando na história


Leitores, abundem-se! Hoje vamos mostrar onde e como se sentavam os visitantes do Parque das Águas de Caxambu ao longo do século. Por onde hoje vocês põem suas bundas no Parque, apostem: é tudo  histórico. Ou se descansando das caminhadas ou simplesmente se sentando para contemplar o verde, os bancos são um lugar para tomar fôlego e... empreender nova caminhada. Os belos bancos de alguma forma sobreviveram ao tempo e às... bundas, claro. Neles sentaram políticos, industriais, artistas, gente rica, banqueiros - daí vem a palavra "banco"-, gente pobre, gente de todas as cores, gente vinda de todo canto do Brasil e do mundo. Os bancos eram e são democráticos, aceitaram e aceitam qualquer bunda.


Os bancos preferidos para uma boa fotografia, no início do século, eram os do artista Chico Castanheiro, inconfundíveis, imitando troncos de madeira, confeccionados com uma liga especial  de argamassa e óleo de baleia. Na verdade eles quase não aparecem nas fotos, soterrados que estavam debaixo dos traseiros suportando todo aquele peso. Na sua grande maioria os fotografados aparecem sentados, mas também, criativamente, em uma pose de pé e com flores nas mãos. Ha também bancos em cimento, em madeira e ferro de desenho simples, mas muito resistentes.


O Parque tinha acabado de ser embelezado, os quiosques das fontes construídos e os turistas vinham em enxames para cidade. Mas a partir da década de 1920 os bancos quase desaparecem do cenário das fotografias, pelo menos as publicadas na Revista Fon-Fon.  A exceção se fosse algum famoso, como Rui Barbosa e família (foto acima), em 1922. A novidade agora era o Balneário recém-construído, e cabia muito mais gente sentada em suas escadarias. Da década de 1940 em diante os bancos e os "aquáticos",  desapareceram por completo do cenário fotográfico da revista.


Enfim, os bancos aguentaram até os nossos dias.  Até que... Por favor, não chorem, este foi o estado que ficaram os bancos da Fonte Mayrink, na depredação ocorrida em 2015, naquela fonte onde as águas são boas para os olhos.


E o que vocês estão esperando? Corram para o Parque e procurem um banco na sombra dos plátanos e sintam o gosto de estarem sentados na história. Ah, meu povo, ajudem a preservá-los.

Haverá sempre um bom motivo para posar sentado nesses maravilhosos bancos que contam, contaram e contarão histórias, não é Graça Pereira Silveira e Vander Silveira?


Fotos:
Solange Ayres (ao alto, o banco de argamassa do Chico Cascateiro), todas as outras fotos são de autoria de Haroldo Kennedy.
Graça Pereira Silveira
Fotos da depredacao: Blog do Madeira
Revista Fon Fon
Agradecimentos:
O Blog da Família Ayres agradece Haroldo Kennedy que, na sua visão única, fotografou e fotografa o Parque das Águas de Caxambu e nos autorizou a publica-las. Suas fotos são obras primas.
Revisão:
Paulo Barcala

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Caxambu e sua Igreja Luterana /500 anos da Reforma Protestante


No dia 30 de outubro de 1517 lança Martin Lutero (1483-1543) as 95 teses pregadas na porta da Igreja do Castelo de Wittenberg, na qual questionava os eclesiais pela venda de indulgencias em troca do perdão dos pecados. O que fora uma crítica, um convite ao debate, soou como afronta aos eclesiais. As Teses foram logo traduzidas e amplamente copiadas e impressas e se espalhou pela Alemanha e Europa. Assim se colocava o primeiro divisor de águas entre a Igreja Católica e a futura Igreja Luterana. Dentre as características da Igreja Luterana, o consentimento do casamento entre padres e freiras, como ele mesmo o fez, desposando a ex-freira cisterciense, Catarina von Bora.
Foto:
Solange Ayres
Igreja Protestante de Caxambu

domingo, 29 de outubro de 2017

A Igreja Matriz Nossa Senhora dos Remédios de Caxambu/ Sua história


Uma sensacional descoberta!

Numa foto datada de 1868 (acima), e postada no "Fotos Antigas de Caxambu" por Ruth Villara Viotti, uma informação muito importante já ia "passando batida". Quando observando no detalhe, veio a surpresa: As anotações de seu pai, Rangel Viotti. Pronto! Seguimos a pista. Lá no alto a capelinha! Rangel Viotti fez anotações num livro daqueles que estavam depositados na garagem de sua casa, debaixo das caixas e daquela papelada toda. Que sorte! Ruth fotografou e postou no Facebook. Constava: - 6 Casa Guedes, - 7 Colégio Santa Terezinha, 8- Igreja. Com esses três elementos arquitetônicos, não temos nenhuma dúvida de que se trata do mesmo lugar: o largo da Igreja, onde hoje fica a Igreja Matriz, o Colégio Normal Santa Terezinha e o Casarão da Família Guedes.

A foto havia sido publicada no livro do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas de Alpheu Gonçalves Diniz, em Aguas mineraes do Brasil, no ano de 1936. Mas, bem antes, ela fora também publicada no livro Caxambu, de Henrique Monat, em 1894. Essa foto não tem nenhuma semelhança com as demais registros da Igreja. Como vemos, há uma Capela bem simples, sem torre nem sinos. Sua construção, situada no outeiro, acima da Casa Guedes, possui uma grande porta central e uma pequena porta lateral. Este é então o mais antigo registro da Capela Nossa Senhora dos Remédios até agora. 

Senta que lá vêm os fatos

Foi nos idos de 1743 que Estácio da Silva solicita a permissão para a construção de uma capela em sua propriedade, na chamada Fazenda do Caxambu, freguesia de Baependi, ao Bispado do Rio de Janeiro, pois, até aquela data, a diocese "dava obediência ao Bispado do Rio de Janeiro" (1)

Nos registros das Instituições e Igrejas do Bispado de Mariana consta: 116 — Caxambu. Capela "na fazenda do Caxambu, freguesia de Baependi", erigida a pedido de Estácio da Silva por provisão episcopal de 8 de junho de 1748, 5 anos da data do pedido. A autorização foi assinada pelo primeiro bispo de Mariana recém-empossado, Dom Frei Manoel da Cruz, no mesmo ano. Naquela época Caxambu ainda não existia, e nem se sabia da existência das águas milagrosas, escondidas na mata, borbulhando no pântano, ao pé do Morro. O morro sim já era conhecido entre os viajantes e bandeirantes desde 1700, por Morro do Caxambu (leia aqui a história completa do Morro de Caxambu). Somente duas fazendas eram conhecidas: a do Palmital e a de Estácio da Silva, denominada Caxambu. E como tudo que acontecia girava em torno das igrejas, a capela se tornaria o centro da povoação, ajudando a escrever a história das "Águas do Caxambu".

"... foi-lhe concedida permissão para edificar a capela dedicada a N. Sra da Conceição, em sítio a ser assinalado pelo vigário de Baependi. Construída a capela, preferiu o fundador dedicá-la a N. Sra dos Remédios, que passou a ser o orago, de acordo com a concessão diocesana"(3). Mas teria Estácio da Silva construído a capela? E onde? Então veio a resposta.

Os primeiros protagonistas e seus destinos

Em 30 de novembro de 1752, falece o Coronel Estácio da Silva, aos 52 anos de idade, deixando a viúva Maria Vitória Vajana como herdeira. No testamento, seu desejo para que fossem rezadas três missas à Nossa Senhora dos Remédios. Em 5 de outubro de 1756, Maria Vitória também vem a falecer (abaixo), oito anos após a solicitação do seu finado marido para a construção da Capela, deixando como herdeiro universal e consequente suas propriedades o seu segundo marido, João José Pinheiro. No inventário, o viúvo declara que Maria Vitória Vajana faleceu "estando doente de sobreparto" (1), isto é, complicações pós-parto. Seus bens inventariados: um sítio em que morava chamado "Caxambu", no Caminho Velho, freguesia de Baependi.



Consta da lista n° 116 no "Instituições de Igrejas no Bispado de Mariana": Caxambu: Capela na "fazenda do Caxambu, freguesia de Baependi", erigida a pedido de Estácio da Silva por provisão episcopal de 8 de junho de 1748.

O Cônego de Mariana, Dom Frei José da Santíssima Trindade, na primeira de suas cinco "visitas" feitas às igrejas e capelas no interior da província, passou por Baependi, em 3 de maio de 1824. No registro publicado, em 1838, constavam somente as seguintes capelas filiais da Igreja Matriz Nossa Senhora de Mont Serrat: Santo Antonio do Piracicaba, São José do Favacho, atual Cruzília, e Conceição do Rio Verde. Sobre a suposta capela Nossa Senhora dos Remédios, do Caxambu, nenhuma palavra. Escrever requerimento solicitando a construção da capela era uma coisa, agora construí-la era outra e, mais ainda, mantê-la em pé. Se, nos lugares onde os fazendeiros eram mais abastados, as construções se arrastavam por décadas, o que dizer de uma capela a ser construída na quase inexistente povoação?

Analisando os mapas

A informação contida na Revista Brasileira Geográfica, de 1940, relata Virgilio Correia Filho no capítulo "Caxambu": "As suas edificações alongam-se pelo vale, onde começam, como ainda atestam os casarões em ruínas, adiante da Matriz, que ostentam na fachada a data de sua construção, em 1871, e já sobem pela encosta."

No Dicionário Geográfico do Brasil publicado, em 1894, escrevia Alfredo Moreira Pinto: "Em 1872, levantou-se no centro da povoação uma pequena capella dedicada a N. S. dos Remédios, que é o orago deste florescente logar" (recorte abaixo). Outra afirmação: Segundo o reverendo Lefort, guardião dos registros paroquiais de Campanha: "Só em 1872, é que aparece pela primeira vez o nome Capela, prova de que foi ela construída nesse ano."

E, somente no ano de 1873, segundo "dados fornecidos pelo Coronel Fulgêncio de Castro", a "Igreja" constou na planta da povoação Águas Virtuosas de Caxambu, assinado por José Pinheiro da Fonseca Silvares (foto), sendo o terreno ao lado reservado para a "Eschola", a futura Escola Normal Santa Terezinha.

Quem procura acha... Dois mapas nos deram uma pista. A Capela ainda não existia no mapa à esquerda, datado entre 1861 e 1865, projetado pelo engenheiro J. A. Barbosa. Ha somente um quadrado como "terreno reservado", não constando nenhuma capela ou construção. Já no ano de 1873, a "Igreja" e a "Escola" aparecem num outro mapa ( à direita). Vamos adiante...


Era a capelinha da foto ao alto a que foi erguida por Estácio da Silva? 

Aqui uma explicação para o destino da Capelinha, da qual não se tinha notícia precisa até agora, a não ser que foi dada a autorização para a sua construção em 1748, nas terras de propriedade de Estácio da Silva, na Fazenda do Caxambu. Sem as anotações de Rangel Viotti, pai de Ruth Viotti, não teríamos despertado a atenção para a pequenina construção no alto da colina.

O texto extraído do livro "Instituições de Igrejas, Bispado de Mariana", publicado em 1945, expõe as dificuldades de preservação do antigo patrimônio eclesial.

"A deficiência de informes seguros sobre as datas e as circunstâncias em que foram edificados e decorados tantos dos monumentos artísticos daquela região do país, inclusive alguns dos mais importantes e significativos, tem causado prejuízo muito grave aos estudos empreendidos até agora acerca da história da arte no Brasil. Em verdade, o acervo de obras de arquitetura religiosa existente em Minas Gerais é por certo o mais vasto e talvez o mais característico que possuímos. Ali, de fato, segundo Lúcio Costa, "a febre de construções, logo na primeira metade do século XVIII, foi verdadeiramente extraordinária, chegando a parecer espantosa a rapidez com que se ergueram, em substituição às primitivas capelas provisórias, capelas definitivas e matrizes de madeira e barro, algumas ainda trabalhadas no estilo seiscentista, outras no estilo profuso e pletórico característico daquela primeira metade do século XVIII.”

Não há sombra de dúvidas de que a foto ao alto comprova que a capelinha foi construída antes de 1868, ano em que foi feita a foto. Lá está ela, construída no mesmo lugar onde hoje se encontra a Igreja Matriz. Entretanto, parece que esta pequena capela foi derrubada para dar lugar à denominada Capela Nossa Senhora dos Remédios, com duas portas laterais (foto abaixo).


Capela curada

Construída a capela, agora faltava somente o capelão. Ela contava com os donativos dos mais abastados, como o Barão de S. Victor, que soube da iniciativa de José Maria Costa Guedes e "oferece-se para mandar a prontificar o Álbum a suas expensas". 

Em 1883, reclamava o jornal O Baependiano da falta do capelão e pedia auxílio aos cofres públicos "que lhe poderá ser concedido elevando-se a capella a categoria de capella curada".

Mas o que seria uma capela Curada e o que significava para a povoação? Capela curada era um título oficial dado pela Igreja Católica a uma vila com determinada importância econômica e populacional que tivesse uma capela com celebrações realizadas, regularmente, por um pároco. A obtenção desse título era fundamental para o desenvolvimento das aglomerações urbanas, e era mais um passo para se criar uma Freguesia.

No Brasil Colonial, até a data da Proclamação da República, para que houvesse o reconhecimento de um povoado, era necessária a autorização integrada dos poderes do Governo e da Igreja. Com o aumento da população, os seus políticos e moradores poderiam solicitar à Assembleia Provincial a criação de uma Freguesia, o mesmo que Paróquia, o que aconteceu com a de Nossa Senhora dos Remédios em 16 de novembro de 1875, pela lei Provincial n°2157.

Com a Proclamação da República, em 1889, houve a total separação entre Igreja e Estado, e seus municípios se tornaram autônomos. Não esquecemos que a religião católica, no tempo do Império, era a religião oficial do Estado e este tinha o dever de pagar salários aos padres e bispos.

O dedicado José Silverio Nogueira da Luz foi também o responsável pela aquisição do órgão da igreja. Ele empreendeu a dura viagem até a Corte do Rio de Janeiro, em 25 de janeiro de 1887, para a aquisição do "Harmonium", como era chamado, que chegou em 6 de março do mesmo ano. Veio dos Estados Unidos! Chique. Espero que ainda esteja lá!

Em 9 de outubro de 1892, a capela sofreu modificações e foi lançada a pedra fundamental para erguer a Igreja Matriz. Em 1900, temos notícias de que as obras estavam em andamento. O jornal O Apóstolo noticia que "as obras da nova Matriz do logar, egreja que vae sendo construída a esforços do Rvn. Vigário José Silveira Nogueira da Luz". Na verdade, a Igreja já existia. O que ocorreu foram modificações substanciais no prédio. As duas portas laterais foram substituídas por uma porta central; a torre do campanário tomou outras formas e as janelas adquiriram formas neogóticas. Suas obras foram concluídas em 1º de janeiro de 1906 (foto acima), sendo o padre José Silvério Nogueira da Luz o idealizador e responsável por elas.

De volta com a pracinha!

Todos os esforços em prol de melhorias da Capela não foram em vão, exceto um: os esforços de um padre de pôr abaixo a histórica Igreja. No final da década de 1970, ele resolveu porque resolveu construir uma hipermoderna igreja, cheia de vidros. E, o pior, convenceu parte da população para o feito, que via no padre uma liderança na cidade.

Pois bem, ao que as primeiras estacas foram cravadas no chão duro, a velha Igreja tremeu. Com o perigo de desabamento, as obras foram suspensas e ela foi salva. O padre que teve a (péssima) ideia não tinha noção de estética nem de patrimônio histórico e, pior ainda, deixou seus "rastros". A bela escadaria deu lugar a um prédio que destoa do conjunto arquitetônico, embora a fachada tenha sido modelada em estilo da Igreja.

Mas acredito que o maior problema de tudo foi e é a falta de conhecimento da história dessa Igreja por parte dos caxambuenses. Se eles soubessem do seu passado, talvez pudessem ter evitado o que aconteceu, e a linda pracinha ainda estaria lá, ou ainda poderia ter sido restaurada, como fez o seu Costa Guedes, em 1885, removendo terra e plantando árvores. Ficaríamos ainda gratos aos padres de boa vontade se um dia restaurassem a escadaria e a antiga pracinha em frente à igreja. Seria um acontecimento histórico para a cidade. Sonhar não custa.



Fonte:
Projeto Compartilhar (1)
IBGE: Caxambu, Minas Gerais (2)
Carvalho, Francisco de Assis - Entre a palavra e o chão: Memória Toponímia da Estrada Real, São Paulo, 2012 (3)
Jornais: O Baependiano, O Bohemio, O Patriota
Instituições e Igrejas no Bispado de Mariana, Cónego Raimundo Trindade, in Sphan, Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, 1945.
Curia Diocese de Campanha(4)
Dicionário Geografico, 1894
Wikipédia
Familia Search
Leme, Luiz da Silva Gonzaga, Genealogia Paulistana, 1905
Fotos:
Arquivo privado
Fotos antigas de Caxambu
Foto: Graça  Pereira Silveira
Agradecimentos:
Agradecemos ao ARQUIVO HISTÓRICO DO EXÉRCITO (AHXE), DIVISÃO DE HISTÓRIA E ACESSO A INFORMAÇÃO (DHAI), na pessoa do Major Ferreira, que colocou à disposição do nosso blog vários mapas.

Todos os direitos são de propriedade do Blog da Família Ayres, nas pessoas de Graça Pereira Silveira e Solange Ayres. Reprodução na integra ou em parte do texto somente com autorização das pessoas citadas.
Edição: 
Paulo Barcala​

sábado, 21 de outubro de 2017

O Pelourinho de Baependi / Um dia celebrado / A Cruz dos Martírios



Depois de muitas leituras e pesquisas, associando uma coisa à outra, juntamos aqui os fatos e a foto e...

"Em 23 de outubro de 1814, deo-se o levantamento do primeiro pelourinho em Baependy. São decorridos, depois desse facto, oitenta e cinco anos; n`aquelle dia a praça da matriz da villa regurgitava de povo. As três classes alli se achavam representadas. A cavalaria meliciana da villa e seu termo, junta por então posse n`naquele largo garbosamente afim de dar maior brilho à legal ceremonia, como por esse tempo era uso dizer-se. Alçado o ignominioso poste, as tropas saudavam-n`o com ruidosas descargas, enquanto o povo, tomado de imenso enthusiasmo aclamava áquela obra, aos gritos frenéticos de ‘Viva o Principe Regente e Nosso Senhor!’ Foi esse, para Baependy, um dia celebrado." (1)

E quem diria que a nossa vizinha Baependi, à qual Caxambu estaria intimamente ligada, tinha um Pelourinho? O historiador José Alberto Pelucio relata com detalhes como foi sua instalação e seu..."uso".

"Ele consistia em um poste de madeira, de altura mediana, erguido na praça publica (muitos pelourinhos, como o que existia em Ouro Preto, eram de pedra); n`nele atava o infeliz, condenado a açoutes, e, em presença ordinariamente do juiz, curiosos e executavam friamente o castigo, empregando-se para aquele fim, e à sombra das leis, o que vulgarmente se chama de bacalháo. como então houvesse certa rivalidade entre Baependy e Campanha, de quem a primeira constituía-se parte integrante, no cimo do pelourinho erecto na villa recém criada, fizeram collocar, símbolo da justiça um grande facção, cuja ponta tomava a direção de Campanha - a villa rival."

O Pelourinho foi erguido no mesmo dia do auto da instalação da vila denominada Santa Maria de Baependy, num domingo, em 1814. Assim acontecia quando uma povoação era elevada à categoria de Vila. Acreditamos que os que cometiam delitos em sua jurisdição e redondezas, no caso de Caxambu, que ainda não era Caxambu, eram punidos em Baependi.

Todavia, Pelourinho não significou sempre Pelourinho e nem sempre teve a função de lugar de castigo para aqueles que eram condenados por alguma pena. Considerado nos dias atuais como um poste da infâmia (e é), na sua origem era um símbolo designador da existência do poder municipal representado pelo senado e pela câmara, uma tradição de raízes mais antigas na Península Ibérica. Eles eram os marcos das vilas. Sua presença significava status de emancipação política e administrativa. Sempre erguidos em praças, constituíam-se uma espécie de "Fórum Público", onde as ordens e medidas administrativas eram apregoadas e/ou nele afixadas. Suas raízes podem ser mais antigas, no Império Romano, assinalando o centro, o umbigo das cidades. Eles eram confeccionados por artesãos em diversas variações, e muitos eram verdadeiras obras de arte. Mas, com o passar o tempo, o braço da Justiça estendeu-se até as praças e assim as execuções das penas eram feitas em público, particularmente de negros escravos.

Como marco doloroso e simbólico para a história do Brasil, poucos exemplares sobreviveram quando a escravidão foi abolida, em 1888, e assim concluímos que o de Baependi também desapareceu nessa época. Como minha tia Célia Ayres de Lima/Araujo citou, "tinham que apagar aquele capítulo da história do Brasil". Sim... apagar...

Rua Direita sem número
Os desgraçados castigos necessários

Enquanto isso, em 1828, na cidade de Ouro Preto, lia-se a correspondência publicada no jornal local O Astro.



Para o branco a prisão, para o negro a chibata

Pela Constituição Imperial de 1824, a tortura era considerada crime. Mas quem ia considerar as punições dos negros escravos nos Pelourinhos como tortura? Nas fazendas havia os "troncos", que tinham a mesma função – punir os escravos – que, nas vilas, os Pelourinhos. No edital acima, publicado na Lei Mineira de 1845, transformava-se a multa por delitos em prisão ou chibatadas (foto). Para o branco, prisão; para o negro, se não tivesse dinheiro para pagar, e cujo senhor, responsável pelo escravo, também não pudesse pagar, a multa era convertida em chibatadas, que não poderiam ultrapassar 50 por dia. Oh, benevolência! Inteligente sistema, pois colocando o escravo na prisão, ele não poderia trabalhar. Assim a lei resolveu de modo que o cumprimento da pena fosse o mais rápido possível, para que o escravo voltasse ao trabalho. Somente em 1886 é que foi aprovada a lei abolindo o açoitamento como punição legal.

A Cruz dos Martírios




E, num ensolarado dia, passeiam as damas na cidade de Baependi. O registro data do início do século XX, e nela não se vê mais o monumento de madeira, que na verdade é a Cruz dos Martírios e não o Pelourinho da cidade, este que ficava em frente a Igreja Matriz, hoje Praça Monsenhor Marcos Nogueira. "O Cruzeiro, que traz instrumentos do suplício de Cristo, eram erguidos no Adros das Igrejas, praças ou largos", complementa Zezeth Nicoliello ao nosso texto. Ele tem uma palavra em comum com o Pelourinho: "dos martírios".

Temos certeza de que dois de nossos ancestrais passaram perto deste ignominioso poste no centro de Baependi: as escravas Justinianna Maria da Conceição (1849-?), minha tataravó, e Sabina Maria da Conceição (1860-1913), minha bisavó. De quem e de quantos foram açoitados no Pelourinho de Baependi, não se tem notícia nem estatística. Como a imprensa chegou mais tarde à cidade, não há reportagens desta época sobre o tema. Talvez estejam em alguma a lista de punidos nos arquivos da cidade de Baependi ou Campanha.

As pedras das quais ninguém quer mais se lembrar

Em 1867 a cidade de São João d`El Rey vem esclarecer à Corte que as pedras empregadas na construção do Monumento à Memória dos Inconfidentes não foram as mesmas empregadas na ereção do Pelourinho da cidade. A cidade, na verdade, queria dissociar o poste de pedra, servido para castigar os escravos, da Memória dos Inconfidentes. O exemplo foi o Pelourinho da cidade de Natal, no Rio Grande do Norte, removido durante os primeiros anos do Brasil República, e tirado dos olhos de quem visitava a cidade. No final da década de 1940 foi restaurado e novamente instalado na praça. Porém na década de 1950, foi destruído nas reformas. Outros tantos exemplos seguem pelo país afora. Os Pelourinhos de madeira ainda eram mais difíceis de conservar, e as poucas pedras que sobreviveram estão ocupando hoje outros espaços urbanos.

Baependi, cidade em que "o tabaco fez-lhe a reputação de município opulento e, na história do império, dos grandes princípios democráticos ali encontraram defensores heróicos. Foi o berço de homens ilustres nas ciência e na política", escreveu Monat, e  talvez por isso a cidade pudesse incluir no seu roteiro de "memórias" a citação ao local onde ficava situado o Pelourinho da cidade. Só para lembrar.
Foto:
In Caxambu de Henrique Monat,1894. Cruz dos Martírios.
Octavio Mendes de Oliveira Castro (1874-1935), Museu Imperial - Petrópolis, RJ
Fonte:
(1) Revista do Arquivo Mineiro in Esboços Chorographicos - Baependi (1692-1822)
Autor: PELUCIO, J.A, 1899
Diário de Minas, 1867
Astro de Minas, 1828
Leis Mineiras, 1845
MONAT, Henrique -Caxambu, 1894.
ÁVILA de, Cristiani Bartz, RIBEIRO, Maria de Fátima Bento - CIDADE: ESPACO, DOCUMENTO E MONUMENTO.
Agradecimentos:
Agradecimentos especiais a Zezeth Nicoliello pelas preciosas informações que ajudaram a complementar o texto.
Revisão:
Paulo Barcala

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Vereadores em Caxambu exercem seus mandatos de graça! Os contra-cheques dos prefeitos, vereadores e professores de lá e de cá.


E aqui uma sensacional notícia! Se não fosse uma notícia publicada  no 30 de abril de  1949, no jornal O Patriota, de Baependi, e não no dia 1°, dia da mentira,  e o fato ter se dado na administração do prefeito de Caxambu doutor Lysandro Carneiro Guimarães (1947-1951). Mas era verdade. Os vereadores, em número de 9 exerceram os seus mandados, gratuitamente, sem pesar no orçamento da prefeitura, nem no bolso dos contribuintes.

Enquanto isso na vizinha Baependi

Mas havia discrepâncias na região. O prefeito da vizinha Baependi recebia somente 2.600 cruzeiros, um pouco mais da metade do seu colega de Caxambu. A despesa com ajuda de custo anual com os 11 vereadores era de 33.000, cruzeiros, isto é, 3.000,00 cruzeiros por ano, ou 250,00 por mês, por vereador. Segundo o jornal, o melhor salário pago era para o Chefe do Serviço da Secretaria, de 1.900,00 cruzeiros e o pior... adivinhem? O de professora: 220,00 cruzeiros por mês, só perdendo para o "auxiliar de datilografia", que hoje ninguém mais sabe que profissão é essa, com vencimentos anuais de 1.600,00 cruzeiros, anuais, dito, isto é, menos que 140,00 cruzeiros por mês. Pelas contas em Baependi um vereador ganhava 30 cruzeiros a mais que uma professora. Não era o máximo? Ou o mínimo? Façam vocês mesmos os julgamentos.

Fonte:
Jornal O Patriota, 1949
Revista do Serviço Público, Rio de Janeiro

sábado, 14 de outubro de 2017

O galã Anselmo Duarte comemora seu aniversário em Caxambu




Ah, mas vocês não são desta época, mas muitos conheceram o galã de cinema Anselmo Duarte (1920-2009). E mais ainda, ele comemorou o seu aniversário em Caxambu, mais exatamente na piscina do Parque das Águas, palco para a festa regada a coca-cola e salsicha com queijo e azeitona no palito (foto). Vê-se ao fundo a silhueta do Trampolim, que foi desaparecendo ao longo das décadas (foto). Anselmo foi um dos maiores galãs do cinema brasileiro, e também escritor e diretor de cinema, chegou a ganhar a Palma de Ouro no Festival de Cannes, em 1962, na França, com o filme O Pagador de Promessas. Ele veio à Caxambu para o 5° Festival de Cinema que aconteceu, no Cinema de Caxambu, no ano de 1956.

E nada mais nada menos estavam lá as moçoilas da cidade para cantarem o parabéns pra você, e... tietar. Como se vê, a bela morena Genoveva de Melo, à esquerda, entre deslumbramento e timidez frente ao bonitão, que infelizmente já era comprometido, casadésimo com Ilka Soares, que não compareceu ao evento por estar grávida.  No centro estava outra atriz famosa, Marlene atacando os quitutes servidos pela atleta Mariazinha Magalhães, minha professora de educação física, nos anos 70, no ginásio Polivalente, e ao fundo, só sorrisos,  Cidinha Paganelli.

Genoveva era atleta gostava de jogar volley. Participei de muitas partidas com ela, na quadra do Parque das Águas. Era uma excelente jogadora! A Mariazinha era uma das moças  mais "avançadas" da cidade, daquelas independentes, dona do seu nariz, como dizíamos, citada por Janice Drumond, a nossa vizinha de frente em suas memórias. Já Aparecida Paganelli, conhecida como Cidinha Paganelli, foi ativa na política, chegando a ser secretaria de Turismo de Caxambu, nos anos 60. Não me esqueci do episódio contado por meu pai, José Ayres, presente num dos comícios, ali na Rua da Palha, indo em direção ao cemitério, onde montaram um palanque. No exato momento em que Cidinha discursava:  "- Queremos água, água para Caxambu!".  Então céus ouviram seu apelo e São Pedro mandou ver, digo, chover. Desabou um temporal, dispersando o povo, que saiu em desabalada correria em todas as direções, pondo fim ao comício político. A água que ela queria dizer era água encanada para a cidade.
Ah, tudo só porque queríamos anunciar o niver de Anselmo que completava, na época, suas 36 primaveras em 21 de abril.
(clique aqui e leiam a história completa do Cinema de Caxambu)
Fonte:
Revista, Vida Doméstica
Revisao :
Paulo Barcala