sábado, 24 de setembro de 2022

Oswald de Andrade/ Um aquático, autor do Manifesto do Pau Brasil e sua família em Caxambu

Oswald de Andrade, em Caxambu de 1911

"Quem era eu, o filho bem educado de D. Inês, o rapaz que tinha família em Caxambu o matriculado na Lógica do padre Sentroul e no Direito Romano do professor Porchat, para suportar aquele sopro de tempestade shakespeariana!" (passagem em que Oswald faz reflexões, ao se encontrar com a bailarina Isadora Duncan). (1)

Hoje o blog da família Ayres vai contar um pouco da história de Oswald de Andrade, isso mesmo, aquele que lançou o Manifesto Antropofágo, um dos idealizadores da Semana de Arte Moderna de 1922. Esta postagem teve origem num diálogo  entre nossa biblioteca familiar Celia Ayres, nascida exatamente em 22, data do manifesto. Ela me contou que suas irmãs, minhas tias, Mercedes Ayres/Soler, Palmira Ayres, Silvia Ayres/Diório e Maria Ayres/Rodrigues, bem como seus irmãos, meus tios Luiz Ayres de Lima,  Josino Ayres de Lima, Sílvio Ayres de Lima, Samuel Ayres de Lima e José Ayres, meu pai, tinham aprendido as primeiras letras com a professora Elisa de Andrade. Ah, pensei, vou escrever sobre a Elisa, que é nome de escola de Caxambu, e até porque seria uma forma de resgatar a história da escola. Foi aí que me deparei com a árvore genealógica da professora. Elisa era tia de Oswald de Andrade, romancista, poeta, dramaturgo filho único de José Oswald Nogueira de Andrade (1847-1919), um baependiense de Minas Gerais e Inês Henriqueta Inglês de Sousa/Andrade (-1912) uma amazonense de Óbidos, cuja família eram aristocratas de São Paulo. 




Oswald nasceu em 11 de janeiro de 1890, em São Paulo, e foi batizado em 6 de abril do mesmo ano na Igreja Matriz de Baependi, pelo seu avô Hypolito de Andrade e Nossa Senhora da Conceição. Assim Antonio Candido descreve em "Os dois Oswalds":

"... nunca deixava de mencionar por escrito ou em conversa, quando fosse o caso, que era descendente do Capitão-Mor Tomé Rodrigues do Ó, o fundador de Baependi no começo do século XVIII e tronco de uma importante família mineira depois alastrada por São Paulo e Rio, com marqueses, condes e barões do Império. Isso, do lado do pai, José Oswald Nogueira de Andrade".

Oswald se define:

O Baependiano,1888
 "Em Caxambu eu encontrava o panorama familiar. Ali tinha ficado o restante de minha gente paterna, os Nogueira de Andrade, de Baependi. Creio que foi o meu quinto avo, Tomé Rodrigues Nogueira do Ó, quem emigrou de São Paulo, no século XVIII. Ele era casado com uma Leme, o que me fazia passar para o rol dos descendentes dos vicentinos desembarcados nos primórdios da descoberta. Era assim que eu me incluía entre os paulistas de quatrocentos anos e figurava no volume genealógico do racista Silva Leme."(2)

Oswald pertenceu ao Grupo dos Cinco, com  Anita Malfatti, Menotti Del Picchia, Mario de Andrade e Tarsila do Amaral, com quem se casaria, em 1926. Eles influenciaram o movimento da arte moderna no Brasil e  organizaram a Semana da Arte Moderna em 1922. Um quadro dado a Oswald no seu aniversário, e nomeado Abaporu (1928), que significa "o homem que come", inspirou o famoso Manifesto Antropófago, que convocava os artistas brasileiros a criarem obras de inspiração nacional. No manifesto, Oswald chamava os artistas brasileiros a libertarem-se das referências   européias e a criarem o seu próprio estilo. 

Nos finais dos anos de 1880, seu avô Hypolito foi levado à ruína financeira, não somente pelas disputas de terras da fazenda entre familiares, bem como pela crise geral gerada pelo fim da escravidão. Henrique Monat, no seu livro Caxambu, de 1894, escrevia que Baependi, centro econômico e político da região, entrara em decadência. O próprio Oswald escreve em suas memórias:

"A origem feudal de minha família paterna explica bem isso. Grande e afazendado em Baependi, Minas, meu avô Hipolito José de Andrade tivera terríveis lutas com escravos. E arruinara-se, parece que em parte devido a uma tragédia de ciúmes, pois tendo ele tido uma aventura com D. Agueda, minha avó - uma autêntica Nogueira - abandonara toda a assistência que lhe dava nos trabalhos da fazenda e com isso o teria descontrolado."(2) De fato, as querelas jurídicas pela posse das fazendas Chachoreirinha e Glória  vinham desde de 1856, e contribuíram para a ruína da família. A disputa foi parar no Jornal O Bapendiano, em 1886. Quatro anos antes o pai José Oswald Andrade deixa, Baependi e aporta em terras paulistas.

O pai, um baependiense, ex-tropeiro, corretor de imóveis, vereador, na paulicéia, que ainda não era desvairada

Acima o mapa de 1873, da localização da propriedade dos Nogueira, em
Caxambu; ao alto à esquerda Inês Inglês Andrade; abaixo à direita José
Oswald Nogueira de Andrade; abaixo à esquerda a família Nogueira de 
Andrade, Oswald com seus pais, acima à direita, outros membros da
família não identificados.

No "Manifesto Pau Brasil" publicado, em 1925, Oswald da forma poética às transformações na vida de seu pai, ao mudar-se para a capital paulista.

A transação

O fazendeiro criara filhos
Escravos escravas
Nos terreiros de pitangas e jabuticabas
Mas um dia trocou
O outro de carne preta e musculosa
As gabirobas e os coqueiros
Os monjolos e os bois
Por terras imaginárias
Onde nasceria a lavoura verde do café.

"Com a ruína de minha família paterna, afazendada em Minas, meu pai viera tentar a vida aqui. Um cunhado lhe dera uma passagem de presente. Como na fazenda de outro cunhado em que morava, tinha criado cinco galinhas, vendeu-as realizando a soma de cinco-mil-réis. (...) Hospedou-se em casa de tio Nogueira, casado com sua irmã Alzira. E encontrando em São Paulo ambiente para trabalhar, fez mudar o resto da família para cá. " (3)

Não tive a pretensão de  escrever sobre Oswald e sua carreira como escritor e jornalista, e sim sobre as suas origens, suas raízes nas Minas Gerais. Afinal, algum tempo de sua infância foi passada na fazenda de seus familiares, em Baependi, e na estâncias   hidrominerais de Caxambu, onde seus avós moravam, e Lambari.

O filho partiu em 1881 para São Paulo, e o resto da família o acompanhou. O jornal O Baependiano noticia em 1889: "... retiraram-se para São Paulo, deixando saudosos seus parentes e amigos, nossa conterrânea D. Antonia Eugenia de Meirelles Nogueira, esposa do nosso amigo o sr Hypolito de Andrade ( e suas filhas DD. Maria e Oliva." As tias, segundo escreve Oswald em sua biografia, trouxeram a encravaria que restava. E foi com o aluguel de escravos que a família se alimentou e manteve por algum tempo. A herança escravista era de seu bisavô José Gonçalves Penha que possuía, segundo as listas nominativas de habitantes de 1838/40 para o distrito do Favacho, hoje Cruzília, um número considerável de escravos, 38. Antes de se mudar para São Paulo, o pai de Oswald trabalhou como tropeiro, conduzindo tropas de burros através da Serra do Picu, na direção do Rio de Janeiro, acompanhado de escravos da propriedade da família.

Seu pai fez carreira profissional e política em São Paulo, sendo eleito vereador para quatro mandatos, entre 1899 e 1914, e onde trabalhava como corretor de imóveis do desembargador Marcos Antônio Rodrigues, quando recebeu aos 40 anos, uma proposta singular, casar com sua filha Inês 

"Quase pedido em casamento, Seu Andrade apareceu à minha mãe pela primeira vez, através de um buraco de fechadura. E pareceu-lhe elegante, se bem que não tivesse feito a barba. E foi assim que, da apresentação à intimidade, ele se tornou o esposo de D. Inês ." (4)

A aristocrata amazonense Inês Henrique Inglês, agora assinando Andrade, esteve em visita pela primeira vez à cidade de Baependi, em 1889, e ganhou a simpatia da família. Era, segundo o jornal O Baependiano, "distinta senhora, que como todas as que possuem alta educação, reúne a amabilidade e a delicadeza à simplicidade do trato." Dela o filho ouvia histórias de sucuris, onças, de jacarés e de quando aprendeu a nadar, ainda criança, nas águas do rio Amazonas. Os "causos" contados na família de Minas vinham do pai, que fantasiava a cabeça do menino ainda mais, com caçadas perigosas, onças em cima das árvores. Das criadas, das tias Maria, Elisa, Oliva e Izabel e dos primos, vinha o imaginário de sacis, assombrações,  mulas-sem-cabeça. Do tio Luiz, ouvia narrativas de sua atribulada vida pessoal de crimes, as cabeças que rachou, fuzilamentos. Este se envolveu em uma confusão na rede ferroviária onde trabalhava, resultando na sua prisão e na morte de sua mulher. As histórias de escravos contadas nas rodas de conversas da família não eram fantasias e sim triste realidade. 

O Levante

O Levante de Bela Cruz, que teve início na fazenda Campo Alegre, ocasionou a morte de, entre outros, Gabriel Francisco de Andrade Junqueira, filho de Gabriel Francisco Junqueira, deputado nacional da província de Minas Gerais. A revolta do dia 13 de maio de 1833, liderado pelo escravo Ventura Mina, atingiu três fazendas da família Junqueira: Campo Alegre, Bela Cruz e Jardim, atuais municípios de Cruzília e São Thomé das Letras, no sul de Minas Gerais, quando morreram sete pessoas, utilizando paus, machados, foice e arma de fogo. A reação  contra os escravos rebelados foi igualmente medonha. Nas entrevistas arquivadas do acervo de Laboratório de Imagem e Som da Universidade de São João del-Rei, há o relato de Pedro Gonçalves da Rocha. Os escravos rebelados teriam sido mortos e suas cabeças colocadas em estacas, o que não foi confirmado.  Sabe-se que 16 escravizados foram punidos, 12  com a forca. Passada de geração para geração, esta foi a história foi usada por Oswald, em 1925, num poema. 

Levante
Contam que houve uma porção de enforcados
E as caveiras espetadas nos postes
Da fazenda desabitada
No vento do mato

Marcos Andrade, o Inglesinho

"Soube cedo que era filho único que perdera um irmãozinho que não me lembro de ter conhecido. Que meus pais, particularmente mamãe, rezavam muito a deus e faziam promessas aos santos de sua devoção."(5)

Certidão de óbito de Marcos de Andrade, o Inglesinho

O irmão de Oswald Marcos Inglês Andrade nasceu em 1891, em São Paulo, e faleceu de gastroenterite com um ano e três meses, na casa de seus avós, em Caxambu, em 1° de agosto de 1892.  "Aí falecera meu irmãozinho de dois anos - o Inglesinho" (6), escreve Oswald. A família devia estar de visita aos parentes na povoação, como sempre fazia, e foi atingida pelo infortúnio. Outro golpe foi ter sido sepultado no cemitério, praticamente um pasto, como descreve Henrique Monat no seu livro Caxambu, de 1894. Provavelmente o local não difere da visão que a família teve ao enterrar o pequeno Inglesinho, no jazigo da família Nogueira.

"(...) era um simples cerrado de taipa num pasto, onde se viam umas cruzes toscas; não havia uma inscripção, um símbolo, que despertasse um sentimento piedoso ao transeunte, que lhe faltasse ao coração, que lembrasse uma dor; uma saudade, que o tornasse sagrado para quem já errou uma lágrima por um ente querido. À distância viam-se umas elevações, que se suporiam mausoléus, eram casas de cupim. A história desse sumidouro de carne humana cifra-se na intolerância cruel, anti-cristã ." (6) 

Certidão de óbito de Hypolito José de Andrade, 1906

No cemitério de Caxambu foi sepultado também seu avô, Hypolito de Andrade, falecido em 6 de abril de 1906, "vítima de um ettheroma generalizado", já na condição de viúvo. Fui pedir ajuda à doutora cardiologista Izabela Guedes para traduzir a linguagem médica do século passado, que me esclareceu: um alteroesclerose. Sem ajuda, sim, sim, as pesquisas não andariam.

Assim nos conta Oswald: "Meus avós paternos tinham falecido e estavam enterrados com meu irmãozinho no túmulo familiar de Caxambu."(8)

A casa de seus avós/Saraus, valsas no piano, passeios no bosque do Parque das Águas e nas encostas do Morro de Caxambu.

Em 1911, Oswald veio visitar a família, pouco antes de partir para a Europa, em fevereiro de 1912, data da foto ao alto. Seus avós moravam na cidade de Caxambu, onde suas tias gerenciaram um hotel da família. 

A avó é assim descrita por ele: "Tenho uma vaga lembrança de minha avó, seca, velha, de óculos e grande leitora. Aliás, atribui-se a ela a origem do nome Oswald, sem o o final. Teria lido Corinne de Stäel, quase sua contemporânea, o que me parece espantoso no fundo provinciano de Minas Gerais."(9)

Do avô Hipolito José de Andrade escreve: "Conheci meu avô de barba branca, sem bigodes, nessa época em Caxambu. (...) Com a desgraça  da família, meu avô tenta inútilmente ser hoteleiro, auxiliado por toda a família, em Caxambu, que a cinco quilômetros de Baependi se cria como estação de águas. Contaram-me que o velho chorava humilhado vendo as filhas servirem a mesa de hóspedes." (10)

Tudo leva a crer que se trata do Hotel Mitão,  aforado no jornal O Bapendiano, em 1888, construído nos terrenos 1, 2, 3 e 4 constado na planta de Saturnino da Veiga (acima), do ano de 1873, considerado "muito sossegado, próprio para famílias e doentes mais frequentado pelos provincianos" segundo os jornais do Rio de Janeiro. Nos lotes 3 e 4 fora construído o Hotel Mitão, e constava que estava ocupado pelo Hypolito. Ficava perto da Estação Ferroviária, exatamente como cita Oswald. 

"O casarão de Caxambu era próximo a Estação (ferroviária) e dava para abrigar todos nós. O ambiente familiar era de saraus. Havia um bisonho tocador de valsas ao piano, chamado Seu Minas que fazia rogar. - Ora, Seu Minas toque! Toque Seu Minas! - Ele torcia o nariz deformado e negativo e era preciso que as moças  todas o assaltassem, para vir sentar-se, sorridente e esquálido, ao banquinho diante do teclado. Eu tinha primas e primos. Passeávamos no quintal e no bosque da Estação das Águas, na encosta do morro que tendo a forma de um tambor bárbaro - Caxambu,- dera o nome à cidade."(11)

Assim vamos conhecer um pouco do bosque da época em que o menino Oswaldo, junto com os primos  e primas iam fazer suas caminhadas pela mata, descrito no livro de Henrique Monat, Caxambu editado em  1894, 

"O bosque, passeio muito apreciável, principalmente nas horas mais quentes do dia, está situado na fralda do morro: uma rua, apenas, o separa do parque. Por um caminho largo, sombreado sempre contorna-se todo o lado leste de Caxambu, gozando de uma deliciosa temperatura. Attrappe a attenção do visitante a grande variedade de lianas, fetos, avencas, que dariam alguns trechos aspecto muito pitoresco". (12)

Num relato, podemos deduzir que Oswaldo passou por Caxambu, em 1912, após voltar da Europa. Estava acompanhado somente do pai, pois sua mãe havia a pouco falecido, e de sua companheira francesa que tinha o apelido de Kamiá, foram fazer estação de águas, em Lambari, que com certeza era mais aprazível que Caxambu, que tinha acabado de iniciar as obras de embelezamento do centro da cidade.

O aquático Oswaldo nas estações de água em Lambari



"Na primeira viagem que fizemos a Lambari, lembro-me da chegada do trem, no começo da noite, sob um penacho de fagulhas, sobre um barranco de onde embaixo, se descortinava o Hotel Melo. Desembarcados, minha mãe incumbiu um garção alto a me levar até o Parque, onde havia a fonte de água mineral, ainda aberta. A água jazia num poço, e recinto fechado. Atirava-se uma caçamba de prata, a recolhiam e enchiam-se os copos de asas. Foi para mim um deslumbramento."(15)

Nas fotografias podemos ver os passeios organizados pelos proprietários do Hotel Melo, no qual a família Andrade ficava hospedada, que incluía piniques, passeios de charretes e a cavalos pelos arredores. 

"Nos dias subsequentes, levei meia dúzia de tombos de cavalo manso e aprendi a montar. Meu pai, na sua velha saudade do mato, levava-me por atalhos, morros e caminhos perdidos, onde havia rastro de onça. Eu  admirava de sua calma e o seguia sem medo. Voltávamos ao hotel. Esplêndida Lambari na manhã de cristal. Um carro de bois cantava nas ruas, exprimindo a alma do vilarejo rústico entre hotéis, montanhas e cruzeiros."(16)

De fato, na primeira década de 1900, Lambari (fotos acima) estava muito mais organizada do que Caxambu, com a construção do Cassino e o lago. A chegada dos trilhos da Estrada de Ferro Sul Mineira, em 1894, facilitou o deslocamento dos aquáticos até a estância. Há muito mais fotos e propagandas nas páginas da revista Fon-fon de Lambari que Caxambu, que só se tornou aprazível com as reformas urbanas na administração de Camilo Soares, iniciadas em 1912. Em Lambari Oswald e sua família apeavam na Parada Mello onde ficavam hospedados no Hotel Mello cujos proprietários eram amigos da família. Em correspondências trocadas, em 1913, eram feitas encomendas de polvilho, queijos, canjiquinha, fubá e... "água do Lambari, fonte gasosa da mais forte". Mas não somente. Oitocentas cabeças de gado foram vendidas à empresa Mello e Cia, provenientes de uma herança recebida da mãe de Oswald. Negócios, negócios...

Os hóspedes participavam de excursões pelos arredores, organizados pelo hotel (foto 4). Na vida adulta frequentou também a cidade de Poços de Caldas, onde fez "estação de águas" junto com Maria Antonia Alkimin sua esposa. De 1911, achamos a propaganda publicada no jornal O Pirralho, editado em São Paulo e de sua propriedade. A afirmação no anúncio de que Águas minerais de Lambary e Cambuquira "As melhores até hoje conhecidas", bem... acreditamos que ele não havia provado direito das águas do Caxambu...

O Pirralho

"Meus problemas pessoais se tinham subitamente complicado. Junto a mim restava um velho choroso que só falava em D. Inês, eu trouxera comigo uma moça de Paris, Kamiá. Tendo desaparecido minha mãe, como abandoná-lo? Resolvemos ir juntos para uma estação de águas. A velha e gorda francesa Alice, mulher do tio Guilherme, veio resolver a situação criada ante os preconceitos ambientes. O casal de tios nos acompanhou a Lambari, passando Kamiá por sobrinha de tia Alice."(13)

Em outra passagem, cita que o casal Guilherme e Alice se radicou, em Caxambu, depois de uma vida uma agitada na cidade de São Paulo. "Uma figura curiosa da família era o tio Guilherme, retirado naqueles ermos, depois de agitada mocidade em São Paulo, onde, ligado aos meios acadêmicos, fora grande e celebrado boêmio e parece que verificador. Casado com uma francesa, tia Alice, que conheci gorda e velhota, mas devia ter sido elegante e bonita."(14)

Marco Zero/ Caxambu talvez ficou só num rascunho

Em 1942, Oswald esteve em Caxambu e enviou um postal intitulado "Panorama parcial vendo-se no centro a Matriz" a Maria Antonieta D`Alkimin, relatando ter visto um espetáculo que contribuiria para a feitura de "Marco Zero", e comunicando viagem ao Rio de Janeiro. O cartão foi enviado de Caxambu em 10 de outubro de 1942, muito próximo à data, 9 de outubro, dia em que sua tia Elisa Nogueira de Andrade completou 100 anos. O cartão suscita duas perguntas que não podemos responder: -Veio ele participar das comemorações de aniversário da tia? -Teria ele visto algum espetáculo teatral em Caxambu que o inspiraria escrever alguma passagem do Marco Zero? O fato é que dos cinco volumes planejados, somente dois foram publicados: A revolução Melancólica e Chão. Talvez as suas impressões captadas na cidade (?), ou da peça  teatral encenada, ainda estão rabiscadas em algum dos seus 80 cadernos de rascunhos.

Sinais dos tempos. "A nossa geração integrara-se na consciência capitalista que gelara os velhos sentimentos da gente brasileira. Nos mantivemos, primos e primas, cautelosamente afastados, senão hostis, vagamente nos encontrando nos enterros da família e sabendo por travessas vias, de doenças, partos e transações. Nossos pais vinham do patriarcado rural e nós inauguramos a era da indústria." (17)

Oswaldo faleceu em 22 de outubro de 1954, às 14 horas, vítima de hipertensão arterial e insuficiência cardíaca. Foi sepultado no cemitério da Consolação, São Paulo. Deixou uma vasta obra e seu lugar na história  cultural e política de São Paulo e do Brasil. E relembrando, Oswald foi um dos muitos aquáticos que passaram por Caxambu.
 
Fonte:
O Baependiano
O Patriota
O Pirralho- SP (1911 a 1918)
O Correio Paulistano (1909 -1919)
ANDRADE, Oswald in Um Homem Sem Profissão, sob as ordens de mamãe, Obras Completas, 1976.  Citações:(1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8 ,9 ,10 ,11 ,13 ,14 ,15 ,16, 17)
A vida em mi belmol (1890-1919)
ANDRADE, Oswald in Memórias sentimentais João Miramar
ANDRADE, Oswald in Serafim Ponte Grande
ANDRADE, Oswald in Os Condenados
Andrade, Oswald in O Perfeito Cozinheiro das Almas Deste Mundo
Monat, Henrique in Caxambu, 1894 (12)
Projeto Compartilhar/Inventários
Revista Fon Fon
O salão e selva - Unicamp
Biblioteca do Exército
Família Search
Guimaguinhas. prosaeverso - Memórias familiares e de minha terra natal
Arquivos do Exército, Excex.
Foto: 
Museu Américo Werneck, Acervo de André Gesuldi
Agradecimentos:
Julio Jeha, sempre
Nota:
Alguns documentos iconográficos publicados em nossas postagens, não há como saber quem são seus autores, nem a quem pertencem os direitos autorais. Acolherei qualquer reivindicação dos detentores de seus direitos.


sábado, 17 de setembro de 2022

Graça Pereira Silveira, agora uma cidadã portuguesa/ Valeu vô Ramiro, valeu!


Em 17 de junho de 1889, embarcou Ramiro Rodrigues no porto de Lisboa. Seria a última vez que ele veria Portugal...

Dos 56 passageiros que embarcaram em Havre, um era angolano e dois italianos. Os que embarcaram em Lisboa eram portugueses com diferentes idades. Na lista de passageiros constam 36 do sexo masculino, sendo 11 crianças, a maioria delas acompanhada dos pais, com exceção de Ramiro; 17 do sexo feminino, sendo três meninas. Uma família vinha da Ilha das Flores, pertencente ao arquipélago de Açores. Dentre as profissões declaradas, eram "jornaleiros", isto é, diaristas e "menagerie", traduzido como pessoas que trabalhavam com animais, ou pastores. Todos com certeza venderam o que tinham para comprar um bilhete e transpor o oceano em busca de uma nova vida no Brasil.

E Ramiro? Passageiro de primeira classe? Segunda? Terceira? Como eram anunciados nos bilhetes? Porque quem viajava na primeira pagou de Portugal, 450 francos, e os que viajaram de terceira, 80 francos. Ramiro não pagou nada. Ele teria embarcado clandestino indo trabalhar na cozinha como descascador de batatas. Assim era contado na família. Devia ser para pagar a passagem. A primeira vez que viu terras brasileiras foi quando o navio ancorou no lamarão do Porto de Recife, Pernambuco  no dia 7 de julho.

Ramiro Rodrigues nascido às três horas da manhã do dia 7 de julho de 1877, em Santa Maria dos Sepilhos, Conselho de Amarante, Portugal, filho de Joaquim Rodrigues e Maria de Jesus, profissão "jornaleiros", aqui, diaristas, seguiu em parte a profissão de seus pais: lavrador. Ele passou a assinar no Brasil o sobrenome "de Freitas". Ainda não achamos registros comprovando que seus familiares tivessem esse sobrenome. Ele embarcou cheio de esperanças, assim como milhares de imigrantes, a procura de uma vida melhor. O que encontrou foi uma vida de duro trabalho na hidrópolis Caxambu, no inicio do século, ajudando a embelezar o Parque das Águas como jardineiro.


Ramiro casou-se aos 23 anos com Maria Ayres de Lima e, nove meses depois já era pai de Etelvina. Ao todo, o casal teve 11 filhos, cinco dos quais não chegaram à vida adulta. Izabel (1901-1903) faleceu em consequência de queimaduras aos três anos; Joaquim (1911-1913) faleceu aos dois anos de gripe intestinal; Laura (1913-1915) aos dois anos de pneumonia; José (1916-1921), de Laringite estridulosa aos 4 anos; Haroldo (1922-1923) com um ano, de meningite. Sobrevieram Etelvina Rodrigues (1898-?); Maria Izabel (1906-?); Geralda Rodrigues (1908-?); Romeu Rodrigues (1918-?); Luiza Rodrigues (1918-?) e Agnelo Rodrigues (1920-?).

Ramiro não sabia oque ele poderia estar proporcionando ao seus descendentes.
Graça Pereira Silveira, sua neta, em 16 de dezembro de 2022 se tornou cidadã  portuguesa. Não precisamos dizer mais nada, só agradecer. Valeu a viagem até o Brasil, valeu! 
Fotos:
Graça Pereira Silveira no Consulado Português recebendo sua cidadania.
Arquivo privado da família Ayres/Silveira Pereira. 

terça-feira, 13 de setembro de 2022

Alberto Pires Ribeiro, o primeiro morador oficial de Caxambu /Na pista dos primeiros caxambuenses/ Parte 1




Quem foram os primeiros caxambuenses? Ih, a história do povoamento de Caxambu é antiga, e começa por volta dos anos de 1700, quando os bandeirantes  paulistas se embrenharam sertão adentro a procura de ouro e pedras preciosas. Mas para contar a história toda, vamos pedir ajuda a outros historiadores que fizeram seus registros, como o baependiense Pelucio e o reverendo José do Patrocínio Lefort, guardião dos documentos eclesiásticos da cidade de Campanha. 

O primeiro registro oficial, onde foi citada a localidade "Caxambu", está no livro de lançamentos de impostos da Delegacia Fiscal da Comarca de São João del-Rei, relativo ao ano de 1715, do contribuinte de Baependi Alberto Pires "morador no Caxambu com quatro escravos"(1). O nome vem novamente aparecer Alberto Pires Ribeiro nos lançamentos dos impostos do triênio de 1717, 1718 e 1720, "após o nome de Anselmo Fernandes, este morador de Baependi" (Lefort).

Antes deste registro, existiu outro, um requerimento de Carlos Pedroso da Silveira que recebeu  uma sesmaria "na paragem do Caxambu", em parceria com seu genro Francisco Alves Correia, em 30 de setembro de 1706, que já fizemos menção no "Morte no Sertão/ Na pista dos primeiros Caxambuenses"

Vi o posto de abastecimento de víveres. Uma construção de adobe, com barrotes de palmeiras, amarradas com cipó à moda de peia, cobertura baixa de telhas feitas. Portas baixas de tronco de aroeira, formam o umbral e janelas abertas á guisa de clarabóia e apoio para prosa. Na frente junto ao tronco central, o local para o arreame das mulas. Água para os animais ficava no cocho de tronco escavado a machado e fogo pelas mão de escravos. O cheiro de couro das matulas sendo abastecidas impregando o ar, robustecido pelo cheiro de lenha queimada no pequeno fogão de barro de cupim... (1)

O primeiro caxambuense

Então o primeiro caxambuense, ou pelo menos o primeiro morador documentado foi Alberto Pires Ribeiro , que era filho de Francisco Alvares Correia e Maria Bicudo e foi casado com Lucrécia Leme. Todos esses nomes e sobrenomes são conhecidos nos livros da Genealogia Paulistana, mas também nos registros eclesiais de Baependi. Abaixo duas certidões de batismo de 1732, transcritas por Pelúcio e nela os nomes e lugares.



Há outros documentos que comprovam a ocupação do lugar. A 1° de janeiro de 1728, foi passada a sesmaria a Sebastião Fernandes Correa, "assistente no caminho velho... no ribeirão que corre por detrás do morro do Caxambu". Sebastião era casado com Ana Veloso.

De fato, há registros nos arquivos eclesiais de Baependi de Sebastião Fernandes Correa e sua mulher Guiomar Pires, (!!!!) quando batizou sua filha Ines, em 12 de abril de 1725, sendo os padrinhos Luiz da Silva e Lucrécia Leme.
Seguem outros assentamentos nos livros paroquiais de Baependi como "povoadores do Caxambu".

Em 1730 Manoel Arruda casado com Mecia de Toledo, a viuva Ana Moreira;
Em 1731 Joao de Vasconcelos, casado com Maria Leme do Prado;
Em 1732 Francisco de Arruda casado com Mariana da Luz;
Maria Leme, viúva, assistente em Caxambu, madrinha de Joana filho de Francisco Xavier e Teresa de Olvieira, juntamente com João Mel. Coimbra;
Em 1733: Luzia Pinheiro (solteira);
Em 1737: Sebastião de Brito casado com Juliana de Oliveira.

Do ano de 1747,  existe o registro: "aos vinte e nove dias do mês de novembro da era de 1747, faleceu da vida presente, com sacramento da penitência , Sebastião Correia, casado com Ana Veloso, de oitenta anos, morador no Caxambu, natural de Mogi (Mogi das Cruzes, SP) e foi sepultado nesta freguesia, digo nesta Igreja de N. S. de Monteserrate de Baependi". (certidão abaixo)


Certidão de óbito de Sebastião  Fernandes Correia
data de 1747

Ainda no ano de 1747, a 9 de julho, realizava-se o casamento de Matias Vieira e Custódia da Silva, sendo como testemunhas Luis Pereira e... "Estácio da Silva, morador no sítio do Caxambu".

A biografia de Estácio da Silva é um capítulo a parte. Ele foi casado com Vitória Vajano  que se enviuvou, voltando a se casar com João José Pinheiro. Em 29 de outubro de 1755, João Pinheiro   entra com um requerimento sobre a concessão de uma sesmaria no sítio chamado Mombasa, freguesia de Baependi. Mas... em 5 de outubro de 1756, Maria Vajano vem a falecer deixando o viúvo João José Pinheiro como seu herdeiro universal e um solene testamento, "um sítio no Caxambu, no Caminho Velho".

Testamento de Maria Vitoria Vajana

Ponto final? Não, ainda vamos contar muitas outras histórias.
Fonte:
(1) Guerino Casassanta, in apus Voz Diocesana 31.01.1956
(2) Projeto Compartilhar
Vasconcelos-Diogo, História antigas das Minas Gerais
Antonil, Culturas e Opulencia do Brasil, 1711
Arquivos Eclesiais de Baependi, in  Familie Search

domingo, 4 de setembro de 2022

Eu acho que foi num fevereiro/ Com Maria Ines Jamal


Eu acho que foi num fevereiro que comemoramos a vida, o aniversário, a alegria de estudarmos juntos no Colégio Normal Santa Terezinha. Aquela sala animada me lembrei da caçada de borboletas no pasto, no bairro Santa Rita, para o trabalho de classe do professor Silvio, quando voltamos cobertos de carrapato-pólvora, inclusive o cachorro do Jacob Levenhagen (foi idéia dele); das histórias do professor Guido (foto) de física e suas comemorações de carnaval, em Baependi, vestido de baiana; da festa junina lá em casa; da dona Lídia, nossa saudosa professora de química, comendo bolo de fubá cortado em quadradinhos; do Luiz Henrique, Baldinho, Dimas, Francisca, Carlos, Taninha, Ana Arsenio e Miriam Vilasboas, que não esta mais entre nós.
Quantas lembranças me trouxe estas fotos Marina Ines querida, quantas...

Foto:
Arquivo pessoal de Maria Ines Jamal

sexta-feira, 29 de julho de 2022

Sergio Sarkis/Uma lembrança/ A tua presença continuará sempre no meio de nós

 


Achei hoje nos guardados de minha mãe uma nota de falecimento do querido Sergio Sarkis, figura ímpar da cidade de Caxambu. Deixou muitas saudades e lembranças. Aqui lembrando de sua morte, em 20 de marco de 2011, e vida. Mais vida que morte. Um ser iluminado.



Foto:
Solange Ayres

quinta-feira, 28 de julho de 2022

Uma exposição de flores para Arminda Maria Ayres

 


Um dos tesouros perdidos nos meus guardados. Minha mãe Arminda recebeu de Paulo Robert esta pequena obra de arte, muito provavelmente inspirada no seu mágico jardim e suas flores. No momento que vi o pequeno papel com a dedicatória, me veio à memória: Paulo Roberto foi quem fez alguns serviços para ela há muito tempo atrás.
Taí mãe, que está no céu das mães, publiquei chorando.

segunda-feira, 13 de junho de 2022

Dois mundos



 Oi Solange e Fran(z),

Segue nossos presentes para vocês. Todos foram feitos por artesãos para prestigiar os trabalhos manuais de nossos amigos.

O trabalho em fios e pedra foi do Rogério e demos o nome de "Dois mundos".

Os cachepôs foram feitos pela Franciolli, tem o Instagram dela na etiqueta, e pode ser usado para por vários objetos. Usamos as cores dos países!

O jogo de mesa é obra da Luciana casada com o Magnus, de Caxambu.

Esse jogo rodou por aqui, rsrs. Foi parar em outra cidade, mas depois aqui graças a Deus! Os doces são de Minas, não de Caxambu, pq. não deu para ir lá!

Agora o medalhão é especial para usar com óleo especial de sua preferencia... mandei um lavanda!

Um abração nosso e aproveite seus presentes.

Beijos.

Aí Graça e toda a galera que me proporcionou esta alegria! Tudo aqui já esta nos seus lugares. O jogo de mesa da Lu, Luciana Dantas, estará em uso no domingo que vem, porque a gente usa as coisas chiques só nos domingos, e até porquê deu o maior trabalho para chegar até aqui. O cordão com o medalhão pendurei no pescoço, aliás, com o cheirinho que mais amo, lavanda. O trabalho com fios e pedra do Rogério, bem como os cachepôs da Franciolli estão enfeitando a minha escrivaninha. Estou de olho neles sempre que sento aqui no computador. A cartinha, guardarei no meu coração, mas vou avisando, a goiabada cascão da Zélia, ninguém tasca!

Saudações a todos vocês deste país, Alemanha.

Solange

sexta-feira, 10 de junho de 2022

A Chácara do Colégio Normal Santa Terezinha/Caxambu

 

De tantas lembranças que o nosso colégio deixou, a Chácara das Irmãs, no bairro Bosque, é uma delas.
O meu coração pulou quando viu esta foto, publicada no grupo do Colégio pela Lúcia Maria Vilela Levenhagen, a eterna "tia Lúcia", assim denominada carinhosamente pelos seus antigos pupilos. Ela despertou lembranças, mas aquelas que ficam alí guardadas no fundo do baú de nossas memórias, e só materializam, quando vemos as imagens. 

A Chácara  das Irmãs, como era conhecida, ficava a uns quinhentos metros, depois da última curva da rua que faz divisa com o Parque da Águas. A Chácara serviu de abrigo para as irmãs, quando o Colégio sofreu o incêndio. Lá eram cultivados legumes e verduras, bem como criação de aves que supriam parte da demanda cantina do refeitório. Mas a produção também era vendida para a vizinhança. Graça Pereira Silveira, aluna e professora do Colégio, comprava delas verduras e ovos,  quando ia visitar sua irmã Terezinha, que morava em frente. O local servia também para que os alunos fizessem piqueniques. Era um dia de brincadeiras ao ar livre com bola, peteca, e passeios pelo terreno que tinha grandes árvores e que proporcionavam muita sombra. 

No piquenique de nossa turminha, acho que foi no início do primário, ano de 1966, estavam acabando de construir um lago para peixes, e nos foi advertido não chegar perto. Ninguém contestava. Depois uma pausa e fazíamos um lanchinho. Cada um levava o seu na merendeira, lembram? Eu tinha uma exatamente como as da foto abaixo. A nossa visita foi regada a K. Suco, ah não esqueço, K. Suco, vermelho, de morango. Que coisa boa. Obrigada tia Lucia, por nos trazer tantas recordações.


Foto:
Arquivo privado de Lucia Maria Vilela Levenhagem, publicado no grupo do Facebook Colégio Normal Santa Terezinha

terça-feira, 24 de maio de 2022

A história musical da cidade de Caxambu/ Corporação Nossa Senhora Aparecida




A primeira Corporação musical de Caxambu tem o registro de sua fundação, em 1905, e era denominada Corporação Nossa Senhora Aparecida. A  foto foi feita no Parque da Águas de Caxambu, em frente à antiga fonte Duque de Saxe, onde a banda tocava nas manhãs de domingo para os aquáticos que visitavam a cidade. Este pode ser o mais antigo registro fotográfico de uma banda da cidade. A Corporação foi uma das bandas que deu origem à Corporação Sagrado Coração de Jesus de Caxambu, que para a nossa alegria, ainda se encontra ativa. Interessante era a sua composição. De seus vinte e seis membros, a maioria era composta por negros.

Foto:
Fotos antigas de Caxambu
Informações sobre a Corporação musical, Mauro Gouveia.

domingo, 22 de maio de 2022

O seu Joaquim Roque que vive em mim ha onze mil quilômetros de distancia


 



Os ensinamentos de seu Joaquim Roque o preto velho, filho de escravos, morador da região do Chapéu, Baependi vive em mim. Ele era exímio confeccionador de cercas de bambu, quando ainda não existiam muros, casas cercadas de arame farpado, nem cerca elétrica.

Hoje, após 57 anos desta foto, onde se vê o milharal plantado, me bateu uma imensa saudade e num outro verão, em outro país, plantei os meus milhos em sua memória. 

Eu o acompanhava seu trabalho no denominado "condomínio da família Ayres", na antiga rua Quintino Bocaiuva, 113, Caxambu. Memórias. No final de outubro era o tempo de plantio, quando chovia torrencialmente e os dias se tornavam quentes e úmidos, ideal para o crescimento das plantas. Ele conhecia as melhores fases da lua para plantar. Três a quatro grãos eram jogados numa cova rasa, cavada por uma enxada num só golpe. Depois os grãos eram cobertos pela terra fofa e recebiam um leve aperto com os pés. Semanas depois, voltava ele para capinar o mato crescido.

Era mês de janeiro e o milharal da foto estava em flor, as espigas com seus cabelos loiros ou ruivos cresciam depois das chuvas torrenciais do mês de dezembro e janeiro. A foto foi feita pelo meu padrinho Jorge, que sempre vinha no mês de janeiro, data de meu aniversário.


Salve seu Joaquim Roque. O senhor esta em minhas, nossas lembranças.

Foto: 
Arquivo privado da família Ayres

quinta-feira, 31 de março de 2022

Colegio Normal Santa Terezinha/ Uma história/ Educação para a vida



Na noite de 9 de março de 1960, uma quarta-feira, as internas do Colégio Santa Terezinha foram arrancadas do seu sono e, de camisolas, obrigadas a fugir das chamas que atingiam o prédio.

O fogo devorou toda a estrutura do prédio e o trabalho de 30 anos das Irmãs da Providência-Gap. Várias vezes ampliado, restaurado, remodelado, o colégio recebera, no início do ano letivo de 1960, 360 alunas, 68 delas internas, entre filhas de caxambuenses e de famílias das cidades da região como Cruzília, São Vicente de Minas, Bocaina de Minas, Seritinga, Minduri e outras tantas.

Mas antes de começar a narrar a história do colégio, não posso deixar de citar Antônio Claret, um verdadeiro "rato de arquivo", que nos ajudou a encontrar o "Histórico da Escola Normal Santa Teresinha-Caxambu". Como? Bem, só ele sabe. Seu bom relacionamento com as Irmãs da Providência  de Itajubá, onde sua irmã estudou e serviu, Claret desencavou um documento datilografado que nenhum de nós haveria de conhecer.

Tampouco poderíamos recuperar parte da história do colégio sem consultar a nossa biblioteca familiar Célia Ayres de Lima/Araújo. Para a minha surpresa ela, a tia Célia, estudou lá dos 7 anos até os 17 anos. A irmã mais velha, Mercedes/Ayres/Soler, a colocou no grupo escolar, mas só cursou dois meses, sendo então enviada para o colégio das freiras para se tornar normalista. Normalista era chique, disse tia Célia nas nossas conversas telefônicas Brasil-Alemanha em 23 de junho de 2020. Lembrou-se de suas professoras, as irmãs Amélia, Stanislau, Josephina e Rita, assim como da madre superiora irmã Marcel. Por tia Célia, ficamos sabendo que o prédio já existia, quando da instalação do colégio. 

E existiam mesmo! Datada de 13 de dezembro de 1873 e realizada por José Ribeiro da Fonseca Silvares, da Sociedade de Geografia do Rio e Janeiro, segundo informações fornecidas pelo Coronel Fulgêncio de Castro, a planta da povoação já indicava o lugar reservado para a  Eschola.




Senta que lá vem histó
ria!

Em 1° de fevereiro de 1928, as irmãs Radegunda, Albertina e Catarina, invocando as bênçãos do padre Moye, fundador da Congregação da Providência de Gap, Franca, abrem as portas do colégio para a comunidade de Caxambu, sob a coordenação da madre superiora Maria Rosa de Lima.

Martinho Moye foi um sacerdote francês que, em 14 de janeiro de 1762, funda a escola Vigy, para levar as crianças o conhecimento religioso às crianças. À frente do trabalho estava Margarite Lacomte , a primeira semente da Congregação das Irmãs da Providencia.

Elas chegaram ao Brasil em 1904 e se instalaram em Carmo do Rio Claro, sul de Minas Gerais. A separação entre Igreja e Estado na Franca significou o fim do ensino religioso e por religiosos nas escolas públicas. As congregações religiosas foram proibidas de atuar em hospitais e instituições legais. A alternativa foi a expansão da ordem para a América Latina.

Em 1907 abriram um convento em Itajubá, que permanece até hoje como sede da congregação. Elas foram convidadas a iniciar os trabalhos em Caxambu pelo monsenhor João de Deus, que na época estava às voltas com a construção do Hospital São Vicente de Paulo, a Santa Casa.

Irmã Maria Radegunda já tinha experiência em educação, pois assumiu a direção da escola normal de Itajubá em 1917. Continuou o trabalho missionário expandindo pelo Sul de Minas, Caxambu  incluída. Onze anos depois, a congregação abre a Escola Normal Santa Terezinha, dando continuidade ao trabalho educacional. 

A primeira escola Normal do Brasil

A primeira escola normal no Brasil foi criada na cidade de Niterói em 1835, seguida por outras nas demais províncias do Império. Com o objetivo de formar professoras para atuar no ensino primário, as escolas normais atravessaram os tempos chegando aos anos de 1940 e 50 como instituições públicas fundamentais na formação de quadros docentes.

Diário de uma escola


Segundo documento encontrado por Claret, o colégio progride lentamente, devido à falta de local. O prédio da pracinha (foto), ocupado pela congregação, tinha portas que davam para a rua, o que sugere ter sido um estabelecimento comercial.

Várias irmãs dirigiram o colégio. Foram elas:

1930-1933, irmã  Auxence
1933-1939, irmã  Marcel
1939-1940, irmã Chère Soeur du Sauveur
1940-1944, irmã  Marcel
1940-1944, irmã das Dores
1946 -1952, irmã  Blandine
1952-1955 , irmã  Marcel
1955-1960, irmã São Paulo
1960- Maria Lucia Paim

Já no seu início, o colégio recebeu subvenções conforme a lei 173, assinada pelo prefeito Mario Artur Alves Milward em 1929. O valor da subvenção anual era de 10:000$000, mais a isenção de todos os impostos e taxas municipais. Também foi concedido à instituição o aluguel do prédio, em forma de subvenção, num esforço para que o trabalho educacional tivesse sucesso. 

O prédio sofreu várias intervençõesa partir de 1936, quando a congregação adquiriu  o terreno. As reformas terminaram em 1942, com o aumento do número de salas de aula e o dormitório das internas.

Em 11 de marco de 1937, o então governador interventor Benedito Valadares assinaria um decreto reconhecendo o colégio como estabelecimento de formação de docentes do ensino primário. Estava oficializado agora como parte da educação governamental. Em 7 de fevereiro, Alcides Lins, interventor federal, assina a autorização para que o colégio formasse também professores para o ensino secundário. O trabalho para que o colégio fosse reconhecido como instituição oficial do Estado foi levado adiante pelos  políticos locais, pelas famílias influentes e pelo bispo de Campanha, diocese à qual a instituição estava subordinada.

A primeira turma de normalistas de Caxambu

O Patriota, 1937
Em 2 de dezembro de 1937 é formada a primeira turma, com 12 normalistas. Maria Célia Cobra convida o público e família para a colação de grau. Era comum as famílias anunciarem nos jornais que seus filhos haviam se formado, o que era uma honra para toda a família. Isso demonstra o quão importante era a educação naquela época.

O colégio, situado praticamente no centro da cidade, era motivo de visitas de muitos políticos que prometiam e prometiam. Juscelino Kubistchek fez a sua visita em 28 de maio de 1951, e como sempre prometeu...

"Visitou ainda o Governador Kubistchek a 'Escola Normal Santa Terezinha', onde futuramente talvez sejam instaladas as repartições estaduais em Caxambu, e a Escola Reunida de Caxambu Velho. Segundo prometeu S. Excia, serão construídas, pelo Estado, mais duas Escolas Reunidas em Caxambu" (O Patriota). Ah, talvez, já escrevia o repórter, talvez...

Mas eram as incansáveis irmãs quem estavam à frente das obras. Em 1955 empreenderam a construção da clausura e de um galpão para as alunas. Quatro anos depois, a Congregação consegue comprar um terreno de cinco alqueires no bairro Bosque, onde mantinham um serviço de lavanderia, horta e pomar. Esta chácara cheguei a visitar como atividade da classe, e fizemos um piquenique lá. Na época estavam construindo um pequeno lago para criação de peixes. Fomos advertidas para não "chegar perto" das margens. Era o medo da gente cair e se afogar. Tudo tão limpo e arrumadinho...

Atividades extraescolares

O colégio promovia não só a educação, mas também a interação com atividades como quermesses em prol da biblioteca. As alunas também participavam de outra atividade que seria incomum nos tempos de hoje: acompanhar, em formação e em uniforme de gala, enterros de pessoas importantes da cidade, como o do comerciante José Justino da Silva. O cortejo fúnebre saiu do Caxambu Velho até o cemitério da cidade. Era o colégio prestando homenagens a um estimado cidadão, por meio de suas alunas.
 
Fogo! Fogo ! 
Zé Maria foi salvo


Era a madrugada do fatídico 9 de março de 1960, três dias após o início do ano letivo e do retorno das internas. Era também o dia da visita de Jânio Quadros à cidade, em campanha eleitoral para o pleito de 3 de outubro. A foto acima, segundo cartão postal da cidade, é o ultimo registro do prédio antes de ser incendiado. Segundo meu pai, José Ayres, eletricista, ele já teria advertido as irmãs para a troca da fiação na lavanderia, mas as providências chegaram tarde.

O corre-corre na madrugada foi grande, e, felizmente, não houve mortes. Como o prédio não estava no seguro, houve perda total. Tudo que se pode recuperar ficou depositado na rua, como algumas peças do museu da escola, 120 carteiras escolares e... o Zé Maria. Quem se lembra dele? Sim, o esqueleto que a gente chamava de Zé Maria foi salvo das labaredas, ficando exposto na pracinha ao lado da Casa Guedes. Ele foi testemunha da calamidade, lembra Graça Pereira Silveira. Uma visão trágica. Ah, pelo menos salvaram o Zé Maria.


Jânio Quadros, então candidato a presidente, visitou os escombros calcinados, acompanhado pelos políticos da UDN de Caxambu, como Acácio Almeida. Ainda havia cheiro forte de fumaça, relata Claret. Jânio prometeu, se fosse eleito, ajudar na reconstrução. Bem, de fato ele foi eleito, mas renunciou em agosto do mesmo ano, e pelo que consta, o colégio não recebeu nenhuma ajuda oficial dos três níveis de governo. Mais um que prometeu...

Que dificuldades! O colégio foi obrigado a fechar, bem... fechar não era exatamente a palavra certa, pois não existiam portas. O jeito foi contar com ajuda e solidariedade de várias instituições da cidade. O Hotel Jardim, de dona Helena Orla, serviu de residência para irmãs e alunas. As aulas foram ministradas em diferentes locais, cedidos gentilmente pela população, dentre eles no Hospital Infantil Virgo Potens, o Ginásio Caxambu, garagens e barracões diversos.

Em 22 de setembro, um tempo relativamente recorde, foi inaugurado o conjunto de salas, e apesar de toda a precariedade das instalações e a falta de conforto, o ano escolar ofereceu um bom rendimento, pois vontade não faltou. Mas havia outras batalhas a serem vencidas para o reerguimento definitivo do colégio. Em novembro do mesmo ano iniciaram-se as obras de reconstrução que tiveram que ser paralisadas até março de 1961 devido às chuvas torrenciais. São Pedro não ajudou.

A reconstrução

A reconstrução ficou então na mão de seus benfeitores, dentre eles o dinamarquês e empresário Sorensen, que tinha uma fábrica de laticínios em Cruzília, e cuja filha, Elizabeth, estudava na instituição. Sorensen, eleito presidente da Associação de Pais e Mestres da Escola, toma a frente das obras da reconstrução. Um dos que também fizeram parte dos trabalhos  foi o austríaco  Rodolfo Weber, mestre de obras na cidade. Conta o neto Rodolfinho Weber, que o avô constatou a solidez da antiga construção. Debaixo do colégio, até hoje estão as vigas de eucaliptos que faziam parte da antiga base de sustentação do prédio.

Transformações

O Patriota, 1937
Desde seus primórdios o colégio sofria concorrência de outras instituições escolares como o Colégio Sion de Campanha. Para lá iam as alunas dos mais aquinhoados das cidades sul-mineiras.
O colégio funcionou nos anos 60 e parte dos anos 70 com a função de internato e semi-internato, a modelo das instituições católicas de outrora. Com as Leis de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) de 1971, houve a substituição das escolas normais pela habilitação específica de magistério. O estabelecimento passa então a denominar-se Colégio Santa Terezinha, oferecendo ensino de 1° e 2° graus. Continuava-se a ministrar os cursos de pré-escolar, aos quais foram acrescidos cursos Técnicos de Secretariado e Técnico de Magistério.

Mas a sociedade estava mudando, o país se industrializando e a necessidade educacional da juventude caxambuense e da região não era suprida formando somente apenas normalistas. Com as LDB, houve a substituição das escolas normais pela habilitação específica de magistério e, em 1996, a formação de educadores passa acontecer em nível superior, em cursos de graduação plena. O curso de normalista  dentro das novas leis, não fazia mais sentido.

O Brasil, e Caxambu, claro precisava de outro modelo de educação, que não aquela com base religiosa, como era oferecida nos colégios católicos renomados, como o Sion de Campanha. Me lembro, o então Colégio Estadual Ruth Martins de Almeida, criado em 1966, de orientação laica, preparava melhor para um tal  de vestibular. O ensino do estabelecimento das freiras, já na minha época, era considerado fraco, não fornecendo bases para as faculdades "lá fora". Assim, a instituição católica deixou de funcionar em 1977. O Estado de Minas Gerais comprou o prédio da Congregação das Irmãs da Providência em 1982 e transferiu para lá a Escola Estadual Ruth Martins de Almeida. 

Educação para a vida

Nem de longe podemos negar o legado que a instituição nos deixou. Muitas de suas alunas se tornaram educadoras, como a minha tia Célia Ayres de Lima/Araujo, que pertenceu à terceira turma de normalistas, formada em 1937, e que foi professora no Grupo Escolar Padre Correia de Almeida. Mais tarde lecionou no prestigioso Colégio Pedro II do Rio de Janeiro e lá se aposentou. 

Poderia enumerar muitas e fazer injustiça com outras, mas como estamos no blog da Família Ayres, não podemos deixar de destacar a normalista Graça Pereira Silveira (foto ao lado com seu diploma) minha professora no pré-primário, que me ajudou a construir barquinho à vela e que, mesmo não querendo, não conseguiu escapar do seu destino de professora, indo lecionar na escola municipal de São José dos Campos até se aposentar.







Fotos: 
Arquivo privado da família Ayres/Rodrigues Pereira.
Fonte:
Balbino, Antonio Gilberto. Igreja e a educação família no Sul de Minas (1900-1950): O ultramontanismo e as incursões da modernidade. Itabira, 2018.
Folha Mineira (MG), 1962 a 1963
Jornal O Patriota, 1929-1951
Colégio Sagrado Coral de Jesus, 1907-2015
Arquivo do Exército, que forneceu os mapas que apresentamos no blog.
Agradecimentos:
Agradecimentos muitíssimos especiais a Antonio Claret pelo seu empenho em conseguir documentos e informações que compõem o nosso texto. 
Julio Jeha sempre

sexta-feira, 25 de março de 2022

Tio Vicente, um baependiense desaparecido


Vicente Francisco da Luz, filho de Maria Vitória da Conceição (1898-1958) e Sebastião Gomes Francisco da Luz (1892-1951). Tio Vicente perdeu o contato com a família no final dos anos de 1960. Ele não era casado, nem tinha companheira conhecida. Sabemos somente que ele foi para São Paulo em busca de trabalho e desapareceu. 

Desaparecidos

De acordo com a Delegacia de Proteção, da Delegação do Comitê Internacional da Cruz Vermelha, até o final da década de 1990, mais de 200 mil pessoas desaparecem por ano no Brasil, segundo um levantamento feito numa pesquisa da Universidade de Brasília. A subnotificação pode elevar esse número. As razões e circunstâncias dos desaparecimentos são muitas, desde problemas de saúde mental e migração até violência. Não há um cadastro nacional dos desaparecidos para facilitar a procura dos familiares, como um banco de dados com informações de delegacias, hospitais, institutos médicos legais e albergues. O Registro Nacional de Veículos Automotores funciona, e até acham carros roubados no país vizinho, Paraguai, mas e para seres humanos?

 

Tio Vicente aparecia de vez enquanto e fazia visitas aos seus parentes em Baependi e minha mãe, Arminda Ayres, em Caxambu. Uma das últimas vezes que o vi foi na casa da tia Rosa, em Baependi, no início dos anos de 1970. Ele apresentava algum transtorno mental, via o diabo embaixo da cama, talvez uma esquizofrenia não reconhecida.


Sabíamos que ele morava e trabalhava na cidade de São Paulo, era solteiro e se parecida exatamente como na foto, como eu o conheci, quando desapareceu. Soube pela sobrinha Rosângela Rosa, que ele teria ido para o Paraguai e lá falecera. Hoje resolvi contar sua curta história, sua pequena biografia, uma vida não acabada, uma história de vida não concluída.

 

Foto:

Arquivo privado da família Ayres

Agradecimentos:

A Julio Jeha, sempre