sábado, 17 de fevereiro de 2018

Barba, cabelo, bigode e sanguessugas / Uma barbearia do outro século



Se alguém olhar bem, reconhecerá este edifício situado, na Rua Teixeira Leal, próximo à Igreja Matriz de Caxambu. Neste prédio funcionou uma barbearia, onde meu tio Silvio Ayres de Lima trabalhou nos anos de 1970, bem como também o meu tio Josino Ayres. A foto aceitamos como se fosse um presente, presente de Zeca Rafide. E, o mais importante, o prédio ainda esta lá (façam uma visita virtual, cliquem aqui). Esta preciosidade nos inspirou a escrever mais uma história para o Blog.

Vamos dar um passo maior no passado, precisamente retroceder até o ano de 1888, quando Sabino Augusto Sancho abriu sua barbearia na povoação de Caxambu...

Cabelo, barba, lavagem de cabeça. Esses eram os serviços oferecidos pelo barbeiro recém-estabelecido na povoação. A sua "loja", como ele a nomeou, ficava próximo a rua do Hotel Caxambu (ele também ainda esta lá) e oferecia serviços aos seus clientes, que eram atendidos de diferentes formas. Ele não somente fazia barba e cabelo, como também aplicava... Bichas. Bichas? Sim, um verme anelídeo e hematófago. Hematófago? Sim, sugador de sangue, as sanguessugas. O verme é provido de duas ventosas e era utilizado como terapia médica no Brasil do século passado. As... bichas ou ventosas, eram conservadas na água e não eram "alimentadas" até que aparecesse um cliente ou paciente. Elas eram aplicadas sobre a pele para "extrair o excesso de sangue", ou melhor, depurar o sangue, terapia indicada para a cura de diversas doenças. Um corte de cabelo custava $500 reis, e era tão caro como tratamento de depuração do sangue.

Na definição do  Novo Dicionário da Língua Portuguesas, publicado em 1859, definia-se o barbeiro o que faz barba; (antigo) "sangrador", cirurgia pouco instruído que sangrava, deitava ventosas, sarjas, punha cáusticos e fazia operações cirúrgicas pouco importantes." As "cirurgias pouco importantes", significava que eles faziam também extrações dentárias.

Os barbeiros eram a maior parte dos que aplicaram a "terapia", como Sabino Sancho. Ele atendia não somente na sua loja, ou barbearia, como também a domicílio. Em sua maioria, os barbeiros do século passado eram pessoas que não tinham qualificação profissional, vindos de uma baixa condição social, mas se tratando de Sabino, parece que não era o caso, pois ele não só conseguiu alugar sua loja no centro da povoação, e que custava anualmente 12$000 Réis, segundo a Tabela de Impostos e Profissões dos anos de 1881, mas também publicar um anúncio tão "profissional" (ao lado) no jornal O Baependiano.

O trabalho de Sabino era facilitado, pois as tais "bichas" importadas da Europa, procedentes de Portugal, França, Itália e Alemanha (essas  últimas de Hamburgo, pareciam ser as melhores), eram vendidas na tipografia do jornal. Ui.










Fonte:
Botelho, Janaina in, Vendem-se bichas.
O Baependiano
História da Odontologia do Brasil, in SOERGS -  Sindicado dos Odontologistas no Estado do Rio Grande do Sul.
Foto:
Zeka Rafide
Agradecimentos: 
Nossos especiais agradecimentos à Zeka Rafide, que nos enviou esta preciosidade de foto e ajudou a contar as memórias da cidade.
Revisão:
Paulo Barcala

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