domingo, 19 de novembro de 2023

Matadouro de Caxambu - Roteiro divertido na infancia, que virou Bairro Santa Rita



Em 1887 parece que já era costume as crianças assistirem a... "matança", e alguns condenaram o "espetáculo pouco próprio para se exibir à vista de uma população, principalmente crianças, que assim cedo se habituam  à crueldade", noticiava o Jornal O Baependiano. Parece que os animais eram sacrificados clandestinos, fora do matadouro Municipal. Mas se o jornal condenava a presença das crianças no sacrifício dos animais em casas privadas, nada fazia para evitar o espetáculo no Matadouro da cidade.

Na década de 1960 o espetáculo era grátis. Claro que não havia condições de por cortina no Matadouro e assim as crianças como eu podiam assistir o horrendo espetáculo sem censura.

Por mais de uma vez, Janice Drumont, a vizinha de frente lá da antiga Rua Quintino Bocaiuva, relata suas lembranças de infância para o nosso Blog, onde tudo era aventura, mesmo as cenas mais macabras produzidas pelo antigo Matadouro de Caxambu de onde provinha a matéria prima , o couro, empregado pelos nossos avôs José Ayres de Lima e bisavô Jose Fernandes Ayres, no seu trabalho como Trançadores.

"Dava para ver nos olhos das vacas"

"Lá no final da cidade, ou no começo dela, dependendo de onde se vinha, ficava o matadouro. Perto de casa, caminhada curta para os adultos, para as crianças era uma aventura. Interessante pelo que era, tinha a coisa agourenta que tem todo lugar onde a morte ronda, mas para a criançada era oportunidade de uma boa caminhada e ativação da imaginação. 

Caminhávamos pela poeirada da rua até chegar a pequena ponte estreita, de parapeito de canos, sobre o Bengo, que nesta parte já se afunilava transformado em pequeno córrego bem fétido. Do outro lado a majestosa Fazenda Santa Terezinha, (veja no google onde era originalmente a entrada da Fazenda) palco de mil e uma travessuras. Era atravessar a ponte e pegar a trilha de areia fina e logo se via o prédio antigo, ladeado do curral onde as “vítimas” esperavam desconfiadas, o sacrifício com hora marcada. Dava para ver nos olhos das vacas a sentença, a expressão da condenação. Íamos em bando e se aí estivéssemos nos dias de matança víamos a cerca do curral com as pessoas empoleiradas aguardando os restos que o comércio não aproveitaria... e diziam até que aguardavam pra beber sangue retirado quente, na hora...  Mistério não confirmado, nunca vimos ninguém bebendo sangue alí, mas a idéia nos embrulhava o estômago, argh!!!! E alguns justificavam que o sangue era saboroso, dobrava a força e era até adocicado. Certo é que “frango ao molho pardo” também era feito com sangue e a gente bem que apreciava. Mas pensar no sangue vivo da vaca nos parecia até sacrilégio.

Tudo uma viagem, tudo uma aprendizagem

Seguindo adiante, logo depois, vinha a escola. Unidade pobre, onde faltava tudo. Mas no corredor ao lado da diretoria um grande cartaz com guloseimas mostrava a fartura que nenhum aluno ali teria. Calhava que quase sempre passávamos por aí próximo ao horário da merenda e era comum ouvir o canto da criançada em fila la dentro, cuja letra sugestiva dizia: “Pão com queijo, manteiga e leite também, é a merenda gostosa que a todos convém....” A canção rimava na letra, retumbava na música, mas virava incoerência no cérebro, pois cada um de nós sabia que aquelas crianças daquele bairro talvez nunca vissem manteiga e muito menos queijo.

Alí perambulávamos até que passasse um carro de boi que rangeria levando a gente em cima, passando de volta em frente as nossas casas e de la até o outro lado da cidade na entrada do bosque, ponto final para as crianças na estação, e dali era voltar correndo em bando, de volta a casa em final de aventura.
Nada era isento de sentido. Tudo aprendizagem.... e a gente nem sabia, só se divertia."

Agradecimentos:
A Janice, que tem sempre colaborado com o Blog da Família Ayres. Através de seu olhar nos remete as lembranças de vidas vividas, na antiga rua Quintino Bocaúva, hoje rua Magalhães Pinto, em Caxambu.
Para ler
Cliquem aqui e leiam também: (A completa história da construção do Matadouro da Cidade de Caxambu)

terça-feira, 3 de outubro de 2023

Parabéns Henrique Ayres/ Mais uma etapa concluída!


Hoje, dia histórico. É o fechar de um ciclo para iniciar outro. Ayres de Oliveira Henrique. De blaser, tênis branco, camisa branca passada a ferro a vapor, carregado na mala. Tudo nos trinks! Henrique Ayres ocupou a tribuna da universidade de Bozano, Itália, para fazer a apresentação de seu tralho final de mestrado. Os pais acordaram no breu da noite, após o despertador falhar; a tia (aqui) se embaralhou cedo com a técnica, mas conseguiu entrar no sistema. Dois continentes ligados. Brasil, Alemanha, Itália. A revolução!

Estamos a quase x anos luz de quando avó de 5° grau,  pela linha matrilinear assim composta: Justinianna Maria da Conceição (?-1901)  trabalhava como escrava nas plantações de tabaco na região do Chapéu, hoje bairro de Baependi, Minas Gerais; igualmente  a sua avó de 4° grau, Sabina Maria da Conceição (1865-?)também na condição de escrava ; sua avó de 3° grau Gervasia Ayres de Lima (1881-1971), nascida após a lei do Ventre Livre; seu bisavô José Ayres; seu avo Linderberg dos Santos Ayres, e sua mãe Fatima Ayres/Oliveira

Voltamos para o ano de 2023, no salto quântico, para lembrar oque o futuro é agora. Seus pais Elcio de Oliveira e Fátima Ayres de Oliveira foram decisivos para o filho pudesse alçar voo. De novo escrevemos: Agora Henrique, a bola esta com você. Voe alto. Estamos aqui todos torcendo para o seu sucesso na nova vida profissional.

Saudações d`Este país, Alemanha.
A tia Solange Ayres e o tio Franz Hecker


Henrique Ayres, aprendiz de sommelier
em 2023.

Foto:
Meeting/internet


domingo, 11 de junho de 2023

Fonte Venâncio / A história de um talentoso marceneiro chamado Venâncio da Rocha Figueiredo





Quando Venâncio da Rocha Figueiredo faleceu, em 15 de junho de 1931, aos 76 anos de idade, houve uma grande comoção na cidade. Com ele ia-se a história da captação das primeiras fontes do Parque das Águas de Caxambu. Por mais de cinquenta anos, ele exercera o seu trabalho na cidade. Pouco antes de falecer ainda trabalhava na Empresa das Águas.

E quem foi que conheceu Venâncio em sua infância?  Claro, nossa biblioteca familiar, minha tia Célia Ayres. "Ele vivia embrulhado, num cobertor, num cachecol, sei lá, numa capa, e vivia sentado numa cadeira de balanço lendo jornal". Assim era a visão de Célia criança de Venâncio. A casa era grande, conta ela, com terreno cheio de árvores e folhagens, onde havia duas máquinas de costura, onde suas irmãs, minhas tias, Mercedes Ayres/Soler e Catarina Ayres aprenderam a costurar com a filha do Venancio, a Sá Mariquinha, com juntamente com duas outras aprendizes, a Sá Julieta e Mariinha, mulata gorda que cantava na igreja".

Venâncio da Rocha Figueiredo Júnior nasceu em 1855, foi registrado na paróquia de Baependi, filho de Venâncio da Rocha Figueiredo, político ativo na cidade, e de Anna Carlota Nogueira. O casal teve quatro filhos: Ana Nogueira, nascida em 18 de julho de 1853, batizada por Luiz Fernandes da Costa Guimarães e Marisena Honoria Nogueira; Maria Luiza/Augusta da Rocha Figueiredo, batizada na Capela de Nossa Senhora dos Remédios, em 19 de novembro de 1854, futura esposa de Targino Pereira Noronha, proprietário de umas das primeira padarias da povoação, a Padaria Caxambu, em sociedade com Fernando Levenhagen, nos anos de 1883.

Seu pai não era um qualquer. Em 1880 foi nomeado procurador do comendador e proprietário de terras Antonio Theodoro Fortes Bustamante. Como político local, era membro da elite sul mineira e teve sua mulher, Anna Carlota Nogueira e a filha Anna Nogueira, convidadas para participar da comissão dos festejos em homenagem à Princesa Izabel, quando de sua visita a Caxambu. Venâncio filho, aos 13 anos de idade, ainda era muito jovem para ir à festa, mas ao completar os seus 17 anos, estava de casamento marcado com Maria Josepha de Mello e Souza.

Venâncio, um baiano de nascimento

Certidão de casamento de Venancio e Maria Josepha, 1855

































 

Ao achar a certidão de seu casamento, pensei que devia haver um erro de assento. Ele nasceu e foi batizado... na Bahia. Na verdade, ele era mesmo baiano de nascimento. Sua mãe grávida foi visitar parentes na província vizinha e por lá ele nasceu. A certidão, achada quando estava pesquisando sobre meu tataravô, é confirmada no texto Caxambu: de água santa a patrimônio estadual, de Maria de Lourdes de Lemos.


Às pressas 

O casamento realizou-se em altar privado na casa do político e autoridade local, o coronel Joaquim Ignacio de Mello e Souza, no dia 21 de julho de 1872, tendo como testemunhas Antônio Pereira Gomes Nogueira e José Garcia de Oliveira. A pressa de casar tinha uma razão: o seu primogênito não nasceu nove meses depois do casamento, e sim uma semana antes da cerimônia. 
 
O menino, que também se chamou Venâncio, foi batizado quase um mês depois, em 15 de agosto, em tempo para ser registrado como "filho legítimo", pois todas as crianças que nasciam fora dos casamentos eram considerados "naturais". Naquela época, uma criança viveria com essa pecha pelas regras não escritas da sociedade colonial. A criança viveu apenas 4 anos, falecendo em Conceição do Rio Verde, onde a família residia, e lá foi sepultado.

Seus outros filhos foram Venâncio Figueiredo Neto (1872-?), José da Rocha Figueiredo (1873-?), Brasilino da Rocha Figueiredo (1875-?, Maria Augusta da Rocha Figueiredo (1876-?),
Manoel da Rocha Figueiredo (1882-?) e Rosa da Rocha Figueiredo (1883-?). 

Venâncio teve também duas filhas com Clementina Rodrigues Ramos: Bertha / Rodrigues Ramos/ da Rocha Figueiredo (1893-?) e Margarida da Rocha Figueiredo (1895-?)

O multi talentoso marceneiro



Ao longo da vida, Venâncio demonstrou inteligência e competência no seu trabalho de captação das fontes de Caxambu. Na juventude, fora empregado da Casa Costa Guedes, tornando-se amigo de seu patrão, José Maria Costa Guedes. O Almanak Sul Mineiro traz Venâncio como marceneiro em Baependi e Caxambu, uma profissão que requeria talento para o trabalho manual. No seu livro, Maria de Lemos, escreve que ele  fazia também concertos em relógios e prestava serviços de bombeiro. Como auto-didata, foi ajudar o os doutores Viotti e Enout a captarem as fontes do Parque das Águas de Caxambu (fotos 2, 3, 4).

Em 1880, foi nomeado para compor a mesa de jurados em questões administrativas de Baependi. Venâncio estava cadastrado como eleitor em 1881, 1884 e, em 1896, fazia parte do Conselho Distrital na função de engenheiro, juntamente com Martinho Cândido Vieira Licio, secretário, José Ricardo Barbosa, fiscal de Caxambu, e Manoel Fernandes Moreira, fiscal de Soledade.

Ao terminar o trabalho de captação da fonte Leopoldina, Venâncio iniciou os trabalhos da fonte Duque de Saxe.  Então ele recebeu ordens para suspender, o que o fez. Na sua avaliação os trabalhos "prosseguirão sem incidente de ordem alguma, alvo as  dificuldades inerentes a fonte profundas". O motivo que se havia propalado, é que se havia perdido suas nascentes. Contra argumentava ele no anúncio publicado, em 9 de abril de 1892, no Jornal do Comercio do Rio de Janeiro: "as fontes lá se achao intactas e em condições de se fazer a mais perfeita captação".

A Empresa das Águas

Em 1890, o Conselheiro  Mayrink adquire a Empresa das Águas e contratou o engenheiro Henrique Lalligant, vindo diretamente da França, para prosseguir coma captação da fonte Dona Leopoldina, em lugar de Venâncio, pois o seu trabalho tinha gerado controvérsias. Sem sucesso, Lalligant deixou o trabalho e o Conselheiro Mayrink chamou Venâncio de volta para realizar o trabalho.

Em artigo publicado na Revista Brasileira de Geografia, Virgilio Correia Filho confirma o talento de Venâncio para o trabalho: "Nos serviços de captação das fontes, distinguiu-se Venâncio da Rocha Figueiredo, pelo seu tino prático e paciência na escolha dos veios d'água." Ele devia ter razão, senão Venâncio não teria sido convidado para trabalhar com o engenheiro Benjamim Jacob no governo de Rodrigo Sales, no serviço de captação das águas de Lambari entre 1905 e 1906. Lá foi ele ajudar as vizinhas Cambuquira e Lambari a ver suas águas brotarem (foto 1).

"O mesmo padrão de demonstração é representado em Águas Virtuosas de Baependy, quando da extração das fontes Leopoldina (1891) e Duque de Saxe (1893), no parque do Caxambú. Os estudos de época demonstram que a vazão de água a partir da captação direto do veio da rocha é muito maior do que brotando no solo naturalmente. Preocupava-se com a profundidade exata de perfuração do veio correto, já que uma mesma rocha poderia apresentar mais de um veio d`agua, como no caso da rocha do Parque de Lambary." (1)

O talento de Venâncio para a captação das nossas águas estava então confirmado. Ele não era versado somente em coisas da água - era multi-talentoso. Foi ele quem fez funcionar o primeiro telefone na povoação, em 31 de setembro de 1888, mais precisamente no casarão  da família Guedes. Costa Guedes organizou uma companhia tendo Venâncio como técnico.

Em 1903, juntamente com o capitão Nicolau Tabolar, ocupou-se da iluminação pública das ruas de Caxambu, que era  feita a gaz acetileno. Em 1912, estava ele de volta ocupado na captação da fonte Mayrink, (foto 2 e 3), cujas análises ficaram a cargo de Cezar Diogo e Esteves Assis (foto abaixo).


Homenagem ao Mérito


Em setembro de 1891, quando foi dado como encerrada a captação da fonte Leopoldina, os aquáticos, aqueles frequentadores assíduos da povoação, renderam-lhe homenagem presenteando-o com um cartão de ouro com o emblema da bandeira republicana cravejado de brilhantes com a seguinte inscrição: "A Venâncio da Rocha Figueiredo Junior, homenagem ao mérito, fonte magnésiana, os aquáticos de Caxambu". A solenidade a aconteceu no hotel da Empresa. Ah sim, esse mereceu e merece nossas homenagens.

Venâncio foi sepultado no cemitério paroquial de Caxambu, com todas as honras, acompanhado da Sociedade S. José, a loja maçônica local, a Confraternidade Mineira, da qual ele fazia parte. José Ribeiro Guedes, filho de José Maria Costa Guedes, lhe rendeu as últimas homenagens, relembrando sua biografia.

Homenagem póstuma 

Quatro anos após sua morte, em 1935, a Empresa procurava uma fonte capaz de produzir gás para o abastecimento dos banhos gasosos do balneário. O que mais poderia ser achado no parque além de...  água? Em 1936 fizeram sua captação definitiva e suas águas inundavam de saúde a piscina. Então acharam por bem homenagear Venâncio. Antes tarde do que nunca. Em 1943, é inaugurada a fonte Venâncio, tendo na ocasião discursado Floriano Lemos, médico, jornalista, que residiu em Caxambu, e foi um grande propagador das águas de Caxambu, e que empresta seu nome ao gêiser que jorra no parque.

Fotos:
Revista Fon-fon
Gumagüinhas Memórias de Águas de Lambary
Caxambu 1894-1905, Resumo de fatos administrativos da Freguesia e Vila de Caxambu, em torno de 16 de setembro de 1901, 1955.
Arquivo privado de José Pereira Dantas filho
 
Fontes:
(1) SILVA, Francislei Lima, in A Politica Hidráulica nas Estancias Balneárias de Águas Virtuosas de LEMOS, Maria de Lourdes, in Fontes e Encantos de Caxambu, 1998. Lambary e Baependy (Caxambu) em finais do século XIX e início do século XX, 2012.
Jornal do Comércio, 1892
Boletim do Grande Oriente do Brasil / Jornal Oficial da Maçonaria Brasileira 1871-1889
O País, Rio de Janeiro, 1911
Diário de Notícias do Rio de Janeiro, 1931.
Revista Fon-fon
Gumagüinhas Memórias de Águas Virtuosas de Lambary
PELUCIO, José Alberto, in Baependi e Caxambu 1894-1905, Resumo de fatos administrativos da Freguesia e Vila de Caxambu, em torno de 16 de setembro de 1901. (Palestra realizada no Rotary de Caxambu, em comemoração do aniversário da cidade), 1955.
Lemes, FLORIANO, in Caxambu: de Água Santa a Patrimonio Estadual. Fonte Floriano de Lemes, Vol, II, 2007.
 
Agradecimentos
José Pereira Dantas filho
A Julio Jeha, sempre

terça-feira, 23 de maio de 2023

sábado, 22 de abril de 2023

Os primeiros dentistas de Caxambu


E quem não conhece o mais famoso dentista do Brasil, Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, um dos líderes da Inconfidência Mineira? Mas tenho certeza que vocês não sabem quem foram os primeiros dentistas da povoação de Caxambu, ah, isso não. Então vamos a eles!

"Todos os serviços pertencentes à arte dentária, assim como chapas para endireitar deformidades de dentes, ou da abóbada platina, separação dos dentes, limpeza dos mesmos, etc, etc, tudo fará pelo preço mais razoável possível."

Esse foi o primeiro anúncio de um dentista na povoação das Águas de Caxambu, mas provavelmente o local já teria sido visitado por outros profissionais, ou melhor, por outros que, além de cortar cabelo, extraíam dentes, pois os primeiros a tratar dos dentes, antes dos dentistas, foram os... barbeiros.

A história da odontologia no Brasil

Em 17 de junho de 1782, a Coroa portuguesa promulgou uma lei para melhor fiscalizar as colônias e criou a Real Junta do Protomedicato. Para obter licença, os candidatos a dentistas, ou melhor, "pessoas que tirassem dentes", tinham que passar por uma comissão constituída de sete deputados, sim deputados!, médicos ou cirurgiões e obtinham a licença por três anos. Faculdade de odontologia? Qual! Os candidatos aprendiam o ofício com alguém mais experiente, trabalhando com o mestre por dois anos; depois eram submetidos a um exame perante o cirurgião de Minas Gerais e dois outros profissionais. Aprovados, eram-lhes concedidas as licenças.

Em 7 de outubro de 1809, é abolida a Real Junta do Protomedicato, e a responsabilidade de aprovação dos candidatos a arrancar dentes ficou a cargo do físico-mor e do cirurgião-mor, que exerciam o controle da medicina e da farmácia na província. Em 1828, dom Pedro I suprimiu o cargo de cirurgião-mor, e as funções passaram a ser exercidas pelas câmaras municipais e justiças ordinárias. Em 1850 estabeleceu-se a Junta de Higiene em substituição à fiscalização exercida pelas câmaras municipais, o que possibilitou o avanço das práticas medicinais. O decreto de 1879 que criou os cursos de odontologia determinava que esses ficassem anexos a faculdades de medicina e farmácia, obstetrícia e ginecologia. Dois anos mais tarde, outro decreto regulamentou os exames das faculdades de medicina. Os que se habilitavam para o exercício da profissão passariam por provas mais criteriosas, melhorando assim o atendimento aos pacientes.

Os dentistas em Caxambu

À medida que Caxambu foi ganhando fama, com a visita dos membros da Corte Real e a propalada cura da infertilidade da Princesa Izabel, vieram médicos e dentistas que atendiam  principalmente nos hotéis. Alguns deles demoravam um pouco mais, aproveitando a estação de águas e... tratando das bocas. Há registros de que, em 1884, Baependi havia concedido licenças para o exercício da profissão de dentista, arrecadando 50$000 réis para aos cofres municipais. Os dentistas em questão atuavam em Caxambu. Não podemos esquecer que a povoação estava administrativamente subordinada a Baependi. 

O primeiro a se instalar nas Águas do Caxambu, ou na Paróquia Nossa Senhora dos Remédios foi Joaquim Nunes de Moreira Paranhos que, em 1872, residia em São Vicente Ferraz, município de Aiuruoca, caminho alternativo da Estrada Real,  e fez um seguro de vida no Banco Rural Hipotecário, com sede no Rio de Janeiro, no valor de 1:500$000 reis. Ele tinha começado a exercer a profissão em 1867, portanto, tinha quase nove anos de prática dentária antes de se mudar para a povoação do Caxambu. Ele publicou anúncio no jornal O Baependiano em 1878, colocando-se  à disposição dos clientes como dentista. As razões de sua fixação na povoação foram mais pragmáticas: problemas de saúde causaram-lhe dificuldades para se locomover.

Pela descrição detalhada dos serviços que oferecia, parece que era mesmo um especialista habilitado com conhecimentos das últimas técnicas no tratamento das bocas. Alguns dos procedimentos e materiais empregados pelo dr Joaquim Nunes são usados até hoje na medicina dentária. Vejamos:

A colocação de dentes "em base de ouro" ficava por 10$000 cada um. Poderia ser também com base de vulcanite, um composto inventado em 1848 que combinava borracha com enxofre e que foi usado até 1940 para  confecção de próteses dentárias. Um pivô com esse material custava 5$000 reis. Já as obturações a base de amálgama custavam 2$000 cada dente, e as em ouro ficavam entre 5$000 e 15$000 réis. Restaurações a ouro: de 20 a 20$000. No anúncio lê-se que o profissional oferecia "Todos os serviços pertencentes à arte dentaria, assim como chapas para endireitar deformidades de dentes, ou da abobada platina, separação dos dentes, limpeza dos mesmo, etc, etc.: tudo para pelo preço mais razoável possível." 

Extrações de dentes ou de raízes custavam 2$000. E... as extrações "pelo sistema anestésico" a 2$ réis cada um. O que seria "sistema anestésico"? Cocaína, minha gente! A descoberta das propriedades anestésicas da cocaína pelo oftalmologista vienense Carl Köller em 1884 foi  um alívio para aqueles que tinham os seus dentes arrancados. Aplicada sobre a gengiva, produzia a insensibilidade. Esse procedimento também já era conhecido pelo nosso dentista e executado em sua práxis.

Além dos serviços profissionalíssimos acima, o dentista também oferecia aos seus clientes, hospedagem, comida e pasto para os animais, para aqueles que vinham de longe se tratar na povoação. Uau! Então era até bom negócio tratar dos dentes com ele. No ano de 1884, seu anúncio indicava que ele tinha fixado residência na freguesia vizinha de Conceição do Rio Verde.

Da feira de muares de Sorocaba para Caxambu

Mas os dentistas nem sempre fixavam residência como Joaquim Nunes. Uma parte deles fazia o seu trabalho itinerante. No início de maio de 1887, esteve em Caxambu José Carlos de Godoy Bueno, que se hospedou na casa do amigo Manoel Ferreira de Carvalho. Segundo ele, tinha prática de 22 anos de profissão, adquiridas em oito províncias do Império. De fato. O trabalho itinerante de Godoy se evidencia quando, no final de maio de 1885, portanto dois anos antes, estava registrado na Feira de Muares de Sorocaba, para onde convergiam comerciantes de animais vindos dos mais diferentes pontos do país. A feira era o grande acontecimento anual da região Sudeste e atraía todo tipo de profissionais itinerantes, fazendo visitas periódicas à população, principalmente nos meses de maior temporada. Faziam parte dos profissionais, além dos tocadores de instrumentos musicais, retratistas, relojoeiros e... dentistas, que proporcionavam os seus serviços aos que acompanhavam o movimento de tropas e tropeiros.
 
João Jacinto de Aguiar Borges consta no Almanach Sul-Mineiro, edição 1874-1884. Um outro dentista que consta no almanaque era João Jacques Doublé. Ele exercia múltiplas atividades. Era dono do bilhar e fabricava vinho; proprietário do Hotel Doublé, também exercia a profissão de... dentista. Vá saber! 

Parece que os hotéis de Caxambu serviam de base para que os dentistas atendessem os seus clientes. Assim, em novembro de 1887, o cirurgião-dentista José Martins de Oliveira Campos, residente na Corte, isto é, no Rio de Janeiro, em estada na povoação, publica um anúncio oferecendo os seus serviços, "attendendo a chamados por escripto". Ele volta à Caxambu em 1889 e se hospeda no mesmo hotel, o João Carlos, onde se dispunha a "recebe[r] chamados para fora", isto é, atendia clientes das localidades ao redor. Ele era especialista em obturações a ouro. O hotel João Carlos ficava situado de frente para a praça 16 de Setembro. 

Havia também outro candidato a dentista na cidade, Joaquim Juvêncio D'Assunção, que tinha acabado de se instalar no Hotel Ferreira, que, parece, tinha tradição de receber dentistas e seus clientes.

Em 1889, José Domingues Bastos põe anúncio jornal indicando também o Hotel Ferreira como lugar de sua práxis. Nascido no Rio de Janeiro, onde cursou medicina, foi concluir seus estudos na Escola de Farmácia de Ouro Preto. De passagem por Caxambu, ainda no início de sua carreira, Domingues Bastos oferece seus serviços como dentista. Ele também atendia em Baependi na casa da familia Motta.

E na vizinha Carmo de Minas...

Os cursos oficias de odontologia tiveram início imediatamente após o decreto de 1884, assinado por dom Pedro II, que criou condições legais para a institucionalização das práticas odontológicas. Em 1891, a Bahia deu início à sua, com instalação de laboratórios de cirurgia e próteses dentárias; em 1882,  já estava em funcionamento o curso, na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro; em outubro de 1898, a Escola de Odontologia de Porto Alegre; em 1901, São Paulo, e em 1904, foi fundada a Escola de Farmácia e Odontologia de Juiz de Fora. Interessantemente uma das primeiras escolas de Odontologia do Sul de Minas foi fundada em 1911, na vizinha Silvestre Ferraz, hoje Carmo de Minas.

Década  de 1930/1940

Com o passar dos anos, com as novas técnicas, o tratamento dentário foi se transformando e podemos acompanhar sua evolução, lendo os anúncios dos jornais. No início eram "extração", passando para "tratamento". 

Nas décadas de 1930-1940, estavam listados os seguintes dentistas na cidade: Humberto Maciel Fortes, um baependiense que residia e clinicava em Caxambu; Michel Jamal e Odilon Dias Leite. Do doutor Michel Jamal podemos dizer que era conhecido de nossa família. Seu consultório, em frente à igreja matriz, era o melhor lugar para assistir ao Descimento da Cruz na Sexta-feira da Paixão.
Lembra também Roberto Mendes Paiva que além do doutor Michel Jamal, que ele considerava excelente pessoa e fiel colega, também clinicaram na cidade o doutores Horácio, Nagib Abrahão, Ninam, todos eles das décadas de 40 e 50, José Felizalle, de Baependi, mas que tinha consultório em Caxambu. Cumprimentos a todos eles e... obrigado Roberto por nos ajudar a completar os nomes da nossa coleção de cidadãos que serviram a nossa cidade.
 
Fonte:
BADDINI, Cassia Maria in Sorocaba no Império: comércio de animais e desenvolvimento urbano.
Museu de História da Medicina do Rio Grande do Sul.
O Baependiano
Wikipédia
Núcleo de Pesquisas Histórias de Camaqua.
O Patriota
O Correio Paulistano, 1887
História da odontologia no Brasil, in SOERGS, Sindicato dos Odontolistas do Estado do Rio Grande do Sul.
Annuário de Minas Geraes: Estatistica, História, Chorographia, Finanças, Variedades, Biografia, Literatura e Indicações (MG), 1906 a 1913.
Drumont, Ivan, in Faculdade de Odontologia da UFMG faz 110 anos lapidando saúde e os sorrisos.
Foto: 
O Baependiano
Solange Ayres
Agradecimentos:
Julio Jeha, sempre

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2023

Rapataco, o rei Momo de Caxambu


Ninguém povoou mais as minhas lembranças nos carnavais que o rei Momo, encarnado pelo Rapataco, assim conhecido por raspar os tacos das casas. Tacos? Sim, eram pedaços de madeira usados nos pisos das casas de antigamente. Muitos ainda os têm em suas casas, relíquias de um tempo em que se raspava o taco para receber nova camada de cera de abelha, que depois era lustrado com escovão.
 
Quem tinha dinheiro fazia o polimento com enceradeiras elétricas, e quem tinha ainda mais dinheiro aplicava sinteco, que não precisava de polimento. 
 
Voltemos ao Rapataco, que brilhava nos carnavais.

Rei Momo

K

A origem do rei  Momo se encontra na mitologia grega. Ele era um personagem que encarnava a ironia e o escárnio. Foi adaptado para as festividades brasileiras na década de 1930, no Rio de Janeiro, tornando-se um símbolo do Carnaval. Ele abre as comemorações, quando o prefeito, em ato simbólico, entrega a ele a chave da cidade. 

Momo deveria ser encarnado, nos nossos carnavais, por um homem baixo e dono de uma pequena mas proeminente barriga. Deveria ser simpático, divertido e bem humorado. Rapataco encarnava o rei mitológico à perfeição.

Em Caxambu, o corso saía em frente da antiga marcenaria do seu Gino Peterle, na antiga rua Quintino Bocaúva, atual avenida Magalhães Pinto. Não me esqueço dele subindo no caminhão, ajudado pelos foliões, com toda a vestimenta de rei. O desfile o levava ao centro da cidade para abrir o Carnaval. Era a glória!
 
Rapataco foi homenageado, como não podia ser diferente, com uma marchinha no Carnaval de 1962. De autoria de Ferreira Sobrinho, cantava a profissão do rei Momo:
Rapa, rapa, rapa, 
Rapa, Rapataco, 
Rapa, rapa, rapa, 
Até fazer buraco!...

Agora, por favor, alguém aí sabe o nome do cidadão caxambuense... Rapataco?

E como o blog é interativo, acrescentamos o nome do nosso Momo, enviado pela bisneta Priscila Ferreira: Antonio Firmino Teixeira. Brigadim Priscilla!

Foto: 
Arquivo privado de Aurélio Gonçalves
Fotos Antigas de Caxambu
Agradecimentos:
A Julio Jeha, sempre

domingo, 15 de janeiro de 2023

Neide dos Santos Ayres/ Partiu para a casa das estrelas e vai fazer companhia aos seus, nossos ancestrais


Partiu na madrugada de domingo, 15 de janeiro de 2023, Neide dos Santos Ayres, esposa do também já falecido, Lindenberg dos Santos Ayres, conhecido como Berg.
Que Deus esteja com todos nós.
Foto:
Arquivo privado da Familia Ayres

sexta-feira, 9 de dezembro de 2022

Enchentes no Bengo desde muito e lá vai pedrada/ A liberta Thereza salva as galinhas do Hotel Caxambu



A pedido da Empresa da Águas Minerais Caxambu e Contendas em de 22 de julho de 1894 assina  o projeto o engenheiro civil João Martins da Silva, referente ao empedramento, isto é o calçamento das laterais do Ribeirão Bengo na área das fontes. Na época se tentava conter as águas que alagavam as fontes. Muito otimistas, escreviam: 3,25 Máxima enchente.

Mas fomos buscar lá atras, em 1882, quando uma de muitas tempestades causavam estragos na povoação, e até hoje parece que as devidas providencias não foram tomadas. Resolvi  copiar o texto original, que por si só já conta a história do "dilúvio" com detalhes.

Morte dos cinco carneiros/Peão acorda com água na cama 

"... Na referida noite a tempestade (de 6 para 7 de março ), que desencadeou-se com fúria das 11 horas às duas, produziu uma grande enchente no Ribeirão que corre pela povoação e desmoronamentos em quatro lugares do Morro do Caxambu, do lado da casa de banho e da estrada da Glória. A enchente foi tal que chegou alturas que haviam sido respeitadas pelas cheias precedentes. Penetrou na casa onde dormiam os carneiros do Sr. Ferraz proprietário do Hotel Caxambu e matou cinco.

Na casa da tropa, do mesmo cavalheiro, situado a quatro palmos acima do nível da rua que margea o rio, o arreador desta, de nome Theodoro, homem possante de alta estatura, acordou com a água na cama, e retirando-se para a casa, ter que passar pelo pátio inundado, com agua até a cintura. Na mesma margem do ribeirão, um agregado do Sr. Ferraz, João Guilherme, que morava em uma casinha do lado da Glória, acordou tão desagradavelmente surpreendido como Theodoro, com a água a invadir-lhe a casa e correr com a tanta impetuosidade que derribou uma das paredes, e arrancou um esteiro de um baldrame, que arrebatou, assim como os mantimentos, móveis do pobre homem. Com o auxílio de um hóspede que tinha em casa conseguiu salvar a mulher e os filhos.

Na margem opposta, do lado desta cidade a enchente derribou a cerca e a porteira do pasto do Sr. Ferraz, tendo uma força  tal que arrastou esta até o hotel do Sr. Dobley! Uma das pontes ultimamente feitas em frente a casa de banhos (Balneário) foi arrancada de seu lugar com vigas. A que fica em frente a cada de José Bonifácio na estrada da Conceição do Rio Verde, foi também suspensa dos pegões de pedra, e com algumas vigas rodou à alguma distancia, estando completamente pregada como estava no lugar sem o menor desmancho."

A Liberta Thereza sobe no poleiro e salva as galinhas do Hotel Caxambu

"Em frente da fazenda velha de Caxambu foi destruída completamente a ponte. Houve, segundo nos referem, um incidente quasi cômico no medo desta especie de cataclisma. A liberta Thereza, mulher de Theodoro, a qual habitava uma casinha situada no pasto e tinha a seu cargo uma criação de gallinhas do Hotel Caxambu, despertou ao rumor da chuva e saindo com louvável solicitude a recolher os pintainhos confiados aos seus cuidados, via a grande enchente que cobria a vargem e, com razão, aterrada, supondo com bom fundamento que outro dilúvio ia aniquilar a creação, procurou um lugar bastante elevado para erguido contra a onda assassina e... subiu no alto do poleiro das galinhas, donde poz-se a gritar por socorro!"

E o Repórter pergunta:

"- Continuarão os desmoronamentos do Caxambu? Si continuarem, não produzirão no banco de turba, em que estão as fontes, um alteamento bastante grande para prejudicá-las?
Pode-se remediar a um ou outro inconveniente? Como?

Questões que parecem-nos no caso de merecer a attenção dos que se interessam por nossas águas minerais, e que não são somente os habitantes deste município, mas todos os que sofrem e tem as milagrosas águas em especifico poderoso para suas moléstias são também os poderes públicos que devem cautelosamente zelar pela conservação de um tesouro tão preciso para a saúde das populações."

Hoje com as mudanças climáticas, o adensamento populacional, as inúmeras construções que impermeabilizam o solo, agravavam os efeitos das chuvas, que não teem outra saída que... alagar o em volta. Que a administração da prefeitura de Caxambu tenha propostas para tentar, digo, tentar conter a fúria das águas, porque o Bengo alaga desde antes de 1882, desde a minha infância, desde a  infância de Antonio Claret. E já vão tempos!

O texto do jornal foi publicado em março. Eram as águas de março fechando o verão, literalmente. E olha que o verão em Caxambu nem começou ainda!

Fonte:
Arquivo Público Mineiro
O Pharol, Juiz de Fora, 1882.
Agradecimentos:
Julio Jeha, sempre


quinta-feira, 27 de outubro de 2022

Arqueologia urbana/ S.A. Meca - Comércio e Indústria/Caxambu na era da geladeira e do rádio


Em 22 de abril de 1955, José Ayres foi enviado ao Departamento Frigidaire da General Motors do Brasil a São Caetano do Sul, São Paulo, para fazer um curso de refrigeração. Parece que a firma S.A. Meca – Comércio e Indústria, com loja na avenida Camilo Solares, 212/248, em Caxambu, tinha feito a inscrição dele no tal curso para depois ser eletricista e fazer reparos nas geladeiras, caso dessem defeito. A loja tinha dois endereços, talvez duas filiais em Caxambu, com representação temporária em Baependi, sendo  Miguel Donglache o diretor-presidente e Manuel Ruas Fernandes o diretor-tesoureiro.

A loja vendia não somente refrigeradores, mas também os mais modernos rádios, modelos de... 5 válvulas, que captavam "ondas curtas e longas", e que hoje ninguém sabe mais do que se trata. Em 1955 era o "aperfeiçoamento da técnica moderna". Mas meu pai não gostava de consertar rádio, nem refrigeradores. A bem dizer, ele detestava os pequenos trabalhos, gostava mesmo era de grandes projetos, como a construção de usinas nas fazendas da redondezas. 

Na conclusão do curso, a foto para a galeria.

José Ayres, segundo de óculos, na fila ao alto, da direita para a esquerda
em frente à fábrica da General Motor do Brasil
em São Caetano do Sul, São Paulo




Vou à Meca/ De brigas à futebol

E as histórias não acabam. E como o blog é interativo, estamos aqui acrescentando as memórias do nosso colaborador Antonio Claret Maciel Santos, que vira e mexe traz umas e outras. Conta Claret que na década de 60 não existia mais a "Meca", mas o prédio era lá onde hoje é a funerária. A Meca era conhecida dele como ponto de brigas entre alunos do  Ginásio dos Padres. Diz ele que assistiu "alguns embates previamente anunciados" como: "vou te esperar na Meca", e que de fato, aconteciam. O "Vou à Meca" era ir para a arena. Uau!

Dil Sacramento lembra da Meca, mas no tempo que outro inquilino ocupada o prédio, o "Bar Mutação". A Meca era um comércio próspero e farto. Logo acima do hotel União funcionava outro bom comércio de Caxambu, a "Casa Rosado". Outro que veio dar seu pitaco foi Roberto Mendes Paiva. Ele lembrou da agencia Chevrolet, onde vendia pianos, cujo dono era o senhor Dugleche, o mesmo dono da Meca. Já o Fabio Sarabion Machado lembra que perto da Meca ficava a casa onde residia a família do senhor José Olinto Aguiar, e ao lado um campinho de futebol, e quase semanalmente era frequentado: iam "jogar na Meca" contra o time do José Olinto que era composto por ele e os filhos. O Claudio Eduardo Gomes Nogueira lembra das... botinadas do José Olinto "para todo o lado". Ai, ai seu Olinto. Isto tudo porque achei um recibo da Meca, perdido nos meus guardados.
Obrigado a todos pela colaboração.

Foto:
Arquivo privado da família Ayres
Fonte:
O Patriota
Correio da Manhã, 1956

sábado, 15 de outubro de 2022

Elisa de Andrade/ A primeira professora da povoação do Caxambu/Memórias de uma educadora, tia do modernista Oswald de Andrade

Hoje vamos escrever uma pequena biografia da professora Elisa Noronha de Andrade. Primeira professora da povoação de Caxambu, Elisa fundou uma das primeiras escolas para meninas. O resgate de sua memórias teve início quando a minha tia Célia Ayres, a nossa biblioteca familiar, relatou que suas irmãs, as tias Mercedes Ayres/Soller, Palmira Ayres /Rodigues e Silvia Ayres/Diório, bem como os seus irmãos, os tios, Josino Ayres, Silvio Ayres, Samuel Ayres de Lima, Luiz Ayres de Lima e José Ayres, meu pai, aprenderam as primeiras letras com ela. 

A escola funcionava na casa de Elisa, onde morava com a irmã Olívia de Nogueira de Andrade (1863-1944). Era um casarão de muitas janelas, lembra tia Célia, num terreno livre que ia até o Bengo. "O casarao era compriiiido", acentuava. "Era como um casarão tipo fazenda. Tinha duas janelas, uma porta, mais duas janelas, uma porta. Os quartos da casa foram transformados em salas de aula. Quando se pedia um lugar para estudar, sempre tinha", relata. O prédio ficava na hoje rua Plínio Mota e foi demolido em data desconhecida. No local foi erguido o Mercado de Caxambu, que, infelizmente, tampouco existe mais (foto abaixo na posição marcada). Elisa era considerada por minha tia como a desbravadora no que diz respeito ao ensino na cidade. 

Neta de 5° grau de Thomé Rodrigues do Ó/ Uma moça toda de azul

Elisa de Andrade, a primogênita, nasceu em 9 de outubro de 1842, foi batizada em 20 de novembro na Igreja Matriz de Baependi, filha de Hypólito José de Andrade (1816-1906) e Antônia Nogueira Meireles (1822-?) Eles pertenciam à tradicional família dos Nogueiras e Meireles de Baependi, de origem paulistana. Seus bisavós vieram de São João del Rei, seus avós de quarto grau eram portugueses, e seu avô de 5° grau, Thomé Rodrigues do Ó (1674-1708), foi um dos fundadores de Baependi.

Elisa de Andrade estava nos seus dourados 23 anos quando participou das festividades da princesa Izabel em Caxambu e Baependi, em 15 de dezembro de 1868. Da festa de recepção soubemos até a cor do vestido que ela usava: azul! O vestido era de taranta muito fino, azul claro, com palmas de seda frouxa, decotado, com mangas curtas de filo, franzidas, debaixo de outras azuis, com três sobressaias, colar de contas azuis, uma presilha de fitas azuis nos cabelos, escreve Pelúcio, historiador de Baependi. O perfume, Mil Flores, parece que arrasou.

O sobrinho da Paulicéia desvairada conta tudo

O irmão de Elisa, José Oswaldo Nogueira de Andrade (1847-1919), foi pai de nada mais nada menos que Oswald de Souza Andrade (1890-1954). Sim, sim, o Oswald de Andrade, um dos organizadores da Semana da Arte Moderna, com Menotti Del Picchia, Mario Andrade e a pintora Tarsila do Amaral, com quem se casaria em 1926. Oswald, em sua biografia, O homem sem profissão, descreve a situação econômica e social da família e assim ficamos sabendo tudo, ou melhor, quase tudo, inclusive que a mãe de Elisa era "seca, velha de óculos e grande leitora", e o pai, "de barba branca, sem bigodes."

"A origem feudal de minha família paterna explica bem isso. Grande e afazendado em Baependi, Minas meu avô Hypólito José de Andrade tivera terríveis lutas com escravos. E arruinara-se, parece que em parte devido a uma tragédia de ciúmes, pois tendo ele tido uma aventura com D. Águeda, minha avó – uma autêntia Nogueira – abandonara toda a assistência que lhe dava nos trabalhos da fazenda e com isso o teria descontrolado."* 

De fato, as querelas jurídicas pela posse das fazendas Cachoeirinha e Glória vinham desde 1856 e contribuíram para a ruína da família. A disputa foi parar no jornal O Bapendiano em 1886. Em 1881 José Oswald Andrade, irmão de Elisa, já tinha deixado Baependi em direção a terras paulistas e seu avô Hypólito fora para Caxambu.

"Com a desgraça da família, meu avô tentara, inutilmente ser hoteleiro, auxiliado por toda a família, em Caxambu, que a cinco quilômetros de Baependi se abria como estação de águas. Contaram-me que o velho chorava humilhado, vendo as filhas servirem a mesa de hóspedes".* O agravante foi a desestruturação da economia, após a abolição da escravidão. Henrique Monat já escrevia no seu livro Caxambu, de 1894, no capítulo Baependi, que a cidade, motor econômico da região, estava em decadência.

A família do sobrinho, que ainda não era famoso, nos idos de 1900, passava estações de veraneio em Lambari, hospedando-se no Hotel Mello e, em Caxambu, na casa dos parentes, um casarão próximo à estação de trem, que, segundo ele, "dava para abrigar nós todos".

De fato, o endereço coincide com o avisamento do terreno, de 1873, com o mapa dos antigos lotes da povoação, assinada por Silvares (foto abaixo).

Localização da casa da família Andrade, em Caxambu; José Oswald Andrade
 irmão de Elisa (à direita e ao alto à direita com Inês Inglês, sua esposa e Oswaldo filho;
ao alto à esquerda, Inês Inglês Andrade

De chicote na mão/A triste herança escravista/Educação para uns, trabalho para muitos

"Meu pai (José Andrade Nogueira, irmão de Elisa) uma vez, querendo chicotear um negro, o Ambrósio, este o atacara de faca. Saltou adiante do homem. Tendo sofrido para mais de trinta golpes, apenas um o atingiu na mão. Era o sinal para uma revolta de escravos, logo abafada."* Essa violência era ordem do dia nas fazendas e senzalas da região de Baependi.

Assim começava a saga da família que passou a viver entre Minas e São Paulo. Antes de se mudar para São Paulo, o irmão de Elisa, José Nogueira de Andrade trabalhou como tropeiro, conduzindo tropas de burros através da serra do Picu, em direção ao Rio de Janeiro, acompanhado de escravos da propriedade da família. Quando a família foi à ruína, José Nogueira imigrou para São Paulo e hospedou-se na casa de sua irmã Alzira Nogueira, casada com Joaquim Augusto Nogueira. Em São Paulo, ele encontrou possibilidades de trabalho: transformou-se corretor de imóveis e levou o resto da família para morar lá. Chegou a ser vereador por São Paulo em quatro mandados, 1889 a 1914.

"... retiraram-se para São Paulo, deixando saudosos seus parentes e amigos, nossa conterrânea D. Antonia Eugênia de Meirelles Nogueira, esposa do nosso amigo o sr Hypólito de Andrade (e suas filhas DD. Maria e Oliva", noticiava O Baependiano em 1886. As tias, segundo escreve Oswaldo em sua biografia, trouxeram a encravaria que restava. E foi com o aluguel de escravos que a família se alimentou e se manteve por algum tempo. Essa renda contribuiu também para custear os estudos de Elisa, não tenhamos dúvidas.

"A família prosperou com grande escravaria negra, sendo que meu avô veio, por circunstâncias já referidas, a se arruinar e deixar o latifúndio."* A "grande escravaria" referida pertenceu à família desde os tempos do bisavô, o alferes José Gonçalves Penha (1776-1851), avô de Elisa. Nas listas nominativas de habitantes de 1838/40 para o distrito do Favacho, hoje Cruzília, ele possuía 38 cativos, um número considerável para a época. Os escravizados, surpreendentemente, eram a maioria da população 707 contra 504 livres.

Oswald descreve no poema da Colonização

a roça

Os cem negros da fazenda
comiam feijão e angu
Abóbora chicória e cambuquira
Pegavam uma roda de carro
Nos braços 

Elisa, a normalista

Elisa entrou tardiamente para a escola normal. Em um registro de 1883, noticiava O Baependiano que Elisa e seu cunhado, José Augusto Nogueira casado com sua tia Alzira Orminda, regressavam a São Paulo, onde residiam. Em 1884 era aprovada no exame de habilitação para a segunda cadeira de magistério pela escola normal de São Paulo. No ano seguinte os Andrades visitavam Caxambu e se hospedaram no Hotel Mitão, antiga propriedade da família. Como Elisa teria de voltar a frequentar o curso para se habilitar para o magistério público, retorna a São Paulo, em companhia de sua irmã Maria. No seu regresso à Caxambu, em 28 de março de 1888, já com o resultado da aprovação dos exames feitos em 27 de novembro de 1887, Elisa foi recebida com muita festa, fogos, com direito a discurso e banda de música coordenada pelo senhor Joaquim Pinto. Agora ela tinha a carta de professora normalista. Da sua turma, três foram aprovadas com "com distinção", três com "plenamente", sete (dentre elas Elisa) foram aprovadas "simplesmente" e uma, reprovada. Independentemente de sua classificação, a recepção tão festiva evidenciava o quanto a educação era importante para os seus familiares e para a sociedade. 

O Baependiano: "No domingo à noite chegou de S. Paulo, em companhia de seu pai nosso amigo, o Sr. Hypólito de Andrade, nossa estimável conterrânea D. Eliza Nogueira de Andrade, que, como em tempo noticiamos, com seu esforço e trabalho, dando um bello exemplo às moças, receber a carta de professora normalista pela escola normal daquela cidade". Segundo seu sobrinho modernista Oswald de Andrade, nenhum dos filhos homens de seu Hypolito teria tido educação escolar. Elisa foi exceção, chegando a ser professora aos 45 anos, bem dizendo, e repetindo, à custa do trabalho dos escravizados, agora libertos.

De Pirassununga para Caxambu

Elisa não iniciou sua carreira como professora em Caxambu, e sim no interior de São Paulo. Em 1889 ela constava como professora pública de Pirassununga. Fato é que havia vários sobrenomes Nogueira na cidade, e pode ter sido lá, com o apoio da família, que ela teria conseguido um lugar para lecionar. Em setembro do mesmo ano, solicita três meses de licença sem vencimentos, para tratamento de saúde, e em outubro solicita exoneração como professora municipal da segunda cadeira. Ela já devia estar contando com a nomeação para ser professora nas Minas Gerais.

Em 2 de junho de 1890, ela foi nomeada para ocupar a cadeira mista em Caxambu. Um requerimento datado de 1893 da Secretaria das Finanças de Minas Gerais questiona se a dita professora estaria exercendo seu trabalho na povoação. De fato, já estava. Em julho pediu prorrogação por três meses da licença concedida pelo inspetor municipal de Caxambu, onde exercia a segunda cadeira de instrução primária. Em 6 de outubro de 1896, como "ex-professora", pede para ser reintegrada na cadeira, É então nomeada por decreto para "o emprego de professora da cadeira mista da povoação de Caxambu, município de Baependi". Nos dois meses que esteve de licença fez um requerimento para o pagamento dos honorários, negado em 9 de janeiro de 1897.

Nessa época, Elisa, já de volta à Caxambu, e trabalhando como professora, viveria o sofrimento de seu irmão e cunhada, quando da perda de seu sobrinho, o Inglesinho, irmão de Oswald, que faleceu na povoação com um ano e meio, de gastroenterite, sendo sepultado no jazigo da família. 

Elisa deve ter participado nas muitas comemorações e saraus que aconteciam no casarão da família, ao som de valsas ao piano, quando da visita do irmão José Oswald, Inês Inglês, sua cunhada, e o sobrinho. O sobrinho, que ficaria famoso como escritor, descreve a convivência familiar e como os "causos" e histórias contadas na família de Minas fantasiavam sua cabeça de menino. Ele ouvia de tudo, caçadas perigosas, onças em cima das árvores e estórias de mulas-sem-cabeça. Do tio Luiz, ouvia narrativas de sua atribulada vida pessoal de crimes, das cabeças que rachou, fuzilamentos. Parece que o tio não era flor que se cheirasse. Ele se envolveu em confusões na Rede Ferroviária, onde trabalhava, resultando na sua prisão e na morte de sua mulher. Assim o sobrinho foi fazendo o seu arquivo, que reflete em sua obra literária. As estórias de escravos contadas nas rodas de conversas nas noites de serão não eram ficção, e sim triste realidade.

O Levante de Bela Cruz, que teve iniciou na fazenda Campo Alegre, ocasionou a morte de, entre outros, Gabriel Francisco de Andrade Junqueira, filho de Gabriel Francisco Junqueira, deputado nacional da província de Minas Gerais. A revolta de 13 de maio de 1833, liderado pelo escravo Ventura Mina, atingiu três fazendas da família Junqueira: Campo Alegre, Bela Cruz e Jardim, atuais municípios de Cruzília e São Thomé das Letras, no Sul de Minas. Morreram sete pessoas, a golpes de paus, machados, foice e arma de fogo. A reação contra os rebelados foi igualmente medonha. Nas entrevistas arquivadas no acervo do Laboratório de Imagem e Som da Universidade de São João del Rei, há o relato de Pedro Gonçalves da Rocha. Os escravizados rebeldes teriam sido mortos e suas cabeças fincadas em estacas, o que não foi confirmado. Sabe-se que 16 escravizados foram punidos, 12 com a forca. 

Tempo, tempo/O time de educadores da cidade de Caxambu no início do século

Em janeiro de 1910 é publicado no Minas Gerais que seriam mantidas as cadeiras regidas pelas professoras Elisa Nogueira de Andrade e Leovegilda América de Castilho. Quatro anos depois, consta que Elisa, aos 72 anos, ainda estava listada como professora estadual, com Leovegilda América de Castilho e as professoras adjuntas Maria Custódia de AndradeJudith de Castilho. O time de educadores da cidade era composto ainda pelo inspetor escolar Martinho Candido Vieira Licio, os docentes Alice Meyer de AndradeAmélia PhilomenaÁrgia Castilho, Luiza da Silveira G. Maciel, Maria Custódia de Andrade, João Mendes da Luz e José Arlindo de Carvalho. Havia também o Externato, cadastrado como instrução particular, dirigido pelo professor Edmundo Robert. Três irmãs pertencentes a família Castilho fizeram carreira como educadoras na cidade: Leovegilda, Judith e Árgia.

Nessa época, existia em Caxambu o Collegio N. S. d'Aparecida, escola normal; Collégio de Caxambu, para o sexo feminino, e o Collegio Mayer, dirigido por Alice Mayer de Andrade, o primeiro da povoação, somente para meninas, segundo Célia Ayres. Não pudemos identificar em qual das instituições Elisa lecionava. 

Em 1918 Elisa consta do Almanak como cadastrada da instrução pública. Uma década mais tarde, segundo descrição de tia Célia, Elisa "era uma velhatona gorda, alta, corpulenta, usava cabelos em coque, calçava meias e usava saia até os calcanhares, como as mulheres da época". Ah, sim, não podemos duvidar dos relatos. 

Outra instituição educacional é construída na cidade, em 1929, o Grupo Padre Correia de Almeida, cuja professora Árgia Castilho Moreira ainda do tempo de Elisa, se tornaria uma das primeiras professoras, encerrando o ciclo das pequenas instituições dedicadas à educação, quando construíram o Grupo Padre Correia de Almeida e o Colégio Normal Santa Terezinha.

No dia 30 de outubro de 1933, fazendo parte das comemorações do aniversário da padroeira da povoação Nossa Senhora dos Remédios, o Hotel Caxambu sediou as homenagens aos velhos mestres, com direito a "hora literária" e baile. As homenageadas: Elisa de Andrade, Leovegilda Castilho, Alice Mayer, coronel Marinho Lício, João Mendes da Luz e José Divino de Oliveira. A rua em frente ao hotel se encheu de caxambuenses para prestar homenagens aos seus educadores. Eram outros tempos.

Marco Zero/ Caxambu ficou só num rascunho?

Oswald esteve em Caxambu em 1942 e enviou um postal intitulado "Panorama parcial vendo-se no centro a Matriz" à Maria Antonieta D'Alkimin, relatando ter visto um espetáculo que contribuiria para a feitura de Marco Zero e comunicando viagem ao Rio de Janeiro. O cartão foi postado em 10 de outubro , um dia depois de sua tia Elisa completar 100 anos. O cartão suscita duas perguntas que não podemos responder: Viera ele participar das comemorações do centenário da tia? Teria ele visto algum espetáculo teatral em Caxambu que o inspiraria escrever alguma passagem do Marco Zero? O fato é que dos cinco volumes planejados para Marco Zero, somente dois foram publicados: A revolução melancólica e Chão. Talvez as suas impressões captadas na cidade (?), ou da peça teatral vista, ainda estejam rabiscadas num dos seus 80 cadernos de rascunho.

Escola Elisa de Andrade

Citarei um trecho de Marco Zero, de Oswald, e as dificuldades de ensinar na terra brasilis no início do século, que podia ser também em Caxambu:

"A escola era a descoberta. Naquela casa de muitas janelas era uma minúscula humanidade avançada penosamente. Eufrásia perguntava a si mesma de que servia aquela chave do mundo. Ensinava tantos Idalícios a ler. Eles não sairiam do charco. Faltavam diariamente às aulas. Ajudavam nos serviços de casa e da lavoura. Vinham e voltavam da escola sem comer. As mães detestavam-na porque lhe roubava os filhos, seus arrimos caseiros..."

Ato final

Mesmo vestindo azul na recepção à princesa Izabel, e no ponto mais alto de sua juventude, Elisa não teve nenhum pretendente à sua mão e assim não deixou descendentes. Talvez sua dedicação ao trabalho educacional a tivesse mantido jovem produzindo longevidade – Elisa faleceu 1 em outubro de 1944 aos 102 anos, em Caxambu, uma idade de Matuzalém para aquela geração. 

Passados seis anos do falecimento de Elisa, o político e médico Lisandro Carneiro Guimarães , chefe do centro de saúde da cidade, na administração de Renato Maurício Silva, e prefeito eleito para o mandato de 1947-50 pelo PSD quis homenagear uma das mais antigas professoras do Caxambu. Aquela professora que, com certeza, pegou nas mãos de meus antepassados para lhes ensinar as primeiras letras do alfabeto, agora era nome de escola. 

Em 16 de setembro de 1950 é inaugurada a Elisa de Andrade. O projeto teve muitos desdobramentos. Em 1960 funcionou como classes anexas ao Grupo Escolar Cabo Luiz de Queiroz, no bairro Caxambu Velho. Em 1963 houve um desmembramento, passando a ser Escolas Reunidas, com prédios no bairro Trançador e no Isolamento. Em 1964 as instalações do Trançador foram transformadas em grupo escolar, e devido a demanda por matrículas, novamente se separou, e as instalações escolares do prédio do Isolamento se tornaram o Grupo Escolar Presidente John Kennedy. Em 1997 o Elisa de Andrade foi municipalizado. Em 2001 a escola atendia 200 alunos do ensino fundamental alocados em oito salas de aulas. Hoje, em 2022, a Escola Elisa de Andrade, que funcionava na avenida Barão do Rio Branco, 699, no bairro Trançador, não existe mais como escola de alfabetização, mas funciona como um centro de profissionalização.

P.S.: Ah, me esqueci de dizer que, por causa da tia Célia, li quase toda obra de Oswald de Andrade em curto espaço de tempo, O homem em profissão, Os condenados, Memórias sentimentais de João Miramar e os dois volumes de Marco Zero...

Fonte:
O Baependiano
O Patriota
O Pirralho - SP (1911 a 1918)
O Correio Paulistano (1909-1919)
Correio da Manhã (1933)
Almanak Lemmert: Administrativo, Mercantil e Industrial (RJ)- 1891 a 1940.
Almanack da provincia de Sao Paulo: Administrativo, Commercial e Industrial (SP) 1884-1888)
Sentinela da Monarchia: orgam conservador (SP) - 1889
Correio Paulistano (SP) 1880 a 1888
OSWALD, Andrade. Um homem sem profissão: memórias e confissões, Sob as ordens de mamãe. Civilização Brasileira, 1976 (* todas as citações pertencem ao livro)
OSWALD, Andrade. Marco Zero: A revolução melancólica. Civilização Brasileira, 1978
OSWALD, Andrade. Os condenados, Civilização Brasileira.
Projeto Compartilhar
MONAT, Henrique. Caxambu, 1894
PELUCIO, José Alberto. Baependi, Visita Beija-mão , Te Deum. Baile - Nome de ruas - Uma fábrica- Recordações
Histórico da Escola Municipal Elisa de Andrade, ano de 2001/Centro de Memória da Camara Municipal de Caxambu.
Biblioteca do Exército. Excex
Foto: 
Secassox
Mapas fornecidos pelo Execex, Exército brasileiro
Câmara Municipal de São Paulo
Agradecimentos:
Ao Centro de Documentação e Memória da Câmara Municipal de Caxambu 
A Julio Jeha, sempre
Nota:
Não há como saber quem são os autores de alguns dos documentos publicados em nossas postagens, nem a quem pertencem os seus direitos autorais. Acolherei qualquer reivindicação dos detentores de seus direitos.