domingo, 19 de fevereiro de 2017

Outros Carnavais/ Caxambu e o carnaval dos anos de 1930, as comemorações de rua, o Abre Portão e o dantesco baile no Prazer das Morenas, parte 3




Pomposo e dantesco

E o Jornal Correio da Manhã do Rio de Janeiro de 1935 noticiava o programa completo das comemorações carnavalescas da cidade, organizadas pelo Grêmio Recreativo Prazer das Morenas, o "Prazer das Morenas", como eles o denominavam. O carnaval, pelas características de sua organização e participação, era constituído basicamente de caxambuenses. E prometia!

"Promete ser encantador, o Carnaval em Caxambu. O "Prazer das Morenas", no dia 2 de março , às 8 horas da noite, irá incorporado à gare ferroviária receber o s.m. o Rei Momo, que abrirá os festejos carnavalescos percorrendo as ruas principais, onde espera receber as homenagens de seus subditos, dirigindo-se em seguida para a sede social, dando-se inicio a um estrondoso baile em sua honra. Nos dias 3 e 4, domingo e segunda-feira haverá batalha de confete, em frente ao Café Aprigio, no entroncamento da rua João Pinheiro e Avenida Camilo Soares. Às 8 horas da noite de domingo sairá o rancho "Verde e Branco", com suas danças e evoluções características, percorrendo as ruas em visita às sociedades e clubs locais, regressando à sua sede, onde terá inicio um pomposo e dantesco baile à fantasia.

Retumbante, estonteante, mirabolante e ao som de uma jazz band

E continuava: "Na terça-feira gorda; às 7 horas da noite, sairá o grandioso préstito carnavalesco composto de cinco formidáveis carros alegóricos, precedido de uma estupenda banda de clarins fantasiada a caracter.
1° carro (chefe) conduzindo a rainha do grêmio "Prazer das Morenas"; 2° carro (alegoria) representando a "Fonte D. Pedro", em homenagem aos nossos veranistas e empresa das Águas Mineraes de Caxambu, 3° carro (allegorico) representando "A Folia", em homenagem à cidade de Caxambu, 4° carro (allegorico) "Gondola Veneziana" em homenagem à Prefeitura e ao comercio em geral; 5° carro (alegórico), "O Rei Momo". Seguem autos com foliões, ,blocos de todos que sabem gozar o Carnaval. O pomposo préstito iniciara a sua marcha triumphal no bairro Pelizone, desfilando pelas principais ruas da cidade, dirigindo-se por ultimo à sua sede, onde dará inicio a seu retumbante, estonteante e mirabolante baile à fantasia, ao som de um excelente jazz-band"


Uau! Isto sim é que era programação! O adjetivo "dantesco" dado ao baile à fantasia não podia ser mais exagerado. Se formos interpretar "ao pé da letra" seria: "horroroso", "assustador", "pavoroso". Interpretações gramaticais à parte, parece que o povo sabia se organizar. Não havia mais as "batalhas de água" como no Entrudo do século passado, mas batalhas de confetes, no centro da cidade, bem ali  na João Pinheiro com a Camilo Soares. E olha que o jornal falou somente das comemorações do Clube Recreativo Prazer das Morenas, o Grêmio, como era conhecido.  O carnaval ferveria também nos salões dos hotéis da cidade como os do Cassino Gloria, Hotel Palace, Hotel Avenida, este descrito como "o mais concorrido e aristocrático" pelo O Jornal do Rio de Janeiro.  E,  como bem caracterizou o jornal, quem os frequentavam eram os "aristocratas", isto é, o mais bem aquinhoados da cidade, juntamente com os turistas vindos principalmente do Rio de Janeiro.

O Abre Portão   


O Bloco do Abre Portão, de 1935, organizado pelo Hotel Lopes, parece muito comportado. Este era um outro aspecto do carnaval da cidade comemorado pelos turistas. Embora fosse verão, os foliões vestiam à moda da época, sem exposição das carnes. Saias longas, pouco decote, tudo muito comportado como mandava o figurino.  Tanto adultos como crianças desfilaram na terça feira gorda pelas ruas da cidade. Carnaval-família. Porque não?

Carnaval do Zé Pereira

Mas haviam outras comemorações na periferia da cidade de Caxambu. Elas eram muito diferentes do carnaval do "centro" e dos clubes. Os populares se organizavam juntando amigos e vizinhos,  improvisando nas fantasias, como no registro fotográfico na abertura deste texto. O típico era  homens vestidos de mulheres. E... Vimos ali um que poderíamos denominar de "Zé Pereira", com aquele bumbo marcando o ritmo juntamente com outros instrumentos musicais, como a corneta, compondo uma pequena banda muito animada, muito. A periferia também comemorava, como se vê.


Nas duas históricas fotos datadas de 1935, um membro da Família Ayres/Rodrigues Pereira é visto no centro, (foto ao lado) o mascarado da foto... Romeu Rodrigues Freitas, (leia aqui sua biografia completa)  filho de Ramiro Rodrigues Freitas e Maria José de Lima/Ayres a tia-vó Mariquinha, ele que foi funcionário da Torrefação Meia Lua de Caxambu. Este é o primeiro registro de comemorações carnavalescas na família.  (Na foto cima, sem a mascara). Pois logo Romeu, que um dia tomou um safanão da mãe em plena rua, por ter o hábito de jogar. A correção em público deixou sequelas: ele se tornou um trabalhador sem descanso. Achava que férias era atraso de vida, mas com uma exceção: as comemorações de  carnaval. Como tantas outras peças do vestuário em outras famílias, a camisola de vó Mariquinha sumia da gaveta da cômoda nesses dias.

Depois de casado Romeu foi morar em Conceição do Rio Verde, onde trabalhava, fazendo transporte de laticínios entre as fazendas e cidades. O seu patrão Funito era um grande folião e os seus funcionamos eram convidados a festejar os carnavais junto com a família. Eles organizavam todos os anos blocos carnavalescos temáticos. Ai esta Ramiro de toureiro. Olé! Nem parecia que eles comemoravam carnaval, de tão sérios que posaram para as fotos. 
Assim foi.

Fotos:
Arquivo privado da Familia Rodrigues Freitas
Fonte:
Correio da Manha, Rio de Janeiro, 1935
O Jornal, Rio de Janeiro, 1935
Revisão:
Paulo Barcala

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Outros Carnavais/ Caxambu e o Carnaval de 1920. O reinado das crianças/ Parte 2

Corso carnavalesco em frente ao Parque das Águas de Caxambu
 

Passaram-se vinte anos anos da primeira notícia do carnaval de Caxambu, em 1887, noticiado pelo Jornal O Baependiano. Entramos agora no novo século. O Entrudo  e suas guerras de farinha e água suja na cidade de Baependi era passado. Dos carnavais dos "Zé Pereiras", também nenhuma lembrança. Em 1901, Caxambu ganha emancipação de Baependi e começa a escrever sua própria história. A cidade teve finalmente sua grande ascensão como estancia hidromineral. Mais e mais áquaticos  procuravam na cidade descanso, o bom clima e suas maravilhosas águas.

Em 1912, na administração de Camilo Soares, teve prioridade a abertura e pavimentação das ruas do centro, canalização do Bengo, melhoramentos no Parque das Águas, bem como a construção da Praça 16 de Setembro, com desenho paisagístico do artista Chico Cascateiro. A cidade estava então preparada para receber os veranistas.

Para turista ver, para não ver...



"O Governo de Minas em boa hora compreendeu o valor de Caxambu e tratou de dotá-la de todos os elementos do conforto necessários. Água, luz, esgoto, tem sido as primeiras preocupações desta Prefeitura. Agua potável, temos-a abundantíssima, capaz de abastecer o triplo da população que ora conta a localidade (cerca de 4.000 almas). A rede de esgoto deságua a 1.800 metros da villa."(Anuário de Minas Gerais, 1912). Essas foram as informações divulgadas pelo prefeito Camilo Soares à imprensa.

Bem, ha 1.800 metros da vila não era muito... O esgoto, a partir daí continuaria correndo a céu aberto até o final da década de 1970. Estou aqui me lembrando do evento das Olimpíadas acontecido no Brasil, em 2016... A Baia de Guanabara... O esgoto e lixo flutuantes... Ah, desculpem, o assunto é Carnaval e estamos falando do ano de 1912.

A cidade merecia! Digo, as melhorias. Todos tinham  interesse de que a cidade progredisse. Com uma sólida estrutura hoteleira, o objetivo era atrair mais turistas, e que por sua vez encheriam os cofres de impostos, os hotéis de hóspedes e dariam  emprego para muita gente. Os hotéis investiam na propaganda e diversos anúncios eram semanalmente inseridos nos jornais, principalmente do Rio de Janeiro, apresentando as suas luxuosas instalações. O Hotel Palace aparecida nos jornais espetacularmente, não sem razão, e claro, as águas que faziam milagres e curavam todos os males. Irresistíveis os apelos, irresistíveis. Ah, mas voltemos ao carnaval...

Fatos e fotos


E podemos dizer então que as décadas de 1910 e 1920 foram de ouro para a cidade. Com o advento da imprensa, Caxambu e seus hospedes eram fotografados de todos os ângulos e publicados na Revista Fon Fon, que trazia os costumes e noticias do cotidiano da sociedade carioca. Nela seus veranistas brilharam por duas décadas. Em 1912, duas hóspedes do Hotel Palace foram flagradas fantasiadas: uma de bandeira nacional a outra do Chile (foto). Era chic, muito chic ter seu nome ou foto publicados lá. Assim pudemos acompanhar os acontecimentos carnavalescos no início do século na hidrópolis Caxambu, através de suas reportagens e fotos entre 1913 e 1928. Quem não gostava de carnaval fazia seus passeios equestres, comemoravam festas no parque, jogava tênis e se deixava fotografar nos lugares pitorescos como na Cascatinha, bancos, em frente ou sentados nas obras de Chico Cascateiro.

Diversão só

Os hotéis da cidade não só se preocupavam em atrair os veranistas, mas também ocupá-los, no bom sentido da palavra. As tais estações de água eram uma festa só. O ponto alto era o Carnaval, principalmente porque coincidia com a alta temporada de turismo. As comemorações eram muito mais civilizadas e finas, e não tinham absolutamente nada com os Entrudos do fim do século passado.  De dia acontecia os desfiles de rua. Os foliões fantasiados desfilavam em cima das charretes e carruagens (foto acima) com suas famílias e amigos. À noite, nos salões dos hotéis, aconteciam bailes animados por orquestras ao vivo. As crianças não ficavam de fora e concursos de fantasias infantis eram realizados nas seções de Matinê. Pelo numero de fotos publicadas na revista, elas é que reinaram nas comemorações carnavalescas da cidade.



Aqui os pequenos hóspedes dos hotéis, no carnaval mirim de 1928, fantasiados à moda, posando em frente ao prédio mais suntuoso da cidade: o Balneário, do arquiteto Alfredo Burnier inaugurado no início dos anos de 1920. Estou vendo ali uma, ou melhor duas de holandesa, um alerquim, uma odalisca, um sultão, marinheiro...
Os meninos fantasiados de Peter Pan ou  anões da Branca de Neve também foram flagrados no banco do Parque das Águas. Já a duplinha de Pierro e Colombina esta numa romântica pose. A primeira à direita foi a vencedora do concurso de fantasias do Hotel Palace de 1928, de holandesa. Um charme.


As crianças davam o que falar como se vê. Parece que as  seções infantis eram tão concorridas quanto a dos adultos, e inúmeras fotos de filhos dos importantes políticos eram  estampadas, como as do prefeito da cidade Camilo Soares, Martha e Maria, abaixo à direita. Ah, não mudou muita coisa até os dias de hoje...

Para que muitos pudessem se divertir, outros trabalhavam


E os antepassados da Família Ayres jamais iriam ser estampados nas revistas, não, não. Eles eram aqueles que trabalhavam atras dos palcos das festas. Não vamos esquecer de Ramiro Rodrigues Freitas (?-?), que foi  jardineiro e era quem cuidava dos jardins do Parque das Águas, bem como João de Deus (1902-1981), neto de José Fernandes Ayres, o Trançador-pai (1849-1878), que trabalhou por 40 anos no engarrafamento da Empresa, e o seu filho Francisco, varrendo as ruas da cidade (de calça clara no centro da foto). Quatro dos Ayres/Rodrigues Freitas trabalharam para o Palace Hotel: Ana Ayres de Lima (1883-1946), a tia-avó Lica, como era chamada, que labutou na lavanderia por anos, o seu marido, José Eugenio, conhecido por  Zezinho, o "faz tudo", bem como o seu filho Silvio Aires, que aos 10 anos de idade ajudava a matar as aves consumidas pelos turistas. Ah, também o tio Silvio Ayres de Lima, (1908-1990), o filho do vô José Trançador-filho e vó Gervásia Maria Ayres, que foi empregado jovem la no Palace e era quem fazia o café para os hóspedes e que depois foi exercer a profissão de barbeiro na cidade. Não podemos esquecer ninguém.  O Parque, a praça, ruas varridas, a roupa limpa dos hotéis, as festas  não brilhariam sem eles.

Fotos:
Revista Fon Fon
Revista Tico Tico
Fonte:
(1) Anuario de Minas Gerais, 1912
Revista Fon Fon
Revista Tico Tico
Revisão  :
Paulo Barcala

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Outros carnavais/ Caxambu, carnaval à moda do Zé Pereira, relatos de um fevereiro de 1887, Parte 1



Quem diria! Em 1887, era comemorado o Carnaval em Caxambu, que não era cidade e ainda subordinada à administração da vizinha Baependi. E se algum membro da Família Ayres participou das comemorações carnavalescas naquela data, não podemos afirmar, até porque as manifestações carnavalescas eram típicas dos aglomerados urbanos. Eles moravam longe da cidade e provavelmente estavam muito ocupados na labuta pela sobrevivência.

Antes porém teremos que contar a história do surgimento do carnaval, claro. O carnaval tem origem nas festas imperiais da Antiguidade, realizadas em Roma, em louvor de Saturno, divindade romana, no início do ano agrícola. Elas tinham o propósito de lembrar  no tempo de Saturno reinava  paz, abundância e igualdade entre os homens. Durante os "Saturnais", os escravos tomavam o lugar dos senhores, vestiam como eles, satirizavam o seu comportamento. Temporariamente a diferença entre escravos e homens livres era suspensa. Este tipo de festividade também acontecia na Grécia com regras semelhantes. O carnaval também é associado na história como uma festa em louvor a Baco, o deus do vinho e dos excessos carnais, celebrada pelos camponeses, que se apresentavam mascarados durante as festividades.
A palavra Carnaval foi originada de carnisvalerium (carnis de carne  e valeriam de adeus), isto é o "adeus à carne", ou a suspensão de seu consumo. Bem, daí a Quaresma, tempo em que a carne é abolida por um período, na religião cristã.

Os Entrudos

E o costume de "brincar carnaval" foi trazido pelos portugueses por volta do século 16 com o nome de "Entrudo", que remonta dos tempos medievais que engloba uma variedade de brincadeiras. As "brincadeiras" foram adquirindo forma na cidade do Rio de Janeiro e se espalhou pelo interior da Colônia variando de lugar para lugar. Havia dois tipos de entrudo, o entrudo na família e o entrudo popular. Estas duas formas foram bem características no carnaval da nossa vizinha Baependi, e claro, transportado para Caxambu.


O Entrudo na família acontecia, como dito, nas casas senhoriais dos principais centros urbanos. Os jovens atiravam limão de cheiro entre sí, e na subjetiva interpretação, servia para fortalecimento dos laços entre as famílias. Os tais "limões" eram feitos de cera (vide na gravura ao alto) de diferentes tamanhos e o conteúdo variava da água ao perfume e era vendido nas cidades.

Mas brincadeira não era menos perigosa. Dona Maria Pellucio, casada com Roberto Pellucio, moradores cidade de Baependi, foi vítima de um grave acidente no carnaval, em 1881. Estando ela sentada na janela de sua casa, se assustou ao ser atingida nas costas por quatro desses limões, vindo a cair de uma altura de cinco metros, atingindo chão de pedra do pátio interno com a sua filha pequena no colo! Foi hospitalizada.

Já o Entrudo Popular acontecia nas ruas das cidades, e a brincadeira chegava até a ser violenta. Tinha como participantes a população local e também os escravos. Sua principal característica era o lançamento de todo tipo de líquidos, inclusive... urina e excrementos.

O Entrudo foi diversas vezes execrado no jornal  O Baependiano  e o repórter chocado com as que ele classificou como "degenerescência", principalmente por causa das gravuras publicadas na Revista Illustrada de 1879, sobre o Entrudo da corte do Rio de Janeiro, quando as ruas acabavam imundas depois das tais "batalhas" de limões e farinha.

O Carnaval em Baependi

Não podemos começar a falar de comemorações carnavalescas  de Caxambu sem antes citar a cidade de Baependi. De la vinham as comemorações, digamos, mais representativas, até porque a sede do Jornal O Baepenndiano era lá, fonte de informação para reconstruir nossa história. 
O Baependiano, fevereiro de 1879

Assim em 1879 a cidade de Baependi se organizou  através da Sociedade Carnavalesca baependiana. Algumas dezenas de rapazes percorreram os três dias as ruas da cidade. Com a organização do carnaval os participantes teriam um pequeno cartão, ou crachá, para identificar os foliões mascarados e com isso  evitar os "abusos", isto é, os atos ofensivos sem permanecer na anonimidade, durante o Entrudo.

Em 1880 parece que o carnaval foi mais "civilizado" pois ganhou muitos elogios de Amaro, redator e proprietário do Jornal. Houve a tradicional guerra dos limões. Os foliões e transeuntes eram molhados sem perdão. Barris, potes, bilhas, gamelas e até uma banheira foi usada como reservatório da molhada munição colocada no Largo do Lava-pés, no centro de Baependi. Como choveu copiosamente naquele verão, a água de enxurrada foi também largamente usada. Além de molhado o transeunte era execrado com uma estrondosa vaia. A lista dos "cheiros" dos "limões", isto é, os seus conteúdos eram: pétalas de rosa, mel, azeite, assafedida (devia ser alguma coisa fedorenta) e... aguardente. Eca! Incidentes aconteciam: um que foi obrigado a deitar no tanque de água fria, ameaçou ter congestão (sic), um outro reagiu à ducha involuntária distribuindo tapas a torto e a direito.

Em 1882 o jornal O Baependiano noticia que o Entrudo fora mais "tímido" que o ano anterior, e noticiava " -O carnaval esteve sofrível, esteve mesmo bom, si atendermos aos recursos do logar". Hum... Argumentos contraditórios.

Na segunda feira, percorreu as ruas de Baependi um carro de boi com foliões fantasiados de ministros e o Imperador e distribuíram condecorações. O repórter escrevia: "ficando Baependi quase composto de fidalgos, como o antigo senado romanos". Nota-se uma mulher fantasiada no meio dos foliões, e o jornal descreveu: "No dia seguinte os ministros voltaram à vida privada, e alguns mesmo mudaram de sexo". Foram contadas cento e quarenta mascarados nos três dias dos folguetos. 

Já em 1883 o jornal noticia que o Entrudo e Carnaval foram "amenos" e o consumo de laranjas de cheiro, menor.

No ano de 1884 as comemorações foram "afinadas". O carnaval não estava organizado, mas grupos fantasiados foram vistos pela cidade. A medida mais drástica encontrada para  conter a violência no carnaval, foi o edital publicado pelo delegado de polícia Antonio José de Castilho, não permitindo aos cidadãos se fantasiarem nos dias de carnaval sem primeiro ser "cadastrados" na polícia. Os candidatos a foliões tinham que comparecer à delegacia, recebiam um número com o qual podiam desfilar fantasiados, sob pena de serem presos.

E em 1888, as comemorações carnavalescas não haviam "se desenvolvido", como nota o jornal e apenas mascarados em pequeno número vagavam pela cidade "sem graça e sem gosto". E os baependianos já olhavam em direção a outras localidades onde,  segundo eles, "o que se passa em outras localidades mais adiantadas", desejando que o tal Entrudo fosse substituído pelo "verdadeiro carnaval". Até meados de 1800 havia uma nítida separação entre o Entrudo e o Carnaval, e como se vê, o primeiro era uma comemoração anárquica e o carnaval que os baependianos achavam que era o "verdadeiro", uma festa mais descontraída e mais elitista.

No ano de 1889 parece que o carnaval se animou. Centro e cincoenta participantes exercitaram suas críticas à burocracia. Eram mascarados fantasiados de membros da Assembléia Constituinte e um de juiz municipal, encenando o impedimento da construção de uma casa nas... "Águas Maliciosas", no caso Águas Virtuosas de Caxambu, referindo às contendas políticas entre as duas localidades Baependi e Caxambu. No final o repórter concluiu: "Afugentaram em três dias o tédio da cidade". 
Ainda bem.

O carnaval de Caxambu à moda do Zé Pereira
Carros de bois em "alta velocidade" e a crítica do mau estado das ruas 

Provavelmente o carnaval já devia ter sido comemorado na povoação em anos anteriores, mas a primeira nota sobre o carnaval de Caxambu apareceu no O Baependiano, no ano de 1887. As comemorações foram  "à moda do Zé Pereira". E... quem era esse Zé Pereira?

Em todo o Brasil era costume fazer galhofa dos tipos notórios de cada cidade durante os festejos. Em 1846, um português chamado José Nogueira de Azevedo Paredes introduziu o hábito  de animar as folias ao som sabumbas e de tambores muito grandes, em passeadas pelas ruas, como era feito em Portugal. Os tais bumbos eram denominados Zé Pereiras. E assim Caxambu teve o seu... Zé Pereira.

Quase todos crioulos

No ano de 1887 a sede do jornal O Baependiano tinha sido transferida para a povoação de Caxambu, e assim a redação do jornal recebeu a visita dos foliões. "Em uma das noites de carnaval um grupo de Zé Pereiras percorreu as ruas fazendo uma algazarra infernal, mas cantando um dos participante do grupo com bastante graça: eram todos ou quase todos crioulos, e cá nos fizeram uma visita ensurdecedora. "

E continuou:

"O que tivemos este  ano apenas se pode considerar como ensaio deste divertimento. Houve vários mascarados avulsos e um grupo menos mao; mas quase todos mostram-se noviços ou ainda acanhados, de maneira que pouco temos a mencionar. No último dia houve um diabinho todo vestido de encarnado, com os característicos que a imaginação do povo dá ao espírito mãos, inclusivamente a cauda em cuja extremidade havia um guizo que o mesmo chocalhava, segurando-a, provavelmente para que não lhe acontecesse o mesmo em que dia anterior, em que um garoto lha havia arrancado. 

O mesmo  grupo fez o enterro do carnaval, saindo da casa em pranto, em que de vez em quando de novo prorompiam, e achando-se no préstimo a viuva. Concluziam uma cousa que se assemelhava antes o andor que a esquife.  O rasgo de espírito practicado por esse grupo foi a crítica ao mao estado de nossas ruas, que eles percorreram fingindo fazer alinhamento, entupir buracos. À tarde do ultimo dia sahiram tres bandos em outros tantos carros de bois, velozmente conduzidos pelas ruas. Não traziam mascaras, excepto um que ia no carro dianteiro conduzindo uma bandeira."


E para finalizar, o registro, a Casa Guedes (acima na foto) sendo pano de fundo para as folias carnavalescas, assim descrito: 

"Quando o prestito fronteou a casa comercial do Sr. Costa Guedes, um patusco mandou o préstimo com foguetes, que continuou a soltar, acompanhado-o até enfrente ao hotel do Sr. Ferreira. Taí foi nosso carnaval. Como se vê, os foliões não aproveitaram alguns assuntos de actualidade que havia, como a recente prohibição do engarrafamento d`agua, a questão dos prazos, etc."
Sim, sim eram outros carnavais.

Fonte:
O Baependiano
Wikipedia
Gravura: Debret
Foto:
Arquivo privado da Familia Guedes

domingo, 29 de janeiro de 2017

Histórias da velha Caxambu. Celia Ayres de Lima, a madrinha do TG 63 vai à festa




No dia 25 de agosto de 1945, finalizava a "Excursão político-administrativa" do recém fundado PSD, Partido Social Democrático, organizado pelo Governador de Minas Benedito Valadares Ribeiro, que também foi seu primeiro presidente, e sob os auspícios de Getúlio Vargas. A caravana política percorreu o Sul do Estado e foi finalizada onde? Em Caxambu, claro, a mais bela hidrópolis do Brasil, na época, freqüentada assiduamente por políticos como Juscelino Kubistchek e outras tantas personalidades do cenário político nacional. As festividades foram fechadas com um banquete no Hotel Gloria, em companhia da fina flor da sociedade caxambuense.


Juscelino Kubischek, Benedito Valadares e Getúlio Vargas
Independente do que fervia na política, ninguém podia perder o acontecimento. Todos deram as caras, fazendeiros, comerciantes, industriais. Dentre eles o comerciante de carnes, João Diório, Salin Sarkis, Gino Pertele, marceneiro italiano nosso vizinho, que tinha sua serraria, na antiga Rua Quintino Bocaiúva, Fernando Levenhagen, Edmundo Pereira Dantas, o Padre Castilho Moreira,  José Ferreira Halfeld, o doutor Lisandro Carneiro Guimarães, bem como políticos, prefeitos da região Sul Mineira e o  proprietário do Hotel Glória, Domingos Gonçalves Mello, claro

Ah, as "mais mais" da cidade, também estavam la: Vitória Zamot, Regina Andrade, professora da Escola Padre Correia de Almeida, Lea Carneiro, Adi Menezes, Rosiléia Branco, Ligia Cobra, Laura Guimarães Luz. Dentre os famosos presentes o caxambuense que nunca esqueceu sua terra natal, o ator e cantor Ivon Curi e... Célia Aires de Lima,  (Clique aqui e leia sua biografia completa), filha de José Trançador-filho e Gervásia da Conceição. O seu status de professora a credenciava para participar dos eventos da sociedade caxambuense, ela mesma, a gata borralheira Celia, que com sua inteligência e beleza fazia parar o transito da cidade e que hoje nos ajuda a contar um pouco da história da cidade.

Enfim, o céu estava estrelado naquela noite. Os convivas degustariam o banquete  regado à champanhe,  mas tiveram que ter paciência. A comitiva chegou somente às 23:40 e ainda fizeram seus discursos. E muitas das idéias e promessas são apresentadas em reuniões informais, isto é, nos bastidores, e na ocasião não foi exceção. Dentre as promessas acordadas, e os políticos sempre fazem promessas, a construção do Lago, no Parque das Águas, (soubemos que Emilio Soller trabalhou na sua construção, e aqui haverá demanda de novas pesquisas), que de fato aconteceu, e a construção de "um grande hotel, um edifício de 12 andares, com 260 apartamentos, todos externos, e com ligação subterrânea para o Parque".

O Hotel ficou só na promessa. Não sabemos o que pretendiam os planejadores com essa tal "ligação subterrânea para o parque". Um túnel? O tal hotel denominado Pan-America teve sua construção iniciada mas permaneceu no esqueleto. Depois de muitas décadas as obras foram retomadas e hoje é um prédio que abriga escritórios

Madrinha do Tiro de Guerra 63 

E foi realmente um grande acontecimento essa "Excursão", tanto que ganhou uma grande matéria no Jornal O Patriota. E a bela Celia Aires de Lima a escolhida Madrinha do "Tiro de Guerra  63", comandado pelo 1° Sargento e instrutor Benedicto Cassilhas abrilhantou a festa com  sua presença.

O Tiro de Guerra é uma instituição militar  tem como missão primordial formar reservistas aptos para o emprego em defesa territorial, civil e ações comunitárias. Um acordo firmado entre  as prefeituras e o Comando da Região Militar permite sua organização. O exército fornece os instrutores enquanto a administração municipal disponibiliza as instalações  para o seu funcionamento. A instituição é antiga e sua origem remonta do ano de 1902, com o nome de "linhas de tiro", sendo na época o poeta  Olavo Bilac um dos seus incentivadores. Eles são estruturados para que os convocados possam conciliar instrução militar com trabalho ou estudo, principalmente direcionado a aqueles jovens que residem em cidades do interior, como Caxambu, naquela época. As "madrinhas" eram referencias morais para seus "pupilos" e muitas delas vinham da área de educação, como Célia que era professora. Na verdade sua atuação como "madrinha" era uma extensão de sua profissão como educadora e o conteúdo dos seus discursos a formação de cidadãos conscientes de seus direitos e deveres na sociedade transformando-os no futuro em lideranças para atuar nas comunidades, nos municípios, na política.

Assim Célia  subia nos palanques e discursava! Pensem aquela Marilyn Monroe subindo no palco e cantando para os soldados... Pois a Celia Ayres de Lima podia ser comparada a ela... A beleza subia nos palanques, não para cantar, mas para discursar pela sua pátria. Não com vestidos sensuais, mas com a roupa da década de 40, saias longas, somente delineando a cintura, nada mais. Nada de sensual, não,  não, somente ela com sua beleza e inteligência...

Voltando ao salão...

Cinegrafista Primo Carnonari
A festança varou noite adentro e foi terminar às 3 e tanta da manhã. O evento foi acompanhado da orquestra de música, regido pelo professor Tibúrcio Dias, transmitido ao vivo pela Radio de Caxambu.  E Célia não perdeu o baile. Voltou para casa tarde da noite, contrariando as regras mãe Gervásia, que trazia as filhas literalmente "no cabresto", como era dito antigamente. Mas pelo menos sua mãe acompanhou  parte do evento de sua casa,  até altas horas, no seu radinho de cabeceira, como muitos caxambuenses.

Até hoje sonhamos saudosos com o charme daqueles tempos, independente de quem promovia a festa. E gostaria de saber em quais rolos de filme estão os históricos registros  cinematográficos do evento e da bela Célia em seu vestido de gala, feitos na ocasião pelo jornalista e documentarista Fernando Morelli e o legendário Primo Carbonari (cliquem nome para ver o documentário sobre seu acervo, foto), ah sim gostaria de saber...

Fonte:
Wikipédia
Jornal O Patriota, 1945
Fotos:
Wikipedia
Arquivo privado da Família Ayres

domingo, 22 de janeiro de 2017

A muretinha da Praça 16 de setembro de Caxambu e nossas memórias



E hoje vamos  tentar recapitular em fotos o que foi a Praça 16 de Setembro e como a muretinha que a circundava, ao longo dos anos apareceu e... Desapareceu. Nela, nos anos de 1950, sentou-se Maria das Graças Pereira, e estava feliz da vida pelo visto (foto). Pois 20 anos mais tarde ela viria se sentar la novamente para esperar o seu namorado, Vander Pereira, seu futuro marido.

Vamos aqui ser sinceros, se sentar na muretinha estava longe de ser confortável, pois as pedras de granito eram um tanto irregulares. Quem tivesse "pouca substancia" no traseiro, iria sofrer incomodo se permanecesse longo tempo sentado. Mas... Ela fez companhia a muitas gerações, que antes e depois das seções de cinema, se abundavam la para comer pipoca do seu Dodo, ou para ver o "movimento", principalmente nos sábados e domingos. Mas atenção! Esta muretinha tem história para além de ter sido assento de muitos caxambuenses.  Para tanto pedimos ajuda à Janice Drumond. Mas antes de deixar a Janice contar as suas impressões, vamos fazer um pequeno resgate histórico-fotográfico do lugar.

Assim era a praça 16 de setembro anos de 1920 (foto). O paisagista, o português Chico Cascateiro não somente desenhou seu jardim, mas também deixou sua obra esculpida em argamassa na praça e no Parque das Águas. E ele não estava sozinho. Para embelezar a hidrópolis e seus jardins teve as mãos do também português Ramiro Rodrigues, (?-?)casado com a minha tia avó Maria José Ayres de Lima, a Mariquinha. (1881-1946) Para lembrar, Mariquinha era filha de José Fernandes de Lima, o Trançador-pai, (1835-1897)que emprestou o seu nome ao bairro Trançador de Caxambu.

As obras tiveram o início no ano de 1912, na gestão de Camilo Soares e foram concluídas, em 1928, consumindo 7 anos de trabalho. A cidade ganhou contornos e melhoramentos foram feitos transformando as "Águas Virtuosas" num pequeno pedaço de paraíso.


A pracinha no desenho original era cercada por troncos imitados em argamassa e compunha o conjunto da obra de Chico Cascateiro na cidade. Mas parece que naqueles tempos como hoje, ninguém se preocupou em preservar o belo trabalho do artista. Na década de 1940, os contornos em forma de troncos ja não constavam mais da paisagem da pracinha, até que foi construída a... Muretinha...


Irmas gêmeas


Resgatando os cacos da história, podemos associar a construção da muretinha da praça com história a construção do Hotel Gloria, o "novo". Antes, nas fotos acima, sem a muretinha, por volta dos anos de 1945. Quase na mesma posição o hotel foi fotografado com a muretinha, idêntica à da pracinha. Podemos então dizer que ela foi construída no mesmo período e  afirmamos que elas eram irmãs gêmeas. O pedreiro que executou a obra no hotel deve ter sido o mesmo que fez o contorno da pracinha, na década de 1950.

E a muretinha se foi...

Na gestão do prefeito Isacc Rosental, 2005/2008 foi feita uma reforma na pracinha e a muretinha história foi removida;  lembrando o conjunto da praça estava tombado pelo Patrimônio Histórico, devido as obras de Chico Cascateiro. 

Ah, com vocês:
Janice Drumond a nossa vizinha de frente e suas memórias

Aí você amiga incita: vamos falar de infância, vamos recordar um tempo em que a pracinha de Caxambu tinha muretas. Falar disso é falar de muito mais. Não sei quanto tempo tem que as muretas da pracinha deixaram de existir, mas lembro muito do tempo que existiam.
Bengo sujo, Bengo limpo
Eram muretas de três fileiras sobrepostas e intercaladas , de pedras de granito, paralelepípedos, iguais aos que revestiam as ruas antes de vir o asfalto. Eram pedras retangulares iguais, as da praça e a das ruas, salvo o lustro e desgaste das que faziam o calçamento, de onde, à noite, a gente via foguinho saído do impacto das ferraduras das charretes, e ouvia o clok-clok mais que familiar que ainda ecoa fácil na memória. Já as pedras da mureta, mais preservadas, arranjadas geométrica e harmoniosamente, delimitavam a calçada de ladrilhos hidráulicos decorados... Chiquérrima, circundavam canteiros que faziam jus ao lema “medicina entre flores”.

A pracinha quadrada, cortada perpendicular pelo Bengo, ribeirão sempre discutido – é sujo, é limpo – como ser sujo se vem direto do parque, se vem do lago suprido pelo veio d’água vindo do bosque? Ta certo que depois de correr a cidade, la no final perto da fazenda Santa Terezinha, na pontinha que dá no Matadouro, já está sujo. A gente sabia disso porque tomava bronca sempre que tentava atravessar a pé, nos fundos de quintais, inclusive o da avó juruva. Quanto mais distante do parque mais sujo. 
Footing dos ricos, footing dos pobres
Mas ali na pracinha? Claro que não, só fazia compor os sentidos trazendo o cheiro mineral do parque. Ele dividia a praça em dois triângulos retângulos, enquanto a sociedade dividia a praça em dois meios retângulos. O meio footing dos ricos que ia da ponte do bengo à esquerda da praça, até a ponte do bengo à direita da praça. O meio footing dos pobres ocupava o outro grampo, ou seja, a meia parte dos fundos. Na frente da praça passeavam os importantes. Nos fundos passeavam os que os serviam. Eu sempre vi com bons olhos este vai e vem em meia lua, em que cada um sabia internamente limite e trajetória, e ninguém transgredia. Mas confesso que sempre gostei mais dos fundos da praça, achava mais divertido. Meu pai não gostava, mas a babá me levava.
Carpas no Coreto e matiné no cinema
A praça e as obras do artista que tanta coisa linda fez no parque. As muretas de moldura. Um belo coreto, digno da família Imperial, tinha sim banda que tocava, misturando som dos metais ao do cair da água, na cascata com laguinho. Quando criança ali tinha até carpas, a gente levava miolo de pão pra dar. De frente, um hotel famoso e chic, e ao lado o cinema. Aos domingos, qualquer família normal ia a missa cedo, depois ia ao parque, almoçava e a criançada ia pra matiné. Não dava pra faltar. Antes do filme tinha seriado, e a gente passava a semana curioso pra saber dos próximos 10 minutos no domingo seguinte. Era o Jim das Selvas, Tarzan, Zorro, em doses homeopáticas. Depois vinha o filme, pouco importava qual.
Mini Paris
Cinema de sonhos, paredes cimentadas em areia de malacassita. À meia luz, no ápice pra começar o filme, tudo brilhava ao redor, e o lustre enorme central mandava feixes de luz verde e azul. Lindo de fazer sonhar, de despertar estética em gorila... Às noites de inverno intenso, respeitando as proporções, a frente da praça parecia mini Paris, com as mulheres em seus casacos de pele, trazidos pela Mariazinha do Wallace, dono do único posto de gasolina. Ela trazia roupa chic de segunda mão, diretamente dos Estados Unidos. As senhoras esguias em seus saltos agulha, de braço dado com seus maridos, no footing meia lua, pra la e pra cá, glamour que nunca mais vi.
A Radio Caxambu
Do lado de la da praça, algumas residências, e a rádio, ah a rádio.... Quanta memória dai. E de frente pra radio, as muretas, mesmo formato e proporção, mesma função, mas muitas funções agregadas. Ponto noturno do povão, grupo mais numeroso que o grupo dos importantes, estes sim usavam as muretas pra sentar, fazendo aquela fila colorida de gente nos sábados a tarde, servindo pra ver melhor as externas da radio, onde Jackson do pandeiro e Almira corria solto, ao vivo, em cima do caminhão, com a filha da Ivone pintora no acordeon, o Leônidas alfaiate na bateria e adivinha quem nas maracas? Eu mesma, com meus 4 anos. Leônidas marido da babá Heloísa, tão bom baterista quanto alfaiate, tá certo que bebia um tanto e tinha umas ideias malucas, uma delas a de me treinar pra cantar musicas de letras bem improprias pra idade, fazer ele mesmo a saia de chitão da apresentação e me subir no caminhão, maracas na mão, sem entender nada. Até hoje agradeço a ele o estimulo musical. Eu fazia direitinho o que ele mandava e arrancávamos muitas palmas do publico, agradecimentos da rádio, ainda que o saldo final era sempre muita palmada. Meu pai ficava uma arara.
Azulejos "adapítados" 
A rádio, palco de tanta coisa, as muretas pensadas conjunto a ela. Tem apresentação na frente da rádio? Criança sobe na mureta, se cair é baixa, não machuca, de cima dela da pra ver mesmo com adulto em pé na frente. Na radio tinha o locutor Aristides, irmão da minha babá geralda. Minha mãe arrepiava toda vez que ele fazia propaganda de um certo azulejo. Ele falava em barítono empostado: Compre o azulejo tal.... o que melhor “adapíta” na sua parede. Isso valia sempre uma aula de português correto, minha mãe comentava que a radio não podia permitir isso, o povo ouvindo errado e aprendendo errado. Afinal radio é cultura, dizia ela, e era mesmo o único meio de comunicação além de jornal. Todo mundo mantinha sintonia com a rádio, dali vinha toda novidade, o que estava acontecendo e os avisos do padre. Anunciava a hora do ângelus simultaneamente a Igreja Matriz. 
Malba Thaan, o genial velho chato e a histórica Muretinha
Lembro de uma palestra na rádio, palestrante Malba Thaan. Autofalante propagando o dia todo. Não tinha idade pra saber quem ele era, penso que nem ele sabia que tornaria quem se tornou. Ao publicar sua maior obra, “O Homem que Calculava”, deu uma palestra de matemática na radio, demonstrava curiosidades matemáticas árabes e eu fui com mamãe, não tinha com quem ficar. Achei tão interessante sem entender que fui lá onde ele estava, à frente, e mamãe foi convidada a se retirar porque ele já tinha pedido pra não levar criança. Senti o clima, guardei o genial Malba Thaan como apenas um velho chato. Mais tarde vencendo a resistência pra ler o Homem que calculava, vi no prefacio que toda a obra foi escrita em Caxambu. Sabe onde? Sentado na mureta da praça. E eu tive o prazer histórico, desprazer pra ele, de atrapalhar o lançamento.

Viram? E só porque resolvemos contar a história da muretinha.

Fotos: 
Fotos Antigas de Caxambu
Agradecimentos:
Não sabemos onde por a nossa satisfação e ainda de ter a honra de publicar as memórias de Janice, a vizinha de frente, no Blog da Família Ayres.
Kreuzau, Alemanha

sábado, 21 de janeiro de 2017

A casmurra Samaria, a loura de olhos azuis e sua patroa mulata

Senhora Maria, Samaria assim a chamávamos. Desde que me entendi por gente Samaria já existia trabalhando como serviçal de  minha avó, Gervásia Maria da Conceição/Ayres. Era um ser quase inexistente. Quase. Falava pouco e resmungava de vez enquando. Só se alterava quando as crianças, às 4 horas da tarde, iam espreita-la na porta do seu quarto para “ver a Samaria tomar banho de bacia”, embora a casa tivesse chuveiro com água quente. Ela dormia num quartinho ao lado da casa, sem banheiro e tinha um único baú de couro, onde guardava seus poucos pertences.

Tinha pés grandes sempre calçados  de alpargatas  que nunca esqueci (vide anuncio), cabelos, acredito, outrora louros, trançados  e unidos no alto da cabeça, e uns grandes olhos azuis. Costumava "pitar" cigarro de  fumo de rolo, que cortava fininho e secava no fogão a lenha, enrolado em palha de milho, assim como a minha avó.

Samaria não era casada, não tinha filhos, nem parentes. Ela também esta nas lembranças de Janice Drumond, a vizinha de frente, que na sua infância também frequentava o quintal mágico de vó Gervásia e a conheceu.

Fiquei sabendo em conversas com o meu tio Samuel Ayres que ela foi abandonada pelos parentes na Santa Casa de Caxambu. Então o meu tio Silvio a levou para trabalhar na casa vó Gervásia. Aos domingos à tarde ela saía para o seu costumeiro passeio nos arredores e trazia uma espécie de grama, que crescia no alto do morro do Bairro Santa Rita, que amarrada, formava uma vassourinha e que servia para varrer as cinzas do  fogão à lenha.

Então Sá Maria ficou velha, muito velha. Como não havia outro modo de cuidar ela, meu tio Silvio Ayres de Lima arrasou para que ela tivesse um lugar no Asilo da cidade. Não posso esquecer o quanto seus olhos brilharam ao me ver, quando fui lhe fazer uma visita. Assim um dia recebi a notícia que a Samaria partiu.

Em tempos de Brasil pós escravidão até aquela data, é difícil ainda de acreditar, mas Samaria foi a única empregada branca de olhos azuis que conheci na vida que serviu uma mulata, a minha avó, a vó Gervásia.

sábado, 7 de janeiro de 2017

Bairro Trancador, antigo Pouso dos Tropeiros




"Quando chegam, os tropeiros arrumam as bagagens em ordem e de modo a ocupar o menor lugar possível. Cada tropa acende fogo, á parte, no rancho e faz cozinha própria; antes e depois das refeições, conversam os tropeiros sobre as regiões que percorrem e falam de aventuras amorosas; cantam, tocam violão ou dormem envoltos e cobertas estiradas no chão sobre couros."*

O local onde é hoje o Bairro Trançador da cidade de Caxambu, era local de passagem e também de curta parada dos tropeiros  e vinham de Conceição do Rio Verde e seguiam em direção à Baependi , Cruzília, Aiuruoca, bem ao pé do Morro Caxambu. Era um caminho paralelo à Estrada Real, assim como muitos. As viagens duravam semanas, por vezes vários meses, obrigando-os a fazerem paradas em diversos pontos dos caminhos, montando acampamentos rústicos, conhecidos como "pousos". Eram lugares de pastos e água para o descanso de animais e homens. Os lugares eram ranchos toscos de pau a pique ou taipa. Em muitos pontos dessas paradas se formaram vilas e transformaram em cidades.

No Pouso os animais eram tratados, tinham as ferraduras raspadas, crinas escovadas e depois soltos nos pastos para recompor as energias. E foi ali que seu José Fernandes Ayres, o Trançador velho como o chamavam,  tinha  sua casa e que também funcionava como o seu "atelier", onde fabricava em segredo os seus relhos e cabrestos, selas para montaria. Silvio Ayres de Lima, seu neto, filho de Anna Ayres de Lima, a Lica, conta para Graça Pereira Silveira como era a rotina do lugar...




Fonte:
*Saint Hilaire, Viagem a São Paulo
Entrevista gravada por Graça Pereira Silveira na casa de Silvio, em São José dos Campos, 2016

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Com quem voce se parece?


Pois o primeiro álbum da série de 2017
Todos descendentes de José Ayres de Lima, o Trançador-fillho e Gervásia Maria da Conceição 



1-Angela Lima Araújo, neta de de José Ayres de Lima, o Traçador-filho e Gervásia Maria da Conceição (6 e 7)
2- Edison Rodrigues Ayres, neto de José Ayres de Lima, o Trançador-filho e Gervásia Maria da Conceição
3- Samuel Ayres de Lima, filho de José Ayres de Lima, Trançãdor-filho
4- Célia Ayres de Lima/Araújo, filha de José Ayres de Lima, Trancador-filho e Gervásia Maria da Conceição
5- Gervásia Williamson, bisneta de José Ayres de Lima, Trancador-filho e Gervásia Maria da Conceição
6-Gervásia Maria da Conceição com Gervásia Williamson no colo.
7-José Ayres de Lima, Trançador-filho

domingo, 1 de janeiro de 2017

O Grupo Escolar Padre Correia de Almeida de Caxambu e sua história


Muitos anos depois gerações ainda recordavam com saudade do ensino recebido no Grupo Escolar Padre Correia de Almeida. Sim, sim, educação era coisa que valia ouro, e hoje ainda é a chave para o sucesso de um país. E tudo começa lá, na escola primária, onde as crianças aprendem a decifrar as letras do alfabeto,  juntam as sílabas, formam palavras. Ler... Um mundo. Um universo. Este lugar, este pequeno grande lugar de aprendizagem, o Grupo Escolar Padre Correia da Almeida tem lugar  na memória dos seus ex-alunos espalhados pelo Brasil afora e continua prestando valoroso serviço à cidade: a educação básica.

Tudo começou nos anos de 1920, quando a cidade floria como Estancia Hidromineral, suas ruas eram calçadas, o Parque das Àguas embelezado pelas mãos do paisagista Chico Casteiro e seu jardineiro Ramiro Rodrigues Freitas, preparando a cidade para ser uma das mais charmosas e frequentadas estancias hidrominerais do Brasil.

A construção desta instituição de ensino iniciou, em setembro de 1926, exatamente no ano em que tomou posse o governador de Minas Gerais, Antonio Carlos Ribeiro de Andrade, sendo seu secretario de educação Francisco da Silva Campos. Nascido em Barbacena, e talvez por isso,  resolveu homenagear o seu compatriota,  José Joaquim Correia de Almeida, conhecido como Padre Correia de Almeida,  dando o seu nome à escola que teve sua construção concluída ainda no seu governo.

E agora vocês perguntariam quem foi José Joaquim Correia de Almeida? José Joaquim Correia de Almeida (1820-1905), foto ao alto, nasceu e viveu, em Barbacena e lá exerceu o sacerdócio, magistério e também suas críticas, como escritor satírico. Foi considerado o mais importante cultor da poesia satírica, em Minas Gerais e muito popular no Brasil do século XIX. No conceito literário, sátira é uma composição política jocosa ou indignada contras as instituições, os costumes, as idéias da época.

Em 1848, a conselho médico, estiveram em Caxambu, o padre Joaquim Camillo de Britto, vigário de Barbacena, que viria a ser "um preconizador  d`aquelas águas" e que tinha uma dispepsia antiga. Ele veio em companha do seu amigo padre Correia de Almeida. Na época o parque não era parque, era uma mata fechada, cujo pântano escondia as fontes que hoje conhecemos. Eles tiveram que fazer uma picada na mata e abrir caminho para seus passeios. A cura do seu amigo Camillo de Britto se espalhou e muitas outras figuras "de vulto", como barões e políticos passaram a frequentar o local. Foi um grande divulgador das propriedade das Águas de Caxambu. E da sua visita a sátira:

Por me faltar saúde
Vou ausentar-me daqui: 
Quero gozar a virtude
Das águas de Bapendy;
E hei de fazer um lundú
Às águas de Caxambu

Bem, bem, voltemos às obras. Elas foram concluídas, em abril de 1928, estando na vice presidência   do país Fernando Mello Viana e seu secretário do interior, o banqueiro, advogado e político Dr. Sandoval Soares Azevedo. Sua instalação, ou melhor sua inauguração oficial se deu, em 13 de outubro de 1929 (foto ao alto). Portando as obras tiveram uma duração de um ano e 7 meses. Um recorde  para a época, considerando sua arquitetura e seus painéis de azulejos em suas fachadas laterais.

À nossas mestras com carinho

Sua primeira diretora foi Maria de Lourdes Costa Guedes, neta do comerciante e benfeitor da cidade, José Maria Costa Guedes e suas primeiras professoras: Árgia Castilho Moreira, Georgina Meireles, Adelina Guedes Carvalho, Maria Antonieta Menezes, Guiomar Pannoia Accioly e Julia Magalhães Viotti, esposa de Francisco Viotti, médico da cidade, que depois se tornaria sua segunda diretora.

E aqui, como estamos contando a história da Família Ayres, que tiveram muitos de seus filhos como alunos do Grupo, teremos que meter a Célia Lima Ayres no meio (foto).  Célia formou-se Normalista na Escola Normal Santa Terezinha e trabalhou na instituição, por quase 9 anos. Ela que foi protagonista da disputa da Rainha da Primavera-1946 para arrecadar fundos para a Caixa Escolar e conta as suas memórias. Segundo ela a diretora era muito exigente com as professoras. No tempo que ela lecionou na instituição, trabalhou com a competentíssima Regina Andrade, designada de Belo Horizonte para o cargo de diretora. Célia também citou a convivência com outras grandes educadoras como Nadir Siqueira, Ruth Nogueira, Luiza Machado, bem como as irmãs Meneses, Antonieta e Maria. Um time de primeira com uma tarefa gigante: serem educadoras num país onde a educação era artigo de luxo. 


Descalço também se aprende  

O trabalho das dedicadas professoras consistia não somente ensinar, mas educar  no mais amplo sentido da palavra. Lá se formariam os futuros cidadãs e cidadãos para a vida. Caxambu tinha, em 1939 10.537 habitantes, sendo 4.237 abaixo de 15 anos. Então os poucos que estudavam já poderiam ser considerados privilegiados.

 O Grupo como toda a instituição de ensino da época, era respeitado como um templo, sendo exemplo de limpeza e organização. As professores gozavam de um grande respeito e autoridade, não somente dentro da escola como fora. As classes possuíam de 25 a 30 alunos de todas as cores, e níveis sociais. Muitas crianças chegavam à escola descalças, mas mesmo assim não eram destratadas por não usarem sapatos. Realidade. E Celia  repetia o ditado chinês: Descalço também se aprende, para motivar os pequenos.

Guedes e os Viottis

E aqui não podemos deixar de falar nos benfeitores desta cidade, os Guedes e os Viottis. Por onde li e pesquisei, registrei várias iniciativas dessas duas famílias em prol da cidade, na paróquia, na escola, ou divulgando a cidade como estância  hidromineral.Em 1937 é constituída Caixa Escolar "Dr Policarpio Viotti", que angariava fundos para as atividades escolares, como merenda, material escolar para os alunos mais necessitados. Com o dinheiro arrecadado foi possível  ter o dentista José Felisale Filho, (vide anuncio) "atender a criançada pobre, socorrida pela Caixa escolar".  E como a Caixa sozinha não dava conta de cobrir todas as necessidades da escola, havia as tais quermesses, para arrecadação de dinheiro. Os turistas mais aquinhoados que frequentavam a cidade também contribuíam para a tal Caixa Escolar.  Celia repetia, faltava muita coisa na escola, o que não faltava eram professoras dedicadas. Sim, sim acreditamos em suas palavras.

À mestra sem carinho*
Regina Andrade 

O título não é por acaso, da canção do filme "Ao Mestre com Carinho", de 1966, em homenagem ao professor, estrelado pelo ator negro Sidney Poitier. No caso, Regina Andrade, a diretora,  que não era casada e não tinha familiares na cidade, adoeceu e foi substituída, vindo a falecer. O que contou-se na cidade foi o pequeno número de presentes no seu enterro, inclusive de seus ex-alunos, lembra Celia Lima Ayres com tristeza. Naqueles tempos "enterro concorrido" significava que a pessoa era bem quista. Mas que fazer? E para enterrar definitivamente o nome da dedicada professora, e apagar da memória da cidade e a escola que levava o seu nome e inaugurada pessoalmente pelo ator e cantor Ivon Curi, filho da cidade, tem hoje outro nome e outra finalidade.  E lá se vão nossas memórias...

Pau que nasce torto...


Com todos os esforços de passar valores morais e uma boa educação às crianças, as educadoras nem sempre tiveram sucesso. O jovem J.B. dos S., sabe lá que passado teve, resolveu arrombar a Caixa Escolar do Grupo, logo a caixa que ajudava os alunos mais necessitados. E o Jornal O Patriota, de 1945, fez o julgamento e  assim titulou: Pau que nasce torto.

Mas este não seria o último acontecimento deste género que passaria o Grupo. Na década de 60, quando Almerinda era diretora da escola, um ato de vandalismo aconteceu. A cantina, que funcionada no porão, foi depredada, deixando a pequena  aluna Janice Dumont impressionada. Ela que tinha a mãe Dona Dolores como professora, era orgulhosa de ser aluna do Grupo, não pode conter a indignação de ver a cena. Até hoje.

A fachada e as musas gregas
Quem sabe o nome da quarta?



Os alunos de ontem e hoje são escoltados por 4 musas gregas, filhas de Zeus com Mnamosine, queimados em ladrilhos portugueses, fazendo de suas fachadas laterais uma verdadeira obra de arte. O prédio impõe. Euterpe, Erato, Clio. Elas estão postadas uma em cada das quatro laterais do prédio. Euterte a musa da música. Erato, a musa da poesia romântica e Clio, musa da história e da criatividade. Falta uma! Pois exatamente esta, nos falta o nome. A nossa corresponde Graça Pereira da Silveira, enviou as fotos, mas pela pouca luminosidade do local, não consegui decifrar o nome da última. Se alguém aí em Caxambu souber, pode nos mandar, ou uma foto com o nome legível, que vai entrar para o posto do Blog!

* lundú: Dança de origem africana
Fotos: 
CDM- Centro de Documentacao e Memória da Camara de Caxambu.
Caxambu, fotos antigas, facebook
Solange Ayres, arquivo privado
Graça  Pereira Silveira
Fonte:
Maria Marta Araujo - Com quantos tolos se faz uma republica?
Padre Correia de Almeida e sua sátira ao Brasil oitocentista.
Ferreira, Antonio Mauricio, Revista Fontes da Vida, n° 1. Caxambu. 1957, Pag.02.
Monat, Henrique, Caxambu, 1894
Especiais agradecimentos:
À Janice Drumond, colabora deste blog.
CDM-Centro de Documentação e Memória da Camara de Caxambu, na pessoa de Lilian Auguto, por ter disponibilizado a foto e informações para o nosso Blog.